sexta-feira, 26 de abril de 2019

CRÔNICA TIRADA DO NADA.


Sento na cadeira e pego da pena, para escrever esta crônica.
Cadeira, tudo bem, ainda não digito em pé, como muita gente já faz. Mas, que pena? Que crônica?
Nenhuma ideia, nenhum mote, sequer uma frase. Normalmente me vem uma frase, aí fica fácil; não desta vez. E, pior: nem tenho obrigação de escrever. Mas quero.
Tô a fim de fazer guerra. Guerra é legal, porque oferece oportunidades para sermos heróis ou mártires. E tanto estes como aqueles caem na boca do povo de maneira positiva e vivem por muito tempo, ganham nome de rua, são falados às crianças.
E, de lambugem, acaba a pasmaceira.
Mas, que guerra? Se não temos uma causa, uma nação, uma ideologia. Temos um presidente que merece uma guerra, mas com que moral podemos fazê-la, se o cujo foi eleito pelo povo?
Poderíamos lutar por um Deus, se ainda fosse o tempo em que Ele era único; além do mais, é tanto profeta e nenhuma unidade; é tanta diversidade religiosa que, não, não é mais possível fazer guerra religiosa.
Tem o capitalismo a ser derrubado, ele merece, mas como recrutar meus inconformados amigos e amigas quando bem sei que ficam tão felizes quando chega o pacote do smartphone comprado via internet?
Porque, na guerra contra o capitalismo, cedo ou tarde os tenentes terão de informar aos sargentos que, vitoriosa, ninguém mais vai receber qualquer bugiganga pelo correio.
Nunca mais um tênis da Asics, uma bicicleta Specialized, um iPhone. Nunca mais um superstar para idolatrar, um craque de 2 milhões de euros. Nunca mais uma viagem à Disney. Nunca mais uma comprinha em Miami.
Aliás, a primeira região a ser bombardeada, no Brasil, será a da 25 de março. Os shoppings serão implodidos num único dia, com transmissão direta pela TV.
Como fazer essa guerra, se todos os combatentes acham os inimigos tão charmosos? Se quase todos dormem com ele?
Estou lendo “Horizonte Perdido”, do James Hilton. Ora, eu também sou filho de deus, eu mereço, depois de ler dois valorizados autores portugueses contemporâneos (e ter pela frente, Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago).
Porque ler de enfiada dois premiados escritores portugueses atuais eu consigo, mas três não. Preciso espairecer num best-seller(leia-se livros em inglês para se traduzir e vender no mundo inteiro e, claro, virar filme...) de cem anos de idade, para retomar o fôlego.
Porque esse “As naus”, do António Lobo Antunes, é dose. O pior é que a gente nem pode ficar falando assim por aí, sob pena de ser considerado analfabeto funcional em literatura. O cara ganhou todos os prêmios da literatura portuguesa. Mas o livro é intragável, e mais não digo, que já estou cansado.
Em seguida, foi o João Ricardo Pedro: “O teu rosto será o último”. É um autor novo, ganhou o Prêmio Leya 2011 e escreveu só mais um livro, depois. Começou muito bem, e foi piorando. Não gostei do fechamento. Mas aprendi, nele, que, em Portugal, bituca é beata. Em comparação com “As naus”, é um refrigerante no deserto (e o intrigante é que ambos têm, como pano de fundo, o 25 de abril de 1974, em que um golpe militar de esquerda derrubou um governo fascista).
Porque leitor culto é aquele que gosta de sofrer… Sofrer?! A cona da tia Berenice!!


quarta-feira, 17 de abril de 2019

PRETÉRITOS & GERÚNDIOS.

Tem dia que a gente acorda impertinente. É Bife a cavalo ou Bife à cavalo? Nem um nem outro, é Bife ao cavalo. Putz, alguém ainda come bife ao cavalo? Como aparece atualmente nos cardápios o tradicional bife ao cavalo? Bife com eggs? Para mim, bife com ovo é redundância; é Bife ou Ovo.
É Filé a moda ou Filé à moda? Nem este nem aquele, é Filé ao modo. O jeito, o modo de cada casa fazer o filé.
Agora sobre tradução. Uma palavra que já passou da hora de ser traduzida do português-português para o português-brasileiro é Pretérito. A gente traduz e atualiza e acrescenta e até inventa tanta coisa na travessia do idioma pelo Atlântico e o Pretérito continua presente.
Aquela situação em que as pessoas esperam uma atrás da outra, por ordem de chegada: em Portugal é bicha, no Brasil é fila; menino lá é puto; rapariga aqui é puta; trem é comboio, asfalto é alcatrão, suco é sumo, celular é telemóvel, bunda lá é cu (resta saber como traduzem o cu brasileiro).
Tudo isso e muito mais e o Pretérito persiste, atual, lá e cá. Por que não traduzimos Pretérito? (se é que lá ainda usam esse trambolho para se referirem ao passado).
Traduzir Pretérito adquire importância e urgência quando vamos dissertar (já o verbo Dissertar deve ser sumariamente suprimido), ia dizendo, quando vamos dissertar sobre teoria verbal. Eu não aguento mais falar ou escrever Pretérito perfeito.
É óbvio que é perfeita a forma Passei, do verbo Passar: passou, foi embora, desapareceu. Entretanto, Passara é Mais que Perfeito. Eu acho que essa coisa melhor que a perfeita é suspeita, quero dizer, inexistente.
Enfim, eu não suporto o Pretérito mais que perfeito; abaixo o Pretérito mais que perfeito! Passara é o passado de Passei; Passara é o passado do passado. Simples.
Futuro do pretérito também é intragável; até a tradução, Futuro do passado, não vai bem, mas não me ocorre forma substituta.
Outra coisa que me enfeza (o verbo enfezar é legal) é essa mania de vilipendiar o gerúndio. Claro que não vou estar defendendo este gerúndio, mas esse isolado, que economiza o artigo. Os portugueses que fiquem lá, a catar coquinhos; nós ficamos cá, vivendo e votando e levando. E aprendendo. E parodiando Millôr: escrever é só pensar.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Pra não dizer que não falei de Língua


NÉRSO DA CAPITINGA. 
Nestes tempos de Sérgio Moro e seu português simplório, uma pausa para conversar sobre nossa língua.
(alguém escreveu que o modo como o SM fala algumas palavras é típico de gente de pouca leitura; nada contra gente de pouca leitura nem gente que não fala o português culto; mas tudo contra um juiz concursado/mestre-doutor em dois anos/professor/ministro, de pouca leitura)
Quem se lembra do Nérso da Capetinga? Sim, Capetinga existe, é um município do sul de Minas, de 7 mil habitantes, a apenas 5 Km da divisa com o Estado de S.Paulo, 40 Km a leste de Franca, SP.
Nunca estive na cidade, o mais próximo que passei foi 18 Km a leste, na cidade de Cássia, terra onde nasceu o Beato(futuro santo, antigo padre) Donizetti, do qual escrevi recentemente. Nesse dia, almocei em Ibiraci, 20 Km a noroeste, grande produtora de café.
Me lembro de que escrevi, então, que em Ibiraci, todo mundo é Nérso. É que, na região, todo mundo tem o sotaque e o vocabulário do Nérso da Capitinga.
Dizem que o comediante é baiano, mas deve ter copiado o sotaque dessa região. Mais estranho é ver as mulheres falando daquele jeito(tenho o preconceito de que mulher deve falar melhor, mais bonito, que homem).
É uma mistura de português arcaico com economia fonética, como a troca do “b” pelo “v”(assobio/assovio; bassoura/vassoura; brabo/bravo), do “r” pelo “l” e vice-versa, como pomal para pomar e laranjar para laranjal; é uma tendência a abreviar as proparoxítonas, como corgo para córrego, arve para árvore, bebo para bêbado, setmo para sétimo, sabdo para sábado; é a mais deslavada economia, como cê para você e a eliminação dos plurais(marcação apenas no artigo/pronome, como “as manga”, “eles trabalha”.
E é a revolução linguística da simplificação verbal: por ex., o verbo comer, no presente do indicativo, tem apenas uma forma: “come”. A gente come (para eu como), você come, ele come, a gente come(ou nóis come), vocês come, eles come(economia da desinência “s” do plural). O verbo fazer: a gente faiz, você(tu) faiz, ele faiz, a gente(nóis) faiz, vocês(vóis) faiz, eles faiz(nem sempre se economiza, às vezes se esbanja, como esse faiz no lugar de faz).
E na linguagem culta desse povo, só se usa a terceira pessoa: “a gente” é pronome da 1ª pessoa, tanto do singular, quanto do plural, e se conjuga com o verbo na 3ª pessoa do singular; e “você(s)” é pronome da 2ª pessoa, que também se conjuga com o verbo na 3ª pessoa. Pensando bem, acho que o Nérso colheu café em Ibiraci. E o Sérgio Moro, no concurso para Juiz, assim como no mestrado/doutorado (tudo em apenas 2 anos) fez alguma...simplificação!


