- Confessar o quê? Não fiz nada de errado.
- Seus pecados.
- Ah, não! Esses não! São imperdoáveis.
Não tem padre que dê jeito, sou caso perdido, o padre que talvez pudesse fazer algo - também duvido - morreu essa semana, o Dom Paulo. Não que eu o tenha conhecido, mas é que, se ele liberou a carne na sexta feira da paixão, talvez, quem sabe? É!, ali pelos anos setenta, o Dom Paulo foi à TV e liberou geral; sabe aqueles veganos, que não comiam carne na quaresma inteira, sob pena de excomunhão eterna no fogo do inferno? Pois então, ficaram sem chão, de repente o cardeal, candidato a papa, declarou em rede nacional que aquilo não era pecado não.
Mas o diálogo introdutório ocorreu de verdade, essa semana, na praça da Sé. A igreja católica apostólica romana instalou umas tendas lá, tenda de cantores, tenda de oferendas, tenda de confissões... Uma dessas coberturas de praia, cercada por panos claros, uma mesinha de plástico e duas cadeiras de plástico, um padre, um pecador, um sacramento. E uma animadora do lado de fora, ao estilo dos camelôs que infestam as imediações, conclamando os passantes a confessarem seus pecados.
- O Sr. é católico?
- Eu? Bem... sou batizado, crismado, casado...
- O Sr. fez a primeira comunhão?
- Ah, sim! Estudei o catecismo, teve até festa; tenho diploma!
No meu bairro havia missa todo terceiro domingo do mês. Padre Ramon, um espanhol que falava enrolado. Ele sucedeu o rigoroso padre Joaquim - que depois casou -, e aboliu o consultório, ops, o confessionário. Ele sentava numa cadeira e a gente ficava entre as pernas dele. Não sei como era com os adultos, com as adultas, nunca ninguém falou nada a respeito, mas agora, cá distante no espaço e no tempo, começo a entender a indignação dos mais velhos contra o padre, só porque jogava uma inocente partidinha de bocha com meu avô e sua turma, na cancha ao lado da venda, do outro lado da capela. Sempre julguei desproporcional toda aquela indignação ...
É que ali naquele mundo era Deus no céu e o padre na Terra. Literalmente. Estava fora de cogitação qualquer deslize do padre. Ou melhor: qualquer questionamento direto do deslize do padre. Então questionava-se o excesso de informalidade dele, misturando-se aos civis em práticas recreativas mais que o conveniente. O padre era a autoridade máxima e inquestionável da comunidade inteira, exceto dos crentes do Afíbio e da família pobrezinha do Frozino, cuja extrema miséria os excluía de toda cidadania. Ali eram todos católicos apostólicos vênetos... Só meu pai, que, em família, xingava os padres, mas acho que era de brincadeira. Até o careca Pedro Curtolo entrava na igreja (e olha que isso era um grande sacrifício pra ele, porque era obrigatório tirar o chapéu e ele tinha vergonha da careca).
Bom, meu pai nunca confessava seus pecados ao padre. Isso dava um grande desgosto em mim e em minha mãe. A gente gostava do meu pai, era uma pena que, na vida eterna, a gente tivesse que se separar. Enquanto eu e ela iríamos habitar as verdejantes colinas do céu, no bem-bom, por conta do Pai, meu pai teria de amainar o brejo e cultivar sua horta do outro lado do Aqueronte, debaixo de sol escaldante, sem nenhum feriado, sob o chicote do capeta, para todo o sempre. Isto é, ao menos até os 65 anos...
Nenhum comentário:
Postar um comentário