Sento
na cadeira e pego da pena, para escrever esta crônica.
Cadeira,
tudo bem, ainda não digito em pé, como muita gente já faz. Mas,
que pena? Que crônica?
Nenhuma
ideia, nenhum mote, sequer uma frase. Normalmente me vem uma frase,
aí fica fácil; não desta vez. E, pior: nem tenho obrigação de
escrever. Mas quero.
Tô
a fim de fazer guerra. Guerra é legal, porque oferece oportunidades
para sermos heróis ou mártires. E tanto estes como aqueles caem na
boca do povo de maneira positiva e vivem por muito tempo, ganham nome
de rua, são falados às crianças.
E,
de lambugem, acaba a pasmaceira.
Mas,
que guerra? Se não temos uma causa, uma nação, uma ideologia.
Temos um presidente que merece uma guerra, mas com que moral podemos
fazê-la, se o cujo foi eleito pelo povo?
Poderíamos
lutar por um Deus, se ainda fosse o tempo em que Ele era único; além
do mais, é tanto profeta e nenhuma unidade; é tanta diversidade
religiosa que, não, não é mais possível fazer guerra religiosa.
Tem
o capitalismo a ser derrubado, ele merece, mas como recrutar meus
inconformados amigos e amigas quando bem sei que ficam tão felizes
quando chega o pacote do smartphone comprado via internet?
Porque,
na guerra contra o capitalismo, cedo ou tarde os tenentes terão de
informar aos sargentos que, vitoriosa, ninguém mais vai receber
qualquer bugiganga pelo correio.
Nunca
mais um tênis da Asics, uma bicicleta Specialized, um iPhone. Nunca
mais um superstar para idolatrar, um craque de 2 milhões de euros.
Nunca mais uma viagem à Disney. Nunca mais uma comprinha em Miami.
Aliás,
a primeira região a ser bombardeada, no Brasil, será a da 25 de
março. Os shoppings serão implodidos num único dia, com
transmissão direta pela TV.
Como
fazer essa guerra, se todos os combatentes acham os inimigos tão
charmosos? Se quase todos dormem com ele?
Estou
lendo “Horizonte Perdido”, do James Hilton. Ora, eu também sou
filho de deus, eu mereço, depois de ler dois valorizados autores
portugueses contemporâneos (e ter pela frente, Ensaio sobre a
Cegueira, do Saramago).
Porque
ler de enfiada dois premiados escritores portugueses atuais eu
consigo, mas três não. Preciso espairecer num best-seller(leia-se
livros em inglês para se traduzir e vender no mundo inteiro e,
claro, virar filme...) de cem anos de idade, para retomar o fôlego.
Porque
esse “As naus”, do António Lobo Antunes, é dose. O pior é que
a gente nem pode ficar falando assim por aí, sob pena de ser
considerado analfabeto funcional em literatura. O cara ganhou todos
os prêmios da literatura portuguesa. Mas o livro é intragável, e
mais não digo, que já estou cansado.
Em
seguida, foi o João Ricardo Pedro: “O teu rosto será o último”.
É um autor novo, ganhou o Prêmio Leya 2011 e escreveu só mais um
livro, depois. Começou muito bem, e foi piorando. Não gostei do
fechamento. Mas aprendi, nele, que, em Portugal, bituca é beata. Em
comparação com “As naus”, é um refrigerante no deserto (e o
intrigante é que ambos têm, como pano de fundo, o 25 de abril de
1974, em que um golpe militar de esquerda derrubou um governo
fascista).
Porque
leitor culto é aquele que gosta de sofrer… Sofrer?! A cona da tia
Berenice!!