BOA
VISTA DA ADELAYDE.
Bem
poderia ser uma encruzilhada daquelas pra se fazer pacto. Apesar da
venda do lado direito e da igrejinha do lado esquerdo, pode-se dizer
que o lugar é ermo. A venda está fechada, não sei se pra sempre ou
se só de manhã e dias de trabalho. Com o advento das motocicletas,
todo mundo vai comprar qualquer quilo de sal em Inconfidentes, a 8
quilômetros. Na igrejinha, cujo padroeiro é o Senhor Bom Jesus, só
tem missa uma vez por mês, que não tem padre pra atender tantas
comunidades rurais espalhadas por essas grotas de montanha. Além do
mais, as tentações daqui são raríssimas, o povo peca pouco, não
precisa de mais de uma missa por mês. O povo trabalha muito, que
essas vacas leiteiras carecem de ordenha todos os 366 dias do ano,
não tem tempo para mais de uma missa por mês. O povo daqui é parco
e pobre, contribui pouco, não paga duas horas-padre por mês. Nem
campo de futebol nem de bocha nem de malha tem, que aqui não tem
mais que dez metros contínuos de terra plana, exceto nos varjões do
Moji, viável apenas aos sapos e capivaras, de tão encharcados.
Parou
de chover há meia hora, a estradinha está um barro só. Ainda bem
que vim de bota e não de tênis. Minha estradinha se eleva, depois
cai de novo, de tal maneira que seu ponto mais elevado se localiza
bem no centro do cruzamento com a outra estradinha, que faz o traçado
oposto, com seu ponto mais baixo ali onde se cruzam. Cinco ou seis
casinhas espalhadas num raio de 200 metros e não vejo, mas sei que o
Rio Moji-Guaçu está 500 metros à esquerda, minha caminhada segue
paralela a ele.
A
igrejinha está fechada, mas em sua frente há vários moleques em
roupas e comportamentos de missa. E apenas um adulto. Chego, pergunto
se vai ter missa. O senhor Francisco me responde que é catequese.
Estão esperando as catequistas. São três meninos e duas meninas,
na faixa dos 10 anos de idade. No meu tempo, éramos catequizados aos
7 anos de idade. Não se usava o verbo, usava-se o substantivo:
catecismo. Depois do advento do Carlos Zéfiro, o substantivo caiu em
desgraça. Agora ninguém mais faz o catecismo, faz a catequese. Ou é
catequizado. No meu tempo, aos 10 anos de idade, já éramos
pecadores formados e já havíamos papado muita hóstia.
Começo
a perguntar o nome das crianças. O primeiro que me responde é o
Júlio Cesar. Depois o Mateus. São crianças que não estão
acostumadas a falar com estranhos, respondem num grunhido quase
ininteligível. Quando chego no Mateus, a menina mais alta, que, pela
ordem de localização, está no final da fila e será a última a
ser inquirida, sai andando lá para o fundo do quintal. Só fica a
Ivone, que responderá depois do Dênis. A fujitiva já tem uns 12
anos e pensa que é mulher, não gostará de informar seu nome a um
estranho atrevido. Aqui ainda estamos no tempo em que as mulheres
baixam o olhar ou olham para o outro lado, quando cruzam com um
homem, nem precisa ser muito estranho.
Sigo
a viagem. Mais 3 meninonas e 2 meninos mirrados estão chegando para
a catequese. Vou refletindo. Será que não foi esse sacramento, que
recebi no limiar da minha primeira infância, que me manteve forte e
saudável até aqui? Talvez. Mas certamente foram todas aquelas
ameaças do fogo do inferno que me mantiveram na linha até os 16
anos. Ah! O ípsilon de Adelayde é por minha livre e pensativa
conta.
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