terça-feira, 31 de dezembro de 2019

SÃO SILVESTRE

  Moro a 3 quadras da subida da brigadeiro, o penúltimo quilômetro da corrida (Km 14). Podia ver os acontecimentos esterilizados pela TV, ouvindo a zoada dos helicópteros ao vivo entrando pela janela. Na sombra, do sofá, sem esbarrar em nenhum estranho desajeitado, sem ouvir berros e gritarias, sem precisar fugir de bêbados e pedintes, sem me preocupar com punguistas. Podia ver a sensacional chegada, o queniano dando um bote sacana no ugandense. Podia ver a chegada dos dez primeiros colocados, saber a colocação do primeiro brasileiro.
Mas optei pelos acontecimentos sujos e barulhentos e parciais ao vivo, vistos nas pontas dos pés por sobre as cabeças dos meus iguais, esbarrando em gente suada, sob os gritos jocosos da torcida. No isolamento da minha sala, não teria visto a legião de trapaceiros passando alegres e descansados para um tempo de 60 minutos de prova. Não teria visto 3 corredores fantasiados de capeta, mas com o semblante de um crente, por causa do cansaço da subida. Não teria visto o palhaço com os glúteos postiços escapando pela cintura larga da calça. Não teria visto a noiva, o cangaceiro, o chifrudo, o flamenguista, o Tiririca, o Enéas…
Lembram do Enéas, aquele cara que foi candidato a presidente? Pois fiquem sabendo que se ele estivesse vivo, teria sido ele o eleito em 2018.
Essas corridas de massa, populares, são um simulacro da vida. Ali a gente vê alguns fortes, poucos determinados, vários disciplinados e uma legião de inconsequentes(dos 35 mil corredores, só dez levam vantagem). Um número grande de competidores medíocres e outro tanto de alegres trapaceiros, cortadores de caminho, simuladores; gente rasa iludindo familiares, vizinhos, amigos; ali a gente vê quase todos esticando o pescoço ao passarem em frente a câmera de TV, inconformados com a discrição e o anonimato da vida.
Mas, nesses ajuntamentos, vemos também o trabalho de formiguinha, sorrateiro, de gente quieta, a disputar os corações e as mentes do gado inglório. Refiro-me às Testemunhas de Jeová. Nos 500 metros de calçada que percorri, até o cruzamento com a Paulista, contei 15 bancas.
Cada banca é constituída de uma estrutura móvel de madeira na vertical, com escaninhos porta-revistas, todos devidamente fornidos com revistas da marca Sentinela. Na parte superior, frases em letras grandes perguntam aos passantes se já conhecem as verdades da Bíblia, se são felizes, se um dia poderão ter paz, lembrando algo sob o tema “família”.
De pé, ao lado, 3 ou 4 pessoas, em vigilante silêncio, escrupulosamente postadas… a maioria mulheres, desatualizadas no rigoroso vestuário, muitas jovens — bonitas, diria —, mas irritantemente contidas, em meio à muvuca das raparigas em flor, nos exíguos shorts-tops a explodirem de vida e alegria, a passarem sob seus narizes impassíveis, entupidos de sonsa fé.
O contraponto entre os pingados e contidos crentes e os suados e vigorosos corredores; o contraste entre a rapaziada saltitante e barulhenta e sensual e as crias crentes murchas e compostas, ainda que bonitas. Se eu tivesse ficado em casa, vendo a corrida pela TV, teria visto somente o que outros querem que me convém; não teria sentido na pele, por todos os poros, o embate do século entre os que o atrasam e os que o sustentam, dentro da multidão de incompetentes tristes e figurantes atônitos.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

BRÁS, PARI E MERCADÃO.

