domingo, 30 de julho de 2017

QUEM TOLERA ISSO?

Ainda bem que o tampo era de granito, podia quicar com o garfo à vontade que não estragava, o garfo como se fora o tridente, ela como a diaba, as formiguinhas as danadas. A estrutura da mesa era de madeira, mas o tampo era de granito, pedra dura, indestrutível às manias da mulher, que sempre que acabava de comer ficava caçando as formiguinhas inacabáveis que surgiam não sei de onde, quicando o tetradente sobre as pecadoras, pegasse, pegasse, coisa sádica, as pobres formiguinhas inconscientes do terrível monstro e sua ferramenta metálica que vinha do céu, quer dizer, de cima, guiada pelos olhos atentos da mulher, que ficava naquele toc toc quase automático, enquanto conversava com o marido sobre a mostra do MASP, a última do prefeito, a nova canção do Chico disponível no Youtube… nisso, João, o marido, desafinou completamente do assunto pedindo ríspido para ela parar com aquela batucada na mesa, que ninguém aguentava aquilo, que enchia o saco, que era insuportável…
Maria não só parou, como gelou. É, gelou, sabe aquela onda, acho que elétrica, que percorre nosso corpo quando entramos debaixo de uma ducha de água fria? Só que lenta, imperceptível, por isso mais letal, porque completa todo o circuito dando tempo ao cérebro de acompanhar as alterações, até fechar, na boca do estômago, sob a forma de um esmagamento interno. Aquela onda que esfria e, em seguida, esquenta, fazendo o sangue afluir à superfície daquilo que temos de mais escancarado, que são as nossas faces, mas não somente as faces e sim toda a cabeça, os vasos todos, os mais recônditos dos mais insignificantes escaninhos do cérebro, um fenômeno tão brusco e tão intenso que, vira e mexe, explode e derrama e desarruma a vida do vivente.
Mas Maria não explodiu não, quer dizer, seus vasos, sua aorta, seu miocárdio aguentaram o tranco. Mas sua paciência danou-se: puta-que-pariu, João, como você é fraco! Que saco minúsculo que você tem! Já tô cansada da quantidade de minúsculas coisas e fatos que você não aguenta. Caralho, nunca vi um saco tão raso quanto o seu, que se enche tão rápido de coisas pequenas. Porra! A gente tava conversando numa boa, elevados assuntos, de repente você corta, impossível retomar, cê não percebe? Isso é broxante, meu! Você já se deu conta das inúmeras vezes que faz isso comigo? É o jeito que estendo a toalha, o pentelho que deixo no sabonete, a janela que deixo semiaberta, um pronome esquecido, uma opinião que atravesso, uma torneira pingando… sempre em meio a uma conversa decente, até no meio da trepada você desafina com algum conceito intransigente, ainda bem que sou mulher, porque se fosse homem o pau amolecia na hora, coisa rapidíssima, já disse, é broxante, broxante para a alma…
Ora, você quer que eu engula, retrucou o João, quer que eu aguente calado esses seus pequenos gestos deselegantes? É feio batucar a mesa após as refeições, estou te fazendo um favor, te ajudando a educar-se, refinar-se… e você sabe que não faço por mal, é o meu jeito, tem coisa que não suporto, falo…
Fala e me esfria, responde Maria. Não, me gela. Não suporta, não tolera, não aguenta… Quando a gente não suporta, não tolera, a gente reclama mesmo, explode, senão não seria insuportável, intolerável. Intolerável é o que nos faz deixar de tolerar. O que acontece — continuou a Maria, terrivelmente calma — é que você deixa de tolerar minhas muitas e ínfimas idiossincrasias, pequenas manias que todos temos. Se você não aguenta permanecer calado diante de algum gesto meu que te desagrade, tem de se manifestar mesmo, denunciar. Até aí tudo bem. O problema é o seu nível de tolerância, cara, que pode ser alto pra sua mãe, mas é baixo demais pra mim. Sendo que já tenho 40 anos e mais nenhuma vontade de corrigir esses pequenos defeitos.
Você é intolerante demais, meu! E eu também já tô de sacola cheia. Acho que já adquiri o direito de te mandar à puta que te pariu, assim  a gente se entende.

sábado, 22 de julho de 2017

DA ARROGÂNCIA.

