Dá
pra reconhecer um estúpido pelo tom da voz? Ouvi a voz do homem em
minha retaguarda e na hora tive certeza de que era um estúpido. Não
olhei para trás, não sei se era gordo ou magro, branco ou preto,
alto ou baixo. Segui em frente, certo de que aquela voz pertencia a
um estúpido. Estúpido no sentido de bronco, não no sentido de
bruto. Como seria a voz ou a fala ou a conversa ou o assunto de um
estúpido? Talvez seja impróprio dizer “tom da voz”. Não se
trata de graves ou agudos a indicar estupidez. Conheço estúpidos
que falam grosso e que falam fino. Parece que diagnostico o tal por
uma conjunção de fatores ligados à fala: a pronúncia, a altura, a
velocidade. Ouvi apenas duas palavras do estúpido identificado.
Esqueci as palavras, evidência de que o que pesou em minha avaliação
foi a entonação. Uma maneira inculta de tratar as sílabas:
acentuando-as indevidamente, engolindo-as, duplicando-as, metendo-as
onde não são chamadas. Colorindo as sílabas de cores berrantes ou
desbotadas. Enfim, penso, pesquiso, e concluo que meu diagnóstico
denuncia um poço de preconceito. Da mesma forma que a estupidez é
inexplicável, é inconcebível. E, no entanto, existe… Fui ao
caixa da Caixa e lá me atendeu um empregado estúpido. Esse,
diagnostiquei pela voz, pela postura corporal, pelo olhar e pela
frase bisonha que ele me repetiu cinco vezes. Eu já sabia, de outros
carnavais, que os concursos públicos no Brasil não barram os
estúpidos. Mas pensava que as eleições para cargos públicos eram
eficazes contra os tais(estúpidos, não espertos...). Talvez sejam e
esse pesadelo presidencial seja somente...pesadelo. Acho que é esse
bombardeio de tolice diária em rede nacional e social que está me
fazendo mal… me tornando hipersensível aos patetas na via e vida
pública. Porque a matéria-prima — a burrice — já havia, sempre
houve, farta, na população rica e pobre, descalça ou engravatada;
basta dizer que a maioria elegeu um idiota (no bom sentido). Agora,
que nisso tudo há uma boa dose de arrogância da minha, da nossa
parte, isso há. Seria um consolo descobrir uma componente
maquiavélica ou vingativa no resultado da eleição, além da
estupidez.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
domingo, 16 de fevereiro de 2020
AMARELOU GERAL, NO CARNAVAL
Quem
tem participado dos blocos do carnaval paulistano sabe do que tô
falando. Antes, quero ressalvar que vejo com simpatia esse fenômeno
recente dos blocos carnavalescos paulistanos. Mas… mas, a coisa já
começa a ficar monetizada. Tudo cercado, controle rigoroso para
entrar. Tá bem, a segurança… vai vendo. Daqui a pouco cobram
entrada. Não, já estão cobrando. Como assim? Quer ver?
Você
não pode entrar com água, água de beber. Você veste sua roupa
mais leve, coloca um laço de fita no cabelo e já está fantasiado.
Ótimo! Vai de tênis, melhor ainda. A função é durante o dia,
debaixo do sol mais quente. Agora, com o advento do patrocínio
cervejeiro, começo a desconfiar de que esse horário é intencional…
Sim,
você adentra ao curral, ops, ao cercado, ops, à área protegida…
que bom que nossas autoridades se preocupem tanto com nossa
segurança… não entra nem mosquito carregando uma garrafinha de
água pra matar a sede naquelas 4 ou 5 horas de muito samba e muito
sol.
Quer
dizer, eu não entrei lá, só fiquei jogando bola ao lado, durante
1,5 horas, numa movimentação equivalente ao tropel da garotada, e
tomei 1 litro d'água, que levei de casa. Pude entrar com a água,
porque, felizmente, onde brinquei não havia cercado para minha
proteção… (sim, é uma crônica com alto teor irônico)
Claro
que lá dentro do curral, ops, do cercado, ops, da área protegida,
vendem água. Mas, se o preço da água é quase igual ao da latinha
de skol, melhor tomar só skol, para gastar um pouco menos. Porque a
garotada precisa colocar alguns miligramas de álcool na cuca para
melhor jogarem… e isso custa, só com skol.
