sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

ESTÚPIDO.

Dá pra reconhecer um estúpido pelo tom da voz? Ouvi a voz do homem em minha retaguarda e na hora tive certeza de que era um estúpido. Não olhei para trás, não sei se era gordo ou magro, branco ou preto, alto ou baixo. Segui em frente, certo de que aquela voz pertencia a um estúpido. Estúpido no sentido de bronco, não no sentido de bruto. Como seria a voz ou a fala ou a conversa ou o assunto de um estúpido? Talvez seja impróprio dizer “tom da voz”. Não se trata de graves ou agudos a indicar estupidez. Conheço estúpidos que falam grosso e que falam fino. Parece que diagnostico o tal por uma conjunção de fatores ligados à fala: a pronúncia, a altura, a velocidade. Ouvi apenas duas palavras do estúpido identificado. Esqueci as palavras, evidência de que o que pesou em minha avaliação foi a entonação. Uma maneira inculta de tratar as sílabas: acentuando-as indevidamente, engolindo-as, duplicando-as, metendo-as onde não são chamadas. Colorindo as sílabas de cores berrantes ou desbotadas. Enfim, penso, pesquiso, e concluo que meu diagnóstico denuncia um poço de preconceito. Da mesma forma que a estupidez é inexplicável, é inconcebível. E, no entanto, existe… Fui ao caixa da Caixa e lá me atendeu um empregado estúpido. Esse, diagnostiquei pela voz, pela postura corporal, pelo olhar e pela frase bisonha que ele me repetiu cinco vezes. Eu já sabia, de outros carnavais, que os concursos públicos no Brasil não barram os estúpidos. Mas pensava que as eleições para cargos públicos eram eficazes contra os tais(estúpidos, não espertos...). Talvez sejam e esse pesadelo presidencial seja somente...pesadelo. Acho que é esse bombardeio de tolice diária em rede nacional e social que está me fazendo mal… me tornando hipersensível aos patetas na via e vida pública. Porque a matéria-prima — a burrice — já havia, sempre houve, farta, na população rica e pobre, descalça ou engravatada; basta dizer que a maioria elegeu um idiota (no bom sentido). Agora, que nisso tudo há uma boa dose de arrogância da minha, da nossa parte, isso há. Seria um consolo descobrir uma componente maquiavélica ou vingativa no resultado da eleição, além da estupidez.


domingo, 16 de fevereiro de 2020

AMARELOU GERAL, NO CARNAVAL

  Quem tem participado dos blocos do carnaval paulistano sabe do que tô falando. Antes, quero ressalvar que vejo com simpatia esse fenômeno recente dos blocos carnavalescos paulistanos. Mas… mas, a coisa já começa a ficar monetizada. Tudo cercado, controle rigoroso para entrar. Tá bem, a segurança… vai vendo. Daqui a pouco cobram entrada. Não, já estão cobrando. Como assim? Quer ver?
Você não pode entrar com água, água de beber. Você veste sua roupa mais leve, coloca um laço de fita no cabelo e já está fantasiado. Ótimo! Vai de tênis, melhor ainda. A função é durante o dia, debaixo do sol mais quente. Agora, com o advento do patrocínio cervejeiro, começo a desconfiar de que esse horário é intencional…
Sim, você adentra ao curral, ops, ao cercado, ops, à área protegida… que bom que nossas autoridades se preocupem tanto com nossa segurança… não entra nem mosquito carregando uma garrafinha de água pra matar a sede naquelas 4 ou 5 horas de muito samba e muito sol.
Quer dizer, eu não entrei lá, só fiquei jogando bola ao lado, durante 1,5 horas, numa movimentação equivalente ao tropel da garotada, e tomei 1 litro d'água, que levei de casa. Pude entrar com a água, porque, felizmente, onde brinquei não havia cercado para minha proteção… (sim, é uma crônica com alto teor irônico)
Claro que lá dentro do curral, ops, do cercado, ops, da área protegida, vendem água. Mas, se o preço da água é quase igual ao da latinha de skol, melhor tomar só skol, para gastar um pouco menos. Porque a garotada precisa colocar alguns miligramas de álcool na cuca para melhor jogarem… e isso custa, só com skol.
Aí, a cerveja, ao invés de hidratar, desidrata. E muita gente passa mal. Mas, pensando bem, do jeito que aquela cerveja é uma porcaria, com sua mísera gradação alcoólica, talvez até cumpra a função da água… O pior é que se ela cumpre a função da água, não cumpre a da cerveja, ô tristeza! E, ao final da brincadeira, o folião pagou ou não pagou para entrar?
Então, na segunda feira, na ressaca do lar, contabilizando o gasto com cerveja e o mal-estar dos efeitos da desidratação, o cidadão-carnavalesco se revolta e diz que nunca mais toma skol. A partir de agora só vai tomar Budweiser ou Bohemia ou Quilmes, Serramalte, Brahma, Antarctica, Serrana Stella Artois Nossa Pernambuco Nortena Lowenbrau Polar Patagônia Três Fidalgas Wals Magnífica do Maranhão Original Goose Island Legítima Leffe Hertog Fan Hoegaarden Caracu Colorado Corona Franziskaner Beck's Adriática. Coitado do inocente…


