sexta-feira, 28 de abril de 2017
GREVE EM MACAPÁ.
Alguém gritou a expressão GREVE GERAL em Macapá. Minha gente, tem gente fazendo greve geral em Macapá! Uma dona de casa ligou a TV mais cedo, em Macapá, para saber da greve geral. Um funileiro com sua oficina de fundo de quintal num subúrbio de Macapá ficou preocupado com a greve geral. Um barbeiro de Macapá não fala de outro assunto que não seja greve geral enquanto barbeia seus fregueses. Um sapateiro de Macapá martela o próprio dedo, distraído com o radialista que vocifera contra a greve geral. O desembargador de Macapá tenta isolar do pensamento a expressão greve geral. O policial de Macapá deixa tudo e vai acudir a greve geral. O prefeito de Macapá diz que a greve geral é política. O tribunal de Macapá decreta a greve geral ilegal e parcial e banal. A vendedora de rapadura de Macapá faz uma geleia real para vender durante a greve geral. O taxista de Macapá exulta com a greve geral. A madame de Macapá diz que a greve geral deveria ser num domingo. O dono da quitanda de Macapá vocifera contra esses vagabundos que estão fazendo a greve geral. O sub-prefeito de Macapá obriga os faxineiros a dormir no local de trabalho para furarem a greve geral. O porteiro do edifício de Macapá não para de ver a greve geral passar na rua. A faxineira do oitavo andar de Macapá se sufoca com a fumaça dos pneus queimados por causa da greve geral. O motorista de macapá tem um piripaque por causa da greve geral. O banqueiro do jogo do bicho de Macapá estoura a boca do balão pensando na greve geral. O vovô de Macapá brinca de greve geral com o neto. O velho caduco de Macapá repete mecanicamente a expressão greve geral que ouviu do cachorro. O pequeno empresário de Macapá baba contra a greve geral. A beata de Macapá faz o creoendeuspai três vezes numa velocidade estupenda para se livrar da greve geral que não lhe sai da cabeça. O governador de Macapá trabalha contra a greve geral. O economista de Macapá é contra a greve geral. O analista político de Macapá diz que a greve geral não leva a nada. O farmacêutico de Macapá reclama que ninguém compra seus remédios em dia de greve geral. O fazendeiro, lá no grotão de Macapá, ouve e pensa e analisa e é contra a greve geral. O aposentado de Macapá diz que esse povo da greve geral é tudo vagabundo. Incontornável em Macapá é o fato de que sua dona de casa, lá do final da rua da última quebrada, largou de pensar e agora fala em greve geral. Não entendo direito se contra ou a favor, mas a dona de casa de Macapá, aquela da última casa da última rua da última periferia, extrapolou o próprio lar e danou-se a conversar sobre greve geral com a vizinha.
quinta-feira, 27 de abril de 2017
O JEITO E A GREVE.
Era um funcionário relapso. Vivia chegando atrasado. É que, vira e mexe, o carro dele quebrava, um pneu furava, um ônibus o abalroava... Às vezes faltava. Matava a mãe, matava a sogra, um tio... Muitas vezes saía apressado no meio do expediente, um filho quebrara o pé, uma árvore caíra-lhe sobre a casa... Em pleno horário de trabalho, pendurava-se ao telefone para brigar com o encanador, pesquisar preço de geladeira, encomendar a pizza do jantar... E como ia ao médico! Claro, sempre no horário de trabalho. Médico, dentista, pscólogo, era um cara que cuidava bem da saúde. Dele próprio e de toda a família, até o terceiro grau. Acompanhava sogro, cunhado ao médico. Quebrava o braço umas duas vezes por ano. Justificava tudo com argumentos muito humanos e, ao final do mês, o salário caía integral.
Não era demitido porque seu patrão era uma empresa estatal, entrara por concurso. Os colegas relevavam, havia tolerância. A empresa só demitia quem pisava no tomate de maneira escabrosa. Trabalhasse numa empresa privada e já estaria fora há muito. Porque ele era do tipo de funcionário que precisava comparecer, produzir. Na empresa privada, esse tipo vive debaixo de chicote. Há um outro tipo de funcionário na empresa privada, que apenas consta na folha de pagamento. Sequer sabe o endereço da firma.
Mas, voltemos ao nosso colega. Aproximava-se o dia da nossa greve anual. Durante a negociação salarial, ano sem greve não contava... Nos dias precedentes, agitação, discussão, ameaças, boatos, pavor. Uns eram tão inseguros, tinham tanto medo, que eram melhores dentro do que fora da empresa, durante a greve. Apavoravam tanto no piquete que acabávamos botando-os pra dentro, discretamente...
