quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

FRASES FEITAS

Despejo-as todas sobre vocês, de uma e única vez.

     Os navios estão a salvo nos portos, mas não foi para ficar ancorados que eles foram criados. Ninguém consegue viver por muito tempo num estado de racionalidade pura e plena consciência, sem adoecer. A esperança desperta o apetite porém nem sempre o satisfaz. O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo... Legal é não precisar ser legal toda hora. Se algo der errado, aprenda a improvisar.

      Diz que eu fui um erro, mas se eu der uma chance quer errar toda hora! A ingenuidade e a ignorância ajudam no funcionamento do mundo. Não haverá borboletas, se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. Se Deus não dá o que você quer, é porque não é disso que você precisa! Vou arrumar meu próprio jardim, ao invés de esperar que me tragam flores. Por dentro uma personalidade minha; por fora um conceito seu!

     Que haja transformação, e que comece comigo. América é o único país que foi da barbárie à decadência sem a civilização no meio. Para viajar basta existir. Nenhuma grande descoberta foi feita jamais sem um palpite ousado. O conforto possui formas; o amor cores. Uma saia é feita para se cruzar as pernas e uma manga para se cruzar os braços. A vida é feita de poucas certezas e muitos dar-se um jeito.

      Eu bebo pouco, mas o pouco que bebo me transforma em outra pessoa, e essa outra pessoa sim, bebe pra cacete. A melhor maneira de lembrar o aniversário da sua mulher, para sempre, é esquecer uma vez. As coisas que realizamos, nunca são tão belas quanto as que sonhamos. Mas às vezes, nos acontecem coisas tão belas, que nunca pensamos em sonhá-las. Nenhum homem merece uma confiança ilimitada – na melhor das hipóteses, a sua traição espera uma tentação suficiente.

      Um pedaço de pão comido em paz é melhor do  que um banquete comido com ansiedade. Nem pense em olhar pra trás, o passado não é seu lugar, você não perdeu nada lá. É pra frente que se anda. Frase feita é como horóscopo: sempre serve. Frase feita sintetiza o que vai no centro do miolo do cérebro da média de homens médios. Pronto! Esgotei minha cota e enchi meu saco.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CONVERSA SOBRE A LOUCURA

Conversa de bar, com pouca discordância e algumas tequilas.

     - Não, o cara usa drogas porque não suporta a ideia da certeza de que nunca vai poder contratar um mordomo, nunca vai poder viajar pra Orlando, nunca vai conseguir comprar um toiota...
     - É;  ainda assim, muita gente não usa drogas porque vai chutando a utopia para a semana seguinte, graças às loterias da Caixa.
     - O que leva ao surto é o desespero. Ninguém consegue viver por muito tempo sem adoecer, em estado de desesperança.
     - Quando todas as portas se fecham, que ficamos sem saída, que a coisa fica feia, a solução mais popular é Deus. Quê que cê acha?
     - Concordo. A literatura costuma resolver nossos mais insolúveis perrengues.E a narrativa religiosa é a obra prima da humanidade. Deus é um genial personagem.
     - Sim;  a grande maioria vivia desesperada, que é a lógica. Então criaram Deus: literatura da salvação.
     - Não há melhor remédio para a crise psicológica que uma possibilidade concreta, uma nova pespectiva, um vislumbre.
     - Ora, se fosse assim, ninguém ficava doido. O mundo é infindo e sempre se nos depararíamos com um remédio.
     - Em tese. O mundo é realmente infindo, com variáveis infindas, mas o diabo é que os indivíduos criam e se prendem em seus próprios mundos limitadíssimos.
     - A psicanálise não é também uma criação literária genial, na medida em que ajuda a alargar tais limites pessoais?
     - Talvez. O diabo é o consultório, o valor da consulta e a transferência de todas as fichas para a banca do psicanalista.
     -Volto às drogas. No início do mundo a cerveja era amarga. Mas a tomávamos porque queríamos parecer adultos.
     - É a velha história das muletas. As pessoas lançam mão de artifícios para realizarem aquilo que não conseguem pelas próprias pernas.
     - Isso me lembra a parábola da grama do quintal do vizinho.
     - Isso tá na Bíblia?
     - Sei lá. Não que não tenha lido do Gênesis ao Apocalipse, mas acho que essa história da grama do quintal do vizinho é coisa nossa mesmo, da sabedoria popular.
     - A solidão leva à loucura?
     - Nunca pensei nisso, mas eu, quando me sinto só, fico doida.
     - Em quais situações você se se sente só?
     - Me sinto só quando me tranco em minha casa, mantenho as janelas fechadas, desligo o telefone, não ligo a TV e não sou importunada nem por um parente, nem por um amigo, nem por um vizinho.
     -Olhaí a importância da grama, do quintal, e do vizinho...
     - Isso quer dizer que quem mora em favela ou cortiço tem menores chances de ficar maluco?
     - Sim, porque então você está a toda hora interagindo com as circunstâncias, querendo ou não querendo. As casas são coladas, as paredes são frágeis, as vielas são estreitas, as urgências pipocam a todo instante.
     -Faz sentido. Isso explica o alto índice de suicídios no Japão e nos países nórdicos - países sem favelas. No entanto, fico confusa, porque na favela não tem quintal nem grama.
     - Acho que na favela, a grama e o quintal são substituídos pelo desespero. O desespero faz parte da natureza das coisas, da paisagem. O cara parte do princípio de que tudo que vier é lucro. E enrola um baseado com naturalidade, por prazer.  E, sem culpa, morre, ou fica louco, ou mantém a lucidez.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