Estou no meio da Praça Padre Bento, no Pari. Creio haver uma praça bonita, debaixo da sujeira. Numa lateral, a Igreja Santo Antônio do Pari recebe os fiéis para a missa dominical das 10 horas. Quase ninguém, praça vazia, está muito fresco para fins de dezembro, não bastasse o tempo fechado ameaçando chover.
Nada indica que ali, após a lateral da igreja, começa o Mercadão. Faço que vou à missa, mas escapo pela Rua Hannemann, onde deverei entrar em um dos inúmeros templos: por exemplo, no Shopping da Galeria Pagé, que é uma galeria que se duplicou em shopping, como seria uma mercearia que se duplicasse em armazém, caso típico de pleonasmo comercial.
Posso entrar também num feirão ou num outlet; ou num mall. Posso entrar à direita, à esquerda, posso quebrar na Rua Tiers ou seguir até a Av. Vautier. Posso escolher o barracão ou o lojão ou o saldão que me aprouver, há vários; posso escolher galerias de todos os tipos e tamanhos, shoppings diversos ou centros de compra. Posso fuçar em diversas feirinhas da madrugada, que essa é uma história à parte, a ser contada em outra oportunidade.
Seja centro, shopping, mall, galeria, outlet, feira, feirão ou feirinha, lá dentro é sempre dividido em box de 2x3 metros: é o mundo dos empreendedores individuais, gente que não morre com nenhum imposto nem conta com nenhum direito. Em geral, funcionam das 6 às 14 horas, mas há portas abertas desde as 2 horas da manhã até as 6 da tarde.
Creio que vem gente de todo o planeta comprar aqui, a julgar pelo tanto a pulular fora e dentro dos prédios. Não sei se o centro dos sacoleiros do mundo é aqui ou em Ciudad del Leste ou em outra biboca pós moderna que desconheço nesta Sulamérica.
É muito provável que aquela blusinha bacana que você comprou por 50 na Butique Central em Aripuanã, Amazônia matogrossense, saiu de dentro de um destes MALLs aqui, pelo preço de 15.
Enfim, chega de ver sonsos vendendo e comprando e carregando sacolas e carrinhos e carros atravancados nas ruas e tudo muito calmo dentro da correria geral. Volto pela Monsenhor Andrade, leve e livre de todos os pecados. Eis que me deparo com um templo islâmico.
As imponentes torres da mesquita me acalmam, pela beleza, mas não o suficiente. Ainda quero fugir: Rua Oriente, Rua Maria Marcolina… aqui tem turco, tem judeu, tem árabe, tem nordestino, tem português, só não tem chinês, nos nomes das ruas. Chinês, por enquanto, só dentro de cada célula em cada galpão.
Saio na Rangel Pestana, corro para a esquerda. Logo vejo o Santuário Reino dos Céus; a avenida é a mesma, com outro nome: Celso Garcia. Vou andando: Igreja Jesus Fonte de Vida (direita); Igreja Reviver Tenda dos Milagres (direita); Comunidade Cristã Amor e Graça (esquerda); Igreja Apostólica Plenitude do Trono(direita); Igreja Universal do Reino de Deus (esquerda); Templo Central da Assembleia de Deus (direita). Em menos de 200 metros, só isso.
Mas, ufa!, uma pracinha com bancos e banca, a Senador Moraes Barros; no centro dela a igrejinha de São João Batista…
Sento sob a sombra de uma sibipiruna. Ergo os olhos e vejo, do outro lado da avenida, uma construção de proporções salomônicas, não sei se é um megatemplo ou um mega-shopping. De repente, constato a sinergia do ajuntamento de tantos e diversos templos, como se fora várias barracas de pastel ao lado de outras tantas de caldo de cana. Umas vendendo camisas, outras, salvações. Dou um salto, assustado, e chamo o helicóptero, pra me tirar dali rapidamente.




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

HOMEM DE BEM

No trem da EFA, eu só andava na 2ª classe. Ninguém se interessava pelo vagão da Primeira. O desinteresse era tanto, que nem sei se havia esse vagão. Nunca procurei constatar visualmente a existência do tal vagão. E menos ainda ver quem ia nele. Não que a gente não gostasse daquelas pessoas; é que eram inexpressivas, de outro mundo; não contavam, não nos interessavam. Portanto, não havia a ambição de passar para o vagão de 1ª classe.

Éramos todos homens de bem. Homens e meninos. As mulheres eram honestas. Não cabia nem precisava que as mulheres fossem de bem. As mulheres não eram proprietárias nem faziam negócios.

Nada se sabia de racismo, ecologia e patriarcado.
Na igreja, havia muitos homens de boa vontade. Às mulheres, bastava que fossem honestas. Porque Deus conversava e negociava com os homens (prova disso é que Deus só passava procuração para homens, jamais para mulheres).

Havia roupa de missa. Era pecado ir de chinelo à cidade (não havia código penal, havia catecismo). Homem de bem não andava de bermudas. Mulher honesta não andava de calças. Éramos todos gente boa, de boas famílias. Ninguém era da classe A, classe C, classe média. Éramos pobres, mas limpinhos.

Éramos de 2ª classe, mas — que bom! — ignorávamos a existência da 1ª classe. Sabíamos, vagamente, da existência de alguns tubarões. Nenhuma mercadoria ou pessoa era classificada por faixa de poder aquisitivo (somente por supostos morais).

Para ser exato, não admitíamos — nem passava pela nossa cabeça — que houvesse diversas classes. Parecia-nos esdrúxula a ideia de que não fôssemos todos iguais (e hoje, cá distante no espaço e no tempo, devo reconhecer que éramos coerentes).

Não, não havia nada de 1º mundo; nenhum objeto, nenhum serviço. Nada top de linha; etiqueta era palavra desconhecida, tanto a das marcas quanto a das boas maneiras. Todas as maneiras eram boas. Ninguém fazia turismo. Metade da população era bilingue.

Tudo era autêntico, direto do norteamérica ou do artesão da esquina. Não havia produto pirata, falso, imitado. Não havia produto paraguaio, chinês, nem chig-lig, nem feirinha no Brás. Não havia nada de 1ª linha, pela simploriedade de haver apenas uma e única linha. No máximo, a coisa prestava ou não prestava.

Nossos cachorros e gatos não tinham raça nem pedigree; tampouco as vacas e cavalos e mulas e galinhas. Não se levava animal ao médico; nem homem. Ninguém precisava de remédio caro ou tratamento especial nem morria de doença grave, só de repente.

Não havia hospital ou restaurante de luxo. Não havia escola particular. O trabalho não era dividido entre braçal e intelectual. Não havia pobre de direita (nem de esquerda).

Não havia vinho fino nem cachaça certificada. Não havia controle de origem ou produção; nem produto especial, selecionado ou exclusivo. Não havia modelo de entrada ou avançado, de amador, de profissional. Havia coisas e produtos sem classes.

Mas, sim, havia gente granfina. Para as quais torcíamos o nariz mas, sorrateiramente, queríamos imitar. Ainda, havia pessoas chiques, que gostavam de coisa boa. Já havia nuances a considerar.

Pensando bem, o mal já estava inoculado em nós...




sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

(O PEDREIRO E O POLÍTICO)

SEMÁFORO.
No tempo das cavernas, não havia casa nem governo;
não havia pedreiro nem político;
não havia estrada nem cidade,
nem construtora nem prefeitura.

No tempo das cavernas, matava-se com pedra,
não havia ferro nem fábrica,
não havia ferreiro nem patrão.

No tempo das cavernas, não havia roça, só colheita;
não havia produto, só consumo,
mas sem dinheiro e sem mercadoria.

No tempo das cavernas, não havia luz, nem represa, nem carvão,
nem eletricista, nem metalúrgica;
não havia sociedade, nem sindicato;
não havia médico, só Deus,
não havia tratamento, só cura.

No tempo das cavernas, talvez já houvesse carinho e amor e solidariedade,
mas certamente havia conjunção
e não havia atraso, porque havia tempo,
e não havia caso pois havia muito campo.

No tempo das cavernas, não havia cimento, nem mutirão,
nem rebanho, mas gado;
não havia laços, só mãos,
mas havia apertos, apesar dos espaços.

No tempo das cavernas havia pouco verbo e nenhum plural,
mas muito trovão;
não havia semáforos;
no tempo dos simplórios, não havia perdão.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

ORA, BATATAS!

