segunda-feira, 30 de novembro de 2020

INFRAESTRUTURA & SUPERESTRUTURA.

 Sim, tô sabeno que um alemão brilhante, há uns 150 anos, escreveu que as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Também andei lendo uns troços sobre infraestrutura e superestrutura, esta dependendo daquela, um negócio meio sem escapatória quando vivemos em sociedade. Mas, me parece que nós brasileiros exageramos.


É impressionante o nível da nossa identidade ideológica, sua uniformidade e homogeneidade, quase um totalitarismo de visão de mundo. Seja preto, seja branco ou amarelo, até os índios comungam dessa visão única das coisas.

Aqui, até os descendentes dos japoneses e chineses querem ir para o céu, quando morrerem, se deus quiser e a virgem maria ajudar.

Aqui, toda mãe, more na favela ou num apê em Pinheiros, aconselha o filho a estudar, para arranjar um bom emprego ou, enfim, subir na vida. Aqui, só não é meritocrata aquele 0,1% lá do topo — que nunca vi, mas sei que existe — que, faça chuva, faça sol, está condenado a viver de dividendos até a 10ª geração.

Todo mundo joga lixo na rua sem consciência da barbaridade que está fazendo. Sei que você, que está me lendo, não joga, mas saiba que você é um bicho raro, que nem conta. Afinal, a rua não é a casa, tenho vergonha da sujeira da minha casa, não da sujeira da rua ou do rio e o aterro sanitário nem sei onde fica.

Se puder, todo mundo tira uma casquinha do patrimônio público, desde um material ou equipamento ou serviço de graça até um emprego pouco exigente.

Aqui, toda violência é porque tem pouca polícia, o espaço público é hostil por natureza e aquele desconhecido que vem vindo ali é, no mínimo, suspeito.

Aqui, caro é sinônimo de bom; consumidor é sinônimo de cidadão. E cidadania é palavrão.

As pessoas são todas caridosas, nunca deixam um mendigo na mão na via pública. A caridade, essa ação entre desiguais, é muito valorizada aqui. De preferência com alguma publicidade, para contradizer o Jesus tão formalmente venerado.

Mas a solidariedade, aquela ação entre iguais, é coisa de comunista! Quem mandou o igual não estudar, não poupar, não pagar a previdência, não rezar, não se esforçar?

Ah, mas gostamos de fazer favor, esse investimento… gostamos de cultivar um igual como subalterno. Prezamos a amizade de um poderoso…

Aqui, todo mundo quer ter um carro e se transportar ordinariamente com ele. Não é casual o olhar enviesado para o ciclista (e todo pedestre é um desclassificado). E se o povo sabe que esse ciclista tem dinheiro para comprar um carro, o veem como um desajustado.

Livros em casa só servem para ajuntar ácaros e, além do mais, são muito caros… Cultura e coletividade são bichos exóticos.

O político é um cidadão esperto (vagabundo ou incapaz) que quer se aproveitar da coisa pública, daí porque vira herói ou vilão, se ganha ou perde.

No Brasil, comunista é maçom e acredita em deus.

É impressionante a identidade de sonhos entre pretos e brancos, ricos e pobres, patrões e empregados, petistas e tucanos.

Tudo bem, é difícil fugir das condicionantes avassaladoras que nos soterram, mas, acho, até aquele alemão a que me referi ficaria perplexo com nossa convicção.

Para finalizar (lacrar): aqui, todo mundo joga na loteria!


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

SOBRETUDO & TODAVIA.

 

 Para se atravessar o Anhangabaú o certo é pelo Viaduto do Chá. Não sei porque, fui pelo Santa Ifigênia. Foi pura coincidência, então, encontrar a dupla de músicos lá no centro do viaduto, ocupando a faixa central do charmoso calçadão em que não passa carro. Só por causa daquele piso já vale o desvio de quase um quilômetro para atravessar o vale. Além do mais, o Mosteiro de São Bento, que fica em sua porta, é muito mais instigante do que a sede da prefeitura, que guarda a entrada do outro, mais rápido.

