sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

MÚMIA, CINZA, CAVEIRA...

Assola-me uma dúvida: quando eu morrer, quero ser mumificado ou cremado? Ou enterrado? Por que o "enterrado" veio só em terceiro lugar? Ou doado para a faculdade de medicina?

     Sim, doado para a faculdade de medicina. Conservado em formol. Manipulado e admirado por gerações e gerações de futuros médicos. O problema é que aquilo fede. Eu seria o terror da estudantada. O perigo é que descobrissem a identidade do cadáver. Então minha alma não teria mais sossego, com a avalanche de pragas rogadas, ainda que sob  a superproteção do paraíso. Sem contar a desmoralização póstuma perante as estudantes ingênuas, por causa do tamanho do pintinho enrustido.

     E por que não esquartejado? Sim, para doação das partes. No longínquo futuro da minha morte, a expressão será "doação das partes" e não "doação dos órgãos". Todas as partes serão reaproveitadas, até as canelas. Aliás, minhas canelas finas custarão caro. Pensando bem, vai que elas sejam implantadas num perna-de-pau? Minhas invictas canelas não podem correr o risco de serem desmoralizadas nem depois de mortas. Pronto, já admiti que minhas canelas serão vendidas, então meu corpo será objeto de comércio e renda? Será que meus netinhos serão mercenários?

     Bom, enterrado não quero ser não. Eu conheço o nosso chão, tem muito micro-organismo faminto por lá. Além do mais, nasci e quero morrer - e ficar - num país tropical e úmido. O solo e o clima brasileiros triturariam até o corpo do papa ou de qualquer outro santo. Esta nossa terra em que se plantando tudo dá é muito faminta de carne e até o esqueleto sofre com ela, de tão louca pela matéria. Sem contar que haveria muita discórdia entre meus descendentes na escolha do epitáfio sobre o túmulo (o epitáfio deveria ser de minha autoria e eles não admiram nada meu estilo literário).

     Então meu corpo pode ser embalsamado e virar múmia mas, para tanto, preciso antes me tornar imperador; ou desalojar os Marinho da Globo e o pato da Fiesp - tudo junto. Tudo bem que não temos uma Sibéria para esconder a múmia, em caso de invasão  inimiga (como os russos fizeram com a múmia do Lenin durante a invasão alemã na 2ª Guerra), mas Brasília quebra o galho com sua aridez e seus meandros. Enfim, se meus descendentes quiserem me mumificar, problema deles. Além do mais, se até o Fidel - que desalojou mais de quatro famílias oligarcas pra Miami -, foi cremado, por que não fazer o mesmo comigo, ops, com meu corpo, ainda que imperador? Taquem fogo nele!

     Porém, se for mais fácil, me enterrem no terreno provisório da prefeitura. Azar o deles - meus parentes -, que, após se esquecerem de mim, serão lembrados pelos coveiros, três anos depois, quando outro cadáver de pobre reclamar os públicos sete palmos. Então serei um saco de ossos e uma caveira ressentida. Quer saber? Se virem, e façam bom proveito! Juro que não virei puxar o pé de ninguém (até porque não terei dedos). Toda esta minha pretensão é só em vida, enquanto me iludo com meu corpo e meu destino.

Nenhum comentário:

Postar um comentário