domingo, 27 de dezembro de 2020

MATUTO.

 Só quando a balconista perguntou, parecendo indignada, cadê os pires? foi que notei o cliente ao meu lado, no balcão da Ferragens Campeão. Lembrei então que o havia encontrado num dos corredores do armazém, instantes atrás, levando três xícaras em cada mão, enfiadas nos dedos como se fossem dedais.

Era um senhor assim, meu contemporâneo, quero dizer, da minha idade e tão matuto quanto eu, a julgar pelo vexame que estava passando diante da balconista estupefata. É que ele pretendia levar meia dúzia de xícaras de louça para café, brancas, clássicas sem os pires, porém; e isso a balconista não admitia.

(um parêntese para questionar o seguinte: por que nunca compramos 1 ou 2 ou 3 ou 4 ou 7 ou 9 xícaras, mas sempre 6 ou 12?)

A balconista não admitia menos por causa da regra da loja do que por causa da etiqueta própria, que não admitia tomar café numa xícara sem o respectivo pires por baixo. Porque, de fato, era regra da loja vender o conjunto, ou seja, xícara e pires. Mas o homem queria só as xícaras.

Eu, do meu canto, assistindo à cena de esguelha, não sabia se ria ou se chorava, com a caipirisse insistente do meu conterrâneo; só podia ser meu conterrâneo, aquela lá, ter saído do mesmo fundo de mundo que eu, aquele cidadão que, apesar de viver há tanto tempo na cidade — pelo jeitão —, ainda não aprendera que, na hora de tomar café, o pires é tão importante quanto a xícara.

Da minha parte, aquele início de admiração pela sensibilidade de comprar xícaras numa casa de ferragens se esvaíra por completo. No lugar do homem, daria uma de desentendido, mandaria baixar também os fatídicos e imprescindíveis pires, e ainda diria, para sossegar a moça: oh, meu deus, mas claro! Os pires!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

INIMIGO.

 

INIMIGO. Ia escrever “Inimigo Mortal”, mas entendi que, se é inimigo, é mortal. Não fora mortal, seria adversário. Ou oponente. Ou desafeto, como noticiou o jornal de Jales, SP, sobre a morte do seu fundador: “o engenheiro Euphly Jalles se encontrou nas proximidades de uma loja de material de construção de Rio Preto com seu desafeto Lavínio Lucchesi, advogado…” Mas não era apenas desafeto, era inimigo porque, no entrevero, houve tiros e Jalles foi baleado. Já Roberto Azeda pensava que Vicente Carlos Batista era apenas mais um freguês, mas de tanto ser freguês tornou-se inimigo, porque, ao encontrarem-se no interior da agência do Bradesco em Guaraci, SP, onde Azeda era prefeito, Batista sacou um revólver e baleou Azeda.

A primeira notícia é de 1965 e a segunda, de 1983. Trata-se da crônica política em minha terra natal, o noroeste do Estado de São Paulo onde, há apenas 100 anos havia índios do tempo de Cabral.

Aí a gente vai às contra-notícias e descobre que ambos baleados eram agressivos loteadores de terras. Agressivos no sentido de intensos, atuantes, fanáticos pelo negócio… E fica sabendo que um era acusado por grilagens de terra e expulsão de posseiros e outro, de manipulações legais/cartoriais com titularidades de terras.

O fato é que os baleados fizeram, ambos, querendo ou não, sabendo ou não, ao menos um inimigo cada. Inimigo de verdade, daquele que, quando encontra, ou mata ou morre.

Quando é que a gente faz um inimigo? Quando a gente vai fundo no próprio interesse. Quando a gente radicaliza nosso egoísmo. Quando a gente elimina qualquer possibilidade de aplicação da empatia em relação ao outro. Quando a gente não sabe nem quer saber e tem raiva de quem sabe.

Eu, se tivesse um inimigo, nem saía de casa. E mandava blindar a porta. E ainda diria “bem-feito para você (diria a mim mesmo), que não cuidou para que jamais fizesse um inimigo”.


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

INFRAESTRUTURA & SUPERESTRUTURA.

 Sim, tô sabeno que um alemão brilhante, há uns 150 anos, escreveu que as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Também andei lendo uns troços sobre infraestrutura e superestrutura, esta dependendo daquela, um negócio meio sem escapatória quando vivemos em sociedade. Mas, me parece que nós brasileiros exageramos.


É impressionante o nível da nossa identidade ideológica, sua uniformidade e homogeneidade, quase um totalitarismo de visão de mundo. Seja preto, seja branco ou amarelo, até os índios comungam dessa visão única das coisas.

Aqui, até os descendentes dos japoneses e chineses querem ir para o céu, quando morrerem, se deus quiser e a virgem maria ajudar.

Aqui, toda mãe, more na favela ou num apê em Pinheiros, aconselha o filho a estudar, para arranjar um bom emprego ou, enfim, subir na vida. Aqui, só não é meritocrata aquele 0,1% lá do topo — que nunca vi, mas sei que existe — que, faça chuva, faça sol, está condenado a viver de dividendos até a 10ª geração.

Todo mundo joga lixo na rua sem consciência da barbaridade que está fazendo. Sei que você, que está me lendo, não joga, mas saiba que você é um bicho raro, que nem conta. Afinal, a rua não é a casa, tenho vergonha da sujeira da minha casa, não da sujeira da rua ou do rio e o aterro sanitário nem sei onde fica.

Se puder, todo mundo tira uma casquinha do patrimônio público, desde um material ou equipamento ou serviço de graça até um emprego pouco exigente.

Aqui, toda violência é porque tem pouca polícia, o espaço público é hostil por natureza e aquele desconhecido que vem vindo ali é, no mínimo, suspeito.

Aqui, caro é sinônimo de bom; consumidor é sinônimo de cidadão. E cidadania é palavrão.

As pessoas são todas caridosas, nunca deixam um mendigo na mão na via pública. A caridade, essa ação entre desiguais, é muito valorizada aqui. De preferência com alguma publicidade, para contradizer o Jesus tão formalmente venerado.

Mas a solidariedade, aquela ação entre iguais, é coisa de comunista! Quem mandou o igual não estudar, não poupar, não pagar a previdência, não rezar, não se esforçar?

Ah, mas gostamos de fazer favor, esse investimento… gostamos de cultivar um igual como subalterno. Prezamos a amizade de um poderoso…

Aqui, todo mundo quer ter um carro e se transportar ordinariamente com ele. Não é casual o olhar enviesado para o ciclista (e todo pedestre é um desclassificado). E se o povo sabe que esse ciclista tem dinheiro para comprar um carro, o veem como um desajustado.

Livros em casa só servem para ajuntar ácaros e, além do mais, são muito caros… Cultura e coletividade são bichos exóticos.

O político é um cidadão esperto (vagabundo ou incapaz) que quer se aproveitar da coisa pública, daí porque vira herói ou vilão, se ganha ou perde.

No Brasil, comunista é maçom e acredita em deus.

É impressionante a identidade de sonhos entre pretos e brancos, ricos e pobres, patrões e empregados, petistas e tucanos.

Tudo bem, é difícil fugir das condicionantes avassaladoras que nos soterram, mas, acho, até aquele alemão a que me referi ficaria perplexo com nossa convicção.

Para finalizar (lacrar): aqui, todo mundo joga na loteria!


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

SOBRETUDO & TODAVIA.

 

 Para se atravessar o Anhangabaú o certo é pelo Viaduto do Chá. Não sei porque, fui pelo Santa Ifigênia. Foi pura coincidência, então, encontrar a dupla de músicos lá no centro do viaduto, ocupando a faixa central do charmoso calçadão em que não passa carro. Só por causa daquele piso já vale o desvio de quase um quilômetro para atravessar o vale. Além do mais, o Mosteiro de São Bento, que fica em sua porta, é muito mais instigante do que a sede da prefeitura, que guarda a entrada do outro, mais rápido.

