sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

DONA FLORINDA E SEUS DOIS MARIDOS

     Antes quero dizer que esse caso aconteceu de verdade e não tem nada a ver com a Dona Flor da Sônia Braga/J.Amado nem com a mãe do Kiko, do Chaves/Bolaños. Nem com a Regina Casé do filme Eu, Tu, Eles, roteiro de Elena Soarez.

     Primeiro, porque Dona Florinda era alemã, assim como seus dois maridos.
Segundo, porque a alemã não devia ser tão ranzinza quanto a mexicana nem sensual como a carioca, ops, baiana, ops... (pois fiquem sabendo que a Sônia Braga é paranaense!).

     Bem, digamos, não tenho tanta certeza quanto ao tipo de mulher que era a minha dona Florinda – a alemã do sucedido que estou narrando. Mas acho que ela não era de se jogar fora não, porque...

     É o seguinte: a dona Florinda alemã era casada com Fred, que era irmão de Fritz. Sendo que os nomes todos são fictícios, eis que a história é verdadeira e eu não quero confusão pro meu lado.

     Sucedeu que o casamento se deu em inícios de 1914... começo do sec. XX, um tempo em que ainda era romântico ir pra guerra. Um tempo em que a infantaria ainda não sabia o que era tanque/blindado, um tempo em que não havia drones...

     Um tempo de guerra, em que os homens morriam feito gafanhotos... morriam por toda parte e de todo jeito; um tempo em que os homens jovens morriam por motivos banais como moscas pela pátria. Um tempo em que ser chamado às armas pela pátria era quase como receber a sentença capital.

     O fato é que o Fred foi convocado pelo exército alemão e encaminhado ao front. Quando o soldado ia para a zona quente da guerra, ele já encomendava a própria alma, assim como os parentes. Ele morria pelas balas/bombas inimigas ou amigas ou pelas bactérias. E quando escapava dessa troika, voltava quase sempre capenga...

     Diante do inevitável, dona Florinda já foi encomendando a alma do marido e ao mesmo tempo já foi providenciando sua substituição... quero dizer, isso é maledicência minha, não sei, mas o fato foi que ela logo se entendeu com o      Fritz, irmão do Fred, que voltara da guerra rápido, com um dedo estourado por um tiro “acidental” logo no início, antes de participar de qualquer batalha e não tendo ficado nem 4 horas dentro de uma infecta trincheira. (esse tipo de baixa só foi possível no começo da guerra, porque depois os profissionais militares ficaram espertos).

     Digo maledicência minha porque não levo em conta certos condicionantes, como a conjuntura da época, os tipos de famílias dos envolvidos, os costumes... Por exemplo, essa prática, vista em vários povos, do marido morto ser substituído pelo irmão junto à viúva. Também faço de conta que não fiquei sabendo do boato em que se dizia que o próprio Fred pediu ao irmão, na hora da partida, que ficasse em seu lugar no matrimônio...

     Além do mais, a dona Florinda tinha 21 anos e o Fritz tinha 23 e, nessa idade, não há tatu que aguente, como se diz lá na minha terra, não há quem cerque os hormônios morro abaixo ou morro acima. E, além do mais – alemães que eram – ambos haviam estudado vários filósofos e conheciam a dialética da vida. Sendo que o Fred, em meio à fuzilaria da frente de batalha, já estaria mortinho e enterrado...

     O certo é que a dona Florinda e o Fritz – o substituto – se casaram pensando que o Fred estava morto; era um tempo difícil, as comunicações se davam por cartas, que demoravam meses para serem entregues, isso quando não extraviavam... Era uma vida de incertezas em que, entretanto, se devia pensar rápido, sob pena de apanhar um estilhaço bem distribuído ou levar um tiro mal endereçado ou apodrecer isolado num desvão de mundo.

     Contudo, o Fred estava vivo. Tanto que voltou e...