Batatas fritas. Batatas do Méqui 1000. Se alguém souber, que me informe, que estória é essa de Méqui? 1000 eu sei, é a milésima loja no Brasil. E Méqui? Tudo bem, Méqui de Mc. Quero saber a estória desse aportuguesamento. Houve algum protesto? Alguma conveniência? Algum regulamento? Alguma isenção? Alguma trapaça? Algum publicitário?
Porque não é normal uma multinacional tão cabal se entregar assim, de graça. Se apossaram da casa do Banco Itaú. Aquela dos enfeites natalinos. A casa branca. Um dos poucos casarões restantes na Paulista.
(sou velho, presenciei a noite das demolições, anos 1970. Ali na esquina da Teixeira da Silva, onde hoje funciona a Coopersucar, num prédião modernoso, amanheceu pichado no muro que guardava os escombros mal arrumados “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Li, com meus próprios olhos).
O Méqui Donaldes ocupou a casa da Al. Min. Rocha Azevedo, adeus bolas e festões e lampadinhas e virgem Maria e São José e menino Jesus e jumentinhos… adeus Gaspar, Baltasar, Belchior, agora temos batatas. Nunca mais a estrela-guia. Os burrinhos do presépio viraram bastões quadrados de batata. Jesus, Maria e José viraram bastões quadrados de batata. As bolas da árvore viraram bastões quadrados de batata. Todos fritos. Estamos fritos.
Batatas fritas gigantes transbordam pelas janelas. O Méqui 1000 anuncia a boa-nova oleaginosa, o novo reino do lipídeo saturado. Junto à calçada, as sobremesas, o principado do sorvete instantâneo, do carbohidrato barato.
Os jumentinhos abestados fazem selfie e lambem os beiços. Pequenos empresários levam o lanche até sua casa, se você pedir. Os jumentinhos quadradinhos e amarelinhos amam muito tudo aquilo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

VAI DEUS AÍ?

Começo da linha, entro no metrô vazio. Sentada no banco ao lado do meu, está uma revista. Bato o olho, já sei do que se trata. Alguém a “esqueceu”, para que o próximo viajante a recolha e leia. Já fiz isso com livros.

Trata-se do proselitismo mais tímido que existe: alguém, desejando propagar uma ideia, a deixa — por escrito — no banco do cinema, na mesinha da sala de espera, no balcão da repartição. Tímido, limpo e isento. O militante não se expõe, não se suja, não se compromete. Mas o destino da sua ideia é o cesto do lixo.

De bater o olho, não dava para saber se a revista era de um grupo político ou religioso, de uma organização ambiental ou assistencial. Comecei a temer que fosse um simples anúncio comercial.

Ela estava em envelope transparente lacrado. Entre a capa e o plástico, havia um panfleto anexo escondendo três quartos dela, de modo que não dava para ler nem seu título. Mas o panfleto trazia, como primeira frase, “Toda Oração Sincera é Atendida”.

Peguei a revista e coloquei na mochila. E o resultado é essa crônica.

Trata-se do nº 1351 da Revista Adventista, de novembro/19, o proselitismo é da protestante Igreja Adventista do Sétimo Dia — Adventist World —, uma multinacional, como a Igreja Católica, a Universal do Reino de Deus, etc.

A diferença é que os católicos e os adeptos do Edir Macedo propagam sua fé através da televisão, não dessa forma tacanha deixando revista em banco de metrô. Desconfio, entretanto, que lá nos United States a Adventist também mostre suas garras na TV.
E para coroar o anacronismo da coisa, esse texto anexo, tapando a capa da revista, vinha todo dirigido à segunda pessoa: “...pedi, portanto; pedi, e recebereis. Pedi humildade, sabedoria, ânimo, ...”.

Deduzi que é um militante mais realista do que o rei, querendo ajudar, mas metendo os pés pelas mãos. Quem, atualmente, suporta ser abordado na via escrita por um verbo na segunda pessoa? Mais realista porque, certamente, a revista deve ter uma linguagem mais moderna (não me aprofundei…).

Eu estava acostumado com o proselitismo dos partidos políticos de esquerda (em linguagem tão anacrônica quanto…). Agora a coisa mudou de figura. A Direitona primeiro arrebanha o grosso para dentro da Igreja e só lá dentro faz o trabalho político-partidário.