De longe, fui assuntando o som. Eu, que não tenho ouvido musical (nem literal), senti as ondas desconsagradas que o burburinho lá na frente produzia, considerando que, de longe, ainda não sabia que era uma dupla. Aquilo tava parecendo uma mistura de jacaré com caninana. Diabeísso…?

Fui chegando, era um preto e um branco. Uma rabeca e uma cuíca. Sendo que quem tocava a cuíca era o branco. E o preto tinha uma mão que, além de grande e redonda, era bege de um lado e branca do outro, parecendo um pandeiro.

Em se tratando de uma apresentação na via pública, meu espírito estava desarmado de qualquer preconceito, mas tudo neste mundo tem limites, e fui percebendo, à medida que me acercava da função, o atentado ao pudor daqueles dois profanos: se desafiavam, à moda dos repentistas nordestinos. Na vez do cuiqueiro, tudo bem, mas na vez do rabequeiro, era um sofrimento do pobre, para tocar e cantar ao mesmo tempo.

A ousadia na combinação dos instrumentos continuava no posicionamento dos dois: um cantava virado para a zona norte e o outro, para a zona sul. Constatei, porém, ao chegar perto, que era a necessidade a mãe da inusitada coreografia. É que havia, debaixo dos olhos de cada um, como que delimitando o palco, longitudinais à passarela, dois troncos de um metro de comprimento cada deitados no chão, com o lado de cima escavado como se fora um cocho e onde se viam moedas e notas de dois reais.

Escrito no cocho do lado da zona sul, vi que a dupla se chamava Ateu & Atônito, que achei sensato, tanto que pinguei 5 reais, para desafinar o gravissimo das azuis notas mínimas. Notei, apesar do ouvido, que o ritmo passou do andante para o allegro.

Ah, sim, não via problema algum no fato de se desafiarem ao ritmo do canto gregoriano. De vez em quando, trocavam de visada: o que estava olhando para o norte virava para o sul e vice-versa, como para lembrar uma dança.

Dei a volta; no cocho do outro lado, vi que a dupla também se chamava Sobretudo & Todavia. Então discordei gravemente de tamanha falta de convicção e só não voltei para resgatar meus 5 reais máximos e destoantes de medo de ser acusado de ladrão pelo vigilante da vez.






terça-feira, 10 de novembro de 2020

AMAPÁ.

 

MAPA DE LÁ.


Sabia que o Amapá fica do lado de lá? Do lado de lá da Linha do Equador. Isso não é pouca coisa. Por exemplo, quando a gente, metaforicamente, se referir aos povos desenvolvidos do Hemisfério Norte, sem querer estamos metendo o Amapá no meio. Porque quase todo o Amapá fica do lado de cima do mundo.


Cá entre nós, esfera tem lado? Mas você entendeu. Mas fique sabendo que aquele mapa não existe, é pura convenção. Mas a Linha do Equador existe. É onde a esfera faz a curva. Opa, mas a esfera não é uma curva infinda? É, mas tem um ponto culminante, em relação ao sol, por causa da direção do eixo imaginário sobre o qual gira. O fato é que, quando no Maranhão é inverno, no Amapá é verão. E quando no Maranhão é verão, no Amapá é inverno. Se é que dá para usar a palavra inverno no Maranhão ou no Amapá…


O Amapá fica do lado de lá do rio. Sim, rio! O Amazonas! E faz divisa com a França. Que inveja! São Paulo faz divisa com o Paraguai, o Amapá com a França. Acho que é por isso que o Amapá tem a estranha capacidade de exercer a presidência do nosso poderoso Congresso Nacional. De memória, cito dois: Sarney e Alcolumbre. E nas lides partidárias, o Amapá também brilha: Randolfe Rodrigues é liderança do REDE. Acho que isso é herança francesa.


Mas a empresa que gerencia a energia do Amapá é espanhola. Tremenda mancada, onde já se viu deixar espanhol cuidar de interesse francês?! Tá explicado! Esse colapso energético ocorrido lá é vingança dos espanhóis contra os franceses.


Fico pensando se não era bom viver num lugar esquecido do mundo. Um lugar que fica do lado de lá.



terça-feira, 14 de julho de 2020

PROUST e a BÍBLIA.

Após 3 meses, cheguei ao final do calhamaço do Proust. E, quer saber? Não acho que foi tempo perdido, apesar de não ter recuperado tempo algum, embora estivesse Em busca do tempo perdido. Durante esses 90 dias, li o romance em 68 deles, 50 páginas por dia em média. Ao final, 3500 páginas. Muitas vezes injuriado com o martelete do narrador, que bombardeia detalhes e descobre facetas dos mínimos fatos, confesso que, nos dois primeiros volumes, quase desisti. A partir do terceiro, o estilo minucioso e insistente, mas elegante e coerente, da narrativa, me pegou e a leitura tornou-se prazerosa, o que não impedia de, às vezes, fazer uma leitura mais dinâmica sobre alguns trechos. Terminei a empreitada diferente, um pouco menos pobre. Sim, é como abrir uma picada, a leitura do romance Em busca do tempo perdido, do Proust. Vamos derrubando os troncos e roçando os arbustos. É cansativo, mas quando saímos do outro lado, somos um pouco menos ignorantes sobre a mata.
Terminei a leitura, fiz o textão, que divulguei e, de repente, senti algo me cutucando: quantas vezes a Bíblia é maior que o Em busca do tempo perdido? “Deve ser bem maior, pensei”. Ora, mas é fácil ver. Peguei o exemplar que tenho aqui e vi que, em média, cada página dela tem 40 linhas de 60 caracteres cada. Ela tem 2167 páginas. Isso dá 5.200.000 caracteres. O Em busca do tempo perdido tem 7.400.000 caracteres. Isso significa que o catatau do Proust é 40% maior do que a Bíblia! E que, se gastei 68 dias de 3 meses para lê-lo, gastaria 50 dias de 2 meses e uma semana para a Bíblia (eis um dos meus métodos de automotivação para leituras…).
Diabos! Por que essa comparação entre o EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO e a BÍBLIA? Se são como o dia e a noite, a água e o óleo. Aquele é laico, esta é religiosa. Aquele tem apenas um narrador e seu mundinho, ruminado em finíssimas partículas, durante uma curta vida humana, no país da Revolução burguesa; esta tem pai, filho e espírito e uma centena de assessores e pretende narrar uma vida inteira da… Humanidade, no Planeta e Além. O primeiro tem um estilo único e elegante, a segunda é uma miscelânea de personagens e narrativas diversas. Aquele é inspirado pelo subconsciente de um homem, esta é inspirada por um extra-humano, dizem os adeptos. Esta e aquele são famosos, muita gente já ouviu falar deles, mas poucos os leram. Ambos têm mais comentaristas do que leitores. Porém, a Bíblia tem muito mais história, literal e literária.
Mas, acontece que já li a Bíblia. Sim, de cabo a rabo, do Gênese ao Apocalipse. Faz muito tempo. Querendo me catequizar, minha mulher deixou uma Bíblia na cabeceira da nossa cama. Eu fazia de conta que não via. Quando ia fazer limpeza, tinha aqueles 2 Kg de papel cheio de quinas atrapalhando o trânsito do pano. Assim como o rato cheirando o queijo da ratoeira, peguei certo dia o volume, pesei, cheirei, folheei. Li a capa, a contracapa, os dados da editora, a apresentação. Edição impecável. Quem gosta de ler, às vezes lê um livro só por causa da sua edição impecável. Da mesma forma, deixa de ler, quando a edição é mal feita.
Pensei: quer saber? Vou ler essa bagaça. E li, inteirinha. Faz tempo, não me recordo quanto tempo gastei. Mas li como um leitor desinteressado, só por causa do desaforo. Não tomei nota alguma, exceto uns 4 ou 5 trechinhos convenientes, que tive o capricho de deixar anotados num papelzinho, à guisa de marcador de página. Em poucos dias, a Bíblia desapareceu da cabeceira da nossa cama. Minha mulher queria me converter mas acho que o tiro saiu pela culatra. Desconfio que eu que converti ela.
Quer dizer, depois de adulto, ninguém admite uma mudança desse quilate. O sujeito desacredita, perde a ilusão, muda de seita, mas fica na moita, sendo que essa moita, em geral, é seu subconsciente. Não estou falando daqueles velhos sacanas, que, às portas da morte, se danam a rezar feito o capeta…, nem dos hipócritas. O fato é que minha mulher descartou aquele exemplar profanado e arranjou outro. Este, é uma obra-prima literária, um verdadeiro monumento editorial, com notas de rodapé ocupando cerca de 20% de todas as páginas, notas introdutórias a todos os capítulos, subtítulos, tabelas, mapas . Tô falando da Bíblia de Jerusalém, edição de 2002 da Paulus, editora da Igreja Católica.
É uma edição crítica. A primeira edição crítica que vi na vida foi a de Macunaíma, da Telê Porto Ancona Lopes. Fiquei maravilhado. A função dos textos de ficção é engabelar o leitor. E a das edições críticas é desengabelá-lo. Confesso que me deu vontade de ler novamente a Bíblia, nessa nova edição. Claro que, agora, como leitor rigoroso e chato. Mais chato que rigoroso. E, depois, produzir um textão provocador. Até porque, fiquei pensando, editar a Bíblia com esse rigor literário e editorial é coisa de gente não religiosa. Ou de gente religiosa, mas de absoluta honestidade intelectual, coisa rara que precisa ser valorizada.
[Mas, com uma Bíblia dessa, com tanta explicação, qual fiel que aguenta? Não tem fé que suporta tanto esclarecimento. Eu acho que isso explica a fuga de fiéis do catolicismo para o neopentecostalismo e o crescimento de seitas conservadoras dentro da igreja católica. Porque o populacho não quer esclarecimento; o populacho quer milagre. Quanto mais obscuro e misterioso, melhor. O populacho quer, literalmente, que as coisas caiam do céu. E, se não caírem, não tem importância: Cristo vem aí (conforme avisa e ameaça a penúltima linha do tijolão - Ap 22,20).].