sábado, 6 de abril de 2019

O BRASIL OPTOU POR UM IDIOTA


O Brasil optou por um idiota”, disse Ciro Gomes, junto com Alckmin, ontem, em palestra nos EUA.
Permita-me um pitaco, ô Ciro: SÓ UM?
E o juiz e sua conje? a ministra da goiabeira? o ministro colombiano? o ministro do posto Tigrão? o astronauta? o chanceler nazista de esquerda?
E o procurador do powerpoint-jejum? o deputado pornográfico que antes fora ator de quinta? a deputada estadual aqui de SP recordista de votos lôca-de-pedra? o deputado-gay-homofóbico?
E os boçais de direita da avenida paulista? as avassaladoras audiências dos bispos-boleto da TV, dos programas de auditório, dos repórteres policiais? o sucesso instantâneo da pilantragem na Web? a fé crente na boatagem?
Permita-me acrescentar: o Brasil optou pela ignorância, pela falta de educação, pelo olhar curto e limitado, pela pouca inteligência, pela estupidez, pela imbecilidade. Tudo no bom sentido, de como está no dicionário. Não estou xingando ninguém, só fazendo uma análise desapaixonada da conjuntura e da estrutura.
O Brasil optou pela tolice, pela superficialidade, pelo pretensiosismo. Pela maluquice, no bom sentido, pela visão curta e egoísta do homem privado.
O Brasil optou pelo descuido, pela distração, pelo alheamento.
O Brasil optou pelo atraso dos reacionários circunstanciados pela pobreza e pela frustração, que sempre estão meio século atrás das ideias do momento.
O Brasil já havia feito opção semelhante lá na Independência, ao escolher o filho do regente fujão. Já havia optado por Júlio Prestes ante Getúlio Vargas, quando a República Velha já não parava de pé. Já havia escolhido Jânio Quadros para suceder Juscelino, só por causa da sua vassourinha embalada em musiquinha fácil e de suas mesóclises.
O Brasil tem sido vítima de seu deficit educacional.
Em 1989, escolheu outro idiota — sempre no bom sentido — às barbas de Lula e Brizola. Em 2014, o Brasil quase escolheu Aécio. Em 2015, o Brasil escolheu Eduardo Cunha!
Em 2002, o Brasil escolheu Lula por causa da sua insistência e porque não havia outro jeito e também porque havia uma musiquinha fácil...
Lá atrás, o Brasil já havia escolhido matar índios. O Brasil já havia escolhido a escravidão. O Brasil já havia escolhido descartar os ex-escravos sem nenhuma compensação.
O Brasil sempre escolheu o bordão infantil do “quer dinheiro vai trabalhar, vagabundo!”.
Não é de hoje que o Brasil vem escolhendo o atraso. Agora mesmo, toda a gente “de bem” está escolhendo acabar com a Previdência, o SUS, a educação pública.
Agora mesmo nossa elite econômica está escolhendo Luís XVI.
O Brasil escolheu um tenente, que só queria e continua só querendo reajustar seu soldo.