A arrogância é um subproduto da autoestima. A autoestima é o sal da terra: ninguém vive por muito tempo sem autoestima. A vida boa consiste em gostar de si próprio. Você é feliz quando você gosta de você. Então, é difícil escapar desse subproduto, porque todo mundo se gosta. Da mesma forma que o narcisista, a paisagem que o arrogante mais gosta é o espelho. A própria imagem, os próprios atos. Tudo que ele pesquisa e aprende é para outras coisas que não clarear as próprias ideias. Ao final, sua vida é uma sucessão de trejeitos.
Pense num fiel saindo da missa, após deixar seus pecados com o padre. Limpo e leve, passa na frente dum boteco e vê três amigos jogando palitinho e tomando cerveja e dando gargalhada. É claro que ele lamenta a inocência dos amigos, tão ingênuos, tão bobos a ponto de não perceberem que, quando Jesus voltar, estarão no mato sem cachorro. Perceberam que a arrogância pode estar logo ali, pertinho da ingenuidade?
A arrogância é a desclassificação do outro. Arrogância e desprezo andam juntos. A arrogância é o produto da ausência de empatia. A arrogância é a primazia do eu. Mas há a arrogância inocente: a moça, já velha, acorda em meio à borrasca e vê a TV e pensa que viu a uva. E me pergunta por que, sendo um sujeito tão inteligente, continuo votando nos candidatos do partido condenado. Me chama de burro assim, na cara dura. Ou será que ela me chamou de ladrão?
Arrogante é o ateu, que debocha do crente. É o estudante da USP, que debocha do estudante da UNISSETE. O cara de exatas, que despreza o de humanas. Um citadino, que torce o nariz para quem mora na roça. E tudo vice-versa. Os confrontos entre paulistas e cariocas, cearenses e pernambucanos, brasileiros e argentinos: todos decorrentes da arrogância generalizada de uns e outros.
Compreende-se mais a arrogância de um jovem do que a de um velho. O jovem está chegando agora, deslumbrando-se com as primeiras descobertas, sempre julgando-as definitivas. Mas o velho não tem perdão.
A arrogância ideológica seria cômica, se não fosse trágica. E perigosa (porque pode resultar em fascismo, por exemplo). Mas, duro de amar Teresa, é a arrogância cultural. O cara da bossa-nova que detesta rock, a música carioca versus a música caipira, a Escola de Frankfurt contra a Escola de Chicago. Porque o arrogante não é nada eclético.
Há a arrogância institucionalizada. É aquela decorrente da carreira acadêmica. Um doutor é, por definição, um arrogante em seu assunto. Haveria perdão, se, ao menos, ele se interessasse por outros assuntos… Ao contrário dos iluminados, o arrogante é aquele que iluminou a luz. Cuidado, ele queima!
Arrogância e intolerância e ignorância têm muito mais em comum que a rima.

Outra difícil de digerir é a arrogância linguística. Essas normas todas, essa coisa de certo e errado, esses gurus que aparecem na TV explorando a fraqueza da gramática alheia. Críticos literários sob encomenda… Agora, insuportável é um cronista, que, para ser cronista, precisa parecer arrogante. Entenderam a sutileza? Da arrogância do dono: da fábrica, da fazenda e da bola. E da crônica. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

SAUDADE DA BICY.