Aí,
a cerveja, ao invés de hidratar, desidrata. E muita gente passa mal.
Mas, pensando bem, do jeito que aquela cerveja é uma porcaria, com
sua mísera gradação alcoólica, talvez até cumpra a função da
água… O pior é que se ela cumpre a função da água, não cumpre
a da cerveja, ô tristeza! E, ao final da brincadeira, o folião
pagou ou não pagou para entrar?
Então,
na segunda feira, na ressaca do lar, contabilizando o gasto com
cerveja e o mal-estar dos efeitos da desidratação, o
cidadão-carnavalesco se revolta e diz que nunca mais toma skol. A
partir de agora só vai tomar Budweiser ou Bohemia ou Quilmes,
Serramalte, Brahma, Antarctica, Serrana Stella Artois Nossa
Pernambuco Nortena Lowenbrau Polar Patagônia Três Fidalgas Wals
Magnífica do Maranhão Original Goose Island Legítima Leffe Hertog
Fan Hoegaarden Caracu Colorado Corona Franziskaner Beck's Adriática.
Coitado do inocente…
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
AMARELO-SKOL.
Entro
no metrô da linha amarela, tomo um susto com o amarelo-skol. A linha
amarela não se cansa de me cansar. Primeiro, que os vidros estão
amarelos. Isso significa que não estão transparentes. Tudo bem que
o trem corre dentro de um túnel, a transparência do vidro não
faria diferença, mas faz. Vidro amarelo, teto amarelo, paredes
amarelas, piso amarelo. Amarelo-skol.
Uma
coisa é certa: enquanto me lembrar desse vagão amarelo-skol, não
tomarei skol. Não será grande sacrifício, pois não me confinarei
em nenhum bloco do carnaval paulistano. É que a Skol é a
patrocinadora do carnaval paulistano. Cerveja, lá, só da skol. De
repente, a Skol também é da Ambev, a mesma da Antarctica, da
Brahma, do escambau… esse negócio de boicotar produtos
massificados em mercado oligopolizado é enxugar gelo.
Mas
um serviço público pode submeter seu usuário a um ambiente
confinado e monocromático-totalitário em prol de uma campanha
publicitária de um produto comercial? Sendo que esse comércio é de
bebida alcoólica? Evidente que não vale o argumento de que a linha
amarela é privada. Não, a linha amarela não é privada, mas
parece… a linha amarela é pública, gerida por uma privada.
Eu
me sinto mal dentro do vagão amarelo-skol. Do bombardeio luminoso de
comerciais que os vagões recebem entre as estações Fradique
Coutinho e Oscar Freire, podemos escapar, é só olhar para o outro
lado. Mas, para escapar do amarelo-skol, só fechando os olhos, e
isso não é possível, eis que no metrô temos de andar com os olhos
bem abertos.
E
para arrematar a sandice que assola os dias, vi hoje um
cadeirante-entregador da iFood. Nem bicicleta, nem motocicleta,
cadeira de rodas. Sei lá, não sei o que dizer.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
COROTE DE 51
Uns
30 anos de idade, o cara chegou no balcão abanando para o lado da
atendente 1 dólar entre o indicador e o médio da mão direita e
mandou: “me dá um corote de 51”. Um dólar em equivalente moeda
nacional, claro, que aquele lá, além de nunca ter ido à Disney,
também nunca tocou numa nota de dólar de verdade.
Esse
cara havia passado por nós, eu e um tratorista que veio do Rio
Grande do Norte, que também nunca foi à Disney, nem nos bons
tempos. E aproveito a oportunidade para declarar que eu também nunca
fui à Disney e, ainda, que isto muito me alivia.
A
gente conversava, o cara era conhecido do tratorista, trocamos
aqueles chistes machistas cheios de vantagens de boteco, e ele,
enfim, foi ao balcão pedir o corotinho de 51. Pegou a garrafinha,
abriu e virou metade numa talagada só, sob os olhos tristes meus e
do tratorista.
Ora,
eu e o tratorista somos cachaceiros antigos. Cachaceiros não,
pinguços. Porque cachaceiro toma cachaça e nós tomamos pinga.
