O DIA DA SUA SORTE? CARTOMANTE DONA LURDES!
Minha lucidez desatina entre a física e a metafísica. Ia eu pelo calçadão da Praça da Sé. Um pregador instalava sua banca. Eram grandes panos que ele desfraldava entre uma palmeira imperial e outra, com inscrições em latim. Quer dizer, um latim lá dele, que só vendo, qualquer dia tiro uma foto e ponho aqui. Sim, porque ele está sempre lá, sempre o vejo. Por toda a praça pipocavam homens em ameaçadoras ladainhas, dispostos a salvar a alma dos passantes, em nossa língua mui brasileira mesmo. Mas devo tratar de um homem real, instalado numa calçada concreta, respirando o mesmo ar e falando a mesma língua pátria ou devo tratar de assuntos extraordinários?
Pois bem. Na Barão de Itapetininga, quase chegando na Praça da República, instalam-se, para proselitismo dominical, uns 20 homens de branco. É o povo do Mundo Racional, que está desencantado com o Universo. Todo domingo. Vi-os domingo desses na Paulista, não sei se se mudaram ou se criaram uma filial. Acho que se desencantaram com a pasmaceira do centro novo, que ali agora só passa ovelha sem salvação, perdida de verdade e pra sempre. Instalam uns cartazes em suportes próprios, distribuem panfletos e não sei se ainda vendem os mil livros do Universo em Desencanto, que o carioca líder da seita escreveu lá pela década de 1930.
Então, tento atender ao meu indeciso espírito. Estou tratando de fatos palpáveis relativos a assuntos impalpáveis, perceberam? Descrevendo as rotinas muito ordinárias dos arautos do Evangelho, ops, arautos do além. Se você quer prender seu amor, ou desfazer um pacto, consulte Pai Aristóteles. Não é picaretagem, pagamento após o resultado. Melhor que nos consultórios de notas fiscais e curas mui intangíveis. Se alguém te fizer um desaforo, procure Mãe Dinah e contrate uma quebra de demanda pra riba do desaforento. O dia da sua sorte? Cartomante Dona Lurdes! Trabalhos para o amor? Consulte Pai Tim ou Pai Vivo. Oi? Claro!
O que acontece é que meu povo é chegado num Além. Mistério, Saci, bruxa, mago... macumbeiro, monge, padre, pastor, profeta. Confissões, fuxicos, fraquezas, tragédias, acidentes, violência. Política não, o povo gosta é de eleição: ganhar, perder, fla-flu. Autocrítica esse povo gosta. Muxoxo pra fome e miséria(miséria, só a da alma e a do vizinho). Concluo que tá todo mundo de barriga cheia e saco cheio e ninguém aguenta mais o cotidiano, tirante o sexo(imbatível). Depois que inventaram a maizena, a margarina e o frango de 38 dias, ninguém mais tem fome de bucho. Aquela fome física lamentada por humanistas e políticos já não existe. Subiu pra cabeça, foi toda transformada em fome metafísica (Enfim, meu povo adora populista, propagandista e palestrista).
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
O HONESTO
Toda vez que ia levar o fusca lá pra revisar ele me garantia que era honesto. Um mecânico alemão, de uns 60 anos. Trabalhava sozinho num galpão ao lado da casa. Eram dois terrenos. Num ficava a oficina e no outro, sua casa típica de classe média baixa. Mas para as condições de Interlagos, Zona Sul, era uma casa bonita, quase de rico.
Era o ano de 1980. O 1300L e seu carburador e seu platinado... Aquilo sabia ser ruim. Precisava de regulagem constante, ao lado dele a gente parecia estar dentro de um posto de gasolina, tanto que cheirava o combustível. Nesse último particular aspecto, ótimo, porque desde pequeno sou viciado em cheiro de gasolina. Morava e trabalhava no centro, era uma viagem até Interlagos. Deixava o carro e voltava de ônibus, uma aventura... Uns quatro dias depois, ia buscar. Depois do expediente, a aventura no ônibus superlotado era pra ir. E isso era a cada 3 meses, mais ou menos. Fazer o quê? era o mecânico honesto que conhecia...
Eu fantasiava sobre o alemão. Sempre com seu macacão azul não muito sujo, papada flácida de velho e estômago protuberante. Parecia aqueles personagens de filmes americanos sobre a 2ª Guerra, que ridicularizavam os alemães. Um simplório mecânico, a cuidar dos jipes nos acampamentos da retaguarda. A idade era condizente: em 1940 tinha 20 anos. Terminada a guerra, fugira para o Brasil; era um nazista enrustido, com aquela mania de alardear sua honestidade. Sempre de bom humor, me tratava como a um filho.
Estava pensando que, apesar destes tempos inverossímeis de "rejeição e combate à corrupção", o adjetivo 'honesto' nunca esteve tão fora de moda. Mas talvez ele tenha caído em desgraça há mais tempo, e tenha a ver com a 'lei da mulher honesta'. Mulher honesta, ou direita, era aquela de um e único homem-seu-marido por toda vida. Constava no Código Civil! Com a desmoralização de tal conceito-lei, o adjetivo foi junto.