O primeiro dia da greve é triste. A gente tem de chegar cedo, muito cedo. E tem de ficar falando e respondendo a argumentos infantis o tempo todo. De pé. Sem água. Sem café, sem banheiro. A gente sabe quem vai furar pelo vestuário. Aquele ou aquela colega com roupa impecável, barba feita, marmita, não tem quem segura. Já aquela de calça jeans e tênis vai até pra passeata, ao final do dia.
Enfim, chegou o dia da nossa greve. A vanguarda do movimento estava a postos uma hora antes do horário de entrada. Meia hora depois, faltando, portanto, outra meia hora para o início do expediente, aponta lá na esquina o nosso colega relapso. Barbeado, cheiroso, impecável. Preocupado com o prejuízo da empresa, diligente, trabalhador...
Não era demitido porque seu patrão era uma empresa estatal, entrara por concurso. Os colegas relevavam, havia tolerância. A empresa só demitia quem pisava no tomate de maneira escabrosa. Trabalhasse numa empresa privada e já estaria fora há muito. Porque ele era do tipo de funcionário que precisava comparecer, produzir. Na empresa privada, esse tipo vive debaixo de chicote. Há um outro tipo de funcionário na empresa privada, que apenas consta na folha de pagamento. Sequer sabe o endereço da firma.
Mas, voltemos ao nosso colega. Aproximava-se o dia da nossa greve anual. Durante a negociação salarial, ano sem greve não contava... Nos dias precedentes, agitação, discussão, ameaças, boatos, pavor. Uns eram tão inseguros, tinham tanto medo, que eram melhores dentro do que fora da empresa, durante a greve. Apavoravam tanto no piquete que acabávamos botando-os pra dentro, discretamente...
O primeiro dia da greve é triste. A gente tem de chegar cedo, muito cedo. E tem de ficar falando e respondendo a argumentos infantis o tempo todo. De pé. Sem água. Sem café, sem banheiro. A gente sabe quem vai furar pelo vestuário. Aquele ou aquela colega com roupa impecável, barba feita, marmita, não tem quem segura. Já aquela de calça jeans e tênis vai até pra passeata, ao final do dia.
Enfim, chegou o dia da nossa greve. A vanguarda do movimento estava a postos uma hora antes do horário de entrada. Meia hora depois, faltando, portanto, outra meia hora para o início do expediente, aponta lá na esquina o nosso colega relapso. Barbeado, cheiroso, impecável. Preocupado com o prejuízo da empresa, diligente, trabalhador...
segunda-feira, 24 de abril de 2017
Crônica folgada.
AINDA OS FOLGADOS.
Minha amiga Graça me diz que todo folgado tem má índole. Então, de toda minha família paterna, só meu pai não era sacana. Porque meu pai, realmente, nunca, jamais, pediu a mim-criança, que fosse buscar uma cerveja na geladeira...que fosse buscar o chinelo. Os outros todos, especialmente os homens, tios, avô, era um tal de pedir. Pedir não, mandar. E, da minha parte, um tal de desobedecer. Nunca fui buscar porra nenhuma de cerveja pra tio nenhum, nem pro nono.
Mas, olha o detalhe. Nunca brigaram comigo por causa disso. É claro que, na hora, ficavam brabos, mas nada duradouro, nenhuma ameaça, nada que abalasse a amizade.
Quem nunca curtiu um final de semana num hotel-fazenda, só por causa do lençol cheiroso, do banheiro imaculado, do café-da-manhã? Quer coisa mais saborosa do que jogar a toalha no chão quando achamos que ela deva ser lavada? A prova de que estávamos nesse hotel somente por causa dessas mordomias básicas e urbanas é que, embora ele estivesse rodeado de cavalos, pedalinhos, trilhas, nós não saímos da sua área calçada, durante os dois dias.
Quem nunca ficou o dia inteiro só comendo, dormindo e tomando banho, dentro de um hotel do tipo pensão completa, localizado no centro de uma cidade interessante?
Quem nunca fez alguma pequena que seja trapaça para ganhar mais dinheiro e poder comprar mais... mordomias?
Quem nunca teve um pesadelo com um mordomo próprio? Sim, quem nunca sonhou em ter à disposição uma governanta?
Quem nunca contratou uma faxineira? (pô, isso é jogo sujo. E baixo!).
Querida Graça, a folga é como o pecado. Está em toda parte, a nos tentar. Ser folgado é o estado latente de todo ser. A maioria de nós precisa de um deus para se mexer, para lavar o próprio prato. Agora, terrível é quando um sujeito de má índole encontra um deus que o torna diligente. Então temos um nazista.
