sexta-feira, 24 de novembro de 2017

2 MIL KM, 85 CIDADES E 20 DIAS DEPOIS…

...eis me de volta ao aconchego, segurança e limites do meu lar.
Por que cê tá fazeno isso? Promessa?
Não. Pra arrumá o que fazê, mesmo. Procurá assunto, dá uma de gostoso, aparecê…
O senhor é aposentado?
E então, quando eu confirmava o que o interlocutor já tinha como certo, recebia aquela carga de inveja. Inveja de verdade, daquela encontrada por Dante num dos quintos dos infernos. Um sujeito novo ainda, cheio de saúde, a vagabundear por aí, dias e dias, almoçando e jantando todo dia, dormindo em hotéis.
O senhor não tem família?
Há, no imaginário popular, a ideia de que alguém que tem família não tem o direito de sair por aí, sozinho, gastando o suado dinheirinho egoisticamente, deixando os familiares desprotegidos.
O povo pensa que todo aposentado tem ou deveria ter saúde precária. E que todo aposentado não ganha o suficiente nem pras despesas fundamentais. E pensa também que todo sujeito que recebe dinheiro do governo todo mês, sem trabalhar, é um privilegiado. O povo pensa tudo isso baseado na realidade em que vive. Porque, de fato, a maioria só consegue algum benefício do governo ali pela hora da morte.
Um aposentado de verdade, com disposição para viajar de bicicleta e dinheiro para pagar almoço e hotel, é quase um marajá, nesse nosso mundão de Deus. Precisamos entender que vivemos num país cultural e tecnologicamente dependente, de economia associada e subalterna e pobre. Os políticos e o povo e as ideias e os aposentados sempre serão subprodutos desse subdesenvolvimento.

Após dois mil quilômetros, oitenta e cinco cidades e vinte dias a traçar um triângulo retângulo pelo Estado de São Paulo (São Paulo – Santa Fé do Sul – Presidente Epitácio – São Paulo); após quinhentos quilômetros de estradas vicinais em terra e mais de mil de vicinais asfaltadas; após constatar que as mangas caipiras amadurecem mais cedo no norte que no sul do estado, após consertar três vezes o pneu furado...
Após uns 10 presídios e outras tantas usinas de produção de etanol e canavial por toda parte...

 ...estou achando que nosso país deveria se chamar Capitanias Hereditárias do Brasil. Porque as tais capitanias determinaram nosso presente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário