Sabe quando você engole um bagre? E esse bagre vira tubarão dentro
do estômago? Quando você descobre, depois que comeu e antes do
efeito, que é alérgico a camarão? Esse arrepio que precede a febre
que luta com a doença que pode lhe matar? Esse parafuso que lhe
contrai o esôfago?
Sabe
esse frio inexplicável que lhe inquieta no meio do verão, depois da
feijoada? Esse nojo que lhe invade em plena festa, diante da coxinha?
Esse susto calado, medo sem móvel, terror sem fantasma, que lhe sobe
das entranhas?
Sabe
esse grito que não sai, que lhe trava a garganta, que lhe impede a
fala mais mansa durante uma digestão difícil?
Sabe
isso que você ingeriu sem querer e agora tem certeza de que é
veneno? Quando você descobre o veneno antes que ele faça efeito,
imediatamente antes? Esse choque que lhe atravessa a espinha quando o
doce estragado passa pela goela? Esse cheiro de queimado que você
presume antes da azia? Essa ânsia após o comprimido errado? Esse
mal-estar que prenuncia o futuro de quando você notará um pingo de
sangue de uma posterior úlcera?
Sabe
a mancha branca que aparecerá em seu ventre após o verme dentro de
você acordar? Essa noção nojenta que você tem da mancha futura?
Esse vômito que você tenta e que lhe não limpa? Esse vômito que
não vem ou que lhe engasga ou que lhe sufoca?
Sabe
esse pedaço de pau pontiagudo que você engoliu e que vai lhe
estrepar as tripas? Essa gosma amarga e quente que se vai formar
depois que a farra gastronômica inevitável, que você planeja, se
consumar? O azedo que lhe trará o excesso?
Sabe
essa esbórnia que você ainda não fez, mas que já lhe prostra,
como aquela outra do verão passado? A consciência da ressaca desse
banquete que você acaba de gozar? Essa cócega no duodeno? Essa
comichão na sola do pé, essa dorzinha de cabeça, da indigestão
que virá?
Sabe
essa neurose da morte, essa paranoia do caos, que chega ainda durante
a paz do pós-almoço? Essa tempestade que se não desaba, mas que
lhe já arrebata? Esse fel que lhe extravasa ao pâncreas? Esse
motivo vago que lhe inflama o fígado? Essa náusea sem bílis que
lhe atravessa o ventre?
Sabe
essa coisa parada na traqueia, esse nó na garganta, da alergia que
você desconhece, da guloseima cremosa? Esse suor frio depois da
lasanha vencida?
Sabe
essa alegria vencida que você engoliu e se arrependeu? Essa
sem-noção exata do mal que mal lhe acaba de tocar as vísceras? Do
mal que lhe fará essa pândega? Esse sintoma que você pressente,
que lhe avisará da pestilência daquilo que você permitiu comer?
Daquilo que está dentro de você? Do veneno cheiroso e bem embalado
que você engoliu?
Sabe
esse alimento mórbido ingerido às pressas, sem pesar, sem olhar,
sem cheirar, e que agora tenta expelir? O peso do porre alimentar? O
peso da peste travestida de alimento? A noção exata que você tem
da iminente reação estomacal? Esse desespero de retomar a saúde,
antes de se instalar a doença?
Sabe
a iminente congestão, esse sufoco do soco tosco em preparação, mas
que você sabe que lhe será endereçado, que vai levar, cheio, na
boca oca e vazia do fundo do estômago?
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