sexta-feira, 10 de julho de 2020

FILHO DA PUTA!

FIADAPUTA.

Minha amiga mineira Maria das Graças, puta da vida com nosso puto-mór, teceu comentários, recentemente, sobre algumas espécies de filhadaputas encontrados em sua terra. Isso lembrou a minha, pertim do Triângulo Mineiro.

Lá, a gente falava fiadaputa. Ainda que fosse homem, fiadaputa. Aliás, fiadaputa não tinha nada a ver com a mãe do fiadaputa. Fiadaputa era uma palavra só, específica, com significado próprio, sem nada a ver com fia/fio/filha/filho ou da ou puta. Inclusive, era muito comum qualificar o próprio irmão de fiadaputa. E não raro, o que torna irrefutável essa minha informação histórica e geográfica e etimológica, a própria mãe qualificava seu filho de fiadaputa. Em suma: fiadaputa era um xingo leve, nada a ver com a filhadaputice desse filho da puta.

Minha amiga diz que, em sua terra, os mais pudorados falam feadasunha. Então, lá na minha terra, só tem gente despudorada, porque todos, até as mais católicas, falam fiadaputa, sendo puta mesmo, sem qualquer jogo consonantal. Agora, quando se trata dum fiadaputa bem fiadaputa, então se gasta o latim e falamos filhadaputa. Quando o puto ou a puta ouve esse fiadaputa especial, aí ele treme nas bases. Porque, além da exatidão escorreita do mais elevado vernáculo, esse fiadaputa é pronunciado devagar, com as sílabas bem divididas, todas acentuadas: fí lhá dá pú ta! Como o fiadaputa não tem nada a ver com a mãe do cujo, então temos aqui, acho que único no mundo linguístico, um eufemismo de xingo, ou um xingo hermafrodita, de filho e mãe contidos no mesmo indivíduo. Trata-se, portanto, de um simples puto (ou puta) que dizemos fiadaputa. Você, então, poderia pensar que a língua lá da minha terra está em processo de evolução e logo, logo, di-lo-emos apenas Puta! (ou Puto!). Mas não. Esse nosso fiadaputa nunca esteve tão arraigado, tão irremovível. É um grande filho de uma puta convicto.

Então, todo fiadaputa não era levado a sério. Até o fí lhá dá pú ta! bem escanhoado, solfejado no capricho, não gerava maiores desentendimentos, além de uma pequena mágoa no puto-destinatário, nada que abalasse a amizade. Mas a coisa complicava quando o xingador inovava, através de qualquer mudança no gênero ou na forma do xingo ou introdução de qualquer artigo ou preposição ou qualificativo nele. Por exemplo, sendo o puto-destinatário do sexo masculino e o xingador concordasse o xingo com seu gênero e dissesse fiodaputa. O puto logo sentia aquele fio masculino e ficava puto de verdade. Se o xingador transformasse a palavra simples fiadaputa em palavra composta fia-da-puta, isso também se poderia resultar em alguns sopapos. Claro que havia os desavisados, os ingênuos, os desacreditados e os gagos(aprendi esses encadeamentos com o Proust), que sofriam os devidos descontos ao se utilizarem de uma dessas variantes mais graves. Em se tratando do nosso fiadaputa, não havia ninguém inocente, desinformado quanto ao decoro de se usar esta ou aquela forma. Por isso, quando o usuário transformava a inocente palavra simples num verdadeiro enunciado, introduzindo o artigo indefinido uma antes da puta, e afastando um pouco mais umas das outras as componentes da composição: filho - de - uma - puta !, era morte na certa. Da mesma forma, se matava e se morria, quando o simples fiadaputa era qualificado: grande fiadaputa; o maió fiadaputa; fiadaputa de merda; fiadaputa do cacete.
Inovações do tipo filho duma putana, filho de uma rapariga, filho de uma chocadeira, filho duma égua, filho da muléstia, não eram levadas em conta ou a sério, eram desconsideradas, coisa de literatos ou de gente de fora. Da mesma forma, quando um desconhecido nos desqualificava com qualquer modalidade do fiadaputa, não era levado a sério. Primeiro, porque desconhecia nosso protocolo e, se restava qualquer dúvida, ele, por ser desconhecido, não estava devidamente informado sobre nós ou nossa mãe(porque a desqualificação só dói quando quem nos desqualifica nos conhece bem). E o fidumaputa ou féladaputa eram variantes sem maiores consequências no corriqueiro fiadaputa, usado apenas por pessoas muito isoladas, que treinavam pouco a fala e, quando falavam, ou comiam letras ou sílabas ou babavam besteira boca-a-boca, acriticamente.
Quando eu vivia na minha terra, criança ou adolescente, imaginava e sonhava — quanto mais limitado e desinformado é o mundo, mais se imagina e se sonha. Comparava a marca de cigarros mistura fina ao xingo filhadaputa. Quando ia viajar (de ônibus ou de trem), meu pai comprava um masso(era assim que se chamava o que depois se chamou carteira) de mistura fina, porque nos ônibus e nos trens, era proibido fumar cachimbo, charuto ou cigarro de palha. Cigarro de papel podia, e quando isso também foi proibido (e acrescentaram à plaquinha da proibição antiga o “e de papel”, normalmente sem guardar conformidade ao padrão gráfico fixado), eu percebi, em minha vida, a primeira grande filhadaputice pública em que estivera viajando durante o tempo precedente todo.
Fora de casa, havia grandes fiadaputas: os homens públicos e as mulheres públicas; estas eram as artistas e as putas de verdade; aqueles, eram os políticos, os padres e alguns professores-cientistas que se punham a vociferar pretensas novas verdades no espaço público, a desencaminhar as crianças (os poucos pastores que havia, além de cobrarem pouco, eram discretos). Isso explica porque o populacho, ainda hoje, associa política com putaria, arte com vagabundagem, educação com subversão, a coisa pública com a casa da mãe joana. Isso explica o sucesso do obscurantismo nas campanhas eleitorais, essa coisa de fazer dos incentivos fiscais para a cultura mote de campanha, essa coisa de desqualificar a ciência e os padres, substituindo-os por grandes-filhos-de-uma-puta-de-marca-maior.