     Três anos depois o Fred bateu na porta do antigo lar. Voltou inteiro, apesar das inúmeras batalhas em que participou. Claro, todo arranhado, principalmente a alma... mas inteiro, com todos os dedos, todos os ossos e todos os membros !

     Bom, houve um certo embaraço, sim, não nego, porque, apesar do racionalismo alemão, do sangue nórdico e da guerra de trincheiras, convenhamos que é uma situação embaraçosa universal.

     O tempo estava ensolarado, mas fazia frio. O Fred do lado de fora, a porta aberta, Florinda e Fritz do lado de dentro da casa. De repente, bateu um cansaço da guerra e da vida no casal que, sem palavras, desmoronou em duas cadeiras que estavam próximas à mesa de jantar ali ao lado, como cães desapontados que procuram seu canto com o rabo entre as pernas.

     Estavam tristes? Estavam alegres com a volta do irmão/marido? Estavam perplexos. E a perplexidade cansa, daí porque sentaram em volta da mesa sem palavras.

     Já o Fred estava cansado de verdade. Caminhara muito até chegar ali, o país se desorganizava, não havia trens nem estradas para civis ou desativados. Além disso, carregava uma mochila pesada. E a voz estava fraca por causa dos ventos gelados que sofrera no caminho. E afinal aquela era a sua casa... Então ele entrou e também se sentou em volta da mesma mesa em que estava o casal e isso foi a salvação da lavoura.

     Porque não há problema que não se enfrente, quando os problemáticos se sentam em volta da mesma mesa ao mesmo tempo.


     Sim, claro, passaram a conviver os três, que tinha pra todo mundo... essa dona Florinda !! Tempos depois emigraram para o Brasil, trabalharam, economizaram dinheiro, fundaram uma pequena metalúrgica, morreram de velhos.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

vida e literatura

VIDA E LITERATURA

      Já ouvi alguém dizer que o populacho é romântico. O pai do Chico disse que o brasileiro pensa com o coração, ao invés de usar o cérebro. A toda hora encontramos pessoas impulsivas, afoitas. Os crimes passionais acontecem todos os dias. Me parece que boa parte das pessoas - talvez a maioria -, quando livres, apenas reagem, como os animais: comem, quando estão com fome; bebem, quando estão com sede; compram, quando o objeto lhes aparece na frente ou quando veem o vizinho usando. Parece, realmente, que o populacho é romântico. E quem é o populacho?

     O populacho somos todos nós, em algum momento, uns mais outros menos. O populacho somos todos, intelectualmente imaturos. Porque - ainda bem - a imaturidade intelectual é democraticamente distribuída entre todas as classes sociais e entre todos os níveis de escolaridade e entre todos os povos orientais ou ocidentais, nortistas ou sulistas, brancos, pretos ou amarelos.

     Vejamos como a literatura trata dessa questão (é muita pretensão minha. Reformulemos para "Vejamos alguns aspectos literários ligados ao tema", ou, como sugeriria um doutor-orientador para uma tese de pós graduação: "Práticas românticas catalogadas entre os moradores do bairro x, à vista da literatura de José de Alencar em Iracema O Guarani").

     Iracema era uma nativa da região que hoje se chama Ceará. Era uma índia, como a chamavam os estrangeiros em meados do séc. XIX, quando a obra foi escrita, e até hoje, e desde que europeus aportaram nesta porção escanteada da Terra, no séc.XV. Uma denominação muito imprópria, mas, o que interessa agora é que ela era virgem, tinha os lábios da cor vermelha e de gosto doce como o mel...e também eram úmidos, os cabelos eram negros como a asa da graúna e compridos como o talhe da palmeira, a pele era alva e pura como um foco de algodão, o colo tinha linhas suaves e delicadas... o escritor não comparou o vermelho a nada, não sei porquê. Ou seja, era o sonho de mulher de todo homem romântico de todos os tempos. Em O Guarani, romance da mesma época, o "índio" Peri, da tribo dos guaranis, era valente, corajoso, forte e...subserviente. Sim, a subserviência era uma virtude naquela época e hoje também, segundo o receituário de todos os catecismos. Ceci, a mocinha europeia, era linda, sonhadora; para os escritores daquela época, toda moça casadoira era linda, todo moço casadoiro era valente, o mocinho sempre atirava primeiro, apesar de ter sacado por último...

