"Pessoaaal !! Sou mãe de família, tô pidindo pra alimentar meus filhos, pessoal !"
"Pessoaaal !! Eu cozinhei minha última xicra de arroiz ontem, pessoal !"
"Pessoaall !! Eu tenho quatro filhos pequenos, pessoal. Tô desempregada."
(— Deus lhe pague, senhora.)
"Pessoaaal, vocês sabem o que é uma mãe não poder dar leite pra criança, pessoal !?"
"Ontem à noite, pessoaal, meu filho de 2 anos pediu a mamadeira, pessoal. Eu não tinha leite pra dar pra ele, pessoal."
(— Obrigado, senhor. Deus lhe ajude.)
"Pessoaal ! Aceito qualquer ajuda, pessoal. Me ajuda, pessoal !"
(— Deus lhe acompanhe, de coração.)
"Pessoal, tô eu e minha filha mais velha aqui, pessoal."
"Eu sei que vocês não tem nada a ver com isso, pessoal, mas eu tô pidindo, pessoal."
Foi nessa hora que O Inusitado apareceu. Quando a mulher absolveu todos nós que estávamos no vagão do metrô — gente de todo tipo, umas 300 pessoas, dizendo que, sim, ela estava passando fome, mas a gente não tinha nada com isso. Foi nessa hora que O Inusitado ergueu a voz e falou no mesmo tom:
"Agora sim que fodeu de vez!"
Era uma voz de homem. Se fosse uma mulher, o impacto não teria sido tão forte, porque muitos poderiam confundir com a própria pedinte, louca talvez, saindo do tom. Havia muita gente de pé no corredor, de maneira que eu não estava vendo nem um, nem outro. O homem, ouvindo o silêncio provocado por sua frase, sentiu-se autorizado a continuar:
"Eu já tava com o saco cheio dessa sua ladainha de miséria e, inclusive as suas vestes calculadamente miseráveis e fora de moda e esse lenço na cabeça me lembraram as velhas esmolentas que vi estrategicamente prostradas nas imediações do Vaticano, em Roma. E isso já tava me dando nos nervos. Sabe o que você tá parecendo? Tá parecendo aquelas figuras de velhas que ilustram a Bíblia representando judias piedosas do tempo de Cristo. Agora sei onde os ilustradores se inspiraram: nas velhas pedintes da idade média romana, cujo figurino até hoje faz sucesso."
Nisso o trem abriu as portas na estação e a pedinte escafedeu-se. Mas o homem continuou falando. Não sei se porque não percebeu que a mulher saiu ou se falava para todos nós:
"Eu já tava farto da sua miséria, mas agora, com essa sua conversa de que ninguém tem culpa, de que nós não temos nada a ver com sua miséria, você esgotou minha paciência".
Silêncio no vagão, todo mundo esticando o pescoço pra tentar ver o falante, mas de onde eu estava não dava para ver, apesar de ligeiro esvaziamento do corredor. Acho que ele permaneceu sentado num canto obscuro, não tendo necessidade de maior esforço para se fazer entender, com sua voz poderosa e bem articulada. Até eu que sou meio surdo entendia tudo.
"Se você diz que nós — ninguém — não temos nada a ver com sua miséria, então você, e somente você, é culpada da sua miséria. E se somente você é culpada, você que espie sozinha a sua culpa."
"Eu sei que você decorou o script, que você é uma atriz. Isto não exclui o fato de que você seja uma miserável de verdade. Mas por favor, reescreva o roteiro, não diga bobagem."
"É claro que todos nós temos a ver com sua miséria".
"A sua fome não é de carbohidrato. Tá cheio de gente com a consciência pesada distribuindo arroz e feijão e farinha e marmitas e sopas pelos guetos e praças da cidade. A sua fome é de justiça."
"Não a justiça engravatada de leis e bacharéis. Você não tem noção de que sua ladainha é por justiça social. Você não suporta mais o sufoco do superlotado subsolo da senzala."
"Mas você não tem noção da tragédia que está a representar. É por isso que você aguenta e persevera e elege o Dória".
"Mas, por favor, moça. Não me isente de culpa. Eu não aguento mais o peso dessa desigualdade pornográfica".
Não sei se o que prendia era o discurso ou a voz do homem. O fato é que o trem passou por mais três estações e ninguém desceu e alguns subiram. Por fim, chegamos ao Tucuruvi e todo mundo desceu. E eu não consegui ver o dono da voz. Acho que era Deus.
sábado, 27 de maio de 2017
terça-feira, 23 de maio de 2017
VALE A PENA APOSTAR CONTRA A RALÉ?
Escrevo RALÉ porque quero sangue. Quer dizer, quero provocar. Se dissesse POVO, ficaria parecendo um panfleto. E ninguém lê panfleto, né não? Mas o mundo gosta de sangue. Ralé é povo. O povo-mundo. Povo cheio de ódio.
Não confundam ralé com lúmpen. Ralé somos eu, você, todo mundo. Até quem excursiona pra Miami em suaves prestações trienais é ralé, aqui em minha licença crônica. Lúmpen são aqueles que já não contam. Já dobraram o Cabo da Boa Esperança, já se entregaram a uma seita, já se empenharam num ácido, já se esqueceram num mundo virtual, já se amarraram num seriado deveras intrigante e sem fim, já se perderam num dos labirintos da vida. E rico é um bicho fora do mundo.
Portanto, a ralé é o mundo. Mundo cheio de ódio. Como uma notícia de jornal, rancorosa com a felicidade. Faça uma pesquisa nas cinco mais lidas de todos os sites. Ao menos três são de natureza policial. A ralé é a tragédia cotidiana das notícias dos jornais. Aquela que se desenvolve na lentidão dos astros e que só rende títulos noticiosos secundários que ninguém lê. Já RICO é o texto literário, pleno de figuras e metáforas, ainda menos lido, embora mais cheiroso.
Rico é um bicho fora do mundo, mas nem por isso menos odiado. Rico não pode nem cagar sossegado. Além de viver na ignorância da não-vida. Rico não sabe o preço do pão, da gasolina, do metrô. Rico nunca anda de metrô, nem aqui, nem em N.York. Rico não conhece a dor e a ludicidade de limpar a própria casa, prover a própria comida, ir ao supermercado. Dia desses, corri ao lado duma rica, no Ibirapuera. Quatro seguranças giravam em torno da moça, numa distância de 50 metros, um para cada ponto cardeal. Sendo que "corri ao lado" é uma licença mais que poética da minha parte...
Ser rico é apostar contra a ralé. Ser rico é se declarar impedido de ir ao cabeleireiro, de frequentar a academia (academia, nestes tempos — todos sabem — é aquela de fazer ginástica). Rico não vai nem à igreja. É a igreja que vai a ele, é o cabeleireiro que vai a ele, é a academia em casa, é a modista, o pedicuro que vão a ele. Nem ao hospital rico vai; só quando está morrendo, quando precisa de UTI, e olhe lá... Enfim, rico é aquele ser inteligente e poderoso, tanto que decreta a própria prisão.
Porque o rico sabe que a sua prisão é a sua sobrevivência. A moça-corredora lá do Ibirapuera é uma temerária e sua audácia é semelhante àquela dos astronautas, quando saem da nave, livres no espaço, seguros apenas por um cabo. Porque rico é o diabo e a ralé é Deus.Tem dinheiro que pague a dor e o desamparo de ser odiado por Deus? Que fique claro, em prol da desilusão: tal ódio não decorre da Injustiça, mas da Inveja.
Não confundam ralé com lúmpen. Ralé somos eu, você, todo mundo. Até quem excursiona pra Miami em suaves prestações trienais é ralé, aqui em minha licença crônica. Lúmpen são aqueles que já não contam. Já dobraram o Cabo da Boa Esperança, já se entregaram a uma seita, já se empenharam num ácido, já se esqueceram num mundo virtual, já se amarraram num seriado deveras intrigante e sem fim, já se perderam num dos labirintos da vida. E rico é um bicho fora do mundo.
Portanto, a ralé é o mundo. Mundo cheio de ódio. Como uma notícia de jornal, rancorosa com a felicidade. Faça uma pesquisa nas cinco mais lidas de todos os sites. Ao menos três são de natureza policial. A ralé é a tragédia cotidiana das notícias dos jornais. Aquela que se desenvolve na lentidão dos astros e que só rende títulos noticiosos secundários que ninguém lê. Já RICO é o texto literário, pleno de figuras e metáforas, ainda menos lido, embora mais cheiroso.
Rico é um bicho fora do mundo, mas nem por isso menos odiado. Rico não pode nem cagar sossegado. Além de viver na ignorância da não-vida. Rico não sabe o preço do pão, da gasolina, do metrô. Rico nunca anda de metrô, nem aqui, nem em N.York. Rico não conhece a dor e a ludicidade de limpar a própria casa, prover a própria comida, ir ao supermercado. Dia desses, corri ao lado duma rica, no Ibirapuera. Quatro seguranças giravam em torno da moça, numa distância de 50 metros, um para cada ponto cardeal. Sendo que "corri ao lado" é uma licença mais que poética da minha parte...
Ser rico é apostar contra a ralé. Ser rico é se declarar impedido de ir ao cabeleireiro, de frequentar a academia (academia, nestes tempos — todos sabem — é aquela de fazer ginástica). Rico não vai nem à igreja. É a igreja que vai a ele, é o cabeleireiro que vai a ele, é a academia em casa, é a modista, o pedicuro que vão a ele. Nem ao hospital rico vai; só quando está morrendo, quando precisa de UTI, e olhe lá... Enfim, rico é aquele ser inteligente e poderoso, tanto que decreta a própria prisão.
Porque o rico sabe que a sua prisão é a sua sobrevivência. A moça-corredora lá do Ibirapuera é uma temerária e sua audácia é semelhante àquela dos astronautas, quando saem da nave, livres no espaço, seguros apenas por um cabo. Porque rico é o diabo e a ralé é Deus.Tem dinheiro que pague a dor e o desamparo de ser odiado por Deus? Que fique claro, em prol da desilusão: tal ódio não decorre da Injustiça, mas da Inveja.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
DE CRAQUES E MARIDOS.
DE CRAQUES E MARIDOS. Marketeiros recomendam que todo craque encerre a carreira enquanto ainda joga bem, para imortalizar a bela imagem de grande jogador. Pelé deixou os gramados no auge da carreira, reclamaram fãs na época, década de 1970. Era e é assessorado por marketeiros, nunca mais jogou em público, nem por brincadeira(a preservação do mito). Tostão aproveitou que levou uma bolada na cara e também encerrou a carreira logo após ter sido campeão no México, em 1970. Foi cursar Medicina, desapareceu, mas eis que retornou muitos anos depois para viver do futebol, como comentarista. Gerson, o canhota de ouro do Botafogo, deixou de jogar para levar vantagem no comércio e desapareceu, não por causa do futebol, mas por causa do comércio. Félix, o goleiro, deixou os gramados para cuidar da granja avícola amealhada durante a carreira, não era ídolo e continuou não sendo, mas ao menos é bem lembrado. É uma prerrogativa de todo craque parar de jogar enquanto está com o prestígio em alta e, a julgar pela experiência, é recomendável que o faça. Temos exemplos de craques insistentes que acabam se desmoralizando em campo, como foi o caso de Garrincha e Túlio Maravilha, que jogou até em time de festa de aniversário em busca de um suposto milésimo gol que só ele computou. Outro que insiste é Rogério Ceni... Há os excepcionais, como Sócrates, que brilhou antes, durante e após sua carreira futebolística: já era médico, foi corintiano, depois democrata. Há os que decepcionam na vida, mas preservam a arte. É o caso de Ademir da Guia, craque impecável e tímido no campo e vereador medíocre. Marcos quase põe tudo a perder, num time de tendências secundárias. Mas, no geral, os craques seguem a recomendação e saem de cena enquanto os holofotes ainda estão ligados. Ao contrário dos maridos. Nunca abandonam os gramados enquanto são queridos pelo público. Estão fadados ao ostracismo e à desmoralização de jogar sob os apupos da torcida. Uns porque não querem, outros porque não podem, vários porque não sabem e alguns porque temem a reprovação geral da plateia. Mas o ideal seria que os maridos abandonassem os gramados enquanto fossem capazes de satisfazer plenamente a fome de gols dos torcedores. Não tenho nada contra as esposas, só não sou uma delas. Sendo que aqui em casa, é a esposa que é fanática por futebol. Além do mais, elas que escrevam suas crônicas.
NO TEMPLO DA CIÊNCIA.
NO TEMPLO DA CIÊNCIA. Estava eu no Hospital Santa Catarina, para uma ressonância magnética do joelho, que parece que o referido já está vencido ou não aguentou 20 anos de correria, feito na China, de material de segunda, mão de obra barata... Não aguentou o compressor que tenho no peito... Enfim, atrás do sportello me atendia uma mocinha e, enquanto isso, eu podia ler num panfleto estrategicamente colocado no balcão a oração do pai eterno. Havia uma ruma de panfletos e eu orava, ou melhor, lia, meio que sem querer, e ficava sabendo que o pai eterno existia, era bom, poderoso, e, dependendo da minha boa vontade, poderia me conceder grandes graças, não entrei em detalhes, não sei se a mocinha poderia me esclarecer se em eu rezando e querendo e imprimindo e distribuindo 5 mil panfletos similares o meu joelho esquerdo voltaria em ponto de bala e aos tempos de glória de escalaminhadas e ultramaratonas. Porque eram 6h20 da madrugada e eu há duas horas que não comia, preferi manter o silêncio e investir tudo na geringonça que tem o formato daquelas máquinas de desenho animado de cientistas malucos e faz barulhos semelhantes aos de uma tropa de muares numa invernada povoada por seriemas que é o tal equipamento mui importado e mui caro da tal ressonância magnética. Realizado o exame, ia saindo e eis uma florada de freiras, acho que o coletivo de freiras é florada, todas impecáveis em seus hábitos, só aparecendo as mãozinhas e os olhinhos, olhinhos diligentes e brilhantes. Então me lembrei das muçulmanas de Milão, bandos de mulheres muçulmanas pelas ruas de Milão, às compras, ciceroneadas e protegidas por seus homens, ao lado de filhas, segurando crianças no colo, mulheres comuns, leigas, procriadoras, que toda noite dormem com um homem mas, durante o dia e em público, somente os olhinhos e as mãozinhas de fora e os olhinhos... bem aí vi olhinhos de todo tipo, mortos, apagados, frios, vivos, acesos, quentes... sendo que em se tratando de avaliação de olhos de freiras e muçulmanas, meu veredito é 100% fruto da minha fértil imaginação. Mas, cá entre nós. Não é contraditório um templo da medicina sendo administrado por uma ordem religiosa?
