domingo, 21 de outubro de 2018

COISA DO DIABO.


O APARELHINHO REALMENTE É COISA DO DIABO.
Lá vem textão. Não consigo aprender que aqui só funciona papo reto, curto e grosso. E rasteiro. E, se tiver uma pitada de desonestidade, melhor ainda. Sou cabeça dura. Dia desses, fiz uma citação desabonadora ao aparelhinho que quase me fez brigar com meu amigo André. Por que já não escrevo direto smartphone? Por que insisto em escrever nas entrelinhas e fazer tiradas irônicas? Em metáforas e catacreses, ainda que rasteiras? Por que não resumo tudo que penso já neste primeiro parágrafo, conforme todas as regras que aprendi na escola?
É que hoje é domingão e tenho tempo. Mas posso já adiantar que o aparelhinho é o final dos tempos. Sim, aquela coisa do Apocalipse, o Juízo Final. Vai lendo.
Sim, sei da manifestação-monstro que ocorreu ontem(20/10/18) em Londres(não pelos jornais brasileiros), vou escrever Brexit, notícia falsa, eleições fraudadas, essas picuinhas que estão na ordem do dia. Mas de leve, como acessórios. O grave e importante é que acordei tarde hoje, já disse que é domingo. Antes de tomar café, antes de olhar pela janela, acendi meu aparelhinho. Entrei no feicibuque. Algum amigo reclamava que fora roubado em 1 hora. Deduzi que ele estava se referindo ao horário de verão. Era hoje? Diabos, ninguém me avisou que hoje começa o horário de verão! Olhei a hora que meu aparelhinho me dava, não pensei que tivesse dormido tanto… ou o danado já estava atualizado ao novo horário? Confesso que havia pulado, rapidamente, durante a semana, todas as notícias que quisessem me informar sobre o horário de verão de 2018.
Com meu aparelhinho na mão, consulto o relógio do micro-ondas e o relógio de parede (sim, em minha casa ainda há relógio de parede). Batata! Meu aparelhinho já está 1 hora adiantado, que maravilha! Mas fico com a pulga atrás da orelha. Por mais que eu me desinteressasse pelo assunto, eu teria sido avisado, impossível! Vou ao supermercado. O relógio do carro bate com o do meu aparelhinho. Cruzo a Paulista. O relógio da prefeitura, aquele de rua, bate com o do meu aparelhinho. Putz, ando meio alienado ultimamente, nas coisas práticas da vida. Fico aí pelas ruas, preocupado com esse inacreditável candidato que está prestes a nos governar, e esqueço um detalhe tão real e decisivo em minha vida cotidiana, como esse do horário de verão. Chego em casa e a primeira coisa que faço é atualizar o relógio do micro-ondas e o de parede.
Essas duas peças de museu ficam na cozinha, onde permaneço, a fazer o almoço. Daí a pouco, minha cônjuge passa apressada na cozinha e me pergunta, assustada, se mexi nos relógios(Gostaria de dizer “mulher”, mas dizem que é machista, e não acho correto dizer “companheira”, porque isso tenho várias, e me nego a dizer “esposa”). Ela está envolvida com a Mostra de Cinema e segue horários rígidos, hoje. Eu, seguro, informo-lhe, displicentemente, “sim, horário de verão”. Ela cai matando, me esclarecendo que o horário de verão só começa em 04 de novembro e aproveita pra desfiar um rosário de recriminações quanto à forma que tenho gastado meu tempo ultimamente, no aparelhinho, no aparelhão… e ainda assim, não sei que o horário de verão não começa hoje...
Enfim, ia escrever sobre a suspeita de manipulação da votação do Brexit, via aparelhinho; sobre a manipulação da eleição do Trump, via aparelhinho; essas duas votações(ambas em 2016) apresentaram resultados estranhos, contrariaram todas as pesquisas e evidências, ambas decididas favoravelmente a certa direita sem escrúpulos, na véspera e no dia da votação, surpreendendo o mundo. Ia escrever que é impossível usar as redes virtuais a nosso favor sem ser desonesto; que doravante toda votação democrática está inviabilizada, enquanto durar essas caixas pretas que nos enfeitiçam, via aparelhinho… mas meu aparelhinho apita, opa! chegando mensagem nova no Whatsapp!


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A VINGANÇA DO BAIXO CLERO.

Sabe aquele padre que nunca foi convidado para a festinha de aniversário do bispo? Aquele cabo que nunca foi pescar com o tenente? Aquele chefe de seção que nunca compartilhou uma cerveja com o superintendente? Aquele escriturário do fórum que se sente obrigado a chamar o juiz de excelência? Aquele deputado que em 20 anos no Parlamento só fez 4 discursos, sendo o mais extenso de 5 minutos? (e só aprovou dois projetos irrelevantes). Sabe aquele artesão que pensa que é artista?
O integrante do baixo clero se caracteriza por ocupar uma posição subalterna numa estrutura de poder.
 É o padre ou pastor, que está acima dos fiéis, mas sabe da sua insignificância perante a hierarquia eclesiástica. É o militar de baixa patente, temido/admirado em sua comunidade civil, mas impotente dentro do quartel. É o executivo das camadas intermediárias, chamado de chefe ou supervisor ou gerente, que só executa normas, sem nenhuma autonomia. É o funcionário público, admirado em casa por ter passado no concurso, mas perdido nos meandros dos protocolos burocráticos. É o deputado respeitado e temido em seu reduto e ignorado dentro da Câmara. É o suposto intelectual que só reproduz e só copia e é considerado a inteligência da família.
Mas o integrante do baixo clero não é só isso. Para que pertença realmente ao baixo clero, ele precisa ser medíocre. Não ter capacidade intelectual para desenvolver antídotos pessoais à irrelevância de sua existência. Para pertencer ao baixo clero, o sujeito precisa ser, além de insignificante dentro da estrutura a que pertence, um frustrado.
Entendido portanto que ninguém da ralé, da base mais rasteira da pirâmide social, pertence ao baixo clero. Esses assumem naturalmente a própria pequenez, sem qualquer ilusão de poder, cientes da condição de rebanho; desenvolvem estratégicas próprias de sobrevivência e legitimação. O baixo clero se localiza, essencialmente, dentro da classe média. A classe média baixa é um celeiro de baixo clero.
O baixo clero, ainda que tosco, sente os terríveis efeitos da arrogância dos superiores. E cozinha sua impotência, à espreita de se vingar.