Mas, durante a vida toda, e até outro dia, nunca, nem em meus piores pesadelos, eu poderia supor que houvesse, entre nossos simpáticos fiadaputas, tantos inocentes e tantos grandessíssimos-filhos-e-filhas-de-uma-puta. Nunca poderia imaginar que um dia tivéssemos um filho da puta desse quilate.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Proust.

Papo de gente grande.
 
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, 
Marcel Proust, 1871-1922, francês.
Tenho uma amiga que, de Proust, só leu Sodoma e gomorra. O Em busca do tempo perdido, ela já ouviu falar, mas nunca nem viu, nem pegou na mão. Já um amigo começou a ler, do Proust, À sombra das raparigas em flor; começou mas não terminou, não estava entendendo nada…

Uma outra amiga, meio riquinha e meio bibliófila, ouvindo muita gente falar do Proust e seu Em busca do tempo perdido, resolveu ir fundo na coisa. Entrou na maior e mais completa livraria de SP, aquela ali do conjunto nacional, na Paulista, e tascou ao vendedor: “Eu quero a coleção completa do Proust”. Aí o vendedor consultou o catálogo, pegou os livros disponíveis e os colocou sobre o balcão, empilhados num único monte, ao alcance das mãos dessa minha amiga, dizendo que, do Proust, a livraria tinha aqueles. Minha amiga, como boa livreira amadora e consumidora profissional, já foi logo metendo a mão, espalhando tudo, folheando, vendo as capas, eram 7 romances, tudo do Proust, Marcel Proust, francês, tudo traduzido para o brasileiro. Após consultar pela segunda vez as 7 capas, a amiga exclamou: “Poxa, não tem exatamente o que eu mais queria, o Em busca do tempo perdido!”. Aí o vendedor foi ver, conferiu também um por um, tinha o No caminho de Swann, tinha o À sombra das raparigas em flor, tinha O caminho de guermantes, tinha Sodoma e gomorra, tinha A prisioneira, tinha A fugitiva, tinha O tempo redescoberto, mas não tinha Em busca do tempo perdido. E a prova de que o Em busca do tempo perdido era o romance mais famoso do autor era que, em todos os volumes dos outros romances, a editora fizera questão de colocar na capa essa informação, um truque muito usado pelas editoras… A minha amiga já ia indo embora, o vendedor atônito, péra aí, deixa consultar melhor, foi lá novamente no terminal, quem sabe não tinha consultado direito, num era possível, viu, conferiu, era aquilo mesmo, não teve como segurar a cliente.

Eu tinha um colega de turma que se gabava de nunca ter lido um livro inteiro (era uma turma no curso de Letras…). O cara só lia os resumos e, pior, só tirava nota boa. Muito inculto e esperto e, ouvindo aquele buxixo ensurdecedor sobre Proust, pensou que poderia fazer sucesso lendo algo dele. Na moita, entrou na Florestan Fernandes, aquela bibliotecazinha anexa ao prédio da Letras da FFLCH, e pegou o volume mais fininho do Proust, era o romance chamado A fugitiva. Não leu, mas foi na internet e encontrou vários resumos lá. Diabos, só não encontrou o resumo do Em busca do tempo perdido, que tanto ouvia falar; quer dizer, até encontrou, mas não isolado, bem definido, simplificado, curto, até o resumo era longo...

Muita gente já ouviu falar no famoso escritor francês, todo mundo já ouviu sobre a falada madeleine com chá do seu famoso romance Em busca do tempo perdido, mas ninguém nunca pegou o volume nas mãos e pouca gente o leu.
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Vamos começar de forma longa, grossa e pesada. O livro pesa 4 kg e 300 gramas. E tem 3500 páginas. Treis mil e quinhentas. Me parece que, em brasileiro, nunca foi editado em um único volume. Teria que ser em papel de bíblia, em letra de bíblia. Isso só seria possível, talvez um dia seja possível, mas antes teríamos de fundar uma igreja, formar fiéis, depois lançar a “bíblia” do Proust e espalhar que, quem não lesse, iria para o Inferno. Creio que na França já existe essa igreja e esse volume único, não sei. Em brasileiro, há os volumes da Editora Globo e os da Ediouro, que agora viraram da Nova Fronteira.

A Editora Globo, originalmente de Porto Alegre, agora em S.Paulo, publicou Em busca do tempo perdido em 7 volumes; a Ediouro publicou em 3 volumes. Esses mesmos 3 volumes, do mesmo tradutor, o poeta Fernando Py (morreu agora em maio/2020), foram lançados em 2017, pela Editora Nova Fronteira.

Dos 7 volumes da Globo, os primeiros quatro foram traduzidos pelo poeta Mario Quintana, o quinto, pelo poeta Manuel Bandeira em conjunto com Lourdes Sousa de Alencar, o sexto, pelo poeta Carlos Drummond de Andrade e o sétimo e último, por Lúcia Miguel Pereira, que não é poeta, mas é tia de poeta.

Que diabos que só poetas traduzem Proust? Só poetas traduzem o mais caudaloso romance de que tenho notícias, o mais verborrágico, 3500 páginas, 4 kg e trezentos, o mais desresumido, o mais antipoético, se considerarmos que poesia é síntese. O que explica isso? E não qualquer poeta, é Quintana, é Drummond, é Bandeira.

Enfim, o Em busca do tempo perdido é composto de 7 volumes, que o próprio autor foi publicando isoladamente, os primeiros 4 em vida e os 3 últimos após sua morte. Na tradução da Globo, os títulos desses volumes, pela ordem: No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A fugitiva, O tempo redescoberto. Mas, não se engane. É uma divisão arbitrária, como se dividíssemos um navio graneleiro carregado de soja em 7 containers gigantes. É tudo uma coisa só, do primeiro ao sétimo volume, um continuação do outro, sem qualquer preâmbulo. Daí porque é tudo ou nada, ou se lê tudo ou é melhor nem começar.
O Fernando Py, coitado, trocou Raparigas por Moças, no título do segundo volume. Eu tava no ginásio, comecei a comentar sobre uma poesia com meus tios, enquanto descansávamos da labuta, havia a palavra rapariga — o feminino de rapaz— pensava eu, ingenuamente. Tio Rubens me falou sério (eu tinha 14 anos), “não fala essa palavra não”. E só explicou que era besteira, o resto deixou por minha conta. Bem feito, me lançou no mau caminho, estou até hoje tentando entender.
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Trata-se de uma autoficção, em que o narrador se confunde com o autor — inclusive se chama Marcel, como o autor —, e narra sua vida, desde a infância, em finais do século XIX (Proust nasceu em 1871) até sua morte, em 1922. Seria uma espécie de livro de memórias. Mas não é. Ou é? O narrador (e não o autor) garante: “Neste livro, onde não há um fato que não seja fictício, nem uma só personagem real, onde tudo foi inventado por mim segundo as necessidades do que pretendia demonstrar, ...” (p. 128 de O Tempo Redescoberto, Globo, 15ª ed.).

Inventado ou não, o leitor conhece, através da leitura do romance/memória, as conversas, os pensamentos, o “clima” reinante na Paris naquele período, desde a derrota de 1870, na guerra com a Prússia (depois Alemanha) até a vitória de 1918, na guerra com a mesma Alemanha, passando pelo caso Dreyfus (1894, deixando claro que o antissemitismo já existia antes dos nazistas e não era coisa só de alemão).

No período, os lampiões são substituídos pelas lâmpadas elétricas, os fiacres pelos automóveis, o 2º Império pela 3ª República, os nobres pelos burgueses. Surge o avião, a metralhadora, o tanque de guerra e as armas químicas. E o telefone. Mas continua-se a escrever cartas. Mas, continua-se morrendo de pneumonia. Da mesma forma, continua-se a sofrer de duques, príncipes e marqueses e outros esnobismos; ainda há ecos de feudalismo, no centro da revolução burguesa ocorrida já há um século; continuam, mais do que nunca, os habitantes de Paris e do resto do mundo, divididos em classes sociais muito bem definidas no espaço e nos salões e nas mentes e nas práticas de todos.

Em busca do tempo perdido faz comparações nas artes mais diversas e mais altas (são personagens: Berma: Teatro; Bergotte: Literatura; Elstir: Pintura; Vinteuil: Música). Cada caráter (personagens, fatos, situações, ideias, etc.) apresenta as faces opostas(múltiplas); para conferir peso e solidez ao livro, ele é preparado minuciosamente, com constantes reagrupamentos de forças, como em vista de uma ofensiva, suportado como uma fadiga, aceito como uma norma, construído como uma igreja, seguido como um regime, vencido como um obstáculo, conquistado como uma amizade, superalimentado como uma criança, criado como um mundo, sem desprezar os mistérios que provavelmente só se explicam em outros mundos, e cujo pressentimento é o que mais nos comove na vida e na arte. Este parágrafo inteiro é quase a transcrição do escrito pelo narrador, à página 279 do último volume.

Sim, é a história de um garoto que pretende ser escritor, que pretende escrever um livro. É uma estória com começo, meio e fim; há personagens bem definidos, que se envolvem em paixões, desenlaces, mortes; o espaço e o tempo estão presentes, ajudando a narrativa. Tudo isso seria muito bem narrado numas 120 páginas. As 3400 páginas restantes? Bem, as 3400 páginas restantes trouxeram o livro até aqui, até 2020.
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São 3500 páginas, 4,3 quilogramas, não é brincadeira não. A mancha da página não dá moleza, são 42 linhas de 60 espaços. Nenhuma ilustração, 2 ou 3 subtítulos por volume, pau reto. Nos 4 primeiros volumes, nova edição, acrescida de notas, que ajudam a encher mais o saco do calhamaço.

Bem, se você julga as leituras fúteis tão prejudiciais quanto os bombons e os bolos, você pode ler Proust. Quer dizer, tenho dúvidas, sei que o Marcel narrador foi quem disse isso, que as leituras fúteis são tão prejudiciais quanto os bombons e os bolos, lá na página 65 de No caminho de Swann, na edição de 2011, da Globo.

E se você gosta de coisa sucinta, leve, rápida, simples, melhor amarrar seu burro em outra freguesia. Sobre qualquer e todo aspecto ou fato ou situação ou personagem, o narrador passa e repassa e trespassa e martela por cima e aplica várias demãos e lixa e pole e limpa e lava e mal embala. E garante que “há menos força numa inovação artificial que numa repetição destinada a sugerir uma verdade nova” (p.552 da nova edição de 2009 do À sombra das raparigas em flor, da Globo). O jantar na casa dos Guermantes dura 140 páginas, da 451 à 590, da nova edição de 2007, da Globo, em O caminho de Guermantes. Um cisco, um susto, um pum, e lá se vão 15, 20 páginas…

Mas, se não é a preguiça nem a falta de tempo ou dinheiro que impedem o surgimento de leitores, mas a indigência cultural, a censura, o obscurantismo, o messianismo, o escapismo, o narrador Marcel diz que, do outro lado, o da produção cultural, “na sociedade polida quase não se encontram romancistas, poetas, todas essas criaturas sublimes que falam justamente o que não se deve dizer” (p.270, da nova edição de 2008, de Sodoma e gomorra, da Globo). Sociedade polida, sociedade contida. Em Sodoma e gomorra, Proust fixa e arrebita, depois arranca e torna a fixar e bate e rebate o tema da homossexualidade, impensável aqui, e improvável lá; não apenas nesse volume, mas em todos os demais, a partir desse. E não somente a homossexualidade masculina, mas, principalmente a feminina, através da sua personagem Albertine. Para Proust, todos, homens e mulheres, são, no mínimo, bissexuais. São ou poderiam ser, uns praticam, outros não. Porém, não há o mínimo erotismo literário nos 4,3 Kg da papelama.

Ler Em busca do tempo perdido equivale à prática da mineração, aquela artesanal, descalço dentro do barro, segurando a bateia. Suor, cansaço, desânimo e, de vez em quando, uma pepita. Por exemplo, em A fugitiva (11ª ed., da Globo), veja o que garimpei: “o hábito de pensar nos impede, não raro, de sentir o real, imuniza-nos contra ele, torna-o, também ele, pensamento”(p.172) ou “o hábito embrutecedor, que durante todo o curso da vida nos oculta mais ou menos todo o universo e, em uma noite profunda, sob sua etiqueta imutável, substitui os mais perigosos ou mais embriagadores venenos da vida por algo de anódino, que não proporciona delícias”(117) ou “deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação” (27) ou “ninguém acredita em vida após a morte” (p.184, se acreditassem, ninguém falaria mal de quem morreu, não se teria tanto medo da morte, não se choraria tanto nos funerais). Mas, olha essa pepita: “como mandar ferver a água em tempo de epidemia” (p.14, sim, era tempo da gripe espanhola e respectiva paranoia).

Essa pepita de ferver a água por causa da epidemia me lembrou que a vida dos franceses, 100 anos atrás, esmiuçada no romance, estava à frente da dos brasileiros de hoje, enquanto povo, ser coletivo, na cultura, na prática, na visão de mundo, é o que me sugeriu a leitura. Realmente, a sensação é a de que nós, brasileiros, ainda não chegamos ao séc.XX. Não é novidade nem motivo de espanto, há muita gente boa aqui e alhures que garante que ainda não passamos por 1789. Se Marcel dizia, em 1920, que “não se tem impunemente mil anos de feudalismo no sangue” (p.633, de O caminho de guermantes), nós, mais ainda, e mais desgraçados, dizemos que não se tem impunemente 300 anos de escravidão no sangue, que não se tem impunemente 50 anos de analfabetismo funcional no sangue.
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Se Proust, elegantemente, abre um leque de adjetivos/substantivos, todos pertinentes, cada um com sua cor e significado próprios, para qualificar determinadas situações, o jogo dos contrários ou o encadeamento de negativas deixa o leitor maluco, para não dizer perdido. E a frase longa desanima o mais pernóstico fiel.

Por exemplo, em A prisioneira, às páginas 285, 292, 297, 359, respectivamente: “...renunciar ao espanto, ao desassossego, à aflição ou à alegria”, quatro substantivos na mesma cena; “...pois, sensitivo, nervoso, histérico, era um verdadeiro impulsivo,...”, quatro adjetivos; “...sob as feições de parasitas, bajuladores, ladrões, bêbados, ora humildes e ora insolentes, devassos e até assassinos.”, oito adjetivos; “Agora o conhecimento que eu tinha deles era interno, imediato, espasmódico, doloroso.”, 4 adjetivos. Se o tamanho do volume fosse por causa disso, tava bom…

Por exemplo, o puzzle, o quebra-cabeças do jogo dos contrários, uma coisa feita para prolongar a frase, para deixar a bagaça prolixa (intencionalmente, parece). Ainda n'A Prisioneira (aqui eu já tava injuriado), às páginas 279, 293 e 296, respectivamente (veja que são páginas próximas, eu estava prestando atenção, mas isso acontece ao longo de todas as 3500): “...para cada reputação imerecida há uma centena de boas que não o são menos.”; temos a negativa de imerecida, que nega o não, que nega o menos e vice-versa ou muito ao contrário. Tente entender. “ou ainda porque num meio que não era o seu, se sentia menos à vontade e menos corajoso do que o teria sido no Fauborg.”, temos o não negando o menos e o futuro do pretérito composto para complicar; e esta: “Os antigos não amavam menos intensamente o agrupamento humano a que se devotavam porque este não excedia os limites da cidade, nem os homens de hoje amam menos a sua pátria do que aqueles que amarão os Estados Unidos de toda a terra.”; é um não que nega um menos que nega outro não que contradiz um nem que ataca outro menos… haja atenção.