EU NO CONFESSIONÁRIO

- E aí, quer confessar?
- Confessar o quê? Não fiz nada de errado.
- Seus pecados.
- Ah, não! Esses não! São imperdoáveis.

     Não tem padre que dê jeito, sou caso perdido, o padre que talvez pudesse fazer algo - também duvido - morreu essa semana, o Dom Paulo. Não que eu o tenha conhecido, mas é que, se ele liberou a carne na sexta feira da paixão, talvez, quem sabe? É!, ali pelos anos setenta, o Dom Paulo foi à TV e liberou geral;  sabe aqueles veganos, que não comiam carne na quaresma inteira, sob pena de excomunhão eterna no fogo do inferno? Pois então, ficaram sem chão, de repente o cardeal, candidato a papa, declarou em rede nacional que aquilo não era pecado não.

     Mas o diálogo introdutório ocorreu de verdade, essa semana, na praça da Sé. A igreja católica apostólica romana instalou umas tendas lá, tenda de cantores, tenda de oferendas, tenda de confissões... Uma dessas coberturas de praia, cercada por panos claros, uma mesinha de plástico e duas cadeiras de plástico, um padre, um pecador, um sacramento. E uma animadora do lado de fora, ao estilo dos camelôs que infestam as imediações, conclamando os passantes a confessarem seus pecados.

- O Sr. é católico?
- Eu? Bem... sou batizado, crismado, casado...
- O Sr. fez a primeira comunhão?
- Ah, sim! Estudei o catecismo, teve até festa; tenho diploma!

     No meu bairro havia missa todo terceiro domingo do mês. Padre Ramon, um espanhol que falava enrolado. Ele  sucedeu o rigoroso padre Joaquim - que depois casou -, e aboliu o consultório, ops, o confessionário. Ele sentava numa cadeira e a gente ficava entre as pernas dele. Não sei como era com os adultos, com as adultas, nunca ninguém falou nada a respeito,  mas agora, cá distante no espaço e no tempo, começo a entender a indignação dos mais velhos contra o padre, só porque jogava uma inocente partidinha de bocha com meu avô e sua turma, na cancha ao lado da venda, do outro lado da capela.  Sempre julguei desproporcional  toda aquela indignação ...

     É que ali naquele mundo era Deus no céu e o padre na Terra. Literalmente. Estava fora de cogitação qualquer deslize do padre. Ou melhor: qualquer questionamento direto do deslize do padre. Então questionava-se o excesso de informalidade dele, misturando-se aos civis em práticas recreativas mais que o conveniente. O padre era a autoridade máxima e inquestionável da comunidade inteira, exceto dos crentes do Afíbio e da família pobrezinha do Frozino, cuja extrema miséria os excluía de toda cidadania. Ali eram todos católicos apostólicos vênetos... Só meu pai, que, em família, xingava os padres, mas acho que era de brincadeira. Até o careca Pedro Curtolo entrava na igreja (e olha que isso era um grande sacrifício pra ele, porque era obrigatório tirar o chapéu e ele tinha vergonha da careca).