Minha amiga Graça me diz que todo folgado tem má índole. Então, de toda minha família paterna, só meu pai não era sacana. Porque meu pai, realmente, nunca, jamais, pediu a mim-criança, que fosse buscar uma cerveja na geladeira...que fosse buscar o chinelo. Os outros todos, especialmente os homens, tios, avô, era um tal de pedir. Pedir não, mandar. E, da minha parte, um tal de desobedecer. Nunca fui buscar porra nenhuma de cerveja pra tio nenhum, nem pro nono.
Mas, olha o detalhe. Nunca brigaram comigo por causa disso. É claro que, na hora, ficavam brabos, mas nada duradouro, nenhuma ameaça, nada que abalasse a amizade.
Quem nunca curtiu um final de semana num hotel-fazenda, só por causa do lençol cheiroso, do banheiro imaculado, do café-da-manhã? Quer coisa mais saborosa do que jogar a toalha no chão quando achamos que ela deva ser lavada? A prova de que estávamos nesse hotel somente por causa dessas mordomias básicas e urbanas é que, embora ele estivesse rodeado de cavalos, pedalinhos, trilhas, nós não saímos da sua área calçada, durante os dois dias.
Quem nunca ficou o dia inteiro só comendo, dormindo e tomando banho, dentro de um hotel do tipo pensão completa, localizado no centro de uma cidade interessante?
Quem nunca fez alguma pequena que seja trapaça para ganhar mais dinheiro e poder comprar mais... mordomias?
Quem nunca teve um pesadelo com um mordomo próprio? Sim, quem nunca sonhou em ter à disposição uma governanta?
Quem nunca contratou uma faxineira? (pô, isso é jogo sujo. E baixo!).
Querida Graça, a folga é como o pecado. Está em toda parte, a nos tentar. Ser folgado é o estado latente de todo ser. A maioria de nós precisa de um deus para se mexer, para lavar o próprio prato. Agora, terrível é quando um sujeito de má índole encontra um deus que o torna diligente. Então temos um nazista.
domingo, 23 de abril de 2017
O CARA MAIS FOLGADO DA MPB.
Garçom! Chega aí, amizade. Tudo bem? Me traga aí uma média pra rebatê a friage... mas não daquela velha e misturada do tambor... esquenta o leite, bota café de máquina tirado na hora... sim, e na xícara... rápido, tá! No capricho, faz favor...
E também um pão bem quente com bastante manteiga, pão de hoje, hem! Não gosto de pão amanhecido... dá uma tostada na chapa antes, unte depois. E fica esperto: nem pense em margarina, pelamordedeus!
Traga ainda um guardanapo de pano pra limpar os beiços — não me venha com guardanapo de papel — e um copo d'água gelada tirada do pote de barro.
Outra coisa: fecha aquela porta ali da direita, devagar pra não fazer vento nem barulho. Tô sabeno que daqui a pouco o sol desponta e não estou disposto a enfrentar seus raios, meus olhos sofrem, minha pele crespa...
Aproveita pra perguntar àquele ali com jeito de barão amanhecido e o jornal na cara qual foi o resultado de Palmeiras e Ponte Preta, qual dos dois foi pra final.
Peraí, ô meu! Deixa essa mesa aí assim mesmo, porra! Que mania essa de ficar limpando tudo a toda hora. Quando eu sair e estiver bem longe, você limpa à vontade. Olha que eu levanto agora mesmo e vou embora sem destinar a despesa.
Opa!. Traga pra mim uma caneta — pode ser bic ou similar — e um guardanapo de papel — esse sim—, que é pra anotar uma frase pro feicibuque que lembrei agora. Rápido, antes que eu esqueça.
Sim! agora tô precisando de uma escova de dentes. Nova, é claro. Na caixinha lacrada. E um estojinho de fio dental. Daquele fino e encerado, faz favor. Não precisa creme, não uso.
E liga esse ventilador pra espantar esses mosquitos da dengue e essas muriçocas. Peça ao seu chefe seu smartphone emprestado, que é para eu consultar as redes sociais e dar uma olhada nos meus blogs favoritos.
Xiiii!, olha o tempo, vai chover. Grita lá pro Osorião que me traga o guarda-chuva. E avisa seu chefe que se essa Wi-Fi não melhorar, mudo meu escritório p'ra outro lugar.
Bom, cara. Final do expediente. Tô chegando... Sim — cá entre nós —, não dá pr'ocê descolá um bilhete único pra eu chegar em casa não? Meu dinheiro bateu e voltou todo no juro do cartão, tô liso. Diga ao gerente que pendure a despesa para as calendas virtuais e gregas.. Faz favor.