Por exemplo, à página 260, de O Tempo Redescoberto, tive a pachorra de contar 159 palavras numa frase. Numa única frase, separadas apenas por vírgulas e dois travessões. Parece que teve gente que andou contando no livro todo, sistematicamente, tem frases maiores, dizem. Dá pra ler uma frase desse tamanho e entender, numa única vez?

E é sempre bom lembrar que Proust é um crítico de arte. E, claro, não poderia poupar seus leitores. Bem umas 500 páginas (acho que mais) são críticas puras, a Literatura, claro, mas também a música, a pintura, a dramaturgia. Para cada área, uma personagem: Bergotte, Vinteuil, Elstir, Berma. Sem falar nos comentários ao vestuário e à decoração da curriola e respectivos salões.

Não posso deixar de informar o caráter da família do narrador, crucial para entender o livro: “Tive, bem perto de mim, o exemplo de minha mãe, que a sra. de Cambremer e a sra. de Guermantes nunca puderam convencer de tomar parte em nenhuma obra filantrópica, em nenhuma instituição patriótica de beneficência, de ser vendedora ou patrocinadora em festas de caridade...” (p.297 d'A prisioneira). O narrador quer opor a hipocrisia da nobreza e dos ricos em geral ao republicanismo de parte da burguesia, esclarecida, progressista, à qual pretende pertencer. A mãe e a avó eram muito mais benéficas para a sociedade do que aqueles ricos caridosos, embora não parecessem, para o senso comum.

Enfim, o livro consiste em opor burgueses ricos e cultos (Swann, Legrandin, Bloch, os Verdurin, o próprio narrador), aos nobres ricos e decadentes (os Guermantes, como representantes do feudalismo remanescente, de uma tribo de príncipes de araque, de duquesas, marquesas, condessas). Em busca do tempo perdido nada mais é que uma Revolução (francesa) na Literatura, a retratar a revolução na tecnologia e nos costumes, a testemunhar o advento do século XX. De fato, Hobsbawm diz que o séc.XX começou em 1914; Proust ajusta isso para 1918 ou 19 (alguém ou Lenin poderia reajustar para 1917, mas isso fica para o romance seguinte…).

Pra terminar, uma intriga que me intriga. Após passar mais de 20 anos ausente dos salões, em parte devido a internações para tratamento da saúde precária, o narrador vai a uma recepção dada pela princesa de guermantes. Lá encontra boa parte de seus amigos e nota que estão todos velhos, claro. Passa, então, as últimas 100 páginas do romance esmiuçando os sinais de velhice que via neles. E, dentre esses sinais, nenhuma referência à calvície masculina. Ou os homens não tiravam o chapéu dentro dos salões — porque os usavam, todos, ao ar livre — ou Proust ignorou o aspecto visual mais evidente na velhice do homem.

domingo, 28 de junho de 2020

CONCURSOS E VIOLEIROS.

  Hoje há a indústria dos concursos. A coisa começa pelas faculdades expedidoras de diplomas. Continua com os cursinhos preparatórios de todo tipo e tamanho e bolso. E se massifica pelas editoras de apostilas. Não pensem que isso vai acabar, com a chegada dos neoliberais ao comando do estado. Esse povo leva consigo a arraia miúda composta de oportunistas e medíocres e desonestos intelectuais, exatamente o público mais interessado no cargo concursado.

Eu trabalhei quase a vida inteira num emprego conquistado por concurso, nos anos 1970. Trabalhava num banco privado. Um banco estatal federal abriu concurso. Dos 20 colegas que trabalhavam comigo no banco privado, somente 3 tinham diploma de nível médio, requisito para o concurso. Além da seleção se dar a priori, ainda não havia todo esse sistema preparatório. Os concursos acabavam selecionando os mais naturalmente hábeis dentre os privilegiados que haviam conseguido estudar (claro, já havia muitos que varavam as madrugadas em cima das incipientes apostilas existentes). “Estudar” era para quem não precisava trabalhar em tempo integral a partir dos 15 anos de idade e também para quem passava no exame de admissão ao ginásio… (ou seja, não havia vagas para todos, nos anos 1960).

Assim também acontecia com os violeiros. Para ser violeiro bão, era preciso pegar uma cascavel à unha, matá-la com as mãos, tirar seu guizo e colocá-lo dentro da caixa do instrumento. Era preciso fazer Pacto (negociar com o capeta na encruzilhada). O caboclo precisava, primeiro, fazer uma viola boa. Ou conhecer quem fazia. Depois, tinha que ter talento, esse que cai do céu. Poucos se destacavam. Bambico, Tião Carreiro. Almir Sater já entra na fase de transição, que iria desembocar na produção de violeiros bãos em série. Hoje, violas boas são industrializadas, há escolas para violeiros, muitos jovens ficam o dia inteiro treinando no instrumento, parece que até na USP criaram uma disciplina para a viola caipira, há um violeiro “bão” em cada esquina.

Não. Há um burocrata da viola em cada esquina. Da mesma forma, no funcionalismo público, há um medíocre em cada esquina. Um obtuso, que fez do concurso seu motivo de viver, que passou anos investindo dinheiro e tempo integral às questiúnculas das provas. Nos cargos menores, menos atraentes pela remuneração baixa, esse fenômeno não é tão evidente, ainda encontramos muita gente normal. Mas, nos mais bem remunerados, como os de juízes, promotores, fiscais, policiais federais, etc., isso já virou calamidade pública, literalmente. Claro que não estou falando das sinecuras, essas são para outro público, para quem tem pouco Q.I. e muito Quem Indica.

Essa minha reflexão foi inspirada na notícia dos plágios do Sérgio Moro e do atual ministro da educação.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

UMA NUVEM DE BAGRES (O Fim do Mundo)

  Tá certo que, se é de bagres, melhor seria cardume. Mas, para aproveitar o signo em evidência, uso nuvem, ainda que sob as águas. Agora, o Signo é a Nuvem. De bicho, de microbicho, de vírus, de pó, de dados. Do Mal, de qualquer mal. Do Apocalipse.

Eu acho, aqui do meu simplório canto, que a Nuvem de Dados é, essa sim, o Fim do Mundo. Essa quantidade de memes, vídeos, fotos, cartazes(virtuais), frases, notícias, comentários, opiniões, boatos, meias verdades; essa quantidade de joguinhos, séries, essa quantidade de arquivos de dados virtuais guardados sabe-se lá em quantos e quais universos, que, resumidamente, chamamos de Nuvem.

Isso que vem por cima da gente, que nos… soterra? Que nos desarruma os cabelos (ventania)? Não, essas nuvens-avalanches diárias e consecutivas de sub-ideias e subsignos que nos envolvem sub-repticiamente, sorrateiramente, sem se anunciarem, sem qualquer sinal no céu, que nos desarrumam as ideias.

A Nuvem do Apocalipse, que se anuncia, é a da tecnologia 5G. De gafanhotos, é apenas um enxame; de poeira, é apenas poluição atmosférica, causada pela degradação do território; de vírus, é apenas mais uma peste que se abate sobre nós.

O Apocalipse é possível, sem dúvida, num mundo infestado de bagres (sempre é bom avisar aos que não conhecem: bagre é um peixe rústico, ingênuo, fácil de fisgar). É lucrativo anunciar que Cristo está voltando; aliás, Cristo está voltando embalado numa nuvem de bagres. Os bagres nos empurram goela abaixo a Escatologia (O que são essas igrejas todas, senão Faculdades de Escatologia!).


segunda-feira, 8 de junho de 2020

ESTÔMAGO.

