domingo, 31 de janeiro de 2021

O ESTÔMAGO E O CÉREBRO.

Vou sempre ao supermercado, conheço aquele mundo. A moça levava em seu carrinho oito latas de leite moça.

(Sou do tempo do leite ninho, da maizena, do bombril, do bom ar, quando pedíamos no boteco, sérios, uma brahma da antárctica. Do tempo em que os monopólios nos impunham a marca como nome do produto).

Me surpreendi com a descoberta, a de que a moça levava tantas latas de leite condensado. No carrinho de um casal de meia idade, vi quatro garrafas de 2 litros cada, de cocacola. Nesse mesmo carrinho, havia 4 pacotes de salgadinhos, acho que desses que imitam batata frita.

Ia pelos corredores, cada vez mais surpreso comigo mesmo. Quando é que eu ia imaginar que, um dia, teria a preocupação de ficar olhando os carrinhos alheios, eu que faço uma compra grande em uma hora, fácil, fácil. Fazia! Agora, com essa minha nova mania, qualquer comprinha demora 3 horas. Fico bisbilhotando os carrinhos dos outros. Tudo culpa do carrinho de supermercado do governo, daquele escarcéu de leite condensado, chiclete, batata frita, refri…


Num dos carrinhos, pilotado por dois jovens, quase todo o conteúdo era composto por refrigerantes, pacotes de salgadinhos, bolachas, caixas de bombom, miojo, e uma variedade de latas. Latas de molhos diversos, de sardinha, de feijoada, de frutas em calda, de salsicha, de leite condensado… Não, nada de frutas, verduras e legumes, nem as populares latas de ervilha e milho cozidos.


Aí fiquei pensando: é o que colocamos dentro do nosso estômago que determina o que vai dentro do nosso crânio ou é o contrário?


Esclareceram que das 2,5 milhões de latinhas de leite condensado compradas pelo governo federal, quase 2,4 milhões foram para alimentar nossos soldados do Exército. Fiz uns cálculos e concluí que, diferente do normal de nossas casas, em que as tais latinhas acontecem muito de vez em quando, no exército elas compõem a alimentação rotineira, começando pelo café da manhã.


O que será que passa pela cabeça de alguém cuja alimentação básica é constituída de leite condensado?


De repente tive um estalo. O povão tá consumindo adoidado leite condensado, e não é de agora. Só eu e uma meia dúzia de alienados é que ainda não descobrimos as excelentes propriedades nutricionais do leite condensado. Pronto! Isso explica quase tudo…


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ESCATOLOGIA.

 ESCAPANDO PELA TANGENTE DA ESCATOLOGIA.

Parei um instante em frente a prefeitura, para admirar o aparato de segurança da guarda municipal. Logo vi, uns 50 metros Viaduto do Chá adentro, uma roda compacta de pessoas, com um sujeito grandão no meio — lá de longe eu via sua enorme cabeça se destacando dos circunstantes. Caminhei, então, naquela direção, deixando a prefeitura e sua segurança de lado.


Fui chegando, o gigante falava. À medida que me aproximava — e começava a entender suas palavras —, concluí que ele atraía mais pela palavra do que pelo tamanho. De fato, o gigante ameaçava seus ouvintes com a segunda e próxima vinda de Cristo. Convenhamos que ouvir, na via pública, um cidadão enorme tonitroar o retorno de Cristo, agora soberbo, amedronta qualquer cristão.


Cheguei, parei a uns 10 metros para avaliar o cenário, que sou desconfiado de nascença. E o grandão, lá: Homens, convertei-vos! Como, de onde estava, eu via o conjunto da plateia do pregador, nem deu tempo de eu me indignar com o suposto machismo “homens” da invocação do homem, porque vi que entre os quinze que lá estavam só havia homens; nenhuma mulher. Então, compreensivo, considerei sensato aquele “Homens”, porque tenho o costume de me ater aos fatos.


Mas, para minha desorientação, vi, ao mesmo tempo, que era um falso gigante. O homem estava sobre uma base elevada, que não era um caixote nem um banquinho, mas uma escadinha, dessas que temos na cozinha, para pegar coisas na prateleira de cima do armário. Sobre o segundo degrau, ele se equilibrava com uma das mãos na estrutura da escada e, com a outra, gesticulava com o indicador em riste, ora na direção do céu, ora na direção do cidadão médio em sua frente.


Confesso que havia acreditado na desproporcional altura do sujeito, a julgar pelo tamanho da sua cabeça. De fato, era um sujeito cabeçudo. E pescoçudo, no sentido de grosso, não de longo. E linguarudo, mas aí já é maledicência minha, por causa da sua escatológica e flatulenta fluência.


Cristo vem aí, e dessa vez é pra fudê!


Não pensem que o verbo foder é invenção minha, não. Apenas transcrevo as palavras do cara: … dessa vez é pra fudê! Foi aí que entendi que eram as palavras que prendiam a plateia, e não o porte do sujeito, até porque era um porte claramente artificial. A gente tende a desprezar o poder da palavra, em detrimento do poder da imagem. Mas uma palavra bem-posta, dessas que o povo entende, tem tanto poder quanto a melhor imagem.


Nisso, dois ouvintes abandonaram a pregação e olharam para mim, sem se moverem, entretanto. Foi o bastante para eu entender que devia dar o fora. Vocês acham normal um crente desviar o olhar para um arredio cidadão enquanto ouve a boa nova do emissário de Cristo? Se Cristo vai botá pra fudê, imagina seus precursores!




terça-feira, 26 de janeiro de 2021

MEU PACATO VIZINHO

 Em meu prédio mora um cidadão, meu xará, uns 10 anos mais velho do que eu. Também tem um biotipo magrelo, como eu, só que é sedentário; isso faz com que pareça doente. Anda lentamente, sempre com cuidado; tem-se a impressão de que vai cair a qualquer momento. Mas, que eu saiba, não tem nenhuma doença grave ou degenerativa. Creio que sua lentidão e aparência doentia se devem mais ao seu estilo de vida, sua visão de mundo.

Mora só, há mais de 20 anos no prédio, nem sei em qual apartamento. Vejo-o com frequência lá embaixo, no saguão, e também nas ruas imediatas. Almoça nos botecos próximos. Nunca o vi com um amigo ou parente visitante. Não sei o que fazia na vida antes de se aposentar.

A única vez que troquei algumas palavras com ele além das protocolares bom dia boa tarde quê calor! vai chover foi há uns 3 anos, quando minha vida ciclística ficou notória no prédio. Me disse que iria comprar uma bicicleta. “Elétrica”, me disse, “já fui ver, tá quase tudo acertado”. Não, ele não comprou bicicleta nenhuma não, claro.

Ontem, ele estava sentado no sofá do térreo, parei para conversar. Os assuntos, vacina, COVID 19, a recessão, a situação social, ele estava particularmente preocupado com o desemprego, que “está muito alto e vai aumentar”. Após uns 15 minutos de conversa, ele emendou uma fala longa, lamentando que o atual presidente pegou uma “bomba”, que tinha tudo para dar certo, mas veio a pandemia… que ele fala umas besteiras, mas é honesto, não é como o Lula, que roubou tanto dinheiro que pode ficar sem trabalhar vivendo luxuosamente pelo resto da vida.

Sorte que eu estava com máscara, porque devo ter ficado pálido. Até então, nossa conversa era neutra. Eu não sabia das suas preferências partidárias nem ele sabia das minhas, porque, em termos de discrição, estamos empatados. Enquanto ele falava, eu pensava: respondo ou não respondo?

Eu poderia ironizar com a notícia fresca das 208 mil latinhas de leite moça consumidas num mês pelo presidente honesto, mas ele retrucaria que era notícia falsa ou intriga da oposição e ficaria minha palavra contra a dele, eis que faz tempo que a letra de forma dos jornais ou a palavra do locutor da TV valem tanto quanto uma nota de 3 reais.

Além do mais, os fatos são secundários e servem apenas para corroborar as opiniões: usa-se se convenientes; desconsidera-se, se inconvenientes. Claro que isso não é normal. Claro que isso é sintoma de doença coletiva. E eu, sinceramente, não sei aonde vamos parar, ou melhor, eu acho que essa tranqueira ainda vira em guerra*.

Mas eu poderia responder como meu conterrâneo, o médico virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de S.J.do Rio Preto: Teu Cu!

(Tô preocupado que a palavra Cu apareceu em duas crônicas quase seguidas, não sei o que tá acontecendo comigo… )

*“eu vou m'imbora pra minha terra/ essa porquêra inda vira em guerra/ esse povo inda sobe a serra/ pra mór de a Light que os dentes ferra/ nus passagêro que grita e berra” (Bonde Camarão, de Cornélio Pires/ Mariano da Silva, interpretado por Caçula e Mariano, 1930).




domingo, 24 de janeiro de 2021

ENCOSTO.

 Quem não gosta de ouvir falar no Capeta pode baixar em outra paróquia, porque agora vou falar d'Ele. Estava sozinho no carro, liguei o rádio, de cada dez estações, oito são dos crentes. Aproveitei que não havia ninguém da família para me avisar que tirasse dali logo, que era de crente, e deixei numa, para atualizar a ladainha. O tema da cantilena era o Encosto.

Logo entendi que o Encosto era o Capeta. Eu não sabia que Encosto também era um dos inúmeros nomes do Cujo. Pensei: pronto, já valeu a pena, aprendi algo muito importante. Um dos meus parâmetros para avaliar o nível cultural de uma pessoa é pela quantidade de nomes do Sem-Nome que ela conhece. Porque alguém que guarda nomes do Inominado entende de contradição. E entender de contradição é condição anterior a qualquer outro entendimento.

O locutor — ele se dizia pastor, mas era locutor, saquei pelos truques que usava, coisas de locução e oratória que não cabem aqui — dizia que o Encosto é aquele que dá com uma mão e tira com as duas. Em uma linha ele dizia o que nossos psicanalistas demoram dez sessões para dizerem. De que me lembre, síntese mais eficaz do que a dele, só a da polícia: a droga é um barato que sai caro.

Inoculada no crente a ideia central, o cujo danou-se a expulsar demônios e afugentar satanazes e, não, eles não usam mais drogas não, eles usam a vida financeira e a prosperidade. E também o amor. Não o amor católico, que a gente sabe que no amor católico cabe tudo, menos aquilo que realmente interessa. Pois o Cramulhão foi lá buscar aquilo que interessa! Interessa uma parceira ou um parceiro, para sacanear junto, na cama, no sofá, no chão…

Dinheiro, sexo e… saúde! É óbvio! Sem saúde, não dá para fazer sexo nem gastar dinheiro. Por isso, expulsam também o Encosto da dor-de-cabeça e da espinhela caída e, se a gente bestar, daqui a pouco estão expulsando também o Encosto da COVID 19.

O melô da expulsão do Encosto parece a lavagem ou o sequestro do cérebro, mas não é. É pura e eficaz linguagem popular. Deus, Diabo, Pecado, Castigo e… Prêmio, no Fim do Mundo, no Juízo Final.

Estava chegando em casa e, ao abafar a arenga no rádio, tive um estalo: toda aquela melopeia para falar duma promessa que não é deste mundo! Aí me deu uma vontade doida de acrescentar um nome à lista do Satanás: Cu!!



terça-feira, 19 de janeiro de 2021

VACINA.