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

AMARELO-SKOL.

Entro no metrô da linha amarela, tomo um susto com o amarelo-skol. A linha amarela não se cansa de me cansar. Primeiro, que os vidros estão amarelos. Isso significa que não estão transparentes. Tudo bem que o trem corre dentro de um túnel, a transparência do vidro não faria diferença, mas faz. Vidro amarelo, teto amarelo, paredes amarelas, piso amarelo. Amarelo-skol.
Uma coisa é certa: enquanto me lembrar desse vagão amarelo-skol, não tomarei skol. Não será grande sacrifício, pois não me confinarei em nenhum bloco do carnaval paulistano. É que a Skol é a patrocinadora do carnaval paulistano. Cerveja, lá, só da skol. De repente, a Skol também é da Ambev, a mesma da Antarctica, da Brahma, do escambau… esse negócio de boicotar produtos massificados em mercado oligopolizado é enxugar gelo.
Mas um serviço público pode submeter seu usuário a um ambiente confinado e monocromático-totalitário em prol de uma campanha publicitária de um produto comercial? Sendo que esse comércio é de bebida alcoólica? Evidente que não vale o argumento de que a linha amarela é privada. Não, a linha amarela não é privada, mas parece… a linha amarela é pública, gerida por uma privada.
Eu me sinto mal dentro do vagão amarelo-skol. Do bombardeio luminoso de comerciais que os vagões recebem entre as estações Fradique Coutinho e Oscar Freire, podemos escapar, é só olhar para o outro lado. Mas, para escapar do amarelo-skol, só fechando os olhos, e isso não é possível, eis que no metrô temos de andar com os olhos bem abertos.
E para arrematar a sandice que assola os dias, vi hoje um cadeirante-entregador da iFood. Nem bicicleta, nem motocicleta, cadeira de rodas. Sei lá, não sei o que dizer.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

