quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

BOA VISTA DA ADELAYDE


BOA VISTA DA ADELAYDE.
Bem poderia ser uma encruzilhada daquelas pra se fazer pacto. Apesar da venda do lado direito e da igrejinha do lado esquerdo, pode-se dizer que o lugar é ermo. A venda está fechada, não sei se pra sempre ou se só de manhã e dias de trabalho. Com o advento das motocicletas, todo mundo vai comprar qualquer quilo de sal em Inconfidentes, a 8 quilômetros. Na igrejinha, cujo padroeiro é o Senhor Bom Jesus, só tem missa uma vez por mês, que não tem padre pra atender tantas comunidades rurais espalhadas por essas grotas de montanha. Além do mais, as tentações daqui são raríssimas, o povo peca pouco, não precisa de mais de uma missa por mês. O povo trabalha muito, que essas vacas leiteiras carecem de ordenha todos os 366 dias do ano, não tem tempo para mais de uma missa por mês. O povo daqui é parco e pobre, contribui pouco, não paga duas horas-padre por mês. Nem campo de futebol nem de bocha nem de malha tem, que aqui não tem mais que dez metros contínuos de terra plana, exceto nos varjões do Moji, viável apenas aos sapos e capivaras, de tão encharcados.
Parou de chover há meia hora, a estradinha está um barro só. Ainda bem que vim de bota e não de tênis. Minha estradinha se eleva, depois cai de novo, de tal maneira que seu ponto mais elevado se localiza bem no centro do cruzamento com a outra estradinha, que faz o traçado oposto, com seu ponto mais baixo ali onde se cruzam. Cinco ou seis casinhas espalhadas num raio de 200 metros e não vejo, mas sei que o Rio Moji-Guaçu está 500 metros à esquerda, minha caminhada segue paralela a ele.
A igrejinha está fechada, mas em sua frente há vários moleques em roupas e comportamentos de missa. E apenas um adulto. Chego, pergunto se vai ter missa. O senhor Francisco me responde que é catequese. Estão esperando as catequistas. São três meninos e duas meninas, na faixa dos 10 anos de idade. No meu tempo, éramos catequizados aos 7 anos de idade. Não se usava o verbo, usava-se o substantivo: catecismo. Depois do advento do Carlos Zéfiro, o substantivo caiu em desgraça. Agora ninguém mais faz o catecismo, faz a catequese. Ou é catequizado. No meu tempo, aos 10 anos de idade, já éramos pecadores formados e já havíamos papado muita hóstia.
Começo a perguntar o nome das crianças. O primeiro que me responde é o Júlio Cesar. Depois o Mateus. São crianças que não estão acostumadas a falar com estranhos, respondem num grunhido quase ininteligível. Quando chego no Mateus, a menina mais alta, que, pela ordem de localização, está no final da fila e será a última a ser inquirida, sai andando lá para o fundo do quintal. Só fica a Ivone, que responderá depois do Dênis. A fujitiva já tem uns 12 anos e pensa que é mulher, não gostará de informar seu nome a um estranho atrevido. Aqui ainda estamos no tempo em que as mulheres baixam o olhar ou olham para o outro lado, quando cruzam com um homem, nem precisa ser muito estranho.
Sigo a viagem. Mais 3 meninonas e 2 meninos mirrados estão chegando para a catequese. Vou refletindo. Será que não foi esse sacramento, que recebi no limiar da minha primeira infância, que me manteve forte e saudável até aqui? Talvez. Mas certamente foram todas aquelas ameaças do fogo do inferno que me mantiveram na linha até os 16 anos. Ah! O ípsilon de Adelayde é por minha livre e pensativa conta.


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