 Eis que todo mundo só fala em vacina. A moça toma vacina, mas está 20 Kg acima do peso normal. Chama Uber para ir ao banco, que fica a 5 quarteirões de sua casa. Mora no terceiro andar, mas nunca subiu ou desceu pelas escadas, só pelo elevador. Comprou uma bicicleta, sim, há dois anos, que está novinha lá na garagem, ainda com os fiapos nos pneus. Nunca estragou ou gastou um tênis, joga-os fora sem nenhum rasguinho, quando saem de moda. É exímia jogadora de vídeo-futebol. Raramente se aventura no xadrez. Pensa em aprender a tricotar.


O moço toma vacina, mas está 20 Kg acima do peso normal. Vai dormir todo dia às 2h da manhã, para levantar às 9h30, atrasado, porque apesar de morar perto, entra às 10. Sem café-da-manhã, para aguentar tanto corpo até o almoço toma o cafézinho da firma, acompanhado de bolacha recheada, estocada em sua gaveta do escritório. Finalmente, na hora do almoço, pede dois mequidonaldes + 1 coca de meio litro + uma fritas, pelo aifudi. Come enquanto coloca em dia as mensagens do uatizape. Entre o almoço e o jantar, mais cafezinho da firma e bolacha recheada. À noite, em casa, não come nada não. Seu jantar foi na lanchonete, duas cervejas e um tira-gosto. A última vez que comeu uma banana, ainda se lembra, foi na semana da pátria. Arroz e feijão não come há meses. Nunca come alface, nem cenoura, porque não é coelho.


Ambos, a moça e o moço, têm ar-condicionado no apartamento, no carro e no escritório. Que nunca deixam desligados. Mas a vacina é sagrada, nenhum dos dois abre mão. Os dois são brancos, branquelos, mais exato. Pele de louça, transparente. Pele que não vê o sol direto há meses. O uber pega-os na garagem dos seus respectivos prédios e os deixam nas garagens dos respectivos prédios onde trabalham. Ao final do expediente, quando andam 100 metros até a lanchonete, já é noite. Aos sábados e domingos estão muito cansados, ficam a noite inteira acordados, dormem o dia inteiro e preparam um miojo, em horário incerto, quando a fome bate.


Não tomam água não, só quando acaba a cocacola. Leite também não, faz mal. Banho tomam, sim, regularmente: No chuveiro a gás, de casa, com a água a 42ºC. Quando vão à praia, duas vezes por ano, conseguem frequentar a areia durante 1 hora um único dia, num feriado prolongado de 4. Mas nem molham os pés na água. E nem tiram os chinelos. Em compensação, tanto ele, quanto ela — que não se conhecem, ele mora em Sampa, ela em Beagá — leem ao menos dois livros de autoajuda por ano, cultivam o otimismo e os pensamentos positivos e, principalmente, oram. Claro, de vez em quando assistem ao Datena e, para se informarem, além das redes sociais, veem com regularidade a globonews. Ah, e tomam vacina. Ia me esquecendo: não usam máscara, não. Besteira! Quando obrigatória, deixam o nariz de fora.












sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

ENTRE MIM E A ONÇA.

 ENTRE MIM E A ONÇA.

Pretendo narrar um hipotético duelo de morte entre eu e a onça. Mas antes deixa eu falar de outra fera, uma amiga minha que sabe tudo de regras gramaticais. Dia desses tava conversando com ela. A certa altura, comecei a dizer, com aquela pose de sabedoria e profundidade (é que eu ia realmente dizer algo profundo): “Sabe, entre eu e você há...”. Ela me interrompeu, incontinenti: Não, esse incontinenti não basta; peremptória: “Entre mim e você”. Claro que esqueci completamente do que ia dizer, perdi o rumo. Pense num chute no saco, em algo broxante.