     Bom, meu pai nunca confessava seus pecados ao padre. Isso dava um grande desgosto em mim e em minha mãe. A gente gostava do meu pai, era uma pena que, na vida eterna, a gente tivesse que se separar. Enquanto eu e ela iríamos habitar as verdejantes colinas do céu, no bem-bom, por conta do Pai, meu pai teria de amainar o brejo e cultivar sua horta do outro lado do Aqueronte, debaixo de sol escaldante, sem nenhum feriado, sob o chicote do capeta, para todo o sempre. Isto é, ao menos até os 65 anos...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PINTA DE BANDIDO

     Não sei porque inventei de levar a Bicy para passear no centrão, no último sábado à tarde. Se tivesse ficado em casa vendo tela teria evitado o desgosto. Desci a Liberdade, cruzei a Praça da Sé, a Rua Boa Vista e o Vale do Anhangabaú por cima do Viaduto Santa Ifigênia. Aí já é centro novo. No final do viaduto, onde começa a Cásper Líbero, vi de relance uns jovens encostados na parede sendo revistados por policiais, cena corriqueira no pedaço. Os mais velhos sabem que o centro novo vai do Anhangabaú até o Largo do Arouche, mais ou menos. Isso há 40 anos; agora aquilo é área degradada.

     Continuei o passeio e cruzei o Largo do Paissandu e a Avenida São João, para entrar na área de calçadões entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Ia pela Dom José de Barros quando, próximo ao cruzamento com a 24 de maio, a cena se repetiu: soldados revistando garotos pobres com pinta de bandido. Mas essa cena eu não vi de relance nem dei de ombros para ela, como já fiz com as milhares de outras semelhantes.

     Eu estava parado na esquina, contemplando o prédio onde funcionava a Mesbla, suntuosa loja de departamentos. Nos anos 1970 os mais pobres frequentavam o Mappin, ali no começo da Barão de Itapetininga, em frente ao Teatro (hoje funciona ali uma Casas Bahia); os mais endinheirados ou mais frescos frequentavam a Mesbla - são duas quadras de distância. Então vi a cena desde os camarins, ou seja, vi as partes se aproximando, dois jovens de um lado, dois policiais do outro, todos pobres e pardos. E decidi acompanhar do mais perto possível, sem perder nenhum lance.

     É comum num sábado à tarde os garotos saírem para dar um rolê, que entra noite adentro. Têm o domingo para descansar. Vestem suas melhores roupas, todas moderninhas, tênis, brincos, tatuagens, cabelos incrementados, bonés. Andam disfarçando o deslumbramento com o centro, que estão conhecendo agora. Não carece de muita vivência na cidade para ver que são pobres e analfabetos (funcionais). Além  de pardos:  já quase não há pretos no Brasil, assim como não há brancos:  estes ficaram pardos pelo mormaço tropical e aqueles ficaram pardos pela miscigenação. Os brancos de verdade não estão dando sopa no metrô nem nas ruas, qualquer que sejam elas; estão entre muros ou entre parabrisas blindados...

     Os policiais chegam chegando. Ordenam "mãos e olhos na parede, pernas abertas", vão metendo as mãos e as botas como se estivessem lidando com cavalos, quer dizer, um deles; o outro fica de arma em punho a uma certa distância... Os garotos não são tão ingênuos como eu pensara, a julgar pelo comportamento. Abaixam o olhar, não falam nada, obedecem a todas as ordens e, ao final, após a revista, quando solicitados, tiram do bolso traseiro a carteira profissional molambenta, onde está registrado o emprego de salário molambento, mas limpinho.

     Enfim libertos, mas ressabiados, olhando de lado, sorrindo amarelo sem-graça, cabisbaixos, continuam o passeio. (agora que escrevo, frio e longe, cogito a possibilidade de que só eu vi e senti tanta humilhação, limitado que estava pelo sufoco do nó na garganta e os olhos mareados. Com desalento, creio mesmo que os jovens continuaram o passeio noite adentro, até felizes com a distinção policial).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O ALFAIATE

     Ia eu pela Rua 13 de maio, aqui na Bela Vista, quando me deparei com um sobrado isolado, antigo e quase imponente. Era a Associação dos Alfaiates e Camiseiros do Estado de São Paulo. Era não; é. É! Tem até sítio na Web, conta uma história, diz que foi fundada em 1934 por empregados e empregadores...

     Já havia passado centenas de vezes naquela calçada, e ao menos nos últimos 15 anos fico pasmo diante do sobrado e da placa de identificação:  ainda há alfaiates! Então lembrei, nesta última passada, que eu mesmo já fiz roupa em alfaiate e camiseira (v. é véio hem cara!). Um tempo em que eu era pobre, mas limpinho (e cheiroso). E usava gravata.

     Alfaiate fazia terno. Camiseira fazia camisa e, eventualmente, calça avulsa. Aquele era homem; esta era mulher. Era um tempo em que havia primeiro e segundo sexo (estou lendo Simone de Beauvoir). Alfaiate era muito mais importante que camiseira. Sendo que uma camiseira mixuruca era apenas costureira. Só que,  homem costureiro, jamais!

     Alfaiate era coisa fina e moderna: você visitava o ateliê apenas com a carteira de dinheiro e saía com a calça e o paletó prontos. Ele próprio comprava o tecido, você escolhia num mostruário. Na camiseira/costureira você levava o tecido, que comprava nas casas paraibanas. Ops, saía com a roupa pronta sim, mas só uns 30 dias ou mais depois, após voltar lá para provar a roupa alinhavada, confirmar medidas, provar outra vez...

     O profissional da tesoura desentocava uns tecidos diferentes, só coisa boa. A casimira inglesa era o máximo, sonho de consumo de qualquer senhor de mais de 40 anos, junto com a botina de pelica(esta do sapateiro, outro que merece crônica). O mundo do giz,da régua, do molde e da tesoura ruiu completamente com a invenção do tergal (tecido sintético, tergal é marca). Era tão bom quanto a casimira mas custava uma ninharia, qualquer pobre podia usar(gugando encontrei o ótimo conto sobre a casemira inglesa, do Moacyr Scliar).

     Outra coisa: o alfaiate e a camiseira eram especialistas em fazer vinco. E engomar a peça. Vinco é aquela dobra perfeita na peça, na manga da camisa, na perna da calça. Engomar roupa é mergulhar a peça numa água enriquecida com alguma maizena (amido de milho, maizena é marca), deixar secar e depois passar o ferro quente. Uma peça de linho branco engomada era um inquestionável atestado de bom comportamento e nenhuma preguiça( isso para os pobres, porque nas casas ricas havia uma profissional específica para tal tarefa: a engomadeira).

     Você quer coisa mais desinteligente do que uma peça de linho/algodão branco engomada? Tem coisa mais anacrônica, mais fora de moda, do que passar roupa? Tudo bem, tudo bem, eu mesmo ainda tenho camisas de algodão, ainda passo alguma roupa. Mas aquela roupa impecável, lisa, perfeitamente vincada, é coisa passada. Aquilo vestia as ideias passadas, conformava os gestos comedidos do passado, disfarçava o corpo pálido e contido do passado.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O RABECÃO

     Na Praça 14 bis, aqui no Bixiga, a moça empurrava um rabecão. Um rabecão é uma rabeca grande. Grande não, enorme. Todo tocador de rabecão deveria ser grande e forte. Porque o instrumento é imenso. Assim como não se imagina um sujeito magrelo de peito pequeno a tocar bombardão, não se entende alguém pequeno, de braços pequenos, a envolver aquele instrumento. Sou totalmente ignorante sobre bombardões e rabecões, mas tenho noções razoáveis de peso, distância e força. Fazer um bombardão ronronar deve exigir muito vento, além do peso de se segurar aquela quantidade de metais, assim como atingir as cordas do rabecão por trás deve exigir braços muito compridos, imagino.

     Só que a moça da 14 bis era normal, quase pequena, quase magrela. E ela ensaiava atravessar o cruzamento na diagonal, mirando direto a escada que leva ao ponto de ônibus elevado ali da praça. Ela vinha lá de cima, da região da Paulista, ciceroneando aquele estojão enorme com uma única rodinha. Como se fosse uma dessas malas mala que a gente vê os viajantes puxando sobre rodinhas;  só que, com apenas uma rodinha, aquilo não para em pé...