A bênção, Noel.
E também um pão bem quente com bastante manteiga, pão de hoje, hem! Não gosto de pão amanhecido... dá uma tostada na chapa antes, unte depois. E fica esperto: nem pense em margarina, pelamordedeus!
Traga ainda um guardanapo de pano pra limpar os beiços — não me venha com guardanapo de papel — e um copo d'água gelada tirada do pote de barro.
Outra coisa: fecha aquela porta ali da direita, devagar pra não fazer vento nem barulho. Tô sabeno que daqui a pouco o sol desponta e não estou disposto a enfrentar seus raios, meus olhos sofrem, minha pele crespa...
Aproveita pra perguntar àquele ali com jeito de barão amanhecido e o jornal na cara qual foi o resultado de Palmeiras e Ponte Preta, qual dos dois foi pra final.
Peraí, ô meu! Deixa essa mesa aí assim mesmo, porra! Que mania essa de ficar limpando tudo a toda hora. Quando eu sair e estiver bem longe, você limpa à vontade. Olha que eu levanto agora mesmo e vou embora sem destinar a despesa.
Opa!. Traga pra mim uma caneta — pode ser bic ou similar — e um guardanapo de papel — esse sim—, que é pra anotar uma frase pro feicibuque que lembrei agora. Rápido, antes que eu esqueça.
Sim! agora tô precisando de uma escova de dentes. Nova, é claro. Na caixinha lacrada. E um estojinho de fio dental. Daquele fino e encerado, faz favor. Não precisa creme, não uso.
E liga esse ventilador pra espantar esses mosquitos da dengue e essas muriçocas. Peça ao seu chefe seu smartphone emprestado, que é para eu consultar as redes sociais e dar uma olhada nos meus blogs favoritos.
Xiiii!, olha o tempo, vai chover. Grita lá pro Osorião que me traga o guarda-chuva. E avisa seu chefe que se essa Wi-Fi não melhorar, mudo meu escritório p'ra outro lugar.
Bom, cara. Final do expediente. Tô chegando... Sim — cá entre nós —, não dá pr'ocê descolá um bilhete único pra eu chegar em casa não? Meu dinheiro bateu e voltou todo no juro do cartão, tô liso. Diga ao gerente que pendure a despesa para as calendas virtuais e gregas.. Faz favor.
A bênção, Noel.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
DE(DO) DELAÇÕES & FUXICOS
Delação é uma das expressões da traição.
Toda delação é premiada. Delação não premiada é fuxico. Delação é um fuxico interclasses.
Delação só existe em sistemas muito desiguais e autoritários.
Fuxico há em toda parte, até entre os animais. Sendo que as galinhas devem ser as mais fuxiqueiras do mundo animal: já perceberam como elas andam sempre em bando e a cacarejar?
(Sendo que sistema muito desigual e autoritário é uma redundância: desigualdade e autoritarismo sempre andam juntos.).
Fuxico é quando um compadre déda o outro, uma comadre a outra, povo da mesma laia, tudo igual e misturado, gente boa e entediada da vida, sem esperar nada em troca, incapaz de ficar calada.
(Déda do verbo dedar, dedodurar, durodedar, caguetar; caguetar do substantivo Cagueta; é, cagueta é um ser, não uma qualidade; no dicionário, comparece como Alcagueta; "Al" de Al Capone, suponho).
Grandes & Pequenas traições, o Brasil pode ser um país de fuxiqueiros.
Mas — Tiradentes versos Joaquim Silvério —, o Brasil não gosta dos grandes traidores.
A História está aí mostrando o traído, o delatado, como herói.
Entretanto — D. Pedro, antes que outro o faça —, o Brasil é um país de oportunistas que gostam de levar vantagem, outro pleonasmo.
Porém — Gerson no ostracismo —, no atacado o brasileiro não gosta de gente que quer levar vantagem: o Brasil não é um país de traidores.
Pero que los hay, los hay.
Num tava maucheirando que o nosso mordomo de Tietê ia trair, com aquela cara de vice? Num tava na cara que apenas esperava uma pequena oportunidade para engrandecer seus corriqueiros fuxicos?
Fuxiqueiro interclasse? Duro-dedar, vim a conhecer o conceito aos 15 anos, quando entrei no colégio interno.
Minto. Minha irmã já me havia dedado pro meu pai, muito antes, por ocasião de um sabugo mal arremessado em sua têmpora.
Aos quinze, o conceito veio a me ser denominado. Quer dizer, não sei se um esgoelar escandaloso para chamar a atenção do pai pode ser comparado a uma delação propriamente dita.
Também tenho dúvidas se continua sendo delação quando a traidora não recebe nada em troca.
Então, acho que isso da irmã mais nova contar pro pai a safadeza do irmão mais velho pode ser um único exemplo de fuxico interclasses que é só fuxico. E do bem.
Porque fuxico pode ser do bem, delação jamais.
Colégio interno, penitenciária, Exército, não há universos desiguais e autoritários — pleonasmos recorrentes —, que não tenham ao menos um dedo-duro em suas categorias de base.
Entendido que a grande empresa privada nacional é também um desses universos. (empresa privada autoritária, outra redundância).
A carne é fraca e entre os subalternos sempre há algum dedo-leve a querer levar vantagem sobre seus iguais, eis que a delação é uma das expressões do oportunista.
Quanto mais abaixo do desigual está a vida, maior a tentação.
Só que, em geral, não é o zé lá do fim da fila que trai. O delator contumaz pode estar em qualquer patamar, em sua gradual e sorrateira ascensão.
Tudo depende das espigas sacudidas em frente ao focinho.
Enfim, o delator é um ser inevitável, mas insignificante, na quantidade e no conceito.
Os mundos giram normalmente na presença desse ser antissocial, mantido sob controle e desprestigiado.
Entretanto, quando os delatores são celebrados como heróis e protegidos pela lei, num tem tatu que aguenta. Talvez não provoque tanto estrago na Escandinávia calvinista...
Toda delação é premiada. Delação não premiada é fuxico. Delação é um fuxico interclasses.
Delação só existe em sistemas muito desiguais e autoritários.
Fuxico há em toda parte, até entre os animais. Sendo que as galinhas devem ser as mais fuxiqueiras do mundo animal: já perceberam como elas andam sempre em bando e a cacarejar?
(Sendo que sistema muito desigual e autoritário é uma redundância: desigualdade e autoritarismo sempre andam juntos.).
Fuxico é quando um compadre déda o outro, uma comadre a outra, povo da mesma laia, tudo igual e misturado, gente boa e entediada da vida, sem esperar nada em troca, incapaz de ficar calada.
(Déda do verbo dedar, dedodurar, durodedar, caguetar; caguetar do substantivo Cagueta; é, cagueta é um ser, não uma qualidade; no dicionário, comparece como Alcagueta; "Al" de Al Capone, suponho).
Grandes & Pequenas traições, o Brasil pode ser um país de fuxiqueiros.
Mas — Tiradentes versos Joaquim Silvério —, o Brasil não gosta dos grandes traidores.
A História está aí mostrando o traído, o delatado, como herói.
Entretanto — D. Pedro, antes que outro o faça —, o Brasil é um país de oportunistas que gostam de levar vantagem, outro pleonasmo.
Porém — Gerson no ostracismo —, no atacado o brasileiro não gosta de gente que quer levar vantagem: o Brasil não é um país de traidores.
Pero que los hay, los hay.
Num tava maucheirando que o nosso mordomo de Tietê ia trair, com aquela cara de vice? Num tava na cara que apenas esperava uma pequena oportunidade para engrandecer seus corriqueiros fuxicos?
Fuxiqueiro interclasse? Duro-dedar, vim a conhecer o conceito aos 15 anos, quando entrei no colégio interno.
Minto. Minha irmã já me havia dedado pro meu pai, muito antes, por ocasião de um sabugo mal arremessado em sua têmpora.
Aos quinze, o conceito veio a me ser denominado. Quer dizer, não sei se um esgoelar escandaloso para chamar a atenção do pai pode ser comparado a uma delação propriamente dita.
Também tenho dúvidas se continua sendo delação quando a traidora não recebe nada em troca.
Então, acho que isso da irmã mais nova contar pro pai a safadeza do irmão mais velho pode ser um único exemplo de fuxico interclasses que é só fuxico. E do bem.
Porque fuxico pode ser do bem, delação jamais.
Colégio interno, penitenciária, Exército, não há universos desiguais e autoritários — pleonasmos recorrentes —, que não tenham ao menos um dedo-duro em suas categorias de base.
Entendido que a grande empresa privada nacional é também um desses universos. (empresa privada autoritária, outra redundância).
A carne é fraca e entre os subalternos sempre há algum dedo-leve a querer levar vantagem sobre seus iguais, eis que a delação é uma das expressões do oportunista.
Quanto mais abaixo do desigual está a vida, maior a tentação.
Só que, em geral, não é o zé lá do fim da fila que trai. O delator contumaz pode estar em qualquer patamar, em sua gradual e sorrateira ascensão.