Merecido. É um adjetivo típico dos primatas-puritanos, gente que desconhece a dialética da vida e a relatividade das coisas. "Levar" 2% nos contratos da Petrobras é propina no Brasil e comissão legal nos EUA, em situações equivalentes. É que lá existe uma lei regulamentando o lobby e aqui não. Mas não é porque aqui não é legal que os 'conhecedores do caminho' deixam de cobrar a tal comissão. O Sistema, seja lá, aqui, ou na Dinamarca, não funciona sem graxa...
Sei lá. Me incomodava a insistência do alemão em me garantir que era honesto. Talvez tenha a ver com sua profissão... um mecânico com fama de desonesto pode mudar de ramo. Se consertou jipes na 2ª Guerra, não foi para Hitler, foi para a Pátria. Aos 20 anos, todo mundo é inocente. Sempre trabalhou bem no meu fusca, cobrava um preço...honesto! Acho que era, digamos, honesto mesmo. Tudo isso porque, agora, aos 60 anos, a mesma idade do alemão de 1980, me dei conta de que nunca falei, sequer pensei, em minha suposta relativa eventual honestidade.
Era o ano de 1980. O 1300L e seu carburador e seu platinado... Aquilo sabia ser ruim. Precisava de regulagem constante, ao lado dele a gente parecia estar dentro de um posto de gasolina, tanto que cheirava o combustível. Nesse último particular aspecto, ótimo, porque desde pequeno sou viciado em cheiro de gasolina. Morava e trabalhava no centro, era uma viagem até Interlagos. Deixava o carro e voltava de ônibus, uma aventura... Uns quatro dias depois, ia buscar. Depois do expediente, a aventura no ônibus superlotado era pra ir. E isso era a cada 3 meses, mais ou menos. Fazer o quê? era o mecânico honesto que conhecia...
Eu fantasiava sobre o alemão. Sempre com seu macacão azul não muito sujo, papada flácida de velho e estômago protuberante. Parecia aqueles personagens de filmes americanos sobre a 2ª Guerra, que ridicularizavam os alemães. Um simplório mecânico, a cuidar dos jipes nos acampamentos da retaguarda. A idade era condizente: em 1940 tinha 20 anos. Terminada a guerra, fugira para o Brasil; era um nazista enrustido, com aquela mania de alardear sua honestidade. Sempre de bom humor, me tratava como a um filho.
Estava pensando que, apesar destes tempos inverossímeis de "rejeição e combate à corrupção", o adjetivo 'honesto' nunca esteve tão fora de moda. Mas talvez ele tenha caído em desgraça há mais tempo, e tenha a ver com a 'lei da mulher honesta'. Mulher honesta, ou direita, era aquela de um e único homem-seu-marido por toda vida. Constava no Código Civil! Com a desmoralização de tal conceito-lei, o adjetivo foi junto.
Merecido. É um adjetivo típico dos primatas-puritanos, gente que desconhece a dialética da vida e a relatividade das coisas. "Levar" 2% nos contratos da Petrobras é propina no Brasil e comissão legal nos EUA, em situações equivalentes. É que lá existe uma lei regulamentando o lobby e aqui não. Mas não é porque aqui não é legal que os 'conhecedores do caminho' deixam de cobrar a tal comissão. O Sistema, seja lá, aqui, ou na Dinamarca, não funciona sem graxa...
Sei lá. Me incomodava a insistência do alemão em me garantir que era honesto. Talvez tenha a ver com sua profissão... um mecânico com fama de desonesto pode mudar de ramo. Se consertou jipes na 2ª Guerra, não foi para Hitler, foi para a Pátria. Aos 20 anos, todo mundo é inocente. Sempre trabalhou bem no meu fusca, cobrava um preço...honesto! Acho que era, digamos, honesto mesmo. Tudo isso porque, agora, aos 60 anos, a mesma idade do alemão de 1980, me dei conta de que nunca falei, sequer pensei, em minha suposta relativa eventual honestidade.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
PERDEMOS TODAS AS COPAS.
Todas as Copas, passadas e futuras.
Me lembro da Copa desde 1962, no Chile. Além de Garrincha, houve Amarildo no lugar de Pelé e um tal Altafini jogando pela Itália. Altafini, nada mais, nada menos que o nosso Mazzola, do Palmeiras e da seleção de 1958. Em minha casa nem rádio havia. Em 1966 demos vexame na Inglaterra. Brilhou um tal Eusébio, africano, jogando por Portugal. Em 1970, no México, pensava que Jairzinho fosse branco; em minha casa não havia TV. Fiquei sabendo da existência de Guadalajara, lindo nome de cidade; e do estádio Azteca, nome de um povo outrora tão grandioso quanto. De 1974, me lembro pouco, estava internado no colégio. Apesar do nosso general ditador ser alemão, os donos da casa nem por simpatia deixaram por menos e garantiram o título. De 1978, me lembro que saímos invictos, mas sem o título. Afirmando a grandeza, os argentinos donos da casa foram campeões. Em 1982, na Espanha, a Itália foi campeã: garantiu-se a latina mediterraneidade, estavam todos em casa e a Espanha ainda não tinha azeitado sua máquina de ganhar jogo e dinheiro no futebol. Em 1986, outra vez no México, dessa vez deu Argentina, merecida, apesar do gol de mão do craque Maradona. Em 1990, a Alemanha cometeu o desaforo de ganhar dentro da Itália (que deu o troco em 2006). Em 1994 o Brasil ganhou de 1 a zero de todo mundo nos EUA, com um professor de educação física como técnico, prenúncio da nossa tecnocracia medíocre sempre na retranca; basta dizer que nosso capitão era Dunga e nosso artilheiro, o macunaímico Romário. Em 1998, o Ronaldo de fenomenal bobice amarelou diante do Zidane, argelino-francês. Em 2002, no Japão/Coreia, ganhamos, apesar do Felipão Sete-a-um; o goleiro era bom. Em 2006, como já dito, a Itália foi campeã em plena Alemanha. E, em 2010, na África do Sul, finalmente a empresa espanhola deu lucro.
Como se vê, a Copa é uma festa da memória e uma referência no calendário pessoal de cada um de nós: um cabedal cultural. E um bom negócio. Entra dinheiro no país, sempre sobra alguma coisa, por mais incompetentes que sejam os tecnocratas e seus patrões. Todo mundo quer sediá-la. Desde 1962, o México e a Alemanha já a organizaram duas vezes. No Brasil, ficava pasmo com as bandeiras pintadas no asfalto entre vizinhos nas periferias das cidades. Um comportamento coletivo tão intenso que parecia alienação. O povo adorava a Copa e o clima da Copa. Parecia um São João nacional - as festas juninas do Nordeste. Mas depois que nosso senhorio botou o povo pra odiar a Copa na rua, perdemos. Perdemos de 7 a 1 todas as Copas passadas e futuras. Nunca mais teremos bandeiras pintadas no asfalto; se elas voltarem, soará falso. Não me conformo com esse ódio. Parece coisa de gente com um parafuso a mais ou a menos na cabeça. Semelha aquela doença nazista contra comunistas, eslavos e judeus. Agora odiamos a Copa e adoramos farda, hino, cerca, tranca, tribunal, brucutu. Bronco adora odiar.
Me lembro da Copa desde 1962, no Chile. Além de Garrincha, houve Amarildo no lugar de Pelé e um tal Altafini jogando pela Itália. Altafini, nada mais, nada menos que o nosso Mazzola, do Palmeiras e da seleção de 1958. Em minha casa nem rádio havia. Em 1966 demos vexame na Inglaterra. Brilhou um tal Eusébio, africano, jogando por Portugal. Em 1970, no México, pensava que Jairzinho fosse branco; em minha casa não havia TV. Fiquei sabendo da existência de Guadalajara, lindo nome de cidade; e do estádio Azteca, nome de um povo outrora tão grandioso quanto. De 1974, me lembro pouco, estava internado no colégio. Apesar do nosso general ditador ser alemão, os donos da casa nem por simpatia deixaram por menos e garantiram o título. De 1978, me lembro que saímos invictos, mas sem o título. Afirmando a grandeza, os argentinos donos da casa foram campeões. Em 1982, na Espanha, a Itália foi campeã: garantiu-se a latina mediterraneidade, estavam todos em casa e a Espanha ainda não tinha azeitado sua máquina de ganhar jogo e dinheiro no futebol. Em 1986, outra vez no México, dessa vez deu Argentina, merecida, apesar do gol de mão do craque Maradona. Em 1990, a Alemanha cometeu o desaforo de ganhar dentro da Itália (que deu o troco em 2006). Em 1994 o Brasil ganhou de 1 a zero de todo mundo nos EUA, com um professor de educação física como técnico, prenúncio da nossa tecnocracia medíocre sempre na retranca; basta dizer que nosso capitão era Dunga e nosso artilheiro, o macunaímico Romário. Em 1998, o Ronaldo de fenomenal bobice amarelou diante do Zidane, argelino-francês. Em 2002, no Japão/Coreia, ganhamos, apesar do Felipão Sete-a-um; o goleiro era bom. Em 2006, como já dito, a Itália foi campeã em plena Alemanha. E, em 2010, na África do Sul, finalmente a empresa espanhola deu lucro.
Como se vê, a Copa é uma festa da memória e uma referência no calendário pessoal de cada um de nós: um cabedal cultural. E um bom negócio. Entra dinheiro no país, sempre sobra alguma coisa, por mais incompetentes que sejam os tecnocratas e seus patrões. Todo mundo quer sediá-la. Desde 1962, o México e a Alemanha já a organizaram duas vezes. No Brasil, ficava pasmo com as bandeiras pintadas no asfalto entre vizinhos nas periferias das cidades. Um comportamento coletivo tão intenso que parecia alienação. O povo adorava a Copa e o clima da Copa. Parecia um São João nacional - as festas juninas do Nordeste. Mas depois que nosso senhorio botou o povo pra odiar a Copa na rua, perdemos. Perdemos de 7 a 1 todas as Copas passadas e futuras. Nunca mais teremos bandeiras pintadas no asfalto; se elas voltarem, soará falso. Não me conformo com esse ódio. Parece coisa de gente com um parafuso a mais ou a menos na cabeça. Semelha aquela doença nazista contra comunistas, eslavos e judeus. Agora odiamos a Copa e adoramos farda, hino, cerca, tranca, tribunal, brucutu. Bronco adora odiar.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
VAI, BAIANO !
