sexta-feira, 27 de setembro de 2019

TELEGUIADO.

Tô preocupado, ando analisando todo mundo que encontro na rua, vou direto ao olho, se estiver vidrado, tá contaminado. O pior é que nem eu escapo dessa análise, autoanálise, e tô achando que também já fui atingido, só não sei ainda em qual das modalidades de alienados me enquadro, senão vejamos, estou há duas horas aqui sentado, em frente a esse teclado, que sou antigo e caseiro, uso PC, se isso não for indício de alienação é o quê?

Estou entrosadíssimo, tenho mais de duzentos amigos, recebo convites para essa ou aquela manifestação coletiva a toda hora, entro lá na convocação virtual, milhares de pessoas prometem participar, até aí tudo bem, só que vou lá depois conferir, não foi ninguém de carne e osso, eu também prometi e não fui, mas quando prometi fiquei feliz, mais, exultante, com o coração transbordante do dever cumprido.

Saio todo dia, ando a pé, de bike, ops, bicicleta, metrô, ônibus, vou à feira, supermercado, padaria, não encontro ninguém conhecido, nenhum amigo, há meses que não encontro um amigo na rua, assim, de modo fortuito, isso é indício de alienação ou não é? Porque a alienação é um processo coletivo. Se você sai mas seus pares não, você é envolvido pela inércia deles, não adianta nada você se deslocar, se não há ninguém para lhe passar a bola.

Deixa ver. Dormindo não estou (quando saio, quero dizer), então não é sonambulismo. Não fico martelando o tempo todo sobre o mesmo assunto, ao menos não de maneira pobre, vario bem as palavras, não devo estar robotizado. Pior é que nem acredito em hipnose, ou achava que não era hipnotizável, mas, depois que despertei para a epidemia de nonsense que assola a população brasileira, percebi que ela já vinha de longe e que, desconfio, atingiu todo mundo.

Ou haveria uma quarta modalidade, os teleguiados? Sou ou não teleguiado pelo Facebook e pelo Google, se fiquei metade do meu tempo entre esses dois, nas últimas duas horas? Já sei, também vou ao Instagram e ao Whatsapp, não sou tão bitolado assim. Tudo bem, vou muito ao Google, mas também vou ao YouTube. Aí descubro que, apesar dessa variação, não saí dos dois: Facebook & Google, este controla o YouTube e aquele controla Instagram e whatsapp. Tudo bem, não devo ainda estar em estado terminal, não uso o Twitter.

Há esperança, porém. Os jovens que sentam no chão, nas estações do metrô por aí. Parecem saudáveis. Eventualmente estão com os olhos vidrados, mas pode ser fome, ou desejo. Estão transgredindo, é proibido sentar no chão no metrô, nas estações, nos trens, quem transgride é mais saudável do que quem dorme em pé ou obedece cegamente a uma ordem remota.

Diagnostico pelo olho. Porque o olho é a perdição do alienado (e do safado). Ou o cara pisca muito ou o cara pisca pouco. Ou brilha muito ou brilha pouco. O sujeito não se sossega com o próprio olhar; ou ele desvia ou olha e não vê. Não, não desvia, desviar é sinal de vida, ele esconde o olhar no chão ou no céu ou num canto qualquer em que tem certeza de não encontrar outros olhos; exceto os que estão dormindo, que te olham ostensivamente, sem te ver, é claro.

Não sei, tenho a impressão de que não sobrou ninguém, ou melhor, só sobraram aqueles jovens sentados no chão do metrô. Há uma réstia de lucidez. Me são simpáticos, esses jovens transgressores. Desço na São Joaquim, vejo a meninada sentada no chão com as costas na parede, fico feliz, chego perto, estão todos conectados a uma tomada elétrica. Ô tristeza!




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