UM POEMA, pra temperar.
SUBSTÂNCIA
Eu torço mas não vergo
ou vergo mas não canso
ou canso mas não nego
ou nego mas não danço.
Eu dobro mas não quebro
ou quebro mas não lasco
ou lasco mas não sofro
ou sofro mas não largo.
Eu tombo mas não pendo
ou pendo mas não caio
ou caio mas não vendo
ou vendo mas não saio.
Eu rio mas não grito
ou grito mas não canto
ou canto mas não sinto
Eu choro mas num pranto.
domingo, 21 de maio de 2017
NOSSOS FILHOS DO MUNDO.
Tudo bem, o circo tá pegando fogo, hoje é dia de exercer a cidadania na Paulista, mas insisto no ferro frio de uma crônica. Faz sentido um assunto nada a ver, num momento em que nenhum cidadão tem o direito de permanecer alheio? Ora, alguém que insiste nos textões, na era dos 140 caracteres, está acostumado a remar contra a corrente. Mas saibam todos vocês, oh ignorantes nas artes da cozinha, que uma gota fria numa frigideira em óleo fervente provoca um fumação. Não tenho esperança, mas minha gota não é tão fria nem o óleo está tão quente. Se provocar um leve chiado, já me dou por satisfeito.
Subia eu pela Ministro Rocha Azevedo, no Jardim América, quando despontou ao meu encontro, lá na esquina da Oscar Freire, quatro pedestres, uma ao lado da outra, tomando quase toda a calçada. Duas mulheres e duas crianças. (recomenda-se, para a saúde mental, viver e caminhar na vida real ao menos uma vez por dia). Todas pareciam em trajes sociais. Nós viventes e moventes temos a capacidade e necessidade inata de avaliar e julgar tudo e principalmente todos que nos caem em nosso campo de visão. As duas mulheres eram esbeltas, de meia idade, fomos nos aproximando...
O rosto de uma pessoa é quase tudo. Embora seja raro dois estranhos cruzarem seus olhares, a rápida visão dos olhos, dos lábios, dos movimentos, revela quase tudo do estranho. A dois metros das duas mulheres, levei um susto. Uma era a mãe e a outra era a filha. Tudo bem, hoje em dia há muitas mulheres de 50 anos com jeito de 25. Não, a mocinha tinha 15 anos, no máximo. Tudo bem, tinha um corpão de 25, mas o rosto, os olhos... A mocinha tinha a camisa abotoada até a garganta e a saia 5 cm abaixo do joelho. A mocinha andava feito um canguru desengonçado, a reboque da mãe, a reboque da cultura e da religião milenares e imutáveis, temerosa de qualquer ponta fora do lugar, de qualquer passo fora da risca, temerosa de pensar no mais íntimo aceno de rebeldia ou desleixo.
Em seguida, a Rocha Azevedo dá um pinote, para alcançar a Paulista lá em cima. O coração vai a 140. O fluxo sanguíneo abundante é um perigo para as artérias enfraquecidas e para a mente fértil de quem não tem o cabresto muito justo. Ser pai ou mãe consiste em saber soltar os filhos. O maior prejuízo que um pai ou uma mãe podem legar aos filhos é a perpetuação, neles, da personalidade própria ou familiar ou até religiosa. Um filho precisa de arroz, feijão e... a liberdade da ganja, sim, se assim o decidir as circunstâncias. Os filhos têm o direito de serem apresentados ao mundo real. Os pais não têm o direito de limitar e editar e manipular e circunscrever o mundo apresentado aos filhos. Um pai não pode mandar um filho calar a boca. Não tem cabimento uma mãe sufocar uma filha com uma saia cinco centímetros abaixo dos joelhos, enquanto um jato cruza o céu em direção ao Nordeste, neste nublado outono de 2017.
Subia eu pela Ministro Rocha Azevedo, no Jardim América, quando despontou ao meu encontro, lá na esquina da Oscar Freire, quatro pedestres, uma ao lado da outra, tomando quase toda a calçada. Duas mulheres e duas crianças. (recomenda-se, para a saúde mental, viver e caminhar na vida real ao menos uma vez por dia). Todas pareciam em trajes sociais. Nós viventes e moventes temos a capacidade e necessidade inata de avaliar e julgar tudo e principalmente todos que nos caem em nosso campo de visão. As duas mulheres eram esbeltas, de meia idade, fomos nos aproximando...
O rosto de uma pessoa é quase tudo. Embora seja raro dois estranhos cruzarem seus olhares, a rápida visão dos olhos, dos lábios, dos movimentos, revela quase tudo do estranho. A dois metros das duas mulheres, levei um susto. Uma era a mãe e a outra era a filha. Tudo bem, hoje em dia há muitas mulheres de 50 anos com jeito de 25. Não, a mocinha tinha 15 anos, no máximo. Tudo bem, tinha um corpão de 25, mas o rosto, os olhos... A mocinha tinha a camisa abotoada até a garganta e a saia 5 cm abaixo do joelho. A mocinha andava feito um canguru desengonçado, a reboque da mãe, a reboque da cultura e da religião milenares e imutáveis, temerosa de qualquer ponta fora do lugar, de qualquer passo fora da risca, temerosa de pensar no mais íntimo aceno de rebeldia ou desleixo.
Em seguida, a Rocha Azevedo dá um pinote, para alcançar a Paulista lá em cima. O coração vai a 140. O fluxo sanguíneo abundante é um perigo para as artérias enfraquecidas e para a mente fértil de quem não tem o cabresto muito justo. Ser pai ou mãe consiste em saber soltar os filhos. O maior prejuízo que um pai ou uma mãe podem legar aos filhos é a perpetuação, neles, da personalidade própria ou familiar ou até religiosa. Um filho precisa de arroz, feijão e... a liberdade da ganja, sim, se assim o decidir as circunstâncias. Os filhos têm o direito de serem apresentados ao mundo real. Os pais não têm o direito de limitar e editar e manipular e circunscrever o mundo apresentado aos filhos. Um pai não pode mandar um filho calar a boca. Não tem cabimento uma mãe sufocar uma filha com uma saia cinco centímetros abaixo dos joelhos, enquanto um jato cruza o céu em direção ao Nordeste, neste nublado outono de 2017.
quarta-feira, 17 de maio de 2017
O VENDEDOR DE CARTEIRAS DO METRÔ.
(Não se trata de nenhum ladrão 'batedor de carteiras' não)
De repente ouço uma voz falando alto e sem parar. Não entendo quase nada, pareço um estrangeiro. Porque é uma fala em bom português, confirmo depois. Não sei não o que ele está vendendo. Mas sei que é macia e comporta dezesseis cartões. Ele fala muito; quando enche as medidas, torço para ele parar em prol da eficácia de seu recado. Ele para, mas não por causa da minha torcida e sim porque o vagão abriu as portas na estação Ponte Pequena, que agora se chama Armênia. É macaco velho, sabe que tem de desaparecer na hora do embarque e desembarque. No caso, emudecer. O trem parado, as portas abertas, os fiscais entram ou esticam o pescoço pra dentro do vagão caçando vendedores. Em geral, os vendedores aproveitam essas paradas para mudar de vagão. É uma temeridade permanecer no mesmo vagão por dois trechos consecutivos. Sempre tem um delator com seu celular que avisa o serviço contra vendedores ambulantes do metrô.
Mas o vendedor de carteiras... sim, só descubro que ele vende carteiras quando desliga seu discurso e passa a mostrar seu produto aos usuários. Carteira de carregar documentos, dinheiro... não, não, acho que ninguém leva mais dinheiro na carteira — disso tenho certeza —, nem documentos. Todo mundo só leva cartões, a julgar pela ênfase do moço nos dezesseis cartões que cabem na carteira que está vendendo. De fato, ninguém mais leva dinheiro vivo, se até o vendedor ambulante de salgadinho aceita cartões. E documentos — tenho observado, ainda não estou certo, mas desconfio — as pessoas levam a foto do RG no smartphone. E o guarda aceita! Antigamente, pra não ser autuado por vadiagem, o jovem precisava exibir a carteira profissional. Só o RG não bastava. Agora, nestes tempos de terceirização, pejotização, desregulamentação, o guarda é o primeiro a esquecer da carteira profissional. E os rapazes mais prevenidos ainda levam, no celular, pra reforçar o RG, fotos da conta de luz, da rua onde moram, da mãe...
