Disinfiliz.
Rosto magro-cadáver, pele basso-amarelada, olhos fundo-opacos,
orelhas grandes, manchas no nariz e na testa. Pelos saindo pela
orelha e pelo nariz e sobre uma verruga no centro da face esquerda.
Papada flácida, pescoço fino de veias salientes e esparsos pelos
brancos sobre o enorme pomo-de-adão. Careca, os cabelos restantes
ralos e cinzentos, barba raspada. Um homem velho, triste, imóvel,
sentado atrás de uma escrivaninha pobre e desarrumada. Peito cavado,
barriga saliente, um sujeito magro e barrigudo, adivinhava-se ainda
que estivesse sentado. Senhor do estabelecimento, reservara um
cantinho à guisa de escritório, com divisórias baixas e precárias.
Desse canto, ao lado da única entrada, controlava a freguesia que
entrava e saía e os empregados, jovens e mal pagos. Trata-se de
estabelecimento tradicional, no ramo há mais de 50 anos, o homem se
enterrou ali ainda jovem e deixou-se consumir. O corpo e o humor. É
provável que tenha se tornado cético ali dentro, em contado com o
produto que comercializa. É provável que tenha arruinado os pulmões
ali dentro, inalando o ar saturado do pó e dos fungos típicos do
produto que comercializa. É provável que tenha se tornado
pessimista por causa do desprezo cada vez maior despertado pelo
produto que comercializa. E o fato de comercializar produto usado
deve ter exacerbado nele o atávico sentimento de inferioridade
típico da sua gente. Entretanto, não deixou de desenvolver e
praticar a malícia típica dos comerciantes da zona central da
megalópole: nenhum entusiasmo com a clientela fora-do-padrão.
Antes, a frieza calculada num dissimulado interesse, visando levar
todas as vantagens e nenhuma sarna para se coçar: “deixa aí em
cima, que a gente encaminha para uma instituição”, me falou, sem
se levantar, lá de dentro do fundo da penumbra do seu cercado. Eu
era um freguês que não comprava, mas doava dois exemplares para seu
comércio. Melhor não facilitar comigo, porque eu poderia querer
crescer para cima do seu estoque, transformando uma doação em troca
ou, no mínimo, sair com o saldo credor de ter ajudado o comerciante
decrépito. Nenhuma alegria, nenhuma graça, todo desinteresse, menos
as pupilas, a saltarem luminosas lá do fundo do olhar mortiço. Um
mundo e um negócio e uma vida desinteressante. Um homem
desinteressado. Disinfiliz.
sexta-feira, 24 de maio de 2019
quinta-feira, 16 de maio de 2019
Bolsonaro Enéas
Outra
vez, Bolsonaro-Enéas. Não sei porque Dr. Bolsonaro me lembra o
Enéas.
Ops!
O contrário! O homem — o Enéas — era dotor de verdade. (porque
houve outro Enéas famoso, centroavante da Portuguesa, jogou na
seleção, década de 70).
Doutor
Enéas era culto, ao menos lá em sua especialidade na medicina,
escreveu “O Eletrocardiograma”, livro que pesa mais de 1Kg e seu
menor preço, na Estante Virtual, é 170 reais.
Quase
todos nós somos cultos em alguma coisa, conheço um sujeito que sabe
tudo de canivete, meu pai entrava numa mata atlântica e dizia o nome
de todas as árvores, cipós, arbustos… a cor da madeira, pra quê
servia, se cupim roía…
Eu…
eu… péra aí… parece que não sou culto em nada. Assim como o
Bolsonaro.
Isso
não tem importância, FHC também não é culto em nada, apesar da
doutoria e da pós-doutoria e de enrolar em Francês, Inglês,
Espanhol, Português…
Lula
é culto em Política, apesar de estar preso por Política...
O
filho do Bolsonaro, o nº 2 (ou seria o nº 1? ou o nº 3?) é culto
em notícias ligeiras e direcionadas no submundo virtual, tanto que,
segundo o pai, conseguiu eleger um poste — figurado — para
presidente (disse, dia desses, que foi posto lá pelo filho).
Mas
na vida, no boteco, na obra, na igreja, na pelada, estamos
acostumados a nos deparar com homens e mulheres cultas, a
indignarem-se com os pangarés lá das suas respectivas
especialidades.
Doutor
Enéas virou político instado por sua mulher que, segundo ele, não
aguentava mais suas críticas aos políticos: “Então porque você
não vai lá?”, tê-lo-ia desafiado ela… (gostei desse tê-lo-ia).
O
número 2 (o filho, especialista em direcionamentos e massificações
convenientes em redes sociais alienígenas e obscuras e digitais) fez
diferente do que fez a mulher do Dr.Enéas. Sem qualquer
instigamento, e de tanto ouvir as bravatas já devidamente deputadas
do pai contra os políticos, mexeu os paus e os bits e os sites e os
memes e os tuítes e os posts e botou o poste lá, pra ver no que
dava.
Mas
o poste, quando se viu no lugar, ficou apoplético. Sacanagem, você
me fez, deixasse eu com minhas indignadas soluções de botequim,
teria dito pai para filho, em desabafo não gravado.
Enfim,
para ser Presidente da República, precisa ser culto em Política.
Não somente. Culto e estabelecido na praça.
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