          Sabe quando você engole um bagre? E esse bagre vira tubarão dentro do estômago? Quando você descobre, depois que comeu e antes do efeito, que é alérgico a camarão? Esse arrepio que precede a febre que luta com a doença que pode lhe matar? Esse parafuso que lhe contrai o esôfago?
Sabe esse frio inexplicável que lhe inquieta no meio do verão, depois da feijoada? Esse nojo que lhe invade em plena festa, diante da coxinha? Esse susto calado, medo sem móvel, terror sem fantasma, que lhe sobe das entranhas?
Sabe esse grito que não sai, que lhe trava a garganta, que lhe impede a fala mais mansa durante uma digestão difícil?
Sabe isso que você ingeriu sem querer e agora tem certeza de que é veneno? Quando você descobre o veneno antes que ele faça efeito, imediatamente antes? Esse choque que lhe atravessa a espinha quando o doce estragado passa pela goela? Esse cheiro de queimado que você presume antes da azia? Essa ânsia após o comprimido errado? Esse mal-estar que prenuncia o futuro de quando você notará um pingo de sangue de uma posterior úlcera?
Sabe a mancha branca que aparecerá em seu ventre após o verme dentro de você acordar? Essa noção nojenta que você tem da mancha futura? Esse vômito que você tenta e que lhe não limpa? Esse vômito que não vem ou que lhe engasga ou que lhe sufoca?
Sabe esse pedaço de pau pontiagudo que você engoliu e que vai lhe estrepar as tripas? Essa gosma amarga e quente que se vai formar depois que a farra gastronômica inevitável, que você planeja, se consumar? O azedo que lhe trará o excesso?
Sabe essa esbórnia que você ainda não fez, mas que já lhe prostra, como aquela outra do verão passado? A consciência da ressaca desse banquete que você acaba de gozar? Essa cócega no duodeno? Essa comichão na sola do pé, essa dorzinha de cabeça, da indigestão que virá?
Sabe essa neurose da morte, essa paranoia do caos, que chega ainda durante a paz do pós-almoço? Essa tempestade que se não desaba, mas que lhe já arrebata? Esse fel que lhe extravasa ao pâncreas? Esse motivo vago que lhe inflama o fígado? Essa náusea sem bílis que lhe atravessa o ventre?
Sabe essa coisa parada na traqueia, esse nó na garganta, da alergia que você desconhece, da guloseima cremosa? Esse suor frio depois da lasanha vencida?
Sabe essa alegria vencida que você engoliu e se arrependeu? Essa sem-noção exata do mal que mal lhe acaba de tocar as vísceras? Do mal que lhe fará essa pândega? Esse sintoma que você pressente, que lhe avisará da pestilência daquilo que você permitiu comer? Daquilo que está dentro de você? Do veneno cheiroso e bem embalado que você engoliu?
Sabe esse alimento mórbido ingerido às pressas, sem pesar, sem olhar, sem cheirar, e que agora tenta expelir? O peso do porre alimentar? O peso da peste travestida de alimento? A noção exata que você tem da iminente reação estomacal? Esse desespero de retomar a saúde, antes de se instalar a doença?
Sabe a iminente congestão, esse sufoco do soco tosco em preparação, mas que você sabe que lhe será endereçado, que vai levar, cheio, na boca oca e vazia do fundo do estômago?


quinta-feira, 4 de junho de 2020

O TERMINAL DO ALÉM

 Dia desses tava falano do vestíbulo do Inferno de Dante, da porta, do povo sem noção que vive por ali… TÁ BOM, TÁ BOM! O circo pegando fogo e você aí falano dessa velharia italiana…

então, antes de entrar no assunto sério, eu digo que esse cara aí e seus filhos e seus ministros e seus gurus e seus ídolos vão todos para o Inferno, sim, mas não pelo que o povo tá falano aí nas redes e ruas e manifestos e sim pela BOÇALIDADE, pelo pecado da boçalidade, no que serão acompanhados por muitos santos do pau oco, açulados por um escarcéu de ratazanas em retirada, navio afundando ao largo (e, invariavelmente, são todos racistas).

O Terminal a que me refiro é uma espécie de rodoviária ou aeroporto. Como o meio de transporte para o Além é único, o Terminal também o é: o Destino é um só. Diferente de São Paulo, por ex., em que, para voos regionais, usa-se Congonhas; internacionais, Cumbica; de ônibus, dependendo da região a que se vai, usa-se Barra Funda ou Tietê ou Jabaquara; quem viaja de carro usa as saídas da Bandeirantes-Anhanguera ou Castelo Branco ou Régis Bitencourt ou Imigrantes-Anchieta ou Dutra-Airton Senna ou Fernão Dias, a depender do destino.

Quando o sujeito morre, sua alma vai para o Terminal do Além, viajando pela Lei da Gravidade Inversa (é uma força metafísica que só interessa aos mortos, por isso nunca foi nem precisa ser estudada). Não interessa se santo ou safado, vai todo mundo para esse Terminal Único.

Há um enorme saguão, onde só se vê pescoço esticado olhando para todos os lados à procura de sinais, não obstante todos saberem, mais as almas frescas, até os nomes das três saídas ou alas ou portas possíveis. DANTE NÃO CONTOU ESSA PARTE, porque acho que ele nem percebeu quando passou por ela, pois estava com um guia. Sabe como é, quando a gente viaja com um guia, esse guia ouve e vê e pensa e goza pela gente. E aí nessa Pior Viagem, viajamos sozinhos; nem os santos poderão dizer que viajam com Deus, porque, quando o cara embarca, Deus, sabendo da eficiência do transporte, já corre na frente, para recebê-lo.

Nesse saguão, os santos terão sua primeira decepção: ninguém — ou quase ninguém — vai para onde eles vão. Nesses terminais, não é broxante quando vamos para um lugar que ninguém conhece, de que ninguém fala? Pois assim é o Céu, lá nesse Terminal do Além. Uma portinha lá num canto, com um porteiro velho e sonolento, que não faz a barba nem muda de roupa há tempos.

O Purgatório já está um pouco melhor localizado, mais fácil de achar, mas ainda uma porta pequena, sem nenhuma inscrição, ninguém para te receber ou orientar, tudo automatizado, você que se vire: não tem problema, porque os que para lá se dirigem são santos, mas espertos.

Já o Inferno, para onde todo mundo vai — quase todo mundo — é uma festa de organização e orientação, com porta enorme e iluminada, e placa indicativa. Nada mais lógico, nos processos massificados de transporte: quanto maior a demanda, melhor a orientação.

De longe, já se vê a placa na Porta do Inferno, ninguém confunde. Sendo que o que está escrito ali, todo mundo entende, porque, por um processo de tradução simultânea da escrita, muito à frente do nosso incipiente google, cada alma lê em sua língua materna.Virgílio leu em Latim, Dante em Italiano e eu, lerei em Caipirês. Já tô até veno:
PORTA DA PUTARIA
LUGAR DE SAFADEZAS DIVERSAS
ONDE SÓ TEM GENTE QUE NÃO PRESTA.
MOVEU UM GRANDE CONCHAVO
PARA ESTANCAR A SANGRIA
COM MICHEL E SUPREMO E TUDO.
VOCÊ TERIA PAZ SE TIVESSE PACIÊNCIA
MAS FOI AFOITO E EGOÍSTA:
PASSA, PASSA! ESQUECE! DESTE BURACO VOCÊ NUNCA MAIS SAI.


