quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A ALEMOA.

Procuro um jantar, mas a essa hora a alemoa já fechou. Oito horas da noite. E nem sei se ela serve jantar. Acho que só almoço. “Ali em cima tem várias lanchonetes...”. Vou ver. De chinelo croc, bermuda azulada e camiseta vermelha e cabeça descoberta, minha passagem tem a mesma natureza da de um marciano. Jovens tomam cerveja. Homens não usam barba. Cowboys de chapéu e desodorante. Comem algo que não me interessa, salsichas, talvez. Sertanejos altos e universitários na caixa da brasília. Casais casando no canto do jardim. Arremedos de dança e pegação, debaixo do nariz da madona padrona na torre da matriz. A missa já acabou e alguns estão chegando, ainda com gosto de hóstia. Atravesso a muvuca e vou além. E encontro uma lanchonete-sorveteria que me agrada, mais lá longe. E peço um pão-com-ovo, mais popularmente conhecido como xis egue-salada. E recomendo: “Dêxa que o molho eu ponho, principalmente a maionese...”.
Mas agorinha, o que preciso mesmo é de uma cerveja, pra rebatê e acentuá a desidratação. A dona-atendente, que estava lá fora numa mesa, como se fora uma cliente, e entrou só pra me atender, sai rebolando em busca da cerveja urgente. Ô vida besta e boa, sô! Ela quer saber a marca. Ora, é tudo a lesma lerda, traz a que estiver mais perto.
E daí a pouco, no tempo exato, quando dei o último gole, chegou o sanduíche. E me ponho a comer pelas tabelas e lamber e limpar e tentar em vão abrir, com os dedos lambuzados, o sachê de quétixupi, e extrair adoidado guardanapos de papel da guardanapera e limpar e aparar e comer e me lambuzar, como se babasse, e tem hamburguer e ovo e muzzarella e alface e tomate e estou realmente entretido quando vejo o casal atravessando a rua.
A moça é uma alemoa alta e rochonchuda e o moço é um rapagão cor da terra, também alto e rechonchudo. Ela com um vestido de peça única, altura do joelho, cabelo preso do lado com uma borboleta de plástico, ele de tênis naique e gomalina no cabelo. Moram a duzentos metros daqui, um em cada casa, com as respectivas mães, que cozinham, lavam e passam, de graça e com amor, mas hoje querem gastar dinheiro na comida. A comida é cara, mas o moço paga, porque ele tá levando a namorada — quiçá noiva — pra comer fora e ela merece, porque além de bonita, é prendada e ele vai casar com ela e eles entram na lanchonete um segurando escrupulosamente a mão do outro e vice-versa e ele e ela já estão sossegados, porque um encontrou o outro e o outro encontrou o um e assim a vida se finda já toda estabelecida até o final dos tempos.

Mas não. Não vêm jantar. Vêm tomar a sobremesa. Um balde de sorvete pra cada um. Porque nesta cidade, todos tomam sorvete, toneladas de sorvete. Não, eles não aprenderam na escola que esse sorvete cremoso é uma bomba calórica, entupido de açúcar e gordura. Não, ninguém lhes avisou que, daqui a pouco, depois dos trinta, ela vai ficar balofa, sassaricando em sua cozinha pra lá e pra cá entre garrafas de cocacola e ele vai ficar balofo, acomodado o dia inteiro sentado na cabine envidraçada do trator em meio ao canavial. Mas, por enquanto, já lhes restam alguma esbeltez e a inocência da ignorância. E vejo o tempo e o mundo a girar curto e se repetir e quase me engasgo com o nó na garganta. (Crônicas de Guardanapo).

domingo, 26 de novembro de 2017

TELETELA.

Embevecida, a garçonete vê a notícia. Eu vejo a notícia, você vê a notícia, todo mundo vê a notícia, não tem como escapar da notícia do dia. Todo dia acontece algo muito, muito importante, que ninguém pode deixar de saber. Enquanto a moça fica pesarosa ou embasbacada em frente a TV, eu tento escapar dela — da TV —, viro pro outro lado mas, lá está outra TV, ligada na mesma estação. O narrador narra e enfatiza, que esse é o seu papel. E a moça se prostra em frente, sabe lá o que está pensando da tragédia do dia. Ela está trabalhando, e vendo a notícia, mas se estivesse no médico, no pronto-socorro, no supermercado, na rodoviária, no correio, no dentista, no banco, no metrô, no smartphone, no quarto, na sala, na cozinha, estaria vendo a mesma notícia. É uma coisa pesada, grave, ela realmente se preocupa e sente muito, mas não pode fazer nada. Aliás, não deve fazer nada. Enquanto ser passivo, ela não deve fazer nada. É isso que esperam dela e é essa a função dessas notícias urgentes e diárias. E ela sente muito de verdade, mas tem certeza que nada pode fazer, a julgar pela sua retirada pesarosa da frente da tela da TV. É uma mulher jovem, de boas carnes, parece saudável de corpo e boa de cabeça. O diabo é que essa moça, assim como o pessoal da cozinha e a mulher do balcão-caixa, são pessoas dinâmicas, criativas e eficientes, tanto que me serviram, em dois pratos — um grande e um pequeno —, uma travessa de inox e uma cumbuca de cerâmica, arroz, feijão, bife acebolado com fritas, salada de alface e tomate e, na cumbuca, farofa. Tudo cozido e temperado no ponto, na temperatura certa, na combinação certa, com os toques da salada crua e da farofa, uma combinação alimentar digna de pessoas inteligentes. Mas, diante da TV, a moça e seus colegas silenciam, passivos e compungidos. E eu engulo. (Da séria “Crônicas de Guardanapo”).

