segunda-feira, 8 de junho de 2020

ESTÔMAGO.

          Sabe quando você engole um bagre? E esse bagre vira tubarão dentro do estômago? Quando você descobre, depois que comeu e antes do efeito, que é alérgico a camarão? Esse arrepio que precede a febre que luta com a doença que pode lhe matar? Esse parafuso que lhe contrai o esôfago?
Sabe esse frio inexplicável que lhe inquieta no meio do verão, depois da feijoada? Esse nojo que lhe invade em plena festa, diante da coxinha? Esse susto calado, medo sem móvel, terror sem fantasma, que lhe sobe das entranhas?
Sabe esse grito que não sai, que lhe trava a garganta, que lhe impede a fala mais mansa durante uma digestão difícil?
Sabe isso que você ingeriu sem querer e agora tem certeza de que é veneno? Quando você descobre o veneno antes que ele faça efeito, imediatamente antes? Esse choque que lhe atravessa a espinha quando o doce estragado passa pela goela? Esse cheiro de queimado que você presume antes da azia? Essa ânsia após o comprimido errado? Esse mal-estar que prenuncia o futuro de quando você notará um pingo de sangue de uma posterior úlcera?
Sabe a mancha branca que aparecerá em seu ventre após o verme dentro de você acordar? Essa noção nojenta que você tem da mancha futura? Esse vômito que você tenta e que lhe não limpa? Esse vômito que não vem ou que lhe engasga ou que lhe sufoca?
Sabe esse pedaço de pau pontiagudo que você engoliu e que vai lhe estrepar as tripas? Essa gosma amarga e quente que se vai formar depois que a farra gastronômica inevitável, que você planeja, se consumar? O azedo que lhe trará o excesso?
Sabe essa esbórnia que você ainda não fez, mas que já lhe prostra, como aquela outra do verão passado? A consciência da ressaca desse banquete que você acaba de gozar? Essa cócega no duodeno? Essa comichão na sola do pé, essa dorzinha de cabeça, da indigestão que virá?
Sabe essa neurose da morte, essa paranoia do caos, que chega ainda durante a paz do pós-almoço? Essa tempestade que se não desaba, mas que lhe já arrebata? Esse fel que lhe extravasa ao pâncreas? Esse motivo vago que lhe inflama o fígado? Essa náusea sem bílis que lhe atravessa o ventre?
Sabe essa coisa parada na traqueia, esse nó na garganta, da alergia que você desconhece, da guloseima cremosa? Esse suor frio depois da lasanha vencida?
Sabe essa alegria vencida que você engoliu e se arrependeu? Essa sem-noção exata do mal que mal lhe acaba de tocar as vísceras? Do mal que lhe fará essa pândega? Esse sintoma que você pressente, que lhe avisará da pestilência daquilo que você permitiu comer? Daquilo que está dentro de você? Do veneno cheiroso e bem embalado que você engoliu?
Sabe esse alimento mórbido ingerido às pressas, sem pesar, sem olhar, sem cheirar, e que agora tenta expelir? O peso do porre alimentar? O peso da peste travestida de alimento? A noção exata que você tem da iminente reação estomacal? Esse desespero de retomar a saúde, antes de se instalar a doença?
Sabe a iminente congestão, esse sufoco do soco tosco em preparação, mas que você sabe que lhe será endereçado, que vai levar, cheio, na boca oca e vazia do fundo do estômago?


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