domingo, 31 de maio de 2020

CESTA BÁSICA DE TÁXI

FATO RELEVANTE NESTA MADRUGADA DOMINGUEIRA. Levantei para ir ao banheiro às 4h30 da madrugada. Aproveitei para tomar um pingado. Saí na sacada, a noite estava linda. Não muito frio, tempo seco, pouco vento. Já ia voltando pra cama quando voltei, olhei lá fora de novo, e decidi dar um rolê na cidade vazia. Creio que entre 5 e 7h da manhã de domingo pode. Saí com cuidado para não acordar a cônjuge, melhor perguntar na volta se ela concordava. Saí do prédio pelas vias aéreas. Nunca se sabe, tenho vizinhas muito ativas e atentas. Fui até a cobertura pela escada. O elevador faz barulho e aciona a câmera, que apita o monitor na cabine, que acorda o porteiro, que conversa com as vizinhas ativas e atentas. Acionei a ignição do helicóptero e nem esperei esquentar direito, para não fazer muito barulho, decolei na vertical em marcha lenta. Fui subindo na vertical até ultrapassar a nuvem de poeira e fuligem que paira suspensa sobre a cidade de janeiro a janeiro, com ou sem greve geral. Lá em cima, dava pra ver até estrelas, o fiapo de lua já se insinuava no horizonte leste. Eram 5h da madrugada, noite braba nesse final de outono subtropical e meridional. Peguei o corredor aéreo da 23 de maio, em direção ao aeroporto. Sobre o obelisco, em frente ao Ibirapuera, investiguei o parque com meu binóculo de infravermelho e vi, na Pedro Álvares Cabral, uma fila enorme de carros brancos. Fiquei intrigado. Fiz a aeronave baixar além da nuvem de poeira e fuligem, para chegar mais perto do meu objeto de interesse. Efetivamente, era uma fila de carros brancos numa via de trânsito expresso, onde ninguém sequer para. Mas estes estavam parados. Da altura em que eu estava, olhei à esquerda, olhei à direita, e não vi nem a cabeça nem o rabo da fila. Diabeísso? Embaixo, o gramado enorme da praça do obelisco, com espaço livre e plano do tamanho de um campo de futebol, me convidava ao pouso. Não teria problemas, ainda era noite e só estava claro por causa das potentes luminárias. Deixei a máquina no gramado e saí caminhando, em direção aos carros parados. Vi, na calçada ao lado da fila, um grupo de 4 homens de pé, parados como quem participa de um velório. Como se sabe, ninguém aguenta uma madrugada de velório sem piada e alguma coisa quente de beber. Cheguei, perguntei, como se fosse mais um. Ainda bem que eles não haviam visto o helicóptero lá longe, estacionado, senão não me responderiam direito. Na alucinação da madrugada friorenta, que ali na baixada fazia 11ºC, talvez vissem um cidadão comum, sobre uma bicicleta.

Era a fila para pegar a cesta básica. Oferecimento do vereador Adilson Amadeu. Esse é o fato relevante, minha gente.

Cada um que o julgue conforme seu referencial e seu interesse. Mas continuei a conversa com os taxistas. Sim, o referido vereador se diz representante dos taxistas e a fila de carros brancos, entremeados, aqui e ali, com um preto, era de táxis. Um dos homens me informou que a cesta é composta de artigos básicos no valor aproximado de 50 reais. Recursos próprios do vereador que, segundo eles, o vereador arrecada junto a alguns empresários. Um deles não tem direito aos 600 reais do estado porque seu filho e sua mulher já recebem; outros dois estão com os pedidos pendentes na Caixa e o quarto diz que os funcionários é que atrapalham, por isso não tem direito. Andei uns 500 metros para ver até onde ia a fila, mas os carros entravam pela República do Líbano a perder de vista. Aí pensei: vou ver até onde isso vai. O último carro estava parado na Av. Indianópolis, que é a continuação da República do Líbano, altura da Ruben Berta, cerca de 4 Km longe da cabeça da fila. O relógio do canteiro da avenida marcava 5h50 da madrugada deste domingo, ainda estava escuro.

Fiz as contas mentalmente, dava uns 700 carros. A 50 reais por cabeça, dava 35 mil reais, dinheiro de pinga para alguns empresários, preço de um carro popular bem usado. Me lembrei de que este é ano de eleições, me lembrei de uma construção chamada curral eleitoral, me lembrei de dentadura — a parte de cima, a parte de baixo —, me lembrei de alguns artigos de certa lei eleitoral, da regulação dos recursos de campanha… tava frio, ali era brejo antigamente, a umidade remanescente potencializava a friagem.

Deus do céu, o que leva 700 homens (tudo bem, devia haver umas 50 mulheres, embora eu não tenha visto nenhuma) a enfrentarem uma fila daquela às 5h da manhã num domingo, por uma cesta básica de 50 reais? Não pode ser apenas necessidade básica, fome de estômago. Deve ser uma pobreza maior.

(a informação está aí, creio que não seja de interesse das partes lá deles que ela circule amplamente, acho que não vai sair nos jornais).


quinta-feira, 28 de maio de 2020

O INFERNO DE DANTE.

Dante, guiado por Virgílio, chega em frente à porta do Inferno. É uma porta larga e alta. No alto dela, em letras escuras (isso quer dizer que a porta é clara), está escrito:

PER ME SI VA NE LA CITTÀ DOLENTE,
PER ME SI VA NE L'ETTERNO DOLORE,
PER ME SI VA TRA LA PERDUTA GENTE.
GIUSTIZIA MOSSE IL MIO ALTO FATTORE;
FECEMI LA DIVINA PODESTATE,
LA SOMMA SAPIENZA E'L PRIMO AMORE.
DINANZI A ME NON FUOR COSE CREATE
SE NON ETTERNE, E IO ETTERNA DURO.
LASCIATE OGNE SPERANZA, VOI CH'INTRATE.

Vejam que a porta é grande mesmo. Tudo isso aí parecia uma plaquinha no cimo dela. Vejam também que não está nem em latim, nem em inglês. Naquela terra estrangeira, cada um lê sua própria língua, para todo mundo entender bem, para que não reste dúvida. Como Dante é toscano, está escrito na língua toscana. O poeta vivente fica impressionado e questiona seu mestre, sobre a dureza da inscrição:

Queste parole di colore oscuro
vid'io scritte al sommo d'una porta;
per ch'io: “Maestro, il senso lor m'è duro”.

Então, Virgílio o reconforta:

Ed elli a me, come persona accorta:
Qui si convien lasciare ogne sospetto;
ogne viltà convien che qui sia morta.
Noi siam venuti al loco ov' i' t'ho detto
che tu vedrai le genti dolorose
c'hanno perduto il bem de l'intelletto”.

Mas a alma do poeta romano (Dante está vivo, mas Virgílio morreu faz tempo) pega, de leve, a mão de Dante e lhe fala: Dêxa di sê besta, cara, vem comigo. E atravessam o umbral daquela sinistra porteira:

E poi che la sua mano a la mia puose
con lieto volto, ond'io mi confortai,
mi mise dentro a le segrete cose.
Quivi sospiri, pianti e alti guai
risonavan per l'aere sanza stelle,
per ch'io al cominciar ne lagrimai.
Diverse lingue, orribili favelle,
parole di dolore, accenti d'ira,
voci alte e fioche, e suon di man con elle
facevano un tumulto, il qual s'aggira
sempre in quell'aura sanza tempo tinta,
come la rena quando turbo spira.

Dante, espantado, pergunta a Virgílio: que gente mais doida é essa? Doida no sentido figurado dos jovens daquele tempo, porque era uma gente desinquieta, reclamando baixo pelos cantos. Então o Virgílio explica-lhe: gente amarga, não? É uma gente que, ainda que barulhenta em seu clamor, caminha feito gado, derrotada. Uma gente sonsa, no pior sentido do termo, que não se compromete, que não se arrisca, que serve a dois senhores, que serve a quem lhe convém, que dá uma no prego e outra na ferradura, que foge igualmente do perigo e da glória, gente que acende uma vela pra deus e outra pro diabo, gente sem infâmia e sem louvor. Viveu tão isolada no mundo, tão descompromissada, que agora, nem deus nem o diabo quer. (note que aí ainda é o átrio do Inferno, ainda não atravessaram o Aqueronte, porque é do outro lado que o bicho pega).

Aí Dante fica, assim, meio sem entender: mas, afinal, por que reclamam tanto, se não sofrem nenhuma pena, apenas esse inferno de pernilongos? Aí o Virgílio, meio já sem paciência com todo aquele interesse de Dante para com aquele povo pobre de espírito: — Escuta, de uma vez por todas. Serei curto e grosso; mais sucinto que aquela inscrição lá da porta:

Questi non hanno speranza di morte,
e la lor cieca vita è tanto bassa,
che 'invidiosi son d'ogne altra sorte.
Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, mas guarda e passa”.

Por fim, Virgílio, como bom romano, arremata: cara! Ninguém mais se lembra desse povo. Esquece essa gente! São cheios de picuinhas, invejosos, rancorosos; medíocres. Deles não cuides mais, mas olha e passa. Vamos em frente.