Fui chamado de baiano, na rua. Estou exultante. Nunca gostei da minha sisudez paulistana. Vivo tentando amenizar minha excessiva objetividade, minha pressa. Não tenho jogo de cintura, não sei dançar. Sou mau contador de piadas, rio pouco. Não toco nenhum instrumento. Meu bom humor é fino demais, invisível. Sempre admirei a 'folga' dos baianos, o corpo moreno, a mente criativa, flexíveis. Sou branco transparente, qualquer calor estraga; meu olho é claro, precisa de proteção contra o sol. E a inteligência baiana é inquestionável. Inteligência e criatividade. Como se sabe, baiano burro nasce morto. E por tudo isso, baiano é muito mais tolerante que paulista; tem uma capacidade de empatia muito maior que a nossa.
Ia pedalando em frente à quadra da Vai-Vai, quase na 14 Bis. (a Praça 14 Bis, no Bixiga, é rica em tipos e situações humanas - vide a crônica O Rabecão e vide o João Trabalhador e sua cidade linda, que pegou a praça pra Cristo). A mulher cinquentona queria atravessar a rua no meio do quarteirão, eu pedalava devagar, ela se exasperou e bradou, enquanto me esperava passar:
— Vai, baiano!
Pelo jeito, ia fazer limpeza numa casa próxima, estava atrasada... Vestuário simples, cabelos castanhos, pele branca-parda, já vi muitas cearenses, pernambucanas e até baianas com aquele biotipo. Nenhuma ascendência ariana... Mas de uma intolerância e um preconceito que só consigo encontrar em paulistanos natos. Enfim, uma mulher pobre, porque ali naquele trecho, a pé, só passa gente pobre. (nesse caso, pobre e de direita, rsrs).
O fato é que minha aparência física não é de baiano. Se não penso nem ajo como os baianos, menos ainda pareço, de perto ou de longe. Nem forçando a barra. Mas vestia camiseta rosa-cheguei (visibilidade sobre bicicleta), usava chapéu panamá(proteção solar) e... pedalava. Talvez tenha sido por causa do óculos escuros, receitados pelo oftalmologista (outra vez a proteção solar...). A pobre não teve dúvidas: só pode ser baiano(ela estava com pressa, lembram? creio que a pressa aflora no cidadão os mais íntimos instintos, os mais sinceros conceitos). Porque nenhum bom paulistano zanza pela cidade assim, de maneira tão descontraída ('paulista' é quase sinônimo de 'tenso'). Na hora, quase corri atrás dela. Para esclarecer se era sério, pedir que repetisse o elogio.
Ia pedalando em frente à quadra da Vai-Vai, quase na 14 Bis. (a Praça 14 Bis, no Bixiga, é rica em tipos e situações humanas - vide a crônica O Rabecão e vide o João Trabalhador e sua cidade linda, que pegou a praça pra Cristo). A mulher cinquentona queria atravessar a rua no meio do quarteirão, eu pedalava devagar, ela se exasperou e bradou, enquanto me esperava passar:
— Vai, baiano!
Pelo jeito, ia fazer limpeza numa casa próxima, estava atrasada... Vestuário simples, cabelos castanhos, pele branca-parda, já vi muitas cearenses, pernambucanas e até baianas com aquele biotipo. Nenhuma ascendência ariana... Mas de uma intolerância e um preconceito que só consigo encontrar em paulistanos natos. Enfim, uma mulher pobre, porque ali naquele trecho, a pé, só passa gente pobre. (nesse caso, pobre e de direita, rsrs).
O fato é que minha aparência física não é de baiano. Se não penso nem ajo como os baianos, menos ainda pareço, de perto ou de longe. Nem forçando a barra. Mas vestia camiseta rosa-cheguei (visibilidade sobre bicicleta), usava chapéu panamá(proteção solar) e... pedalava. Talvez tenha sido por causa do óculos escuros, receitados pelo oftalmologista (outra vez a proteção solar...). A pobre não teve dúvidas: só pode ser baiano(ela estava com pressa, lembram? creio que a pressa aflora no cidadão os mais íntimos instintos, os mais sinceros conceitos). Porque nenhum bom paulistano zanza pela cidade assim, de maneira tão descontraída ('paulista' é quase sinônimo de 'tenso'). Na hora, quase corri atrás dela. Para esclarecer se era sério, pedir que repetisse o elogio.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
MÉDIA & PINGADO.
— Seu garçom faça o favor de me trazer uma média, mas que tenha mais leite que café.
Vi o atendente esboçar um sorriso no canto da boca, ele percebera a citação do Noel Rosa...
— Pode ser um pingado? — Perguntou o atendente.
— Pode ser uma média mesmo — respondi eu, para piorar a situação — com pouco café — continuei, para agravar o que já estava perdido.
O atendente era um senhor assim, da mesma idade que eu. Se fosse um jovem, não perderia tempo comigo, deixaria pra lá. Mas o senhor não perdoou:
— Média é média. Não tem jeito. Se quiser mais leite, tem de ser pingado.