De início, achei um exagero, 16 cartões. Porém, pensando bem, está de acordo com a necessidade média dos cidadãos. Tem cartão do transporte, do SUS, do convênio médico, da escola, do sindicato, do clube, da firma, do prédio, do estacionamento, da torcida, da academia, do bar, da igreja... ééééhhh! bar e igreja já entraram na onda dos cartões de acesso e promoções. E cada loja tem seu cartão próprio, que dá direito a descontos. Dezesseis é pouco.
Mas como eu ia dizendo e não disse, o vendedor de carteiras não seguiu a regra de mudar de vagão na primeira parada. Falou demais, quando terminou seu discurso era hora de sair. Então, pra não perder a conversa, ele arriscou e ficou. E lavou a égua, como se diz lá na minha terra. Vendeu umas quinze, a dez reais cada. Parece que o tempo de exposição da imagem do vendedor faz diferença. A confiança que ele desperta nos sonolentos usuários vai aumentando conforme os segundos que ele vai aguentando no mesmo vagão. É a mesma lógica do comercial de TV, quanto mais insistente, mais eficaz. O ponto de virada é a venda da segunda unidade. A primeira venda não conta muito, porque sempre há um fácil que compra rápido. Mas quando a segunda peça é vendida, o vagão inteiro levanta e orelha. Opa! será que estou perdendo uma pechincha?! Parece que foi o Sílvio Santos que descobriu essa lei e então passou a levar consigo, para comprar suas duas primeiras canetas, dois compradores...
De repente ouço uma voz falando alto e sem parar. Não entendo quase nada, pareço um estrangeiro. Porque é uma fala em bom português, confirmo depois. Não sei não o que ele está vendendo. Mas sei que é macia e comporta dezesseis cartões. Ele fala muito; quando enche as medidas, torço para ele parar em prol da eficácia de seu recado. Ele para, mas não por causa da minha torcida e sim porque o vagão abriu as portas na estação Ponte Pequena, que agora se chama Armênia. É macaco velho, sabe que tem de desaparecer na hora do embarque e desembarque. No caso, emudecer. O trem parado, as portas abertas, os fiscais entram ou esticam o pescoço pra dentro do vagão caçando vendedores. Em geral, os vendedores aproveitam essas paradas para mudar de vagão. É uma temeridade permanecer no mesmo vagão por dois trechos consecutivos. Sempre tem um delator com seu celular que avisa o serviço contra vendedores ambulantes do metrô.
Mas o vendedor de carteiras... sim, só descubro que ele vende carteiras quando desliga seu discurso e passa a mostrar seu produto aos usuários. Carteira de carregar documentos, dinheiro... não, não, acho que ninguém leva mais dinheiro na carteira — disso tenho certeza —, nem documentos. Todo mundo só leva cartões, a julgar pela ênfase do moço nos dezesseis cartões que cabem na carteira que está vendendo. De fato, ninguém mais leva dinheiro vivo, se até o vendedor ambulante de salgadinho aceita cartões. E documentos — tenho observado, ainda não estou certo, mas desconfio — as pessoas levam a foto do RG no smartphone. E o guarda aceita! Antigamente, pra não ser autuado por vadiagem, o jovem precisava exibir a carteira profissional. Só o RG não bastava. Agora, nestes tempos de terceirização, pejotização, desregulamentação, o guarda é o primeiro a esquecer da carteira profissional. E os rapazes mais prevenidos ainda levam, no celular, pra reforçar o RG, fotos da conta de luz, da rua onde moram, da mãe...
De início, achei um exagero, 16 cartões. Porém, pensando bem, está de acordo com a necessidade média dos cidadãos. Tem cartão do transporte, do SUS, do convênio médico, da escola, do sindicato, do clube, da firma, do prédio, do estacionamento, da torcida, da academia, do bar, da igreja... ééééhhh! bar e igreja já entraram na onda dos cartões de acesso e promoções. E cada loja tem seu cartão próprio, que dá direito a descontos. Dezesseis é pouco.
Mas como eu ia dizendo e não disse, o vendedor de carteiras não seguiu a regra de mudar de vagão na primeira parada. Falou demais, quando terminou seu discurso era hora de sair. Então, pra não perder a conversa, ele arriscou e ficou. E lavou a égua, como se diz lá na minha terra. Vendeu umas quinze, a dez reais cada. Parece que o tempo de exposição da imagem do vendedor faz diferença. A confiança que ele desperta nos sonolentos usuários vai aumentando conforme os segundos que ele vai aguentando no mesmo vagão. É a mesma lógica do comercial de TV, quanto mais insistente, mais eficaz. O ponto de virada é a venda da segunda unidade. A primeira venda não conta muito, porque sempre há um fácil que compra rápido. Mas quando a segunda peça é vendida, o vagão inteiro levanta e orelha. Opa! será que estou perdendo uma pechincha?! Parece que foi o Sílvio Santos que descobriu essa lei e então passou a levar consigo, para comprar suas duas primeiras canetas, dois compradores...
terça-feira, 9 de maio de 2017
TENHO AMIGOS QUE ODEIAM LULA.
Tenho amigos que odeiam Lula. Os pais desses amigos já odiavam os nordestinos (então nortistas) que baixavam em levas na década de 1950 para industrializar São Paulo. Tenho amigos que odeiam os sindicalistas. Os bisavós desses amigos já odiavam os quilombos. Tenho amigos que odeiam os políticos. Os avós desses amigos assistiam de longe ao voto macho e censitário da República Velha (ou faziam parte do butim aristocrático). Tenho amigos que odeiam pobres (sendo que não tenho nenhum amigo rico). Os tataravós desses amigos já desalojavam pobres por aqui em 1808, quando chegaram acompanhando a família real portuguesa(desalojavam ou eram desalojados). Tenho amigos que odeiam imigrantes. Seus ancestrais fazendeiros já odiavam as levas de imigrantes famintos que chegavam da Europa em 1890(eis que explorar é uma forma de odiar). Tenho amigos que odeiam trabalhadores. Pudera! Nenhum branco que se prezava trabalhava em 1820. Tenho amigos que creditam sua sobrevivência a méritos próprios. Menosprezam vizinhos, amigos, parentes, os próprios irmãos, que ficaram pelo caminho. Tenho amigos que fazem da truculência um estilo de vida. Gente que apanhou muito dos próprios pais na infância. Esses meus amigos que odeiam Lula nunca votaram nele.Tenho muitos amigos covardes, aliás, todos somos covardes, depende das circunstâncias. Agora não adianta dizer que amanhã será um simples depoimento a um simples juiz de primeira instância. Alguém ainda acredita que Lula não seria preso nessa audiência, caso tivesse se mantido bovinamente dentro dos limites da burocracia judicial? Passados 40 anos, tenho amigos que ainda não entenderam o fenômeno Lula. Não conseguiram se libertar dos atávicos fantasmas do passado. Apesar de pobres, não conseguem assimilar os pobres. Não conseguem entender essa complexa equação: Lula não tem ideologia; Lula é a própria ideologia. A ideologia do pobre como protagonista. Ainda que morando numa mansão no Morumbi...
quarta-feira, 3 de maio de 2017
CHURRASCO GREGO DEVE SER DELÍCIA.
Eta vida besta, meu Deus, acho que nunca vou comer churrasquinho grego em minha vida. Perto da esquina da 25 de março com a Ladeira Porto Geral, num nicho de bar, vi um tolete de churrasco grego. 5 real com direito a suco. E uma bandeja de molhos e cremes, cada um mais doentiamente saboroso que o outro, como se fora remédios de matar mosca. Além da vinagrete e da salada de repolho. Quem copiou quem, esses caras, que estão na vida desde o começo do mundo, ou o mac-mac?
Poderia comer ali, o cara me venderia tranquilamente, eu, com esta cara de sonso apressado de periferia, e desavisado e faminto e querendo lucrar até na comida. Mas não comi, espiei de longe, rápido, prometi que espiaria mais de perto no próximo. Examinaria os quetixupi da bandeja, os acompanhamentos, havia muitos na Florêncio, na Boa Vista, na São Bento, na Direita. Será que nunca vou comer um churrasquinho grego nesta vida?
Havia muitos em 1975. Agora não há mais não, só fui encontrar na Praça da Sé. Treis real e cinquenta, com direito a suco e uma impressionante bandeja de deliciosas drogas viciantes para acompanhar. Foi o mac-mac que copiou esses caras: quanto mais barato, mais impressionante. Aglomera-se, nas imediações, uma multidão de... como diria, sem ser grosso ou preconceituoso? Lúmpen? Sim, corro o risco, em benefício da concisão: lúmpen.
(O lúmpen é diferente do noia, lá da cracolândia. O lúmpen come, o noia cheira; ou fuma; ou bebe. O lúmpen também é um desesperado, só que não tem certeza. Por isso é triste, mas ainda come. O noia é um desesperado e sabe disso, por isso se consome e se alegra todo no presente).
Aliás, vi dois toletes de churrasco grego, ali naquele pedaço da Sé. Aquele heterodoxo embutidão deve ser uma delícia, assim como qualquer linguiça, qualquer salame. As sucessivas camadas de carne entremeadas com pimentão e tudo mais do gênero que se queira, com muito alho e cebola e cheiros e iguarias e noz-moscadas, carne gorda de preferência, o visual se parece com o perfil de uma rocha sedimentar curtida e assada lentamente em aparelho próprio desde o começo das eras, aquilo deve ser uma delícia.