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

2 MIL KM, 85 CIDADES E 20 DIAS DEPOIS…

...eis me de volta ao aconchego, segurança e limites do meu lar.
Por que cê tá fazeno isso? Promessa?
Não. Pra arrumá o que fazê, mesmo. Procurá assunto, dá uma de gostoso, aparecê…
O senhor é aposentado?
E então, quando eu confirmava o que o interlocutor já tinha como certo, recebia aquela carga de inveja. Inveja de verdade, daquela encontrada por Dante num dos quintos dos infernos. Um sujeito novo ainda, cheio de saúde, a vagabundear por aí, dias e dias, almoçando e jantando todo dia, dormindo em hotéis.
O senhor não tem família?
Há, no imaginário popular, a ideia de que alguém que tem família não tem o direito de sair por aí, sozinho, gastando o suado dinheirinho egoisticamente, deixando os familiares desprotegidos.
O povo pensa que todo aposentado tem ou deveria ter saúde precária. E que todo aposentado não ganha o suficiente nem pras despesas fundamentais. E pensa também que todo sujeito que recebe dinheiro do governo todo mês, sem trabalhar, é um privilegiado. O povo pensa tudo isso baseado na realidade em que vive. Porque, de fato, a maioria só consegue algum benefício do governo ali pela hora da morte.
Um aposentado de verdade, com disposição para viajar de bicicleta e dinheiro para pagar almoço e hotel, é quase um marajá, nesse nosso mundão de Deus. Precisamos entender que vivemos num país cultural e tecnologicamente dependente, de economia associada e subalterna e pobre. Os políticos e o povo e as ideias e os aposentados sempre serão subprodutos desse subdesenvolvimento.

Após dois mil quilômetros, oitenta e cinco cidades e vinte dias a traçar um triângulo retângulo pelo Estado de São Paulo (São Paulo – Santa Fé do Sul – Presidente Epitácio – São Paulo); após quinhentos quilômetros de estradas vicinais em terra e mais de mil de vicinais asfaltadas; após constatar que as mangas caipiras amadurecem mais cedo no norte que no sul do estado, após consertar três vezes o pneu furado...
Após uns 10 presídios e outras tantas usinas de produção de etanol e canavial por toda parte...

 ...estou achando que nosso país deveria se chamar Capitanias Hereditárias do Brasil. Porque as tais capitanias determinaram nosso presente.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DEUS É FIEL, EM SOROCABA.

(da série “Crônicas de Guardanapo”).
Bici lá fora, no meio-fio da Av.Ipanema, debaixo do sol do meio-dia, enquanto eu esperava o prato-feito no restaurante em que Deus é fiel. Nenhuma onda, nenhuma árvore, nem praia, nem floresta. Era Sorocaba, aqui na zona da...sorocabana!, interior de São Paulo. A avenida Ipanema é o prolongamento da estrada vicinal que vem de Iperó, que passa ao lado da Floresta Nacional de Ipanema, uma mata cheia de história duns 10 Km de extensão.
Era um desses locais puros, que só abrem para o almoço e servem um único prato já montado. O freguês só escolhe a mistura, coisa de três ou quatro opções. Bem do jeito que eu queria, nada de self-service, comida por quilo, essas coisas. Porque eu já tava farto de self-service, prático e variado demais pro meu gosto e que virou praga no mundo. E ainda vão piorando, com a moda do “coma a vontade”, sendo que nunca tive vontade de comer vontade nenhuma.
O problema desse restaurante era que, nele, Deus era fiel. Ao menos, estava escrito a giz, ao final das opções de mistura, numa lousa-cavalete na entrada. Mas o sol estava quente, eu estava cansado do terrível trecho em que acabara de pedalar, e o resto casava tão direitinho com as minhas necessidades, que acreditei assim mesmo.
Era pequeno, havia umas 10 mesas de dois lugares e eu aguardava o PF sozinho, nenhum outro freguês. De repente, um carrão parou na porta, quase atropelando a Bici, e dele desceu uma dona exuberante com um decote generoso e um escandaloso salto quinze no sapato, que entrou e se sentou em outra mesa, sem que nem ela nem ninguém da casa pedissem ou servissem algo. Daí a pouco se juntou a ela, na mesa, um homem bem mais velho, desses de óculos escuros e corrente e pulseira de um metal amarelo-lustroso.
Parece que eu fora o primeiro freguês do dia, porque, daí a pouco, entraram dois homens elegantes de corpos e vestes e se sentaram na mesma mesa, segurando um na mão do outro e falando baixo. Foi por essa hora que meu PF chegou, trazido por uma senhora curtida de sol e de tempo, mas de traços bem expressivos, com jeito de cozinheira e dona. O feijão estava no ponto, grãos inteiros e bem cozidos, quase nenhum caldo. O arroz do lado estava bom, mas eu e minha fome comeríamos o dobro. Sendo que o PF não era bem um PF, porque acompanhava mais dois pratinhos, um com uma salada com toques de trigo e outro com o filé de pescada frito.

Entretanto, comi e fiquei satisfeito. Tudo muito discreto, simples e refinado, não fora a humana e escrita declaração da fidelidade divina. Ao contrário do “coma três, pague dois” dos desesperados que proliferam no comércio da fome, nenhum preço escrito em lugar nenhum. Dirigi-me ao caixa, já conformado com a facada. Então vi uma imagem da Nossa Senhora Aparecida sobre o balcão. E fiquei mais desconcertado ainda quando tive de pagar apenas 10 reais. O ícone dos católicos convivendo pacificamente com o bordão dos crentes e uma freguesia nada convencional nem conservadora. Saí rápido, porque aquilo tava cheirando a covil de irônicos materialistas.