Aí eu caí na real. Me dei conta do ridículo em que estava metido. Quarenta anos morando no centro de São Paulo e não sabia a diferença entre média e pingado. Quase meio século de cidade grande e ainda inexperiente em termos de botecos e padarias. É raro eu comer ou beber fora de casa. Não costumo encostar a pança num balcão e pedir um café ou uma cerveja. Só o faço em caso de absoluta necessidade, como numa viagem. Em viagens de ônibus longas, sempre se para em postos na beira da estrada, e foi num desses que passei o vexame acima descrito.
Essas minúcias do trivial leite com café, se em xícara ou em copo de vidro, se média ou pingado... sempre me pareceram coisa de cidade grande, alienígena. Eu me negava a apreender as nuances. Mas chegava, pedia um leite com café e o atendente, invariavelmente, perguntava: "média ou pingado?". Eu escolhia um deles, aleatoriamente, e quando vinha, ficava insatisfeito, caso tivesse escolhido média, já que prefiro mais leite que café. E média é média, não tem jeito, como finalmente ouvi do atendente exasperado. Pegue a xícara, imagine uma linha média horizontal entre o fundo e a borda, encha de preto até a linha e complete com o branco. Ou vice-versa. Se você for fresco e quiser personalizar e ajustar as proporções, tem de pedir um pingado. Nesse caso, o pingado (de café) pode ser mais breve ou mais longo, se quiser menos ou mais café.
Sofro com essa minha mania de raciocinar e usar a lógica para entender coisas práticas que desconheço. Mas acho que descobri o motivo dessa minha duradoura e teimosa ignorância: é que pedir leite com café usando as palavras 'média' ou 'pingado' é uma atitude urbana pura, penso. Aliás, fazer o desjejum na padaria é coisa de gente de cidade, o que não sou. Daí que sempre encarei com estranhamento, quase temor e, às vezes, admiração, o ato de se pedir uma média ou um pingado. Algo sofisticado demais pro meu gosto, minúcia quase pedante, parece que criada de propósito para embananar os caipiras. Jargão de cidade grande. Querer simplificar o nosso 'leite com café' é como fabricar máquina de pipoca: não tem jeito de simplificar mais o ato de fazer pipoca na panela, como nossas avós sempre fizeram. É isso. Saio do sertão, mas o sertão não sai de mim.
Vi o atendente esboçar um sorriso no canto da boca, ele percebera a citação do Noel Rosa...
— Pode ser um pingado? — Perguntou o atendente.
— Pode ser uma média mesmo — respondi eu, para piorar a situação — com pouco café — continuei, para agravar o que já estava perdido.
O atendente era um senhor assim, da mesma idade que eu. Se fosse um jovem, não perderia tempo comigo, deixaria pra lá. Mas o senhor não perdoou:
— Média é média. Não tem jeito. Se quiser mais leite, tem de ser pingado.
Aí eu caí na real. Me dei conta do ridículo em que estava metido. Quarenta anos morando no centro de São Paulo e não sabia a diferença entre média e pingado. Quase meio século de cidade grande e ainda inexperiente em termos de botecos e padarias. É raro eu comer ou beber fora de casa. Não costumo encostar a pança num balcão e pedir um café ou uma cerveja. Só o faço em caso de absoluta necessidade, como numa viagem. Em viagens de ônibus longas, sempre se para em postos na beira da estrada, e foi num desses que passei o vexame acima descrito.
Essas minúcias do trivial leite com café, se em xícara ou em copo de vidro, se média ou pingado... sempre me pareceram coisa de cidade grande, alienígena. Eu me negava a apreender as nuances. Mas chegava, pedia um leite com café e o atendente, invariavelmente, perguntava: "média ou pingado?". Eu escolhia um deles, aleatoriamente, e quando vinha, ficava insatisfeito, caso tivesse escolhido média, já que prefiro mais leite que café. E média é média, não tem jeito, como finalmente ouvi do atendente exasperado. Pegue a xícara, imagine uma linha média horizontal entre o fundo e a borda, encha de preto até a linha e complete com o branco. Ou vice-versa. Se você for fresco e quiser personalizar e ajustar as proporções, tem de pedir um pingado. Nesse caso, o pingado (de café) pode ser mais breve ou mais longo, se quiser menos ou mais café.
Sofro com essa minha mania de raciocinar e usar a lógica para entender coisas práticas que desconheço. Mas acho que descobri o motivo dessa minha duradoura e teimosa ignorância: é que pedir leite com café usando as palavras 'média' ou 'pingado' é uma atitude urbana pura, penso. Aliás, fazer o desjejum na padaria é coisa de gente de cidade, o que não sou. Daí que sempre encarei com estranhamento, quase temor e, às vezes, admiração, o ato de se pedir uma média ou um pingado. Algo sofisticado demais pro meu gosto, minúcia quase pedante, parece que criada de propósito para embananar os caipiras. Jargão de cidade grande. Querer simplificar o nosso 'leite com café' é como fabricar máquina de pipoca: não tem jeito de simplificar mais o ato de fazer pipoca na panela, como nossas avós sempre fizeram. É isso. Saio do sertão, mas o sertão não sai de mim.
sábado, 4 de fevereiro de 2017
POBRE DE DIREITA.
