sexta-feira, 24 de maio de 2019

DISINFILIZ


Disinfiliz. Rosto magro-cadáver, pele basso-amarelada, olhos fundo-opacos, orelhas grandes, manchas no nariz e na testa. Pelos saindo pela orelha e pelo nariz e sobre uma verruga no centro da face esquerda. Papada flácida, pescoço fino de veias salientes e esparsos pelos brancos sobre o enorme pomo-de-adão. Careca, os cabelos restantes ralos e cinzentos, barba raspada. Um homem velho, triste, imóvel, sentado atrás de uma escrivaninha pobre e desarrumada. Peito cavado, barriga saliente, um sujeito magro e barrigudo, adivinhava-se ainda que estivesse sentado. Senhor do estabelecimento, reservara um cantinho à guisa de escritório, com divisórias baixas e precárias. Desse canto, ao lado da única entrada, controlava a freguesia que entrava e saía e os empregados, jovens e mal pagos. Trata-se de estabelecimento tradicional, no ramo há mais de 50 anos, o homem se enterrou ali ainda jovem e deixou-se consumir. O corpo e o humor. É provável que tenha se tornado cético ali dentro, em contado com o produto que comercializa. É provável que tenha arruinado os pulmões ali dentro, inalando o ar saturado do pó e dos fungos típicos do produto que comercializa. É provável que tenha se tornado pessimista por causa do desprezo cada vez maior despertado pelo produto que comercializa. E o fato de comercializar produto usado deve ter exacerbado nele o atávico sentimento de inferioridade típico da sua gente. Entretanto, não deixou de desenvolver e praticar a malícia típica dos comerciantes da zona central da megalópole: nenhum entusiasmo com a clientela fora-do-padrão. Antes, a frieza calculada num dissimulado interesse, visando levar todas as vantagens e nenhuma sarna para se coçar: “deixa aí em cima, que a gente encaminha para uma instituição”, me falou, sem se levantar, lá de dentro do fundo da penumbra do seu cercado. Eu era um freguês que não comprava, mas doava dois exemplares para seu comércio. Melhor não facilitar comigo, porque eu poderia querer crescer para cima do seu estoque, transformando uma doação em troca ou, no mínimo, sair com o saldo credor de ter ajudado o comerciante decrépito. Nenhuma alegria, nenhuma graça, todo desinteresse, menos as pupilas, a saltarem luminosas lá do fundo do olhar mortiço. Um mundo e um negócio e uma vida desinteressante. Um homem desinteressado. Disinfiliz.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

Bolsonaro Enéas


Outra vez, Bolsonaro-Enéas. Não sei porque Dr. Bolsonaro me lembra o Enéas.
Ops! O contrário! O homem — o Enéas — era dotor de verdade. (porque houve outro Enéas famoso, centroavante da Portuguesa, jogou na seleção, década de 70).
Doutor Enéas era culto, ao menos lá em sua especialidade na medicina, escreveu “O Eletrocardiograma”, livro que pesa mais de 1Kg e seu menor preço, na Estante Virtual, é 170 reais.
Quase todos nós somos cultos em alguma coisa, conheço um sujeito que sabe tudo de canivete, meu pai entrava numa mata atlântica e dizia o nome de todas as árvores, cipós, arbustos… a cor da madeira, pra quê servia, se cupim roía…
Eu… eu… péra aí… parece que não sou culto em nada. Assim como o Bolsonaro.
Isso não tem importância, FHC também não é culto em nada, apesar da doutoria e da pós-doutoria e de enrolar em Francês, Inglês, Espanhol, Português…
Lula é culto em Política, apesar de estar preso por Política...
O filho do Bolsonaro, o nº 2 (ou seria o nº 1? ou o nº 3?) é culto em notícias ligeiras e direcionadas no submundo virtual, tanto que, segundo o pai, conseguiu eleger um poste — figurado — para presidente (disse, dia desses, que foi posto lá pelo filho).
Mas na vida, no boteco, na obra, na igreja, na pelada, estamos acostumados a nos deparar com homens e mulheres cultas, a indignarem-se com os pangarés lá das suas respectivas especialidades.
Doutor Enéas virou político instado por sua mulher que, segundo ele, não aguentava mais suas críticas aos políticos: “Então porque você não vai lá?”, tê-lo-ia desafiado ela… (gostei desse tê-lo-ia).
O número 2 (o filho, especialista em direcionamentos e massificações convenientes em redes sociais alienígenas e obscuras e digitais) fez diferente do que fez a mulher do Dr.Enéas. Sem qualquer instigamento, e de tanto ouvir as bravatas já devidamente deputadas do pai contra os políticos, mexeu os paus e os bits e os sites e os memes e os tuítes e os posts e botou o poste lá, pra ver no que dava.
Mas o poste, quando se viu no lugar, ficou apoplético. Sacanagem, você me fez, deixasse eu com minhas indignadas soluções de botequim, teria dito pai para filho, em desabafo não gravado.
Enfim, para ser Presidente da República, precisa ser culto em Política. Não somente. Culto e estabelecido na praça.