COROTE DE 51

Uns 30 anos de idade, o cara chegou no balcão abanando para o lado da atendente 1 dólar entre o indicador e o médio da mão direita e mandou: “me dá um corote de 51”. Um dólar em equivalente moeda nacional, claro, que aquele lá, além de nunca ter ido à Disney, também nunca tocou numa nota de dólar de verdade.
Esse cara havia passado por nós, eu e um tratorista que veio do Rio Grande do Norte, que também nunca foi à Disney, nem nos bons tempos. E aproveito a oportunidade para declarar que eu também nunca fui à Disney e, ainda, que isto muito me alivia.
A gente conversava, o cara era conhecido do tratorista, trocamos aqueles chistes machistas cheios de vantagens de boteco, e ele, enfim, foi ao balcão pedir o corotinho de 51. Pegou a garrafinha, abriu e virou metade numa talagada só, sob os olhos tristes meus e do tratorista.
Ora, eu e o tratorista somos cachaceiros antigos. Cachaceiros não, pinguços. Porque cachaceiro toma cachaça e nós tomamos pinga. Cachaça é de 30 reais e pinga é de 10. Sendo que o corotinho de 51 é a pinga da pinga, ou seja, é a pinga mais ordinária do que a pinga…
Eu, que não conhecia o cara, fiquei com uma tristeza duvidosa. Não sabia se ele já estava com o cérebro derretido ou se estava querendo fazer bonito ao forasteiro, ao homem velho de fora que sabia responder piadas machistas sobre vantagens sexistas. O tratorista meu interlocutor ficou triste de verdade, diante da burrice do seu amigo, porque virar 200 mililitros de aguardente num fôlego só é o cúmulo da burrice.
Mas fico sabendo, pelo google, que agora tem uma bebida aí chamada corote, justamente vendida em garrafinhas de plástico similares àquela da 51, adocicada, gostosa, gasta-se menos para embebedar-se…
Enfim, mercado é isso; livre iniciativa é isso, bebe quem quer, compra quem pode. Sendo que o mercado vai até quem não pode: a garrafa a 10 tá cara? Então lança-se o corotinho a 5, e o dinheiro de pinga continua valendo a todos.
E tomar pinga é coisa de pobre, mas o corotinho é uma ideia genial? Então lança-se um corotinho diferenciado, para estudantes sem grana e com pressa. A gradação alcoólica da 51 é 38%, só para machos obstinados e meio burros (pleonasmo?), desce doendo na goela; essa corote colorida e saborosa tem 13,5% de gradação alcoólica e desce redonda, tá mais para amarelo-skol, a molecada pira mais barato. Sei lá, cada um faz o que quer com o próprio cérebro.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

SACIS.

  Miséria! Desde a Praça dos Arcos, venho pelo centro da pista de rodagem da avenida, é domingo. Guardas e viaturas pra todo lado, maió medão do arrastão. Viaturas do rapa, da ronda, da rota. Não sei se é por causa do rapa, o comércio está mais fraco, a avenida está vazia, em relação a outros tempos. Pode ser também por causa da chuva que promete, por causa da grana cada vez mais curta, por causa da gripe espanhola…
Tempo nublado, temperatura agradável, no cruzamento com a Peixoto Gomide vejo, lá na frente, um saci grandão. Está no rumo que vou indo, entre o MASP e o Trianon, a 80 metros. É um saci, não resta dúvida, porque dá para ver claramente seu corpo nu e preto coberto apenas por um calção vermelho; apurando a vista, percebo que está apoiado numa perna só. O único problema é a altura, que os sacis costumam ser baixos, coisa de moleques.
Vou chegando, é um saci de verdade até no tamanho, está sobre uma caixa, que lhe serve de pedestal, de longe não dava para ver. É uma novidade, alternativa às estátuas vivas, deve fazer sucesso, aqui nesta avenida o que conta é a novidade, a capacidade de agarrar o olhar de quem passa.
Ao contrário das estátuas, que dão um trabalhão para pintar e despintar até os cabelos do próprio corpo de branco, alumínio ou bronze, ao moço do saci basta colocar um meião preto cobrindo todo o corpo e, sobre ele, um simples calçãozinho vermelho.
Claro, tem o problema de disfarçar uma das pernas, mas os passantes são apressados e condescendentes, o disfarce não precisa ser perfeito. É dolorido ficar muito tempo apoiado numa perna só, mas acho pior ficar o mesmo tempo imóvel, como as estátuas. E deve dar mais lucro hoje, em que já vi 4 estátuas e apenas 1 saci.
Mas, diabos!, não é um homem, é um moleque. E não está usando meia por baixo nenhuma, é um moleque preto. Preto-saci. Tudo bem… epa! Cadê o outro joelho do moleque? Porque, para disfarçar uma das pernas, não é possível dobrá-la no quadril. Se é assim, ao menos haveria dois joelhos. Dou a volta no saci, observo bem, há apenas um joelho, não tem disfarce nenhum.
Sigo a vida pela avenida, agora mais pesada. Em frente à FIESP, ouço um tropel. Me viro, dois moleques passam ventando, cavalgando com uma perna só, cada um num patinete. O veículo anda no máximo a 20 Km/h, eles precisam de mais, por isso, impulsionam-no com a perna livre empurrando o chão, para não serem alcançados por outros dois jovens, também cada um em seu patinete, vestidos com camisetas da Yellow.
Lá na frente, fico sabendo da nova diversão da molecada. Tomar os patinetes desbloqueados em uso por garotos de pais inscritos no serviço. Os guris, que em regra nem pai tem, que dirá cartão, realizam na porrada o desejo doentio de dar uma voltinha no controlado brinquedo. Nem endereço têm, digno do cadastro da Yellow. Então, se não há esperança de ser por bem, que seja por mal. Ainda que sem cabeça e sem pé, quem não gosta de patinete, bom moleque não é.