Cachaça é de 30 reais e pinga é de 10. Sendo que o corotinho de 51
é a pinga da pinga, ou seja, é a pinga mais ordinária do que a
pinga…
Eu,
que não conhecia o cara, fiquei com uma tristeza duvidosa. Não
sabia se ele já estava com o cérebro derretido ou se estava
querendo fazer bonito ao forasteiro, ao homem velho de fora que sabia
responder piadas machistas sobre vantagens sexistas. O tratorista meu
interlocutor ficou triste de verdade, diante da burrice do seu amigo,
porque virar 200 mililitros de aguardente num fôlego só é o cúmulo
da burrice.
Mas
fico sabendo, pelo google, que agora tem uma bebida aí chamada
corote, justamente vendida em garrafinhas de plástico similares
àquela da 51, adocicada, gostosa, gasta-se menos para embebedar-se…
Enfim,
mercado é isso; livre iniciativa é isso, bebe quem quer, compra
quem pode. Sendo que o mercado vai até quem não pode: a garrafa a
10 tá cara? Então lança-se o corotinho a 5, e o dinheiro de pinga
continua valendo a todos.
E
tomar pinga é coisa de pobre, mas o corotinho é uma ideia genial?
Então lança-se um corotinho diferenciado, para estudantes sem grana
e com pressa. A gradação alcoólica da 51 é 38%, só para machos
obstinados e meio burros (pleonasmo?), desce doendo na goela; essa
corote colorida e saborosa tem 13,5% de gradação alcoólica e desce
redonda, tá mais para amarelo-skol, a molecada pira mais barato.
Sei lá, cada um faz o que quer com o próprio cérebro.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
SACIS.
Miséria! Desde a Praça dos Arcos, venho pelo centro da pista de
rodagem da avenida, é domingo. Guardas e viaturas pra todo lado,
maió medão do arrastão. Viaturas do rapa, da ronda, da rota. Não
sei se é por causa do rapa, o comércio está mais fraco, a avenida
está vazia, em relação a outros tempos. Pode ser também por causa
da chuva que promete, por causa da grana cada vez mais curta, por
causa da gripe espanhola…
Tempo
nublado, temperatura agradável, no cruzamento com a Peixoto Gomide
vejo, lá na frente, um saci grandão. Está no rumo que vou indo,
entre o MASP e o Trianon, a 80 metros. É um saci, não resta dúvida,
porque dá para ver claramente seu corpo nu e preto coberto apenas
por um calção vermelho; apurando a vista, percebo que está
apoiado numa perna só. O único problema é a altura, que os sacis
costumam ser baixos, coisa de moleques.
Vou
chegando, é um saci de verdade até no tamanho, está sobre uma
caixa, que lhe serve de pedestal, de longe não dava para ver. É uma
novidade, alternativa às estátuas vivas, deve fazer sucesso, aqui
nesta avenida o que conta é a novidade, a capacidade de agarrar o
olhar de quem passa.
Ao
contrário das estátuas, que dão um trabalhão para pintar e
despintar até os cabelos do próprio corpo de branco, alumínio ou
bronze, ao moço do saci basta colocar um meião preto cobrindo todo
o corpo e, sobre ele, um simples calçãozinho vermelho.
Claro,
tem o problema de disfarçar uma das pernas, mas os passantes são
apressados e condescendentes, o disfarce não precisa ser perfeito. É
dolorido ficar muito tempo apoiado numa perna só, mas acho pior
ficar o mesmo tempo imóvel, como as estátuas. E deve dar mais lucro
hoje, em que já vi 4 estátuas e apenas 1 saci.
Mas,
diabos!, não é um homem, é um moleque. E não está usando meia
por baixo nenhuma, é um moleque preto. Preto-saci. Tudo bem… epa!
Cadê o outro joelho do moleque? Porque, para disfarçar uma das
pernas, não é possível dobrá-la no quadril. Se é assim, ao menos
haveria dois joelhos. Dou a volta no saci, observo bem, há apenas um
joelho, não tem disfarce nenhum.
Sigo
a vida pela avenida, agora mais pesada. Em frente à FIESP, ouço um
tropel. Me viro, dois moleques passam ventando, cavalgando com uma
perna só, cada um num patinete. O veículo anda no máximo a 20
Km/h, eles precisam de mais, por isso, impulsionam-no com a perna
livre empurrando o chão, para não serem alcançados por outros dois
jovens, também cada um em seu patinete, vestidos com camisetas da
Yellow.
