Tô
preocupado, ando analisando todo mundo que encontro na rua, vou
direto ao olho, se estiver vidrado, tá contaminado. O pior é que
nem eu escapo dessa análise, autoanálise, e tô achando que também
já fui atingido, só não sei ainda em qual das modalidades de
alienados me enquadro, senão vejamos, estou há duas horas aqui
sentado, em frente a esse teclado, que sou antigo e caseiro, uso PC,
se isso não for indício de alienação é o quê?
Estou
entrosadíssimo, tenho mais de duzentos amigos, recebo convites para
essa ou aquela manifestação coletiva a toda hora, entro lá na
convocação virtual, milhares de pessoas prometem participar, até
aí tudo bem, só que vou lá depois conferir, não foi ninguém de
carne e osso, eu também prometi e não fui, mas quando prometi
fiquei feliz, mais, exultante, com o coração transbordante do dever
cumprido.
Saio
todo dia, ando a pé, de bike, ops, bicicleta, metrô, ônibus, vou à
feira, supermercado, padaria, não encontro ninguém conhecido,
nenhum amigo, há meses que não encontro um amigo na rua, assim, de
modo fortuito, isso é indício de alienação ou não é? Porque a
alienação é um processo coletivo. Se você sai mas seus pares não,
você é envolvido pela inércia deles, não adianta nada você se
deslocar, se não há ninguém para lhe passar a bola.
Deixa
ver. Dormindo não estou (quando saio, quero dizer), então não é
sonambulismo. Não fico martelando o tempo todo sobre o mesmo
assunto, ao menos não de maneira pobre, vario bem as palavras, não
devo estar robotizado. Pior é que nem acredito em hipnose, ou achava
que não era hipnotizável, mas, depois que despertei para a epidemia
de nonsense que assola a população brasileira, percebi que ela já
vinha de longe e que, desconfio, atingiu todo mundo.
Ou
haveria uma quarta modalidade, os teleguiados? Sou ou não teleguiado
pelo Facebook e pelo Google, se fiquei metade do meu tempo entre
esses dois, nas últimas duas horas? Já sei, também vou ao
Instagram e ao Whatsapp, não sou tão bitolado assim. Tudo bem, vou
muito ao Google, mas também vou ao YouTube. Aí descubro que, apesar
dessa variação, não saí dos dois: Facebook & Google, este
controla o YouTube e aquele controla Instagram e whatsapp. Tudo bem,
não devo ainda estar em estado terminal, não uso o Twitter.
Há
esperança, porém. Os jovens que sentam no chão, nas estações do
metrô por aí. Parecem saudáveis. Eventualmente estão com os
olhos vidrados, mas pode ser fome, ou desejo. Estão transgredindo, é
proibido sentar no chão no metrô, nas estações, nos trens, quem
transgride é mais saudável do que quem dorme em pé ou obedece
cegamente a uma ordem remota.
Diagnostico
pelo olho. Porque o olho é a perdição do alienado (e do safado).
Ou o cara pisca muito ou o cara pisca pouco. Ou brilha muito ou
brilha pouco. O sujeito não se sossega com o próprio olhar; ou ele
desvia ou olha e não vê. Não, não desvia, desviar é sinal de
vida, ele esconde o olhar no chão ou no céu ou num canto qualquer
em que tem certeza de não encontrar outros olhos; exceto os que
estão dormindo, que te olham ostensivamente, sem te ver, é claro.
Não
sei, tenho a impressão de que não sobrou ninguém, ou melhor, só
sobraram aqueles jovens sentados no chão do metrô. Há uma réstia
de lucidez. Me são simpáticos, esses jovens transgressores. Desço
na São Joaquim, vejo a meninada sentada no chão com as costas na
parede, fico feliz, chego perto, estão todos conectados a uma tomada
elétrica. Ô tristeza!
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