     Essa ideia de mocinho e bandido dos filmes de Roliúde e das novelas da Globo e de toda a subliteratura encontrada aos cestos nas bancas e na porta da frente das livrarias é tipicamente romântica. O maniqueísmo da divisão das pessoas em boas ou más, a proliferação de vilões ou bandidos, o amor, o ódio, - são produtos ou ideias tipicamente românticos, de pessoas que pensam com o coração. Ah, sim, o individualismo também é uma ideia romântica. Não sei porque me veio agora um objeto de comparação: um cesto de bacuri vazio.




     Se os românticos são comandados pelo coração, agem emocionalmente. Popularmente, são conhecidos por impulsivos, emotivos, “estourados”, “que não pensam direito”, etc. Citei José de Alencar, romancista cearense de meados do séc. XIX, expoente do romantismo brasileiro na literatura, com seus “Iracema” e “O Guarani”, em que os personagens são idealizados – há heróis e vilões bem definidos, estes são sempre muito maus, aqueles são sempre muito bons -, as coisas funcionam na base do tudo ou nada, não há meio termo, não há nuances, não há dialética, tudo é simplificado, esquematizado, pré-concebido, há muito inconformismo, traição, paixão, amor e ódio, as soluções são caseiras, a sociedade é um ajuntamento de indivíduos sem liga. Chutei que, ainda hoje, grande parte da população, talvez a maioria, age segundo padrões românticos e que isso está democraticamente distribuído entre ricos e pobres, cultos e ignorantes, orientais e ocidentais.

     Agora, faço o contraponto. Tomo os realistas e o realismo como motivos de especulação. É assim que me vem à lembrança o “chato” Machado de Assis, maior expoente do realismo literário brasileiro que sucedeu ao romantismo, na segunda metade do séc. XIX. Em seu famoso “Dom Casmurro”, cujo título é o apelido do narrador já velho, este, após acusar sua mulher Capitu de traição com seu amigo Escobar, sem nunca ter certeza, e perdê-la; após perder o filho, após perder amigos e referências, tinha tudo para ser eternamente infeliz; entretanto... após explicitar todas as dramáticas mudanças que resultaram em sua vida atual, constata que  “(...) vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.” .

     Enfim, o realista pensa com o cérebro. Se, na literatura, isso passou a acontecer há 150 anos, na vida real a coisa ainda está embolada, com ligeira vantagem romântica, segundo meu olhômetro otimista. Contudo, não é verdade que o romantismo desapareceu da literatura – ele continua com a mesma intensidade, vide a proliferação do maniqueísmo entre personagens e enredos nas ficções impressas, televisivas e cinematrográficas;  ele apenas perdeu prestígio acadêmico. Da mesma forma, as atitudes e o pensamento românticos perderam prestígio entre os “bem-pensantes”,  mas, são cada vez mais cultivados pelo sistema econômico e seu motor, que é o consumismo – totalmente dependente dos impulsos  dos cidadãos-consumidores.


     Parece que associo romantismo a consumismo. Assim, nada mais conflitante que consumismo e realismo. O realista, como o nome diz, tenta se aproximar da realidade. Nessa busca, ele, muitas vezes, descamba para o pessimismo. Brás Cubas, o personagem de Machado, encerra sua narrativa dizendo que não teve filhos, que não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. O realista bem sucedido consegue ver os prós e os contras de toda proposta e isso tende ao imobilismo, ou seja, à carência de iniciativa. Em verdade, um realista nunca casaria... nunca teria filhos, nunca iniciaria um empreendimento, nunca se engajaria numa revolução. Parece que um mundo de realistas seria bem “atrasado”. Porém, com certeza, num mundo de realistas não haveria guerras. Nem festas! Será que a solução está nesses tipos ecléticos pós-modernos que estão a zanzar pelos meandros da cidade?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O MALA