          Levaram a Bicy hoje cedo e já estou com saudade. É claro que não me pediram, nem me avisaram. Antes, esperaram eu chegar ao outro extremo da volta de 1500 metros, atrás do arvoredo, o ponto mais distante dela. Melhor assim, sabiam que eu não concordaria, que faria escândalo. Sensíveis, evitaram meu sofrimento maior.
          Ela tava nova ainda, esbelta, tudo em cima. Cismava com minhas segundas intenções, outras viagens quilométricas. Toda hora vivia rangendo os percalços da nossa viagem à foz do Rio Grande, sugerindo novas travessias. A gente sempre se deu bem. Claro que ela não era santa. Sim, admito, tinha um gênio ruim. No dia que entrei numa loja e fiquei olhando mais demorado para uma quadro 21, na volta, ela deu um pinote, me jogou lá em cima e me viu cair em sua frente, sem mover um raio. Saiu ilesa e me deixou com 10 costelas quebradas.
          Mas ela tinha razão. Cheguei até a passar a mão na quadro 21… De minha parte, tudo bem, não fiquei com rancor. Ao contrário, logo que voltei dos três dias internado, já dei uma voltinha nela, que permaneceu muda, embora satisfeita com a minha rápida recuperação, tenho certeza.
          Então, já era usada, mas estava em forma, era bem cuidada. No início do nosso relacionamento, pensei que não ia dar certo. Ela era pequena pra mim, quadro 19. Mas estiquei o canote o máximo e ficou na medida. A gente se encaixava direitinho, era uma felicidade. Com a vantagem de que eu podia chamá-la de minha pequena, sem agredir os fatos.
          Agora vou arranjar uma quadro 21, porque não posso ficar sozinho. Mas já estou prevendo problemas. Porque, pensando bem, prefiro as pequenas. E uma 21 é grande. Não estou acostumado com uma parceira enorme, cheia de vontades. A Bicy era simples, barata, e me respeitava…Vai ser trabalhoso acomodar essa grandona nos bagageiros dos ônibus...
          Quer dizer, respeito era o que eu gostava. Mas, às vezes, ela me aprontava: como quando demorei pra trocar os pneus e ela me deixou a pé, subindo a Rebouças. Tenho certeza que foi birra dela, porque no pneu havia um simples grampinho, desses de grampeador vagabundo. Sim, sabia ser caprichosa, mas ela fazia por merecer porque, afinal, me dava o que realmente importa: prazer.
          Ainda mais depois que a deixei nos trinques, com pneus novos, raios de aço inoxidável, movimento central selado. E um bagageiro na garupa dos mais charmosos e leves. E como era discreta! Deslizava sibilina, feito uma gata, tocando o mínimo no chão, com seus pneus 38C. Sendo mulher, seria corredora e dançarina. Até a corrente, que andava seca ultimamente, eu havia engraxado semana passada.
          Tudo bem, eu tinha consciência da inveja que sua posse despertava nos outros homens. Bola pra frente. E mais: espero que seja feliz nas mãos de outro. Se ela for generosa com esse outro, como foi comigo, tenho certeza que vai dar certo, por mais brutamontes que seja o tal. Da parte dela não haverá problemas, ia bem com todo mundo, a safada. Considerando a iniquidade reinante, ficou barato.

          Enfim, como já deixei claro acima, ela formava um conjunto gracioso e ainda tinha uma vida inteira pela frente. Tinha não, tem. Pra ajudar o novo casal, prometo não ir atrás, esquecer. Espero que não a esquartejem. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

ESMOLA PRA CUECA.

Destrancava a Bicy pra voltar pra casa, após os 10Km no parque, quando o sujeito chegou e me pediu dinheiro pra comprar uma cueca. Estou acostumado a receber pedidos de dinheiro pra completar a passagem, pra comprar um pastel, até pra comprar pinga, mas pra comprar cueca foi a primeira vez. Em minha megalomaníaca mania de exclusividade, creio que nenhum dos meus milhões de leitores jamais foi abordado na via pública por um mendigo pedindo dinheiro pra comprar cueca. Vai ver, estou muito desavisado, essa é a nova moda na cadeia produtiva da esmola…
Sou do tempo em que nenhum pedinte ousava pedir, senão pra alimentar seus filhinhos, que, para maior credibilidade, levava consigo no seu esmolar. Depois foram-se modernizando, deixavam os filhinhos em casa. Sequer ousavam pedir para si próprios, saudáveis que estavam, em pé, ali em nossa frente. Pedir roupas para vestir os filhinhos era uma modalidade concomitante à de pedir alimentos. Depois veio a moda do passe de ônibus, do ticket do almoço e, mais recentemente, dado o esgotamento dos argumentos elementares de comer, vestir, ir e vir, almoçar, surgiu um ramo ousado que pede dinheiro pra comprar pinga.
O cidadão está parado em seu carro, esperando o farol abrir, e vê o pedinte se aproximar. Já se prepara para negar e, na bucha, desancar o pobre: “vai trabalhar vagabundo, para de gastar o dinheiro com droga e compre coisa de comer”. Mas aí o drogado vagabundo pede dinheiro, exatamente, pra comprar droga. Claro, a droga legal nossa conhecida, nunca citada na TV, a famosa cachaça… O cidadão moralista é pego no contrapé e, não raro, invadido por uma fugaz simpatia, que passa rápido mas não o suficiente para ele continuar negando; contribui com o pedinte ousado, justificando-se que, afinal, era um pedinte sincero. (já perceberam como os necessitados preferem os cidadãos imóveis em seus bólidos? É que é nessa situação que nossa consciência fica mais pesada...).
Há dois tipos de pedintes: aqueles que pedem dinheiro pra comprar determinado produto e aqueles que pedem o próprio produto. Os mais experientes e bem-sucedidos nunca pedem dinheiro: pedem sempre o produto. Alguns mais sofisticados pedem para o cidadão comprar o produto, que sempre está à venda ali por perto. Entretanto, nenhum — NENHUM — pedinte gosta de receber produtos em espécie, muito menos alimentos e roupas. Também não gostam de atenção e carinho. Em geral, os pedintes odeiam aquelas senhoras piedosas que os abordam dando conselhos, querendo ajudar… Todo pedinte quer mesmo é receber dinheiro vivo. Contudo, nós cidadãos achamos insolentes os pedintes que nos pedem dinheiro vivo. É por isso que os pedintes experientes pedem o produto, contando com nossa aversão em pôr a mão na massa e, assim, sacarmos logo 2 ou 5 reais e nos livrarmos logo daquele incômodo… Outra coisa que pedinte pede é moeda. Não acredite, todo pedinte odeia moedas.
Mas o rapaz do parque subvertia toda minha teoria da esmola. Tudo bem que ele estava molambento, roupa suja, tênis desbeiçado, cabelos e barbas desgrenhados, mas andava ereto, me olhava nos olhos, me pedia dinheiro pra comprar uma cueca. Primeiro, que uma cueca custa algo mais que os 2 ou 5 reais de praxe. Segundo, que cueca não se come e, quer saber, nem é tão imprescindível assim. Passadas 24 horas, creio que se tratava de um agente avançado testando uma nova tática de abordagem para dinamizar a linha de produção... Ou então, foi chegando, me viu, mediu, sacou que eu era invencível pelos métodos normais. Meus óculos escuros me faziam distante e refratário e minha carga de endorfina me fazia autossuficiente. Como todo bom vendedor, resolveu ousar, ciente e já conformado com a baixa taxa de retorno. Uma negativa a mais, uma esculhambação a mais… Sim, ele me pegou no contrapé: eu não portava sequer documentos, que dirá dinheiro e cueca. Enfim, o golpe de misericórdia: “Estou com a mesma cueca faz 15 dias”, me disse ele, coçando o saco.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

PADRE, PAPA, PATRIARCADO. E DELATOR.