De longe, fui assuntando o som. Eu, que não tenho ouvido musical (nem literal), senti as ondas desconsagradas que o burburinho lá na frente produzia, considerando que, de longe, ainda não sabia que era uma dupla. Aquilo tava parecendo uma mistura de jacaré com caninana. Diabeísso…?

Fui chegando, era um preto e um branco. Uma rabeca e uma cuíca. Sendo que quem tocava a cuíca era o branco. E o preto tinha uma mão que, além de grande e redonda, era bege de um lado e branca do outro, parecendo um pandeiro.

Em se tratando de uma apresentação na via pública, meu espírito estava desarmado de qualquer preconceito, mas tudo neste mundo tem limites, e fui percebendo, à medida que me acercava da função, o atentado ao pudor daqueles dois profanos: se desafiavam, à moda dos repentistas nordestinos. Na vez do cuiqueiro, tudo bem, mas na vez do rabequeiro, era um sofrimento do pobre, para tocar e cantar ao mesmo tempo.

A ousadia na combinação dos instrumentos continuava no posicionamento dos dois: um cantava virado para a zona norte e o outro, para a zona sul. Constatei, porém, ao chegar perto, que era a necessidade a mãe da inusitada coreografia. É que havia, debaixo dos olhos de cada um, como que delimitando o palco, longitudinais à passarela, dois troncos de um metro de comprimento cada deitados no chão, com o lado de cima escavado como se fora um cocho e onde se viam moedas e notas de dois reais.

Escrito no cocho do lado da zona sul, vi que a dupla se chamava Ateu & Atônito, que achei sensato, tanto que pinguei 5 reais, para desafinar o gravissimo das azuis notas mínimas. Notei, apesar do ouvido, que o ritmo passou do andante para o allegro.

Ah, sim, não via problema algum no fato de se desafiarem ao ritmo do canto gregoriano. De vez em quando, trocavam de visada: o que estava olhando para o norte virava para o sul e vice-versa, como para lembrar uma dança.

Dei a volta; no cocho do outro lado, vi que a dupla também se chamava Sobretudo & Todavia. Então discordei gravemente de tamanha falta de convicção e só não voltei para resgatar meus 5 reais máximos e destoantes de medo de ser acusado de ladrão pelo vigilante da vez.






terça-feira, 10 de novembro de 2020

AMAPÁ.

 

MAPA DE LÁ.


Sabia que o Amapá fica do lado de lá? Do lado de lá da Linha do Equador. Isso não é pouca coisa. Por exemplo, quando a gente, metaforicamente, se referir aos povos desenvolvidos do Hemisfério Norte, sem querer estamos metendo o Amapá no meio. Porque quase todo o Amapá fica do lado de cima do mundo.


Cá entre nós, esfera tem lado? Mas você entendeu. Mas fique sabendo que aquele mapa não existe, é pura convenção. Mas a Linha do Equador existe. É onde a esfera faz a curva. Opa, mas a esfera não é uma curva infinda? É, mas tem um ponto culminante, em relação ao sol, por causa da direção do eixo imaginário sobre o qual gira. O fato é que, quando no Maranhão é inverno, no Amapá é verão. E quando no Maranhão é verão, no Amapá é inverno. Se é que dá para usar a palavra inverno no Maranhão ou no Amapá…


O Amapá fica do lado de lá do rio. Sim, rio! O Amazonas! E faz divisa com a França. Que inveja! São Paulo faz divisa com o Paraguai, o Amapá com a França. Acho que é por isso que o Amapá tem a estranha capacidade de exercer a presidência do nosso poderoso Congresso Nacional. De memória, cito dois: Sarney e Alcolumbre. E nas lides partidárias, o Amapá também brilha: Randolfe Rodrigues é liderança do REDE. Acho que isso é herança francesa.


Mas a empresa que gerencia a energia do Amapá é espanhola. Tremenda mancada, onde já se viu deixar espanhol cuidar de interesse francês?! Tá explicado! Esse colapso energético ocorrido lá é vingança dos espanhóis contra os franceses.


Fico pensando se não era bom viver num lugar esquecido do mundo. Um lugar que fica do lado de lá.