     Veja só o nome do sujeito: Malatiel.  É um cara doente de chato. É daqueles que, antes de viajar, leva o carro na oficina para revisar os freios, pneus, sistema elétrico, tudo conforme recomenda os guias de viagens dos jornais. Quando ele compra uma máquina de fazer pão ou uma batedeira ou um aparelho de som ou qualquer outra bugiganga dessas em voga nas casas bahia, fica até tarde da noite lendo o manual e o segue direitinho até a data do descarte do eletrodoméstico. É daqueles que acredita na conversa do mecânico da lava-roupas, de que “essa sua brastemp velha é que é boa, essas novas de hoje-em-dia não valem nada”.

     Ainda bem que esse Malatiel é funcionário público, porque do contrário, já estaria no olho-da-rua há muito, pois está sempre em “operação-padrão”. Você sabe, aquele tipo de operação-tartaruga que grupos de trabalhadores costumam desencadear para pressionar o patrão em alguma negociação sindical:  resolvem cumprir à risca as normas da empresa. Pois é de domínio público que nenhuma organização funciona se seus empregados cumprirem rigorosamente suas próprias normas. Pois esse Malatiel, sem saber, vive em eterna operação-padrão, para desespero dos seus colegas.

     Esse Malatiel é casado. A mulher dele deve ser muito diferente dele, senão já teriam se separado. Eu acho que a mulher dele só o suporta porque ele alimenta o ego dela com suas preocupações simplórias.  Imagine que ele não hesita em ligar para aqueles telefones divulgados pelas grandes empresas em seus veículos – os chamados telefones dedo-duro – quando assiste a qualquer manobra ousada de um desses veículos. E liga várias vezes para elogiar também, quando constata a circunspecção do motorista, liga para elogiar o sapato engraxado, a roupa bem passada, o cabelo bem aparado do motorista. Liga do próprio celular – após estacionar o carro, é claro...

     E é caprichoso, o Malatiel.  Pede para ver todos os comprovantes de recolhimento de contribuições às instituições de caridade, prometidas naquelas plaquinhas em certas fachadas, caso seus muros e paredes sejam poupados pelos pichadores. Justifica dizendo que cuida dos interesses das instituições e da credibilidade das comunicações públicas.

     Outra coisa que o Malatiel não deixa passar é um alarme disparado de veículo. Aqueles do tipo “este veículo está sendo roubado; ligue para 0800 ......” Ele liga sempre, avisando a seguradora.  Às vezes, liga antes, quando percebe algum suspeito rondando algum carro; aproveita e liga para todos os telefones que costumam ser divulgados nesses alarmes disparados, pois tem todos arquivados numa pasta especial em seu celular. É claro que ele concordou com a instalação de uma potente sirene na portaria do seu edifício, para ser acionada em caso de assalto e é claro que ele acha o máximo aqueles refletores que disparam na cara de quem está passando na calçada em frente ao prédio.

     Nem é preciso dizer que o Malatiel nunca pisa na grama, nem trafega pelo acostamento, nem mistura ovo com manga, nem mata beija-flor.  Jamais ultrapassa a velocidade permitida, respeita todas as placas de trânsito e fica puto quando encontra uma não condizente com a realidade. É assíduo frequentador das colunas de leitores dos jornais e dos serviços de ouvidoria. Obedece rigorosamente a todas as leis, incluindo as carcomidas. Adere com entusiasmo a todas as propostas de quem está no poder.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

MAS É FEIO, HEM !?