     Estava parada do lado oposto ao meu, aguardando o farol abrir pra nós. Ao lado da coisa ela parecia menor ainda e eu, curioso, querendo lembrar o nome do instrumento e preocupado com a evolução da moça. É que a 14 bis é muito popular. Ali não é lugar de instrumento erudito. E o rabecão é instrumento erudito, só dá em orquestras... O rabecão que tem vez ali naquela praça é o outro, aquele carro que recolhe cadáveres. Há muita gente em situação de rua ali, crianças abandonadas, jovens usuários de drogas, velhos...todos maldormidos, mal alimentados; dormem ao relento ou em barracas, vivem ali, morrem ali... como moscas, o outro rabecão sim, deve ser familiar, passa, recolhe, tá limpo.

     Ela vinha no sentido contrário ao meu. Quando cruzamos, não resisti e puxei conversa:

     - Como é o nome desse instrumento?
     - Contrabaixo.
     - É você que toca?
     - Sim.

     Nisso o estojão quase caiu, quando a rodinha tropeçou num calombo do asfalto, e quase levou a moça junto, mas ela, após visível esforço, evitou o vexame. Então eu, meio zombeteiro, mas já correndo pra ajudar, não resisti:

     - Bem feito! Quem mandou você não aprender cavaquinho?!

     Ela estava preocupada demais com sua carga e com o farol prestes a abrir para os carros e seguiu seu caminho, sem me dar confiança. Quase agradeci a urgência, já meio arrependido da grosseira provocação. Não ousei acompanhá-la com o olhar para ver se ficou ofendida; e me apertava o coração saber que ela ia subir as escadarias para pegar o ônibus;  como será que se entra num ônibus com aquele trambolho? Não queria assistir àquela ginástica. Além de que a moça era fina, erudita. Evitou me destemperar na via pública. Não, quem faz aquele sacrifício com seu instrumento é mais que erudito: é devoto.  Erudito é o tocador de violino. Erudito e esperto.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

GADO DA FLORÊNCIO?

Eu e Bicy e vários passantes disputávamos a travessia da Senador Queiroz para entrar na Florêncio de Abreu quando já vi, lá na frente, uma quantidade maior que o normal de pedestres. E estavam parados e tranquilos, vários encostados nos carros estacionados. Do alto do selim, após pedalar muito e já suado, e familiarizado com o povão nas ruas, sem nenhum parabrisa a atrapalhar o entendimento, saquei tudo: uma Receita qualquer, acompanhada de duas viaturas da polícia civil, baixou na galeria, para regozijo dos trabalhadores, que ganhavam um pretexto para ir respirar lá fora sem culpa. E ainda havia uma ambulância completando a segunda fila, que acho que não tinha nada a ver com o fuzuê.

(Já pensaram se todas as Receitas e todos os tribunais e todas as autarquias e corregedorias e controladorias e oligarquias aplicassem de modo intenso e imparcial seu arsenal legal e normativo?)

     Ali no começo da Florêncio agora tem várias galerias de xig-lig. A Florêncio era a rua das casas de ferragens e ferramentas - eu era freguês assíduo -, mas os xig-ligs estão invadindo tudo. A contaminação provem da 25 de março, lá embaixo. Como os formigueiros, da noite para o dia acrescentam-se corredores de células-loja e respectivos operadores e a coisa vai-se alastrando; é impossível definir o que vendem: vendem bugigangas. Relembre seu estado de espírito quando você entra (e todos entramos!) numa ratoeira dessas: venal. Banal. Carnal. Entramos ali insensíveis - quase desumanos - sempre querendo levar vantagem. Invariavelmente saímos lesados: não pelos comerciantes, mas por nossa ganância e pela natureza essencial de todos os produtos ali vendidos.

     O "ratoeira" ali em cima não tem nada a ver com safadeza de quem quer que seja. É no sentido do aranzel de corredores e escadas e vielas - tudo muito estreito e cheio de curvas - onde periga o neovisitante ficar pra sempre, sem conseguir sair, como os ratos nas ratoeiras. Os comerciantes são honestos. Certa feita fui devolver uma lanterna, cuja sordidez só descobri em minha casa, preparado pra brigar com o vietnamita. Ele pegou a lanterna e me devolveu o dinheiro quase sem cara feia. Quando comprei, não olhei direito... Ouso afirmar que todos os comerciantes de verdade são honestos. É pré-requisito profissional. E não basta serem honestos, precisam parecer honestos. Só que os orientais dos xig-ligs não atendem à última parte da máxima, daí que, periodicamente, são visitados pelas Receitas.

     Mas não tem jeito (Isto me cheira a revolução). Olho aquela soruba de lojas e produtos e vendedores e compradores com o mesmo desprezo com que os senhores feudais olhavam seus súditos desgarrados a comerciar picado sal e farinha( o resultado da disputa entre aqueles comerciantes e os todopoderosos senhores feudais nós sabemos qual foi). As Receitas saem no lucro: são aplaudidas pelos comerciantes tradicionais remanescentes, assim como fazemos quando vemos a polícia prender um pé-rapado no meio da rua: pensamos que estão combatendo a sonegação e o crime... Enquanto isso, vamos levando de goleada na guerra cívico-comercial não tão surda que se desenrola. A prova da nossa derrota era a tranquilidade da torcida adversária ali nas calçadas da Florêncio: fumavam e batiam papo só ou em rodinhas - felizes como gado com o imprevisto descanso -, enquanto os fiscais se esfalfavam lá dentro.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

MÚMIA, CINZA, CAVEIRA...

Assola-me uma dúvida: quando eu morrer, quero ser mumificado ou cremado? Ou enterrado? Por que o "enterrado" veio só em terceiro lugar? Ou doado para a faculdade de medicina?

     Sim, doado para a faculdade de medicina. Conservado em formol. Manipulado e admirado por gerações e gerações de futuros médicos. O problema é que aquilo fede. Eu seria o terror da estudantada. O perigo é que descobrissem a identidade do cadáver. Então minha alma não teria mais sossego, com a avalanche de pragas rogadas, ainda que sob  a superproteção do paraíso. Sem contar a desmoralização póstuma perante as estudantes ingênuas, por causa do tamanho do pintinho enrustido.

     E por que não esquartejado? Sim, para doação das partes. No longínquo futuro da minha morte, a expressão será "doação das partes" e não "doação dos órgãos". Todas as partes serão reaproveitadas, até as canelas. Aliás, minhas canelas finas custarão caro. Pensando bem, vai que elas sejam implantadas num perna-de-pau? Minhas invictas canelas não podem correr o risco de serem desmoralizadas nem depois de mortas. Pronto, já admiti que minhas canelas serão vendidas, então meu corpo será objeto de comércio e renda? Será que meus netinhos serão mercenários?

     Bom, enterrado não quero ser não. Eu conheço o nosso chão, tem muito micro-organismo faminto por lá. Além do mais, nasci e quero morrer - e ficar - num país tropical e úmido. O solo e o clima brasileiros triturariam até o corpo do papa ou de qualquer outro santo. Esta nossa terra em que se plantando tudo dá é muito faminta de carne e até o esqueleto sofre com ela, de tão louca pela matéria. Sem contar que haveria muita discórdia entre meus descendentes na escolha do epitáfio sobre o túmulo (o epitáfio deveria ser de minha autoria e eles não admiram nada meu estilo literário).

     Então meu corpo pode ser embalsamado e virar múmia mas, para tanto, preciso antes me tornar imperador; ou desalojar os Marinho da Globo e o pato da Fiesp - tudo junto. Tudo bem que não temos uma Sibéria para esconder a múmia, em caso de invasão  inimiga (como os russos fizeram com a múmia do Lenin durante a invasão alemã na 2ª Guerra), mas Brasília quebra o galho com sua aridez e seus meandros. Enfim, se meus descendentes quiserem me mumificar, problema deles. Além do mais, se até o Fidel - que desalojou mais de quatro famílias oligarcas pra Miami -, foi cremado, por que não fazer o mesmo comigo, ops, com meu corpo, ainda que imperador? Taquem fogo nele!

     Porém, se for mais fácil, me enterrem no terreno provisório da prefeitura. Azar o deles - meus parentes -, que, após se esquecerem de mim, serão lembrados pelos coveiros, três anos depois, quando outro cadáver de pobre reclamar os públicos sete palmos. Então serei um saco de ossos e uma caveira ressentida. Quer saber? Se virem, e façam bom proveito! Juro que não virei puxar o pé de ninguém (até porque não terei dedos). Toda esta minha pretensão é só em vida, enquanto me iludo com meu corpo e meu destino.