Nas cidades grandes havia paralelepípedo. Não
havia asfalto no mundo. As estradas todas eram de terra, até as rodovias. Terra
pura, sem qualquer material que atenuasse a formação de barro durante as
chuvas. Um piso argiloso, inclinado e molhado escorrega que nem sabão. Vi o
início do fim desse mundo. Assisti, em 1968, das janelas do ginásio onde fazia
a primeira série, ao asfaltamento das ruas da praça da matriz.
Era, portanto, o mundo da mota. A mota reinava solitária no arsenal da
prefeitura para construção e conservação de estradas. Conhecida também por patrol, era um tratorzão
de seis rodas e uma lâmina entre elas, que assumia infinitos ângulos de corte.
Os pneus da frente esterçavam normalmente ou caíam de lado. O operador ficava
numa cabine bem elevada.
A mota aparecia na estrada umas duas vezes
por ano. Vinha raspando direto, deixando o piso perfeito até a próxima chuva.
Os buracos e valetas eram fechados pela terra raspada, sem qualquer
compactação. O dia da mota era uma festa, a criançada – e até adultos – corria para
ver a máquina trabalhando. Eu queria ser motorista de mota, quando crescesse.
Numas férias escolares de janeiro, veio um
menino da cidade passar uns dias num vizinho. Conviveu com a gente uns 15 dias.
Não tirava o calçado nem pra jogar bola. Tínhamos de confrontar as biqueiras de
suas congas com nossos dedões nus. Não matava passarinho porque era pecado, e
portanto não sabia jogar pedra de estilingue. Mijava escondido, não mostrava o
pinto nem pra nadar, que entrava na água de calção, coisa mais desinteligente.
Nós relevávamos tudo, a mania de lavar as
mãos antes de comer; a pronúncia cheia de esses e eles e erres; o uniforme
completo do Palmeiras – camisa nº 10 – que ostentava perante nossas calças e
camisas comuns de todos os dias nas peladas; seu medo de subir em árvores; seu
vocabulário isento de qualquer palavrão. Eu perdoava até sua mania de lavar a
boca após chupar manga. Até o dia que veio a mota.
- Olha! Uma moto-niveladora! Exclamou o
menino. Minha primeira surpresa positiva foi constatar que tínhamos um ponto em
comum: a admiração pela máquina. Mas, em seguida, pensei que eu admirava a mota
e ele, a moto-niveladora. Aquele palavrão para nomear minha ídola era demais.
Eu podia aceitar que ele falasse pênis e vagina – embora risse -; podia aceitar
que substituísse a “área suja” pela barreira, no futebol. Que dissesse que
couve pertencia ao gênero feminino. Mas moto-niveladora ultrapassava os limites
de qualquer tolerância. Menino mais besta!