Todas as Copas, passadas e futuras.
Me lembro da Copa desde 1962, no Chile. Além de Garrincha, houve Amarildo no lugar de Pelé e um tal Altafini jogando pela Itália. Altafini, nada mais, nada menos que o nosso Mazzola, do Palmeiras e da seleção de 1958. Em minha casa nem rádio havia. Em 1966 demos vexame na Inglaterra. Brilhou um tal Eusébio, africano, jogando por Portugal. Em 1970, no México, pensava que Jairzinho fosse branco; em minha casa não havia TV. Fiquei sabendo da existência de Guadalajara, lindo nome de cidade; e do estádio Azteca, nome de um povo outrora tão grandioso quanto. De 1974, me lembro pouco, estava internado no colégio. Apesar do nosso general ditador ser alemão, os donos da casa nem por simpatia deixaram por menos e garantiram o título. De 1978, me lembro que saímos invictos, mas sem o título. Afirmando a grandeza, os argentinos donos da casa foram campeões. Em 1982, na Espanha, a Itália foi campeã: garantiu-se a latina mediterraneidade, estavam todos em casa e a Espanha ainda não tinha azeitado sua máquina de ganhar jogo e dinheiro no futebol. Em 1986, outra vez no México, dessa vez deu Argentina, merecida, apesar do gol de mão do craque Maradona. Em 1990, a Alemanha cometeu o desaforo de ganhar dentro da Itália (que deu o troco em 2006). Em 1994 o Brasil ganhou de 1 a zero de todo mundo nos EUA, com um professor de educação física como técnico, prenúncio da nossa tecnocracia medíocre sempre na retranca; basta dizer que nosso capitão era Dunga e nosso artilheiro, o macunaímico Romário. Em 1998, o Ronaldo de fenomenal bobice amarelou diante do Zidane, argelino-francês. Em 2002, no Japão/Coreia, ganhamos, apesar do Felipão Sete-a-um; o goleiro era bom. Em 2006, como já dito, a Itália foi campeã em plena Alemanha. E, em 2010, na África do Sul, finalmente a empresa espanhola deu lucro.
Como se vê, a Copa é uma festa da memória e uma referência no calendário pessoal de cada um de nós: um cabedal cultural. E um bom negócio. Entra dinheiro no país, sempre sobra alguma coisa, por mais incompetentes que sejam os tecnocratas e seus patrões. Todo mundo quer sediá-la. Desde 1962, o México e a Alemanha já a organizaram duas vezes. No Brasil, ficava pasmo com as bandeiras pintadas no asfalto entre vizinhos nas periferias das cidades. Um comportamento coletivo tão intenso que parecia alienação. O povo adorava a Copa e o clima da Copa. Parecia um São João nacional - as festas juninas do Nordeste. Mas depois que nosso senhorio botou o povo pra odiar a Copa na rua, perdemos. Perdemos de 7 a 1 todas as Copas passadas e futuras. Nunca mais teremos bandeiras pintadas no asfalto; se elas voltarem, soará falso. Não me conformo com esse ódio. Parece coisa de gente com um parafuso a mais ou a menos na cabeça. Semelha aquela doença nazista contra comunistas, eslavos e judeus. Agora odiamos a Copa e adoramos farda, hino, cerca, tranca, tribunal, brucutu. Bronco adora odiar.
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