Só que ali eu não poderia comer não. Aqueles churrasquinhos gregos da Praça da Sé têm um viés classista. Eu, com esse meu tipo urbano classe média cheio de certezas e raízes e cepêéfes, não conseguiria comprar. Não me venderiam. Sei como isso funciona. Primeiro, que eu chegaria ressabiado, olhando dos lados, dando tempo e bandeira para o vendedor desconfiar e ficar puto. Então ele tentaria me ignorar. Depois, iria me deixando pra trás, na fila imaginária que se forma em torno. Se continuasse insistindo, ele desfecharia alguma simulação de falta de higiene, sabendo que gente como eu é sempre muito limpinha e cheia de nojos, tem horror de morrer de caganeira, ser passado pra trás, porque está pagando... Porém, eu continuaria ali, firme, esperando bovinamente minha vez, instilando no comerciante uma gota de dúvida. Eu chegaria mais perto, ele quase conformado alçaria a faca na tangente do tolete, a saliva inundaria minhas papas, ele encontraria meu olhar que, apesar de guloso, continuaria insolente. E desmoronaria, direto e cru: não vendo, não posso. Pô, meu, não me faça sofrer. Peça um misto quente ali no balcão. E minhas palavras fora do lugar nada poderiam retrucar ali e eu engoliria minha estéril saliva e seguiria arcado sob o peso do meu preconceito.
Poderia comer ali, o cara me venderia tranquilamente, eu, com esta cara de sonso apressado de periferia, e desavisado e faminto e querendo lucrar até na comida. Mas não comi, espiei de longe, rápido, prometi que espiaria mais de perto no próximo. Examinaria os quetixupi da bandeja, os acompanhamentos, havia muitos na Florêncio, na Boa Vista, na São Bento, na Direita. Será que nunca vou comer um churrasquinho grego nesta vida?
Havia muitos em 1975. Agora não há mais não, só fui encontrar na Praça da Sé. Treis real e cinquenta, com direito a suco e uma impressionante bandeja de deliciosas drogas viciantes para acompanhar. Foi o mac-mac que copiou esses caras: quanto mais barato, mais impressionante. Aglomera-se, nas imediações, uma multidão de... como diria, sem ser grosso ou preconceituoso? Lúmpen? Sim, corro o risco, em benefício da concisão: lúmpen.
(O lúmpen é diferente do noia, lá da cracolândia. O lúmpen come, o noia cheira; ou fuma; ou bebe. O lúmpen também é um desesperado, só que não tem certeza. Por isso é triste, mas ainda come. O noia é um desesperado e sabe disso, por isso se consome e se alegra todo no presente).
Aliás, vi dois toletes de churrasco grego, ali naquele pedaço da Sé. Aquele heterodoxo embutidão deve ser uma delícia, assim como qualquer linguiça, qualquer salame. As sucessivas camadas de carne entremeadas com pimentão e tudo mais do gênero que se queira, com muito alho e cebola e cheiros e iguarias e noz-moscadas, carne gorda de preferência, o visual se parece com o perfil de uma rocha sedimentar curtida e assada lentamente em aparelho próprio desde o começo das eras, aquilo deve ser uma delícia.
Só que ali eu não poderia comer não. Aqueles churrasquinhos gregos da Praça da Sé têm um viés classista. Eu, com esse meu tipo urbano classe média cheio de certezas e raízes e cepêéfes, não conseguiria comprar. Não me venderiam. Sei como isso funciona. Primeiro, que eu chegaria ressabiado, olhando dos lados, dando tempo e bandeira para o vendedor desconfiar e ficar puto. Então ele tentaria me ignorar. Depois, iria me deixando pra trás, na fila imaginária que se forma em torno. Se continuasse insistindo, ele desfecharia alguma simulação de falta de higiene, sabendo que gente como eu é sempre muito limpinha e cheia de nojos, tem horror de morrer de caganeira, ser passado pra trás, porque está pagando... Porém, eu continuaria ali, firme, esperando bovinamente minha vez, instilando no comerciante uma gota de dúvida. Eu chegaria mais perto, ele quase conformado alçaria a faca na tangente do tolete, a saliva inundaria minhas papas, ele encontraria meu olhar que, apesar de guloso, continuaria insolente. E desmoronaria, direto e cru: não vendo, não posso. Pô, meu, não me faça sofrer. Peça um misto quente ali no balcão. E minhas palavras fora do lugar nada poderiam retrucar ali e eu engoliria minha estéril saliva e seguiria arcado sob o peso do meu preconceito.
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