Resta-nos orar. “As orações que em solidão dirigis, em cansaço, em provação, Deus responde...”. Orar e vigiar.
Quer dizer, orar e vigiar e se misturar e se mesclar e estudar e entender a religiosidade do povo, aos que pretendem disputar o espaço público e mudar o mundo. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo(o que não exclui o fato de que eu ache que o mundo é um moinho de moer merda). Que se danem os imbecis!

Que o mundo me leve e que os imbecis se danem, o que não me isenta de deixar de fazer a minha parte.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A VACA E O BREJO.

A VACA E O BREJO.
Domingo, 4 e meia da tarde, ligo a TV. Ela está no canal 44.1 do modo TV aberta, de um programa que vi na 5ª feira. Quero ir ao canal 5.1, pra ver Palmeiras e Flamengo, mas tenho preguiça de teclar cinco ponto um. Opto por pressionar a extremidade “—“, da tecla CH. Assim, após mais de vinte pressões na “menos”, chego ao canal desejado. Na primeira alternativa, eu chegaria lá com apenas três pressões, mas teria de direcionar o dígito três vezes para três diferentes teclas, uma operação muito complexa…

Entre pensar e suar, escolho suar. Poupar fosfato.

Mas tudo tem seu lado bom. Zapeando entre os canais 44.1 e o 5.1, vou vendo o que passa nos canais intermediários. O pastor RR Soares simpaticíssimo; o pastor Valdomiro Santiago de chapéu; o padre Reginaldo; o Silas Malafaia; opa! Um canal vendendo semijóias; o bispo Edir Macedo empresário; o pastor Jorge; opa! Uma mulher, uma bispa, a Sônia! Depois o padre Marcelo praticando base jump.

De repente, uma mocinha bonita e séria entrevista um senhor feio, mas médico, está até de jaleco. Falam sobre o sono, a qualidade do sono, que a boa qualidade do sono é fundamental na vida das pessoas, que o sono não serve apenas para descansar o corpo, mas também e principalmente, para recuperar e manter as funções da memória e do raciocínio…

Paro. Acho interessante, educativo, edificante… Fico vendo e concordando. Uma pergunta da mocinha entrevistadora me cutuca, mas continuo inerte: “Qual a importância do colchão, na qualidade do sono?”.

O médico feio e velho (Todo feio e velho é sábio...) responde no seu tom monocórdio que o colchão precisa ser confortável, não forçar a coluna, etc, etc. Então a suposta jornalista pergunta mais uma vez: “Quer dizer que podemos considerar o colchão como o item mais importante para a qualidade do sono?”, à que responde o médico, em seu tom imparcial, severo, acadêmico, amarelo, prolixo: “Sim”.

Em seguida, aparece na tela a propaganda da marca do colchão. Não, não é um comercial. Só o trecho que assisto dá mais de 5 minutos. É um programa de entrevistas.

Teclo mais algumas vezes, vejo padres cantando, pastores curando, não vejo o Sílvio porque o canal dele fica fora do intervalo em que navego, não vejo o Faustão porque antes tem futebol, nem o Huck nem o Ratinho nem o Datena nem o Fantástico porque não está no horário deles,

não vejo o Gugu porque já morreu, não vejo o padre Donizetti porque virou beato, não vejo o Chico Xavier porque já desencarnou, não vejo um rabino porque não tenho sangue nem cacife para entrar na sinagoga, não vejo nenhum monge budista, nenhum aiatolá, nenhum babalaô porque ainda não escolheram a gente pra pastorear.

Finalmente, chego ao meu destino: o futebol. Agora sim! Tem pra todo mundo. Tem sub-20, sub-15, sub-17. Tem série A, série C, série B. Tem Libertadores e Sulamericana. Tem Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Tem campeonato Inglês, Francês, Espanhol, Italiano. Tem até futebol chinês.

Tem futebol alemão!

Tem copa do mundo de futebol de praia. Tem copa do mundo de futevolei. Tem campeão brasileiro de futebol de salão e de futebol-7. E das Américas e da Europa e já tá tendo da Ásia e os petrodólares estão chegando com tudo, é Emirades e Qatar pra todo lado(já chegaram à Argentina), e logo começa o Campeonato Paulista!

Antes tem a copinha. Nas férias, tem futebol com os amigos do Neymar.

Que bom que é ter diversidade, opções, né não?