Procuro
um jantar, mas a essa hora a alemoa já fechou. Oito horas da noite.
E nem sei se ela serve jantar. Acho que só almoço. “Ali em cima
tem várias lanchonetes...”. Vou ver. De chinelo croc, bermuda
azulada e camiseta vermelha e cabeça descoberta, minha passagem tem
a mesma natureza da de um marciano. Jovens tomam cerveja. Homens não
usam barba. Cowboys de chapéu e desodorante. Comem algo que não me
interessa, salsichas, talvez. Sertanejos altos e universitários na
caixa da brasília. Casais casando no canto do jardim. Arremedos de
dança e pegação, debaixo do nariz da madona padrona na torre da
matriz. A missa já acabou e alguns estão chegando, ainda com gosto
de hóstia. Atravesso a muvuca e vou além. E encontro uma
lanchonete-sorveteria que me agrada, mais lá longe. E peço um
pão-com-ovo, mais popularmente conhecido como xis egue-salada. E
recomendo: “Dêxa que o molho eu ponho, principalmente a
maionese...”.
Mas
agorinha, o que preciso mesmo é de uma cerveja, pra rebatê e
acentuá a desidratação. A dona-atendente, que estava lá fora numa
mesa, como se fora uma cliente, e entrou só pra me atender, sai
rebolando em busca da cerveja urgente. Ô vida besta e boa, sô! Ela
quer saber a marca. Ora, é tudo a lesma lerda, traz a que estiver
mais perto.
E
daí a pouco, no tempo exato, quando dei o último gole, chegou o
sanduíche. E me ponho a comer pelas tabelas e lamber e limpar e
tentar em vão abrir, com os dedos lambuzados, o sachê de quétixupi,
e extrair adoidado guardanapos de papel da guardanapera e limpar e
aparar e comer e me lambuzar, como se babasse, e tem hamburguer e ovo
e muzzarella e alface e tomate e estou realmente entretido quando
vejo o casal atravessando a rua.
A
moça é uma alemoa alta e rochonchuda e o moço é um rapagão cor
da terra, também alto e rechonchudo. Ela com um vestido de peça
única, altura do joelho, cabelo preso do lado com uma borboleta de
plástico, ele de tênis naique e gomalina no cabelo. Moram a
duzentos metros daqui, um em cada casa, com as respectivas mães, que
cozinham, lavam e passam, de graça e com amor, mas hoje querem
gastar dinheiro na comida. A comida é cara, mas o moço paga, porque
ele tá levando a namorada — quiçá noiva — pra comer fora e ela
merece, porque além de bonita, é prendada e ele vai casar com ela e
eles entram na lanchonete um segurando escrupulosamente a mão do
outro e vice-versa e ele e ela já estão sossegados, porque um
encontrou o outro e o outro encontrou o um e assim a vida se finda já
toda estabelecida até o final dos tempos.
Mas
não. Não vêm jantar. Vêm tomar a sobremesa. Um balde de sorvete
pra cada um. Porque nesta cidade, todos tomam sorvete, toneladas de sorvete. Não, eles não
aprenderam na escola que esse sorvete cremoso é uma bomba calórica,
entupido de açúcar e gordura. Não, ninguém lhes avisou que, daqui
a pouco, depois dos trinta, ela vai ficar balofa, sassaricando em sua
cozinha pra lá e pra cá entre garrafas de cocacola e ele vai ficar
balofo, acomodado o dia inteiro sentado na cabine envidraçada do
trator em meio ao canavial. Mas, por enquanto, já lhes restam alguma
esbeltez e a inocência da ignorância. E vejo o tempo e o mundo a girar curto e se
repetir e quase me engasgo com o nó na garganta. (Crônicas de
Guardanapo).
Nenhum comentário:
Postar um comentário