Tav’aqui pensando, eu, com a minha violinha… (a bênção, Almir Sater): Deus não existe sem o Diabo. Porque, como cêis sabem, o Diabo é a fraqueza, a ignorância, a doença, a solidão, a desesperança. Qual cidadão iria procurar Deus se não houvesse essas desgraceiras?
Já ia eu falando na infinita bondade de Deus, mas isso é conversa. Porque Deus sabe ser mau. Experimenta pisar na bola, pra ver o que acontece. Então, essa estória de infinita bondade é conversa. Deus é apenas — apenas! — poderoso. Todo-poderoso. Onipotente!
Bem, essa onipotência toda também não é tanto assim não, senão não precisaríamos temer o Diabo. Se Deus fosse tão poderoso assim e tão bom assim, como dizem seus propagandistas, nós, seus filhos e filhas, estaríamos no bem-bom, não precisaríamos ficar nessa correria toda, fazendo o pelo-sinal-da-santa-cruz na frente de toda igreja, após todo chute em que a bola passa raspando…
E aquela estória da onisciência de Deus? Se ele realmente soubesse esse tanto todo, por que exige que confessemos nossos pecados? Porque um cara onisciente está lá, acolá, aqui dentro do meu sistema neurológico… Era só eu bater o olho na vizinha do 46 e, pimba! Um a zero pra ele, lá no seu onisciencial.
Mas não. Para que Ele fique sabendo, meu pecado precisa transpor o milenar e infernal sistema hierárquico católico. Eu conto ao padre, o padre conta ao bispo, o bispo ao arcebispo, que conta ao papa, que conta pra Deus. Porque o papa é o único terráqueo que tem ligação direta com Deus.
Quer dizer, essa expressão “único terráqueo” é um vício deste cidadão forjado na cultura branco-europeica. Mas, sem dúvida, nesse mundo ocidental branco e europeu, o papa é o único que tem ligação direta com Deus. Senão, como explicar sua monarquia absoluta, duzentos anos pós Robespierre? Entra milênio, sai milênio, e seu reinado permanece firme e absoluto.
Senão, como explicar a relativa rapidez e eficiência da chegada dos nossos pecados aos ouvidos de Deus? Ora, o padre, o bispo, o arcebispo, sabem, afinal, que na ponta da burocracia está Ele. Então não ficam enrolando, não engavetam, não assinam o ponto e vão tomar café no boteco, passam pra frente tudo rapidinho, sob pena de exaltar a ira divina.
Outra coisa que faz essa enorme e intrincada — mas leve — hierarquia absolutista funcional é o peso dos pecados. Porque, diferente de quando a gente faz uma caridade ou conta um segredo, na confissão dos pecados nós transferimos todo o peso deles — cem por cento — ao padre.
Quando fazemos caridade, dividimos a culpa: transferimos metade dela para o beneficiário e mantemos a outra metade. O mesmo ocorre quando contamos um segredo a alguém: se for algo bom, compartilhamos a alegria; se for uma maledicência, dividimos o rancor. Mas quando confessamos os pecados não dividimos nada: transferimos tudo, ficamos leves(e o padre fica pesado, por isso transfere logo...).
É verdade, tenho experiência. Até os 13 anos, eu confessava regularmente meus pecados ao padre. Saía realmente leve (se é que isso fosse possível para aquele magrelo rsrs). Depois que virei hômi, criei juízo e não pequei mais, daí porque não tive mais necessidade de comparecer ao confessionário.
Aliás, deve ser por isso que a Igreja não admite mulheres pastoras. Primeiro, porque elas aguentam muito mais o peso dos pecados alheios: demorariam pra repassar, atravancariam a burocracia; segundo, que elas são muito mais sofisticadas, criativas, repassariam parte desses pecados alheios às respectivas vizinhas e amigas, pra compensar eventuais atrasos.
Ora, administrar homens, esses seres primários, é muito mais fácil, Deus sabe disso. Deus sabe quanto o Cristianismo é responsável pelo machismo…

Quanto aos delatores, Deus não gosta: devolve-lhes em dobro o peso do malfeito dedado. Tudo para fazer desaforo ao seu Inimigo. Porque dedo-duro é filho do Diabo.   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

QUASE APANHEI NO TUCANISTÃO.

Ia eu passando vagarosamente por uma espécie de praça-parque da cidade de São Paulo, onde as pessoas costumam passar e ficar um pouco, às vezes sentam. Era toda cimentada, com alguns bancos e nenhuma árvore, boa para a hora da fresca. Havia bastante gente, muitos parados de pé conversando em grupinhos, outros passando devagar. De repente, alguém discursou uma frase, para todos ouvirem: “O imposto de renda leva todo meu salário, bando de parasitas!”. Do outro lado, uma voz de mulher continuou: “Minha filha teve de fechar a loja, aonde vamos parar?”. “É tudo culpa desse torneiro mecânico e daquela guerrilheira”, emendou um quarentão de topete e gravata quase ao meu lado, enquanto levantava o paletó que segurava numa das mãos. Alguém lá do outro lado continuou: “É, os nordestinos ainda estão bem, melhoraram de vida com nosso dinheiro”. “Isso mesmo”, falou um sujeito magrelo de bigode que estava no centro da praça, “arrecadavam nossos impostos e mandavam pra lá”. Uma senhora de óculos redondos que passeava com o cachorrinho de 600g emendou: “A diária da faxineira ainda está pela hora da morte, graças àquela safadeza do bolsa-família”. “É o nosso dinheiro sustentando vagabundo”, ajuntou um velho gordo que se levantou do banquinho só pra discursar a frase. “Meu filho foi demitido ontem”, falou raivosa uma mulher cinquentona com cara de séria. “Acabaram com nosso país”, emendou um cara ainda novo, de camisa branca e gravata. “É, tudo culpa desses sindicalistas safados”, emendou um seu colega do grupinho. “Corruptos!”, gritaram em coro duas gêmeas em minha frente.

Nessa altura, eu não aguentava mais tanta tucanice. Apenas a transcrição fria das frases não basta para ter clareza sobre a tucanice delas. Porque o tucanismo é mais que ideias soltas blandidas em praça pública: é um modo de ser, de parecer, é um sotaque, um vocabulário, um comportamento. Somente quem vive aqui no centro do Tucanistão tem condições de avaliar o tipo pelo ar, de longe, pelas aparências… porque essa tucanidade que anda na praça junto com a gente é muito zelosa com o verniz cultural que se auto impregna para disfarçar o cheiro e a textura da própria pele popular. E se você chega mais perto e os ouve, descobre que tucano é bom de bico e mau de mão; sim, porque esse espécime descende de ou almeja a uma suposta aristocracia perdida, aquela uma escravagista que abominava o trabalho manual (aliás, esse é um mal que afeta a esquerda em geral dos países muito desiguais). Evidente que falo da classe média tucana, aquela que é obrigada a se misturar conosco: microempresários, delegados de polícia, diretores de escola, funcionários públicos, médicos, advogados, profissionais liberais em geral, assessores diversos, mordomos, gerentes de banco… porque há um contingente nada desprezível de tucanos concentrados em SP que a gente não cruza nem pra remédio, vivem em outras esferas inalcançáveis, cujos modos e trejeitos nem faço ideia.


E a ladainha ia continuar tarde afora, não fora meu talento. Porque já na segunda frase saquei o presente e o futuro do contexto. E me pus a batucar uma maneira de interromper o comício. Sem elaborar nada previamente, me dirigi a um canto da praça, saquei uma banana que levava no bolso (não aconselho levar banana no bolso, amassa), deitei no chão para melhor disfarçar, dei uma mordida na banana, engoli, enchi os pulmões e emendei ao discurso coletivo, da forma mais audível possível para alguém deitado: “TUCANISTÃO!!”. Imediatamente estabeleceu-se o silêncio. E comecei a passar mal de medo; e tive a certeza de ter me lascado quando vi alguém ao meu lado olhando para o meio da praça e me indicando, deitado comendo banana. Deitei melhor e fechei os olhos, enquanto ouvia um tropel da debandada e outro específico que crescia pro meu lado. Então, recebi um chute na cabeça. Levantei-me sem sentir nenhuma dor. A praça estava vazia, só eu e meus agressores. O chute acertou em cheio, sim, mas não na parte sólida, só atingiu a minha vasta cabeleira. Foi um sonho. Tanto que nem acordei. Ainda vi os três capangas se afastando prum lado, enquanto eu ia pro outro, todo pimpão.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

RÚCULA & BISTECÃO.

UM FLAGRANTE NA VIDA ENTRE FILHA & PAI.

Bistecão era o chefe de uma família tradicional brasileira. Sabe o patriarcalismo? Então, e, para agravar, era uma família rural, do interior, Bistecão era fazendeiro. E mais: ao contrário de quase todos, morava na fazenda e não na cidade, como agora é costume entre os fazendeiros. Rúcula era sua filha primogênita. Ao completar 18 anos, veio morar em São Paulo, para estudar.

Bistecão era um sujeito sistemático, como se diz lá na terra dele. Tradição, respeito, propriedade. Nada de frescuras. Muita couve, muito feijão, muita fritura, tudo no toucinho, tudo gordo... Rico, modo de dizer: tinha muitos ativos imobilizados: terras. Em geral, os fazendeiros têm pouco dinheiro vivo e nenhuma previsão confiável de realização financeira. Mas Bistecão, além de caprichoso, era ladino. Pechinchava com Deus e o Diabo por míseros detalhes, extraía o máximo mediante o mínimo dos peões e tarefeiros e boias-frias e pesquisava muito antes de vender a produção. Assim, ao contrário da maioria de seus confrades, sua conta bancária também era gorda.

Em São Paulo, Rúcula, a filha, estudava em escola cara, tinha apartamento, carro, empregada, despesas gerais, tudo pago pelo pai.

O fazendeiro tinha uma ruma de filhos, inclusive alguns homens, mas, não sei que diabos, gostava mais daquela uma, Rúcula, a única que achou de sair de casa e, pior, para a capital. De tal maneira que, a cada três meses, Bistecão se abalava lá da fazenda para São Paulo, para ver a filha, cuidar, fiscalizar… A mulher-mãe não vinha, não gostava, tinha muitos afazeres, Bistecão vinha só, de ônibus, preferia.