Esbarrei num cara pobre, preto, nordestino e de direita. Não sei se era gay. Aliás, em nossa câmara municipal paulistana há um vereador pobre, preto, gay e de direita. Garoto novo, deve ter nascido aqui, mas é plausível que sua família tenha vindo do nordeste. Nós, supostos pobres de esquerda, tendemos a pensar raso e achar que as vítimas da direita reagem a ela com lógica e são todas de esquerda. Mas a gente não devia pensar assim. Não foi nosso guru, o Karl, que disse que os pensamentos dominantes são os pensamentos da classe dominante?
A classe dominante é de direita. E não faz mais que a obrigação. Não, o pobre de direita em quem esbarrei não pertence à classe dominante. Tudo bem, ele tem casa, carro e consegue até pagar um plano de saúde. É quase um privilegiado, diante da nossa miséria escandalosa, mas não pertence à classe dominante. Não sei se o cara é assalariado ou tem um pequeno negócio, talvez tenha um carguinho numa firma por aí, talvez seja funcionário público. Enfim, é um cara sujeito às vicissitudes da economia e das reformas. Ou seja, ele não tem cabedal, ops, capital. Pode até escapar, mas seus descendentes não escapam...
Porque a classe dominante é menos de 1% da população. Bem menos: 1% seria 2 milhões e nossa classe dominante tem menos que isso. Ela tem esse nome porque domina, é claro. Controla a feitura e execução das leis (legislativo e judiciário). Por aí, direciona os sistemas educacional e de comunicação social, entre outros: põe os ovos, choca, faz nascer e encaminha... Sabe aquele "dinheirão" que o pobre de direita ajuntou e está aplicado rendendo bem? Aquilo é nada, para os padrões da classe dominante. Quer saber: nem ganhando sozinho na loteria o tal se credencia à classe dominante, por parâmetros econômicos.
Nós, supostos pobres de esquerda, somos minoria, por definição, à luz da máxima do Karl. Se as ideias dominantes são de direita, é lógico que a maioria seja de direita, mesmo os espezinhados. Poucos vão além do que se aprende na escola básica e do que se vê na tevê. Essa minoria, se tem o azar de esbarrar em sistemas alternativos ou situações críticas e específicas, passa a questionar o Sistema: são os esquerdistas. Quase por acaso. Por isso, deviam ser mais humildes. Não deviam se comparar aos profetas, aos santos, aos visionários, portadores da verdade. 99% dos pobres de esquerda são arrogantes. Se consideram conscientes: "consciência de classe". É essa arrogância que faz com que despertem tanto ódio do povão de direita. Um ódio que permanece latente a maior parte do tempo e, de vez em quando, explode. É o que acontece agora no Brasil.
Lembra-me o dia 20 de junho de 2013. Nesse dia, nós, supostos esquerdistas, descobrimos, pasmos, que o chão da Avenida Paulista em suas manifestações políticas não era monopólio nosso. Pior, éramos minoria. Um companheiro sindicalista reagia estupefato, com ódio. Reação típica dos desinformados. Odiar é coisa de imaturo ou místico. 0diar ou adorar é coisa de pobre de direita. Não acredita que sempre fomos minoria? Faça um retrospecto de sua militância: sempre tendo de convencer - quase enganar - a maioria, os medrosos, os baba-ovo. A prova de que sempre fomos minoria são as "comissões de esclarecimento": sem piquete não tem greve.
Mas tenho um amigo que diz que não existe pobre de direita. O que existe é pobre desinformado, quer dizer, mal-informado, manipulado, ludibriado. Ele acha que, por definição, todo pobre é de esquerda. Se o pobre ou seus amigos ou seus vizinhos ou seus descendentes pertence aos deserdados da terra, ele só pode ser contrário às ideias de quem está usufruindo da terra. Só que, para isso, o pobre precisa tomar pé da realidade um pouco mais além do seu quintal. E isso parece simples, mas não é. Ao contrário, quase todos morrem dentro da bolha ideológica. Enquanto isso, a História avança a passos lentos. E lógicos, como diria o nosso guru Karl. E de vez em quando dá um cochilo... Enfim, meu amigo acha que não é lógico pobre de direita. Pero que los hay, los hay. E mucho. Azar da lógica.
A classe dominante é de direita. E não faz mais que a obrigação. Não, o pobre de direita em quem esbarrei não pertence à classe dominante. Tudo bem, ele tem casa, carro e consegue até pagar um plano de saúde. É quase um privilegiado, diante da nossa miséria escandalosa, mas não pertence à classe dominante. Não sei se o cara é assalariado ou tem um pequeno negócio, talvez tenha um carguinho numa firma por aí, talvez seja funcionário público. Enfim, é um cara sujeito às vicissitudes da economia e das reformas. Ou seja, ele não tem cabedal, ops, capital. Pode até escapar, mas seus descendentes não escapam...
