Toda vez que ia levar o fusca lá pra revisar ele me garantia que era honesto. Um mecânico alemão, de uns 60 anos. Trabalhava sozinho num galpão ao lado da casa. Eram dois terrenos. Num ficava a oficina e no outro, sua casa típica de classe média baixa. Mas para as condições de Interlagos, Zona Sul, era uma casa bonita, quase de rico.
Era o ano de 1980. O 1300L e seu carburador e seu platinado... Aquilo sabia ser ruim. Precisava de regulagem constante, ao lado dele a gente parecia estar dentro de um posto de gasolina, tanto que cheirava o combustível. Nesse último particular aspecto, ótimo, porque desde pequeno sou viciado em cheiro de gasolina. Morava e trabalhava no centro, era uma viagem até Interlagos. Deixava o carro e voltava de ônibus, uma aventura... Uns quatro dias depois, ia buscar. Depois do expediente, a aventura no ônibus superlotado era pra ir. E isso era a cada 3 meses, mais ou menos. Fazer o quê? era o mecânico honesto que conhecia...
Eu fantasiava sobre o alemão. Sempre com seu macacão azul não muito sujo, papada flácida de velho e estômago protuberante. Parecia aqueles personagens de filmes americanos sobre a 2ª Guerra, que ridicularizavam os alemães. Um simplório mecânico, a cuidar dos jipes nos acampamentos da retaguarda. A idade era condizente: em 1940 tinha 20 anos. Terminada a guerra, fugira para o Brasil; era um nazista enrustido, com aquela mania de alardear sua honestidade. Sempre de bom humor, me tratava como a um filho.
Estava pensando que, apesar destes tempos inverossímeis de "rejeição e combate à corrupção", o adjetivo 'honesto' nunca esteve tão fora de moda. Mas talvez ele tenha caído em desgraça há mais tempo, e tenha a ver com a 'lei da mulher honesta'. Mulher honesta, ou direita, era aquela de um e único homem-seu-marido por toda vida. Constava no Código Civil! Com a desmoralização de tal conceito-lei, o adjetivo foi junto.
Merecido. É um adjetivo típico dos primatas-puritanos, gente que desconhece a dialética da vida e a relatividade das coisas. "Levar" 2% nos contratos da Petrobras é propina no Brasil e comissão legal nos EUA, em situações equivalentes. É que lá existe uma lei regulamentando o lobby e aqui não. Mas não é porque aqui não é legal que os 'conhecedores do caminho' deixam de cobrar a tal comissão. O Sistema, seja lá, aqui, ou na Dinamarca, não funciona sem graxa...
Sei lá. Me incomodava a insistência do alemão em me garantir que era honesto. Talvez tenha a ver com sua profissão... um mecânico com fama de desonesto pode mudar de ramo. Se consertou jipes na 2ª Guerra, não foi para Hitler, foi para a Pátria. Aos 20 anos, todo mundo é inocente. Sempre trabalhou bem no meu fusca, cobrava um preço...honesto! Acho que era, digamos, honesto mesmo. Tudo isso porque, agora, aos 60 anos, a mesma idade do alemão de 1980, me dei conta de que nunca falei, sequer pensei, em minha suposta relativa eventual honestidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário