...eis
me de volta ao aconchego, segurança e limites do meu lar.
— Por
que cê tá fazeno isso? Promessa?
— Não.
Pra arrumá o que fazê, mesmo. Procurá assunto, dá uma de gostoso,
aparecê…
— O
senhor é aposentado?
E
então, quando eu confirmava o que o interlocutor já tinha como
certo, recebia aquela carga de inveja. Inveja de verdade, daquela
encontrada por Dante num dos quintos dos infernos. Um sujeito novo
ainda, cheio de saúde, a vagabundear por aí, dias e dias, almoçando
e jantando todo dia, dormindo em hotéis.
— O
senhor não tem família?
Há,
no imaginário popular, a ideia de que alguém que tem família não
tem o direito de sair por aí, sozinho, gastando o suado dinheirinho
egoisticamente, deixando os familiares desprotegidos.
O
povo pensa que todo aposentado tem ou deveria ter saúde precária. E
que todo aposentado não ganha o suficiente nem pras despesas
fundamentais. E pensa também que todo sujeito que recebe dinheiro do
governo todo mês, sem trabalhar, é um privilegiado. O povo pensa
tudo isso baseado na realidade em que vive. Porque, de fato, a
maioria só consegue algum benefício do governo ali pela hora da
morte.
Um
aposentado de verdade, com disposição para viajar de bicicleta e
dinheiro para pagar almoço e hotel, é quase um marajá, nesse nosso
mundão de Deus. Precisamos entender que vivemos num país cultural e
tecnologicamente dependente, de economia associada e subalterna e
pobre. Os políticos e o povo e as ideias e os aposentados sempre
serão subprodutos desse subdesenvolvimento.
Após
dois mil quilômetros, oitenta e cinco cidades e vinte dias a traçar
um triângulo retângulo pelo Estado de São Paulo (São Paulo –
Santa Fé do Sul – Presidente Epitácio – São Paulo); após
quinhentos quilômetros de estradas vicinais em terra e mais de mil
de vicinais asfaltadas; após constatar que as mangas caipiras
amadurecem mais cedo no norte que no sul do estado, após consertar
três vezes o pneu furado...
Após uns 10 presídios e outras tantas usinas de produção de etanol e canavial por toda parte...
...estou achando que nosso país deveria se chamar Capitanias Hereditárias do Brasil. Porque as tais capitanias determinaram nosso presente.
Após uns 10 presídios e outras tantas usinas de produção de etanol e canavial por toda parte...
...estou achando que nosso país deveria se chamar Capitanias Hereditárias do Brasil. Porque as tais capitanias determinaram nosso presente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário