Hoje há a indústria dos concursos. A
coisa começa pelas faculdades expedidoras de diplomas. Continua com
os cursinhos preparatórios de todo tipo e tamanho e bolso. E se
massifica pelas editoras de apostilas. Não pensem que isso vai
acabar, com a chegada dos neoliberais ao comando do estado. Esse povo
leva consigo a arraia miúda composta de oportunistas e medíocres e
desonestos intelectuais, exatamente o público mais interessado no
cargo concursado.
Eu
trabalhei quase a vida inteira num emprego conquistado por concurso,
nos anos 1970. Trabalhava num banco privado. Um banco estatal federal
abriu concurso. Dos 20 colegas que trabalhavam comigo no banco
privado, somente 3 tinham diploma de nível médio, requisito para o
concurso. Além da seleção se dar a priori, ainda não havia todo
esse sistema preparatório. Os concursos acabavam selecionando os
mais naturalmente hábeis dentre os privilegiados que haviam
conseguido estudar (claro, já havia muitos que varavam as madrugadas
em cima das incipientes apostilas existentes). “Estudar” era para
quem não precisava trabalhar em tempo integral a partir dos 15 anos
de idade e também para quem passava no exame de admissão ao
ginásio… (ou seja, não havia vagas para todos, nos anos 1960).
Assim
também acontecia com os violeiros. Para ser violeiro bão, era
preciso pegar uma cascavel à unha, matá-la com as mãos, tirar seu
guizo e colocá-lo dentro da caixa do instrumento. Era preciso fazer
Pacto (negociar com o capeta na encruzilhada). O caboclo precisava,
primeiro, fazer uma viola boa. Ou conhecer quem fazia. Depois, tinha
que ter talento, esse que cai do céu. Poucos se destacavam. Bambico,
Tião Carreiro. Almir Sater já entra na fase de transição, que
iria desembocar na produção de violeiros bãos em série. Hoje,
violas boas são industrializadas, há escolas para violeiros, muitos
jovens ficam o dia inteiro treinando no instrumento, parece que até
na USP criaram uma disciplina para a viola caipira, há um violeiro
“bão” em cada esquina.
Não.
Há um burocrata da viola em cada esquina. Da mesma forma, no
funcionalismo público, há um medíocre em cada esquina. Um obtuso,
que fez do concurso seu motivo de viver, que passou anos investindo
dinheiro e tempo integral às questiúnculas das provas. Nos cargos
menores, menos atraentes pela remuneração baixa, esse fenômeno não
é tão evidente, ainda encontramos muita gente normal. Mas, nos mais
bem remunerados, como os de juízes, promotores, fiscais, policiais
federais, etc., isso já virou calamidade pública, literalmente.
Claro que não estou falando das sinecuras, essas são para outro
público, para quem tem pouco Q.I. e muito Quem Indica.
Essa
minha reflexão foi inspirada na notícia dos plágios do Sérgio
Moro e do atual ministro da educação.