Porque a classe dominante é menos de 1% da população. Bem menos: 1% seria 2 milhões e nossa classe dominante tem menos que isso. Ela tem esse nome porque domina, é claro. Controla a feitura e execução das leis (legislativo e judiciário). Por aí, direciona os sistemas educacional e de comunicação social, entre outros: põe os ovos, choca, faz nascer e encaminha... Sabe aquele "dinheirão" que o pobre de direita ajuntou e está aplicado rendendo bem? Aquilo é nada, para os padrões da classe dominante. Quer saber: nem ganhando sozinho na loteria o tal se credencia à classe dominante, por parâmetros econômicos.
Nós, supostos pobres de esquerda, somos minoria, por definição, à luz da máxima do Karl. Se as ideias dominantes são de direita, é lógico que a maioria seja de direita, mesmo os espezinhados. Poucos vão além do que se aprende na escola básica e do que se vê na tevê. Essa minoria, se tem o azar de esbarrar em sistemas alternativos ou situações críticas e específicas, passa a questionar o Sistema: são os esquerdistas. Quase por acaso. Por isso, deviam ser mais humildes. Não deviam se comparar aos profetas, aos santos, aos visionários, portadores da verdade. 99% dos pobres de esquerda são arrogantes. Se consideram conscientes: "consciência de classe". É essa arrogância que faz com que despertem tanto ódio do povão de direita. Um ódio que permanece latente a maior parte do tempo e, de vez em quando, explode. É o que acontece agora no Brasil.
Lembra-me o dia 20 de junho de 2013. Nesse dia, nós, supostos esquerdistas, descobrimos, pasmos, que o chão da Avenida Paulista em suas manifestações políticas não era monopólio nosso. Pior, éramos minoria. Um companheiro sindicalista reagia estupefato, com ódio. Reação típica dos desinformados. Odiar é coisa de imaturo ou místico. 0diar ou adorar é coisa de pobre de direita. Não acredita que sempre fomos minoria? Faça um retrospecto de sua militância: sempre tendo de convencer - quase enganar - a maioria, os medrosos, os baba-ovo. A prova de que sempre fomos minoria são as "comissões de esclarecimento": sem piquete não tem greve.
Mas tenho um amigo que diz que não existe pobre de direita. O que existe é pobre desinformado, quer dizer, mal-informado, manipulado, ludibriado. Ele acha que, por definição, todo pobre é de esquerda. Se o pobre ou seus amigos ou seus vizinhos ou seus descendentes pertence aos deserdados da terra, ele só pode ser contrário às ideias de quem está usufruindo da terra. Só que, para isso, o pobre precisa tomar pé da realidade um pouco mais além do seu quintal. E isso parece simples, mas não é. Ao contrário, quase todos morrem dentro da bolha ideológica. Enquanto isso, a História avança a passos lentos. E lógicos, como diria o nosso guru Karl. E de vez em quando dá um cochilo... Enfim, meu amigo acha que não é lógico pobre de direita. Pero que los hay, los hay. E mucho. Azar da lógica.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
CONVERSA SOBRE IDIOTAS.
— Qui que cê acha, a quantidade de idiotas tem aumentado no mundo?
— Se a população tem aumentado, a quantidade de idiotas também aumenta...
— Proporcionalmente, quero dizer...
— Dos idiotas ou dos estúpidos?
— Acho que o meu 'idiota' aqui é sinônimo de 'estúpido'. Porque 'idiota' tem várias nuances, pode ser até doença...
— Sei... você se refere a essas pessoas normais, que vivem metendo o pé na jaca...
— Isso! Isso!
— Estúpidos!
— E então? Tem aumentado a quantidade de estúpidos em relação ao total de habitantes?
— Acho que não. Sempre houve uma quantidade enorme de estúpidos.
— Mas você não tem a sensação de que aumentou, e muito?
— Tenho. Mas minha sensação é estúpida (risos). O que acontece é que agora os idiotas estão mais legíveis...
— Sei, lá vem você com as tais de redes sociais, a comunicação on line direto de cada casa, a facilidade de publicar o pensamento direto do recesso do lar...
— Claro! O cara está em casa e ali é rei. Fica desarmado com essa falsa sensação de poder, sem nenhum contraditório, e, muitas vezes, mamado...
— Mamado?!
— Drogado... É como um motorista bêbado ao volante; e sua indigência cultural impede que ele perceba o estrago que esse bólido virtual provoca. É um sujeito isolado e não esclarecido. E ainda tem seu subconsciente pré-internético... Escreve como um náufrago que prepara uma mensagem para pôr dentro de uma garrafa a ser lançada no mar.
— Gostei dessa! Minhas mensagens virtuais não diferem muito daquelas das garrafas, em termos de retorno(risos).
— Aí está um motivo adicional para atiçar a manifestação em massa dos estúpidos.
— O quê?
— Apelar, postar idiotices, para que a garrafa seja encontrada, a rolha retirada, a mensagem lida... fazer sucesso.
— Algumas até são engraçadas...
— E outras são muito sem graça. Alguém que usa um vocabulário castiço, como se estivesse escrevendo ao imperador, uma garrafa lançada cem anos atras...
— Um textão de dois mil caracteres...
— Sem nenhum GIF ilustrativo, nenhuma foto...
— Tem certeza de que a quantidade de idiotas não aumentou?