Tudo depende das espigas sacudidas em frente ao focinho.
Enfim, o delator é um ser inevitável, mas insignificante, na quantidade e no conceito.
Os mundos giram normalmente na presença desse ser antissocial, mantido sob controle e desprestigiado.
Entretanto, quando os delatores são celebrados como heróis e protegidos pela lei, num tem tatu que aguenta. Talvez não provoque tanto estrago na Escandinávia calvinista...
sexta-feira, 14 de abril de 2017
O DELATOR
Aos 15 anos fui estudar num colégio interno. Na primeira semana de internato, o veterano Brinjela me contou que o veterano Grapete dedava. Apelidos fictícios... Eu fiquei boiando: Grapete punha o dedo em algo? Porque dedava só podia ser uma derivada de dedo. Não, dedava e ponto. Era dedo-duro. Peraí. Era ou tinha o dedo duro? Tinha problema no dedo? Não, coió! É um cagueta. Xiiii! Piorô. Quê que é cagueta? Cagueta, coió! Dedo-duro. Leva-e-trás.
Ôpa! Então fiquei de orêia em pé. Como burro, que de burro não tem nada, quando percebe algo importante, levanta a orêia.
Ele déda, rapaiz. Cuidado. E saiu andando, sem mais detalhes, me deixando cabrêro com aqueles verbos e adjetivos intransitivos. Com aquelas frases descomplementadas.
Mas o Grapete era doente. Aguentou os três anos no maior isolamento, debaixo do nosso impiedoso desprezo. Como é que ele sabia certas coisas da nossa parte, se a gente mudava de assunto com sua aproximação? Fatos esses que ele logo batia na orêia da Mirinda, chefe da secretaria. Que contava ao diretor na hora do almoço.
É que — descobrimos tarde — havia eventuais sub-delatores. Eternos coiós que delatavam ao delator. Ainda bem que todos esses eternos coiós sub-delatores foram beneficiados com a troca da prova de Matemática do professor Juneca, que a nossa turma perpetrou no quarto bimestre do segundo ano. A secretaria não tinha forro, os armários não tinham chave, entramos por cima, colocamos uma prova bem feita no lugar da desastrada... Até hoje!
Conseguimos preservar o Sistema. Todo mundo concluiu o curso, sobreviveram, hoje sexagenários, cada um mais honrado que o outro. Ainda bem que conseguimos neutralizar o Grapete, coitado, um delator não premiado.
Ôpa! Então fiquei de orêia em pé. Como burro, que de burro não tem nada, quando percebe algo importante, levanta a orêia.
Ele déda, rapaiz. Cuidado. E saiu andando, sem mais detalhes, me deixando cabrêro com aqueles verbos e adjetivos intransitivos. Com aquelas frases descomplementadas.
Mas o Grapete era doente. Aguentou os três anos no maior isolamento, debaixo do nosso impiedoso desprezo. Como é que ele sabia certas coisas da nossa parte, se a gente mudava de assunto com sua aproximação? Fatos esses que ele logo batia na orêia da Mirinda, chefe da secretaria. Que contava ao diretor na hora do almoço.
É que — descobrimos tarde — havia eventuais sub-delatores. Eternos coiós que delatavam ao delator. Ainda bem que todos esses eternos coiós sub-delatores foram beneficiados com a troca da prova de Matemática do professor Juneca, que a nossa turma perpetrou no quarto bimestre do segundo ano. A secretaria não tinha forro, os armários não tinham chave, entramos por cima, colocamos uma prova bem feita no lugar da desastrada... Até hoje!
Conseguimos preservar o Sistema. Todo mundo concluiu o curso, sobreviveram, hoje sexagenários, cada um mais honrado que o outro. Ainda bem que conseguimos neutralizar o Grapete, coitado, um delator não premiado.
sábado, 8 de abril de 2017
QUEIJOS.
Queijo lembra vinho, que lembra pão: que lembra padre, que me lembra banana. Pão e banana significa comida barata e eu, cá comigo, sei que é comida de maratonista, que pratico. Queijo lembra minha nona Ida e vinho também, desde que quase morri com um de casca de jabuticaba que ela fez. Combinações mortais me lembram doce-de-leite... Leite lembra curral e café. Leite-com-café no curral lembram minha avó Iolanda, diáfana no caminho entre a casa de barro e o cercado dos animais.