Lá
na frente, fico sabendo da nova diversão da molecada. Tomar os
patinetes desbloqueados em uso por garotos de pais inscritos no
serviço. Os guris, que em regra nem pai tem, que dirá cartão,
realizam na porrada o desejo doentio de dar uma voltinha no
controlado brinquedo. Nem endereço têm, digno do cadastro da
Yellow. Então, se não há esperança de ser por bem, que seja por
mal. Ainda que sem cabeça e sem pé, quem não gosta de patinete,
bom moleque não é.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
O TRATOR E O VIOLINO.
O
jovem estava produzido para atuar. Bem vestido, exceto pelo jeans
rasgado acima do joelho… aliás, taí uma coisa que não entendo. O
rasgo deve ser no joelho, na bunda, nos lugares em que o tecido é
massacrado entre o usuário e o banco, o muro, o chão. A minha
paranoica e nostálgica mente racional não concebe um rasgo na
altura da canela ou das coxas. No mais, o jovem estava impecável,
incluindo o cabelo rigorosamente desalinhado. A pele estava tão boa
que só podia estar oculta sob grossa camada de cremes.
Entrou
serelepe e sorridente pela porta, como se o vagão fora um palco.
Trazia debaixo do sobaco um violino, levando o arco à frente com uma
mão avançada, como fazem os magos e respectivas varas. A mão do
braço do sobaco do violino segurava, penduradas por cordéis, duas
caixas de similar tamanho, uma de som e outra de sapato.
Eu
sei que a palavra sobaco não fica bem numa crônica em que há
também a palavra violino. Porque uma é grossa, quase chula, e a
outra soa tão bem quanto o instrumento que nomeia. Uso sobaco em
homenagem à memória do tempo em que não conhecia a palavra axila.
Eu
sempre pensei que um violino fosse mais caro do que um violão. Vejo
on-line, contudo, que não é verdade. Em geral, os violinos são
mais baratos. Isso explica a proliferação de tocadores e tocadoras
de violino na via e na coisa pública. Sem contar que alisar é mais
fácil do que pinicar, logo tocar violino deve ser mais fácil do que
violão.
O
jovem depositou as duas caixas no piso e ligou a de som num
acompanhamento base de piano. Em seguida, posicionou seu instrumento
no pescoço, esticou os dois braços — um de cada vez, como fazem
os padres na hora de misturar o pão e o vinho dentro do cálice —,
plantou bem os dois pés no não tão sacolejante chão do moderno
trem e tascou a Ave Maria de Gounod, apesar de faltar ainda 2 horas
para a hora certa, que é às 6 horas da tarde, como sabemos.
Acontece
que o intervalo entre uma estação e outra é de cerca de 2 minutos
e toda música, discurso, reza ou venda deve caber nesse tempo,
porque toda atividade comercial deve ser silenciada quando a porta se
abre na plataforma onde pode estar à espreita um vigilante. O
violinista pulou ou adaptou alguns movimentos e a Ave Maria coube
direitinho entre a Armênia e a Tiradentes, fazendo por merecer
respeitosos aplausos da plateia viajante.
Aliás,
tenho notado certa boa vontade dos passageiros do metrô para com
esses empreendedores individuais, com exceção à militância
religiosa. Apressadamente, concluo que o povão é consumista e laico
e gosta de arte.
Quando
o violinista ia iniciar sua primeira flexão do tronco, para
agradecer aos aplausos e, em seguida, passar a caixa coletora, o
condutor do comboio tascou pelo som o aviso de que as atividades
artísticas estão proibidas no metrô, porque podem causar
acidentes.
O
jovem, respondendo ao anúncio, avisou a todos que a única
possibilidade da sua arte provocar acidente seria num aumento de
emoção capaz de provocar algum Acidente Vascular Cerebral ou
Cardíaco.
E,
sem coletar ou esperar qualquer contribuição ou réplica, saiu da
cena tão célere quanto entrara, mas cabisbaixo, deixando-nos
aflitos com o tratorista que nos conduzia.
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