— Não tenho certeza de nada. Só acho e penso e acredito. — Não estou bem certo nem quanto a nós dois...
— Essa incerteza tem a ver com a estupidez relativa. O cara só trata de assuntos de que não gosto ou tem opiniões diferentes das minhas, então já tasco um 'idiota' nele. O choque entre os mundos paralelos que se encontram...
— O pobre de direita...
— Não existe pobre de direita, o que há é pobre que vota na Direita.
— E então?!
— Não é idiota, é impossível que haja tantos idiotas. Imagina uma criança manipulando uma arma, é grande a probabilidade dela dar um tiro no próprio pé.
— Quer dizer que o 'pobre de direita' é apenas um imaturo?
— Um pouco mais... um desinformado... uma vítima.
— Você vota no Lula e ele no Bolsonaro...
— Não, nesse caso, é estupidez absoluta(risos).
— Boa! Existe estupidez absoluta? Um assunto ou uma opinião ou uma atitude cuja estupidez independe de referencial?
— Boa pergunta. Porque o cara pode ser inteligente falando de futebol, religião e até de astrologia...
— Já tem uns assuntos que são neutros, pouco perigosos, como esses posts que falam de como cozinhar, como arrumar a casa, o jardim...
— Pois é. Aí o risco é de ser chato. Mas tem uns caras que conseguem ser idiotas até quando passam a receita de um pudim.
— Você é o primeiro cara com quem converso cujas empatia e tolerância diminuem com o transcorrer das cervejas...
— Se a população tem aumentado, a quantidade de idiotas também aumenta...
— Proporcionalmente, quero dizer...
— Dos idiotas ou dos estúpidos?
— Acho que o meu 'idiota' aqui é sinônimo de 'estúpido'. Porque 'idiota' tem várias nuances, pode ser até doença...
— Sei... você se refere a essas pessoas normais, que vivem metendo o pé na jaca...
— Isso! Isso!
— Estúpidos!
— E então? Tem aumentado a quantidade de estúpidos em relação ao total de habitantes?
— Acho que não. Sempre houve uma quantidade enorme de estúpidos.
— Mas você não tem a sensação de que aumentou, e muito?
— Tenho. Mas minha sensação é estúpida (risos). O que acontece é que agora os idiotas estão mais legíveis...
— Sei, lá vem você com as tais de redes sociais, a comunicação on line direto de cada casa, a facilidade de publicar o pensamento direto do recesso do lar...
— Claro! O cara está em casa e ali é rei. Fica desarmado com essa falsa sensação de poder, sem nenhum contraditório, e, muitas vezes, mamado...
— Mamado?!
— Drogado... É como um motorista bêbado ao volante; e sua indigência cultural impede que ele perceba o estrago que esse bólido virtual provoca. É um sujeito isolado e não esclarecido. E ainda tem seu subconsciente pré-internético... Escreve como um náufrago que prepara uma mensagem para pôr dentro de uma garrafa a ser lançada no mar.
— Gostei dessa! Minhas mensagens virtuais não diferem muito daquelas das garrafas, em termos de retorno(risos).
— Aí está um motivo adicional para atiçar a manifestação em massa dos estúpidos.
— O quê?
— Apelar, postar idiotices, para que a garrafa seja encontrada, a rolha retirada, a mensagem lida... fazer sucesso.
— Algumas até são engraçadas...
— E outras são muito sem graça. Alguém que usa um vocabulário castiço, como se estivesse escrevendo ao imperador, uma garrafa lançada cem anos atras...
— Um textão de dois mil caracteres...
— Sem nenhum GIF ilustrativo, nenhuma foto...
— Tem certeza de que a quantidade de idiotas não aumentou?
— Não tenho certeza de nada. Só acho e penso e acredito. — Não estou bem certo nem quanto a nós dois...
— Essa incerteza tem a ver com a estupidez relativa. O cara só trata de assuntos de que não gosto ou tem opiniões diferentes das minhas, então já tasco um 'idiota' nele. O choque entre os mundos paralelos que se encontram...
— O pobre de direita...
— Não existe pobre de direita, o que há é pobre que vota na Direita.
— E então?!
— Não é idiota, é impossível que haja tantos idiotas. Imagina uma criança manipulando uma arma, é grande a probabilidade dela dar um tiro no próprio pé.
— Quer dizer que o 'pobre de direita' é apenas um imaturo?
— Um pouco mais... um desinformado... uma vítima.
— Você vota no Lula e ele no Bolsonaro...
— Não, nesse caso, é estupidez absoluta(risos).
— Boa! Existe estupidez absoluta? Um assunto ou uma opinião ou uma atitude cuja estupidez independe de referencial?
— Boa pergunta. Porque o cara pode ser inteligente falando de futebol, religião e até de astrologia...
— Já tem uns assuntos que são neutros, pouco perigosos, como esses posts que falam de como cozinhar, como arrumar a casa, o jardim...
— Pois é. Aí o risco é de ser chato. Mas tem uns caras que conseguem ser idiotas até quando passam a receita de um pudim.
— Você é o primeiro cara com quem converso cujas empatia e tolerância diminuem com o transcorrer das cervejas...
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