Entre pão e banana, queijo e vinho, só posso prescindir deste último. Meus antepassados tomaram tanto que enjoei (os vênetos pobres tomavam diariamente um assemelhado de uva que eles mesmos fabricavam). Não sei nada de vinho, tenho o maior espanto pelos comentaristas de vinho, oh! como eu seria grã-fino se me matriculasse num curso de vinhos...
Minha nona fazia queijos.
Às vezes, nas butiques, paro pra ver – e cheirar – os queijos. Tem um queijo estragado – mas saudavelmente embalado – que custa caro pra caramba. Todo fungado – embolorado. Embolorado, de bolor, uma palavra que me soa elegante. Eu poderia pesquisar agora no google e saber nomes e técnicas de queijos e escrever uma crônica digna da precisão léxica de Euclides da Cunha e passar por grande erudito da arte de fabricar queijos... O fato é que não sei nada de queijos, ou melhor, sei tudo apenas do queijo da minha avó, que nem nome tinha, daí minha orfandade referencial – quesito fundamental de toda erudição.
O meu queijo é a síntese do que almejo: é simples, exato e gostoso. O meu queijo tem leite, coalho e um salzinho pra dar sabor. O meu queijo não tem selo, tem sustança. É honesto.
O meu queijo é branco e vai ficando amarelado com o tempo. É muito tenro quando novo e vai endurecendo e encolhendo e ganhando poros – os furos suiços – com o tempo. Não é padronizado, depende da estação e do teor de gordura do leite, que varia conforme o pasto. Não precisa ser conservado em geladeira. O meu queijo é um digno representante da cultura caipira. E, da mesma forma que registraram as palavras Cachaça e Champagne e Cognac e Parmigiano Reggiano, eu sugiro o controle de Caipira, pra evitar usurpação.
Algumas gotas de um produto industrial chamado coalho coagulam o leite, separando o sólido do soro. Esse sólido é colocado numa forma e, em dois dias, vira queijo. Vá fazer e você dará com os burros n’água. Tem as manhas. E as madrugadas. Tem séculos de apuro. Tem muito chão e muitos dias. Tem humildade.
terça-feira, 4 de abril de 2017
NUNCA FUI ASSALTADO.
Não sei porque inventei de descer na República e ir andando até a Sé. Era o fim de um sábado solitário, voltava pra casa, larguei o metrô e fui andando. Iria até a Praça da Sé, mas, claro, não pegaria o trem novamente só por duas estações. Acabaria de chegar a pé, evidente. A Barão de Itapetininga, o Viaduto do Chá, a rua Direita já não apresentam nada novo pra mim. Inventei, desci, fui. Ao contrário, o pedaço me dá um certo desgosto. Cheguei nos anos 1970, creio que não muito depois de seu apogeu econômico e cultural. Ali na região da Sé ainda existia a Praça Clóvis do Vanzolini, o Edifício Mendes Caldeira que, no mesmo ano, foi implodido espetacularmente para a construção da estação. As Lojas Americanas enfrentavam as Lojas Brasileiras ali na Rua Direita e ainda mantinham parte do dinamismo e novidades que encantaram minha mãe em 1954. Guardando o viaduto do Chá ainda havia o Banco do Estado de São Paulo(antes do Banespa), de um lado, e a Light, do outro. O Mappin, em frente ao Teatro, no começo da Barão, ainda era loja de gente de classe média pra cima. Em todo o trecho passava carro, não havia nenhum calçadão. Não tenho certeza se crianças ainda estudavam no Caetano de Campos ali no meio da Praça da República.
Eu poderia ter ido por baixo, vendo o mundo no celular. Mas fui por cima. Acho que por saudosismo. Frequentei muito cinema ali naquela região além-Anhangabaú, que então se chamava Centro Novo. A São João ainda era rua (e não avenida) e era a mesma que fora atravessada pela Iracema do Adoniran. A esquina com a Ipiranga ainda era a mesma do Caetano, havia dois enormes e luxuosos cinemas ali perto. Dava pra sentir o cheiro da Boca do Lixo e ecos das tragédias que inspiraram Ronda, do biólogo Paulo Vanzolini. Mulheres distantes e peladas se exibiam num cinema na Rua Aurora.
Na época, havia os trombadinhas. Fui avisado deles ainda no trem da FEPASA. Eram perigosíssimos, segundo o noticiário do rádio e da TV. Porém só atacavam — ou melhor, só trombavam — velhos e pessoas debilitadas. E eu não era nem uma coisa nem outra, então, nos meus 18 anos, de modo que os ignorei e, como o esperado, fui ignorado por eles.