É incrível o poder demolidor de um pronome depois de uma preposição num cidadão maior de idade. Claro que não respondi nada, aliás, parei de falar. Parei, perdi, não tinha nada mais a dizer. Respondo agora, por escrito: quer apostar que daqui a 100 anos ninguém mais vai dizer “entre mim e ela”, mas “entre eu e ela”? Ainda bem que não fiz a aposta ao vivo, porque, além de ter de ouvir bem uma meia hora de aula, ao final ainda seria desmoralizado com a observação de que daqui a 100 anos nenhum de nós dois estará aqui para ver quem ganhou, eis que a moça é racional e detalhista.

Quanto à onça, quanto a mim, resta saber quem está no topo da cadeia alimentar. Quem estiver, vence a parada. Quanto a mim, sim! Esse mim ao final da frase vai bem. Para mim, essas interrupções são estraga-prazeres. Afinal, e essa onça?

(tenho muito mais medo de jararaca do que de onça).

Vamos supor que eu e a onça nos encontrássemos. Numa clareira de desmatamento perto da transamazônica. A onça na clareira, no meio do redemoinho. Eu, o diabo, à sua espreita. Aí então eu gritaria bem alto para ela: tô sabendo que toda essa pose é para mim sair correndo. A onça então enfiaria o rabo entre as pernas e retornaria para a floresta. E o duelo estaria resolvido, comigo vencedor, porque não tem onça que resiste a esse mim antes do verbo. Em compensação, ambos sobreviveríamos.

(mas tem certos vexames que é melhor morrer… )

Entretanto, a hipótese proposta é que o duelo seria de morte. Agora estou numa enrascada. Armei a arapuca e estou preso nela. Não quero morrer nem matar a onça.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

NAMORADEIRA.

 A NAMORADEIRA.

Mas gente!, falando da saudável literalidade da língua, ainda presente nos argentinos, ao menos para cabelaria (ao invés da nossa barbearia) e vigilantes do fogo (ao invés de bombeiro), esculachei o sofá e esqueci a namoradeira. Sim, não havia sofá, mas havia namoradeira! Péra aí, oh mentes santas e céleres e sujas. Não era isso que estão pensando não, mas vão vendo. Ou melhor, lendo:

Bem, começa que sou absolutamente contrário a essa puritana tendência de usar o verbo namorar para o ato sexual (mas confesso que o meu “trepar” é inadequado e insatisfatório, lexicalmente falando, bem entendido). A prova de tal inadequação é que ao invés de namoradeira, seria trepadeira. E trepadeira era, é e será eternamente inaceitável.

Mas a namoradeira era um inocente banco para dois. As provas de que era inocente eram, primeiro, ter a dureza da legítima madeira maciça; segundo, ter encosto lateral para os braços, que delimitava o espaço deitável a no máximo 1 metro, eis que era para duas pessoas pequenas e magras, mas claro que muito mais compridas do que 1 metro…

Claro, depois, muito depois, passaram a fabricar namoradeiras para mais de dois, mas aí a vaca já tinha ido para o brejo e a pôca-vergonha já havia adquirido literalidade. Mas, para quem sabia ler nas entrelinhas, já havia naquele tempo claros indícios de onde a namoradeira ia nos levar: começaram a pipocar nas lojas algumas namoradeiras com o encosto dividido: metade de um lado, metade do outro, o que obrigava os ocupantes a ficarem de frente um para o outro, o que, como sabemos, é meio caminho andado (a menos que mudassem o nome para conversadeira, o que não fizeram). Em seguida, tiraram os encostos laterais e aí 1 metro de longitude era mais do que suficiente para qualquer casal se aviar, por mais longilíneo que fosse.

Mas o divisor de águas foi a namoradeira para mais de dois: a má intenção era clara, mas ninguém protestou, deu no que deu: o sofá!

Pessoas!, ainda, quero dizer que havia um móvel específico para as mulheres pentearem o cabelo, chamado penteadeira, naturalmente. Consistia numa escrivaninha cheia de gavetinhas e escaninhos com um espelhão atrás, sempre acompanhada de um banquinho. Tenho muito o que dizer sobre ela e o ato de pentear os cabelos, de mulheres e homens. Como se sabe, todo homem usava cabelo muito curto, mas levava um pente de osso no bolso traseiro da calça e penteava os cabelos escrupulosamente várias vezes por dia, andando às vezes, nas calçadas, no metrô, na fila do banco, na sala do médico… Por enquanto, digo apenas que essa diferença entre homem e mulher é mais uma prova de que elas são mais evoluídas do que nós.

Pra finalizar, digo que havia o urinol e a cômoda. O urinol virou penico, depois desapareceu, obrigando-nos a cagar e mijar em local impróprio e inominado. Sobre a cômoda, digo apenas que era uma peça incômoda ao exercício da literalidade.




domingo, 3 de janeiro de 2021

SOFÁ.

 Então, se você é daquelas pessoas que acham que o sofá da sala é coisa de deus ou da natureza, saiba que isso não é verdade. Considerando que até os antepassados dos Safra e dos Ermírio de Moraes viveram nas cavernas, o sofá foi introduzido na sala de todo mundo. Portanto, todo mundo teve, um dia, uma sala sem sofá. No meu mundo, eu me lembro do tempo em que não havia sofá nas casas. Aliás, não havia sofá nem geladeira nem fogão a gás. Nem armário nem estante. TV, nem pensar, não havia nem rádio.

Nem chuveiro!

Isso! Agora te peguei! Você achava que ao menos o chuveiro era coisa de deus, existisse desde Eva e Adão.

Enfim, não havia sofá nem chuveiro, me lembro, mas havia guarda-comida e guarda-louça e guarda-roupa. E cristaleira. E enxuga-prato. Sim, o guardanapo se chamava enxuga-prato. Era um tempo em que nossa língua doméstica era mais adequada e literal, como ainda remanesce na Argentina, por exemplo, onde barbearia mantém o mais apropriado e literal nome de cabelaria (já traduzido, claro) e os bombeiros são chamados de vigilantes do fogo.

(É um caso típico de lógica portuguesa, de tomar a casca pelo cerne: o cidadão vai ao salão cortar o cabelo; aproveita para também cortar a barba; aí o nome do estabelecimento fica sendo barbearia! Há pessoas que trabalham apagando fogo; para tanto, precisam de jatos d'água, o que requer uma bomba, que precisa ser operada por alguém que conhece bombas: bombeiro!)

Sim, não havia estantes nem livros, com a vantagem de que a inexistência destes implicava na automática inexistência dos dicionários e das enciclopédias. Aliás, você sabia que as bibliotecas domésticas começaram pelas enciclopédias? Outra obra portuguesa, como se fora começar a construção de um prédio pelo telhado. De repente, começaram a pipocar nas salas das casas umas lindíssimas fileiras de uniformes lombadas: Barsa, Delta Larousse… Com tantos e pesados livros, foram introduzidas as estantes. E subtraídas as mesas, substituídas pelas inúteis mesinhas de centro.

Em muitas casas não há mais mesas, este sim, um móvel de deus. Entretanto, não havia cadeiras, mas caixotes. Elas foram introduzidas paulatinamente: primeiro, uma única cadeira, para o chefe do domicílio. Sim, havia chefe do domicílio, este sim, desde Adão e seu criador. Quando o chefe do domicílio sentiu a pressão para comprar mais uma cadeira, a da mulher, aboliu-as momentaneamente, preferindo um banco. Um banco de madeira, grande, em que cabia toda a família.

Os móveis eram todos … móveis! Minha mãe mudava-os de lugar periodicamente, um modo barato de renovar o ambiente sem precisar de arquiteto e sem enriquecer as Casas André Luiz e o Exército de Salvação. Uma prosaica e ecológica prática que degenerou nessa nossa mania de descartar o supérfluo para manter o essencial.

Com o sofá, não tem coluna vertebral que aguenta. Agora tô em dúvida se a poltrona individual e reclinável veio antes ou depois do sofá.