O pai ficava uns três dias na capital, hospedado num cinco estrelas. Vinha para fiscalizar, mas não se atrevia a pisar no apartamento da filha. Tinha medo do que viesse a encontrar… Mas almoçava e jantava com ela todos os dias. Sempre numa churrascaria, para desespero da filha, vegetariana.

Esclareça-se que filha e pai eram como rato e gato. O pai caçando a filha, cobrando seus destemperos, criticando-a, não a perdoando por escolher o curso História da Arte, que não dá camisa pra ninguém, além de caro pra caramba… nada gostando do jeito relaxado dela se vestir, dos olhos vermelhos, da cara de sono, do resfriado constante, da preguiça...dos amigos, dos horários, dos assuntos… da frescura de não comer carne. E tinha sérias desconfianças de que a filha fumava e cheirava… E não gostava nada daquela magreza da filha, daquela mania de correr em volta do quarteirão todo dia, olhos fundos, pelo no subaco…

Para a filha, aqueles três dias de churrascarias era um suplício. Ver seu pai se afogando naquelas picanhas em marés de gorduras ferventes, que os garções, já íntimos, caprichavam. Ver seu pai se estufando com aquela mini bomba de chopp atravancando a mesa... E ainda, comer aquela salada meio murcha e cheirando a banha de porco, naquele ambiente de carne grossa e música brega... E debaixo de um sermão paterno do começo ao fim … e sob uma inquirição visual e olfativa capaz de ressuscitar a cannabis que deixara de pitar há três dias, capaz de espreitar nos internos do olfato os possíveis vermelhos da farinha de uma semana atrás… E quando acabava o sermão, começava o interrogatório, depois vinha os conselhos…

Minha filha, você tá muito magra. Cê tá com cara de rapariga. Cê tá comendo direito, dormindo direito?
Minha filha, quando é que você vai virar gente, tomar vergonha na cara?
Tá bom, pai, vamo sair daqui!

E saíam. Ela forçava o pai a andar dois quarteirões…

Rúcula, tô preocupado com você… não gosto daquele seu amigo skatista nem daquela uma de cabeça raspada.
Tá bom, pai, mas vira essa fumaça pra lá, que já estou de abstinência faz três dias…
Rúcula, isso aqui é legal, comprado na padaria…
Então, pai, mas essa sua pança de 130 Kg não é nada legal. Nem essa papada nesse seu rosto inchado. Nem essa perna fina nessa bunda murcha…
Qualquer dia você explode, pai.

De fato, Bistecão parecia um tanque de guerra. Não dava dois passos por conta própria. Aliás, orgulhava-se do seu quadriciclo que comprara na última viagem a Miami, segunda mão do exército lá dos americanos. Da casa pro mangueiro, ia de quadriciclo. Levava o brinquedo na caçamba da caminhoneta nas andanças da fazenda. Para ir aonde a 4x4 não chegava. Quando moço, ia a cavalo. Mas agora, aos cinquenta, não conseguia mais montar. Sendo que a máquina americana era bichareda de boa… não tinha brejo nem capoeira nem roça nem morro que não passasse. E quando viu a moda da bicicleta em São Paulo, gostou, comprou uma. Só que motorizada, nada de bateria — essa porcaria que precisa pedalar…

Tá bão! Mas você fuma! E tô desconfiado que cheira, também.
Eu fumo e cheiro. Você fuma e bebe.
Mas eu como três vezes por dia…
Você se empanturra, três vezes por dia — tudo no creme, na nata, no toucinho... Enquanto eu como folhas, grãos e farinhas.
Eu fumo e bebo legal, e como comida de Deus. Você inventa moda, come comida de fresco e gasta meu dinheiro com farinha…
Tá bom, pai, você fuma, bebe, engorda, explora e acumula. Eu fumo, cheiro, jejuo, trepo e gasto. Bobeira por bobeira, noves fora, zero. Estamos empatados…


E, de fato, empatados estavam. O pai, que saíra da fazenda falando grosso, agora falava manso; a filha, que virara santa uma semana antes, temendo as comidas de rabo, fazia valer o fator campo jogando em casa e saía ilesa... Porque cada um voltava pro seu mundo sem nenhum arranhão. Não sei se a insolência da rica filha era a causa da preferência do pobre pai...