O
APARELHINHO REALMENTE É COISA DO DIABO.
Lá
vem textão. Não consigo aprender que aqui só funciona papo reto,
curto e grosso. E rasteiro. E, se tiver uma pitada de desonestidade,
melhor ainda. Sou cabeça dura. Dia desses, fiz uma citação
desabonadora ao aparelhinho que quase me fez brigar com meu amigo
André. Por que já não escrevo direto smartphone? Por que insisto
em escrever nas entrelinhas e fazer tiradas irônicas? Em metáforas
e catacreses, ainda que rasteiras? Por que não resumo tudo que penso
já neste primeiro parágrafo, conforme todas as regras que aprendi
na escola?
É
que hoje é domingão e tenho tempo. Mas posso já adiantar que o
aparelhinho é o final dos tempos. Sim, aquela coisa do Apocalipse, o
Juízo Final. Vai lendo.
Sim,
sei da manifestação-monstro que ocorreu ontem(20/10/18) em
Londres(não pelos jornais brasileiros), vou escrever Brexit, notícia
falsa, eleições fraudadas, essas picuinhas que estão na ordem do
dia. Mas de leve, como acessórios. O grave e importante é que
acordei tarde hoje, já disse que é domingo. Antes de tomar café,
antes de olhar pela janela, acendi meu aparelhinho. Entrei no
feicibuque. Algum amigo reclamava que fora roubado em 1 hora. Deduzi
que ele estava se referindo ao horário de verão. Era hoje? Diabos,
ninguém me avisou que hoje começa o horário de verão! Olhei a
hora que meu aparelhinho me dava, não pensei que tivesse dormido
tanto… ou o danado já estava atualizado ao novo horário? Confesso
que havia pulado, rapidamente, durante a semana, todas as notícias
que quisessem me informar sobre o horário de verão de 2018.
Com
meu aparelhinho na mão, consulto o relógio do micro-ondas e o
relógio de parede (sim, em minha casa ainda há relógio de parede).
Batata! Meu aparelhinho já está 1 hora adiantado, que maravilha!
Mas fico com a pulga atrás da orelha. Por mais que eu me
desinteressasse pelo assunto, eu teria sido avisado, impossível! Vou
ao supermercado. O relógio do carro bate com o do meu aparelhinho.
Cruzo a Paulista. O relógio da prefeitura, aquele de rua, bate com o
do meu aparelhinho. Putz, ando meio alienado ultimamente, nas coisas
práticas da vida. Fico aí pelas ruas, preocupado com esse
inacreditável candidato que está prestes a nos governar, e esqueço
um detalhe tão real e decisivo em minha vida cotidiana, como esse do
horário de verão. Chego em casa e a primeira coisa que faço é
atualizar o relógio do micro-ondas e o de parede.
Essas
duas peças de museu ficam na cozinha, onde permaneço, a fazer o
almoço. Daí a pouco, minha cônjuge passa apressada na cozinha e me
pergunta, assustada, se mexi nos relógios(Gostaria de dizer
“mulher”, mas dizem que é machista, e não acho correto dizer
“companheira”, porque isso tenho várias, e me nego a dizer
“esposa”). Ela está envolvida com a Mostra de Cinema e segue
horários rígidos, hoje. Eu, seguro, informo-lhe, displicentemente,
“sim, horário de verão”. Ela cai matando, me esclarecendo que o
horário de verão só começa em 04 de novembro e aproveita pra
desfiar um rosário de recriminações quanto à forma que tenho
gastado meu tempo ultimamente, no aparelhinho, no aparelhão… e
ainda assim, não sei que o horário de verão não começa hoje...
Enfim, ia escrever sobre a suspeita de manipulação da votação do
Brexit, via aparelhinho; sobre a manipulação da eleição do Trump,
via aparelhinho; essas duas votações(ambas em 2016) apresentaram
resultados estranhos, contrariaram todas as pesquisas e evidências,
ambas decididas favoravelmente a certa direita sem escrúpulos, na
véspera e no dia da votação, surpreendendo o mundo. Ia escrever
que é impossível usar as redes virtuais a nosso favor sem ser
desonesto; que doravante toda votação democrática está
inviabilizada, enquanto durar essas caixas pretas que nos enfeitiçam,
via aparelhinho… mas meu aparelhinho apita, opa! chegando mensagem
nova no Whatsapp!
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