Mas o tempo passa, como dizia Fiori Giglioti, narrador de futebol no rádio. Meus cabelos restantes branquearam. E era assim, careca e sexagenário, que resolvi atravessar por cima, novamente, aquele mundo familiar. Eu poderia ter continuado, descido na Sé, tomado a outra linha. Era um sábado morto, o sol já tinha se posto, fazia o lusco-fusco em que todos os gatos são pardos. A Rua Direita é estreita. Todas as portas já estavam abaixadas. Gatos pingados caminhavam aqui e acolá, encaracolados em sí próprio, todos apressados, de cabeça baixa.
E o que fazia aquele alemão magrelo ali, folgado, olhando a paisagem? Olhando por cima, pra frente, sem pressa, só, desarmado? Os dois jovens despontaram na Quintino Bocaiúva ao meu encontro. Fazia calor mas estavam de jaqueta. E eram pretos. E pobres. E carentes. Um homem de 60 anos, 42 deles submerso no caldo noticioso e preconceituoso da megalópole, sabe ler os sinais da malandragem central, pobres diabos que sobrevivem na besta ignorância da violência primária de tomar à força migalhas de seus iguais.
De fato, vieram em minha direção. Eu no meio da rua no meio do redemoinho. Eles, de lá pra cá, igualmente. Da minha parte, nenhuma mudança: na direção, no olhar, na velocidade. Dos batimentos cardíacos, não me lembro. A hora era propícia, a iluminação da prefeitura está lamentável. Era um alemão velho, mas "in gamba", como dizem os italianos. De tênis, na ponta dos cascos, barbudo, destemido. Destemido no sentido de aparentar não ter notado o perigo. Encarando a dupla transeunte com naturalidade, como iguais. Fingido, bom ator, olhos mansos. Passaram reto, passei reto. Não. Não fui assaltado. Nunca fui assaltado.
Eu poderia ter ido por baixo, vendo o mundo no celular. Mas fui por cima. Acho que por saudosismo. Frequentei muito cinema ali naquela região além-Anhangabaú, que então se chamava Centro Novo. A São João ainda era rua (e não avenida) e era a mesma que fora atravessada pela Iracema do Adoniran. A esquina com a Ipiranga ainda era a mesma do Caetano, havia dois enormes e luxuosos cinemas ali perto. Dava pra sentir o cheiro da Boca do Lixo e ecos das tragédias que inspiraram Ronda, do biólogo Paulo Vanzolini. Mulheres distantes e peladas se exibiam num cinema na Rua Aurora.
Na época, havia os trombadinhas. Fui avisado deles ainda no trem da FEPASA. Eram perigosíssimos, segundo o noticiário do rádio e da TV. Porém só atacavam — ou melhor, só trombavam — velhos e pessoas debilitadas. E eu não era nem uma coisa nem outra, então, nos meus 18 anos, de modo que os ignorei e, como o esperado, fui ignorado por eles.
Mas o tempo passa, como dizia Fiori Giglioti, narrador de futebol no rádio. Meus cabelos restantes branquearam. E era assim, careca e sexagenário, que resolvi atravessar por cima, novamente, aquele mundo familiar. Eu poderia ter continuado, descido na Sé, tomado a outra linha. Era um sábado morto, o sol já tinha se posto, fazia o lusco-fusco em que todos os gatos são pardos. A Rua Direita é estreita. Todas as portas já estavam abaixadas. Gatos pingados caminhavam aqui e acolá, encaracolados em sí próprio, todos apressados, de cabeça baixa.
E o que fazia aquele alemão magrelo ali, folgado, olhando a paisagem? Olhando por cima, pra frente, sem pressa, só, desarmado? Os dois jovens despontaram na Quintino Bocaiúva ao meu encontro. Fazia calor mas estavam de jaqueta. E eram pretos. E pobres. E carentes. Um homem de 60 anos, 42 deles submerso no caldo noticioso e preconceituoso da megalópole, sabe ler os sinais da malandragem central, pobres diabos que sobrevivem na besta ignorância da violência primária de tomar à força migalhas de seus iguais.
De fato, vieram em minha direção. Eu no meio da rua no meio do redemoinho. Eles, de lá pra cá, igualmente. Da minha parte, nenhuma mudança: na direção, no olhar, na velocidade. Dos batimentos cardíacos, não me lembro. A hora era propícia, a iluminação da prefeitura está lamentável. Era um alemão velho, mas "in gamba", como dizem os italianos. De tênis, na ponta dos cascos, barbudo, destemido. Destemido no sentido de aparentar não ter notado o perigo. Encarando a dupla transeunte com naturalidade, como iguais. Fingido, bom ator, olhos mansos. Passaram reto, passei reto. Não. Não fui assaltado. Nunca fui assaltado.
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