domingo, 28 de junho de 2020

CONCURSOS E VIOLEIROS.

  Hoje há a indústria dos concursos. A coisa começa pelas faculdades expedidoras de diplomas. Continua com os cursinhos preparatórios de todo tipo e tamanho e bolso. E se massifica pelas editoras de apostilas. Não pensem que isso vai acabar, com a chegada dos neoliberais ao comando do estado. Esse povo leva consigo a arraia miúda composta de oportunistas e medíocres e desonestos intelectuais, exatamente o público mais interessado no cargo concursado.

Eu trabalhei quase a vida inteira num emprego conquistado por concurso, nos anos 1970. Trabalhava num banco privado. Um banco estatal federal abriu concurso. Dos 20 colegas que trabalhavam comigo no banco privado, somente 3 tinham diploma de nível médio, requisito para o concurso. Além da seleção se dar a priori, ainda não havia todo esse sistema preparatório. Os concursos acabavam selecionando os mais naturalmente hábeis dentre os privilegiados que haviam conseguido estudar (claro, já havia muitos que varavam as madrugadas em cima das incipientes apostilas existentes). “Estudar” era para quem não precisava trabalhar em tempo integral a partir dos 15 anos de idade e também para quem passava no exame de admissão ao ginásio… (ou seja, não havia vagas para todos, nos anos 1960).

Assim também acontecia com os violeiros. Para ser violeiro bão, era preciso pegar uma cascavel à unha, matá-la com as mãos, tirar seu guizo e colocá-lo dentro da caixa do instrumento. Era preciso fazer Pacto (negociar com o capeta na encruzilhada). O caboclo precisava, primeiro, fazer uma viola boa. Ou conhecer quem fazia. Depois, tinha que ter talento, esse que cai do céu. Poucos se destacavam. Bambico, Tião Carreiro. Almir Sater já entra na fase de transição, que iria desembocar na produção de violeiros bãos em série. Hoje, violas boas são industrializadas, há escolas para violeiros, muitos jovens ficam o dia inteiro treinando no instrumento, parece que até na USP criaram uma disciplina para a viola caipira, há um violeiro “bão” em cada esquina.

Não. Há um burocrata da viola em cada esquina. Da mesma forma, no funcionalismo público, há um medíocre em cada esquina. Um obtuso, que fez do concurso seu motivo de viver, que passou anos investindo dinheiro e tempo integral às questiúnculas das provas. Nos cargos menores, menos atraentes pela remuneração baixa, esse fenômeno não é tão evidente, ainda encontramos muita gente normal. Mas, nos mais bem remunerados, como os de juízes, promotores, fiscais, policiais federais, etc., isso já virou calamidade pública, literalmente. Claro que não estou falando das sinecuras, essas são para outro público, para quem tem pouco Q.I. e muito Quem Indica.

Essa minha reflexão foi inspirada na notícia dos plágios do Sérgio Moro e do atual ministro da educação.


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