domingo, 2 de fevereiro de 2020

O TRATOR E O VIOLINO.

O jovem estava produzido para atuar. Bem vestido, exceto pelo jeans rasgado acima do joelho… aliás, taí uma coisa que não entendo. O rasgo deve ser no joelho, na bunda, nos lugares em que o tecido é massacrado entre o usuário e o banco, o muro, o chão. A minha paranoica e nostálgica mente racional não concebe um rasgo na altura da canela ou das coxas. No mais, o jovem estava impecável, incluindo o cabelo rigorosamente desalinhado. A pele estava tão boa que só podia estar oculta sob grossa camada de cremes.
Entrou serelepe e sorridente pela porta, como se o vagão fora um palco. Trazia debaixo do sobaco um violino, levando o arco à frente com uma mão avançada, como fazem os magos e respectivas varas. A mão do braço do sobaco do violino segurava, penduradas por cordéis, duas caixas de similar tamanho, uma de som e outra de sapato.
Eu sei que a palavra sobaco não fica bem numa crônica em que há também a palavra violino. Porque uma é grossa, quase chula, e a outra soa tão bem quanto o instrumento que nomeia. Uso sobaco em homenagem à memória do tempo em que não conhecia a palavra axila.
Eu sempre pensei que um violino fosse mais caro do que um violão. Vejo on-line, contudo, que não é verdade. Em geral, os violinos são mais baratos. Isso explica a proliferação de tocadores e tocadoras de violino na via e na coisa pública. Sem contar que alisar é mais fácil do que pinicar, logo tocar violino deve ser mais fácil do que violão.
O jovem depositou as duas caixas no piso e ligou a de som num acompanhamento base de piano. Em seguida, posicionou seu instrumento no pescoço, esticou os dois braços — um de cada vez, como fazem os padres na hora de misturar o pão e o vinho dentro do cálice —, plantou bem os dois pés no não tão sacolejante chão do moderno trem e tascou a Ave Maria de Gounod, apesar de faltar ainda 2 horas para a hora certa, que é às 6 horas da tarde, como sabemos.
Acontece que o intervalo entre uma estação e outra é de cerca de 2 minutos e toda música, discurso, reza ou venda deve caber nesse tempo, porque toda atividade comercial deve ser silenciada quando a porta se abre na plataforma onde pode estar à espreita um vigilante. O violinista pulou ou adaptou alguns movimentos e a Ave Maria coube direitinho entre a Armênia e a Tiradentes, fazendo por merecer respeitosos aplausos da plateia viajante.
Aliás, tenho notado certa boa vontade dos passageiros do metrô para com esses empreendedores individuais, com exceção à militância religiosa. Apressadamente, concluo que o povão é consumista e laico e gosta de arte.
Quando o violinista ia iniciar sua primeira flexão do tronco, para agradecer aos aplausos e, em seguida, passar a caixa coletora, o condutor do comboio tascou pelo som o aviso de que as atividades artísticas estão proibidas no metrô, porque podem causar acidentes.
O jovem, respondendo ao anúncio, avisou a todos que a única possibilidade da sua arte provocar acidente seria num aumento de emoção capaz de provocar algum Acidente Vascular Cerebral ou Cardíaco. 
 
E, sem coletar ou esperar qualquer contribuição ou réplica, saiu da cena tão célere quanto entrara, mas cabisbaixo, deixando-nos aflitos com o tratorista que nos conduzia.