     Comecei a me preocupar comigo na terceira vez que chamei o cachorro de feio na frente do dono num prazo de duas semanas. Sim, era um dono, um homem, e acho que foi isso que me despertou. Os dois primeiros haviam sido donas, mulheres.  Esse terceiro, o do homem, eu fui com mais cuidado. Perguntei primeiro qual era a raça. Era um Lulu da Pomerânia. Isso é raça?, perguntei. Ele disse é. Aí eu tasquei aquilo que já estava se transformando num bordão: “Mas é feio, hem !?”. Notei também que eu estava prevenido para o perigo. A calçada era ampla e desimpedida e eu estava de tênis e calção, pronto pra correr.  Porque homem dono de cachorro é sempre mais sensível, mais rude...

     Me lembro de quando isso começou. A dona ia segurando a cordinha da coleira do cachorrinho em uma mão e várias sacolas plásticas amassadas na outra. Eu caminhava mais rápido que eles; quando emparelhei, olhei para o focinho do bicho e tasquei: “mas é feio, hem !?”. A dona me olhou firme mas não falou nada. Então perguntei: “Qual a marca dele?”. Aí ela se ofendeu. Disse que não era ele, era ela, que não era feita de plástico, não era coisa... Mais um pouco e ela diria que cachorro era gente,  a julgar pela voz doce com que me disse que aquela era uma Bulmstife, e seu nome era Carmem Dulce.

     Já vai pra dois meses que estou com essa doença. Não resisto, é mais forte que a minha vã cautela. Vejo o cachorro puxado pelo dono lá longe e me digo: “Fica quieto!”. Vou chegando perto e brigando comigo mesmo. Aí, quando olho a cara do bichinho, que é feio de fato, não resisto:  “Mas é feio, hem !?” O pior é que não escolho  dono. Dia desses um halterofilista ia puxando um Komondor. Já perceberam que me tornei expert em nome de raça de cachorro, certo? Já fui falando:  “Sabia que os russos apuraram essa raça assim feia de propósito? Mas é feio, hem !?” O halterofilista concordou e já ia puxando conversa, se eu não apressasse o passo.

     Aqui nas ruas do meu bairro, todos os cachorros presos a cordinhas e puxados por gente são feios. Só que descobri que minha obsessão é coisa metafísica,  passível de eventual terapia.  Um Labrador, um Pastor Alemão, até um Dálmata, ficam feios, quando presos a uma cordinha.  Tudo bem que a maioria é feio mesmo, tem muito Poodle, Cocker, Buldogue, Pug, Terrier, Maltês, horrorosos com ou sem dono e cordinha, mas não sinto nem falo nada quando encontro qualquer um desses desacompanhado. Acho que o móvel da minha compulsão é o conjunto cachorro-corda-dono-sacola plástica. 


     O pior é que tem muita gente puxando cachorro aqui pelas ruas que frequento. Gente de todas as idades e de todos os tamanhos. Qualquer hora me dou mal. Isso de aprender os nomes das raças dos cachorros foi um paliativo que desenvolvi, enquanto não saio dessa enrascada esquizofrênica(E serve também para treinar o Inglês).Chego, anuncio a raça do bichinho, a dona ou dono se derretem, eu tasco o meu “Mas é feio, hem !?” e continuo apressado a caminhada, sem esperar o troco.  Preciso me curar antes de começar a encontrar pela segunda vez cachorrinhos feios e donos prevenidos.  

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

BEBÊ NA CICLOVIA.

     Antes de noticiar o acontecimento, aviso-lhes que a ciclovia da Rafael de Barros está quase pronta.  Sai da Praça Oswaldo Cruz e, lá embaixo,  vira à direita na Tutóia e esquerda na Manoel da Nóbrega, passando em frente ao Ginásio  e saindo em frente ao Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera.  Eu já fazia esse caminho e hoje fui surpreendido pela faixa vermelha, toda pintada. Só faltam as tartarugas e a sinalização.

     Na volta, ia subindo a Rafael de Barros. Uma ciclista vinha descendo. A faixa divisora das mãos de direção ainda não havia sido pintada. A ciclista vinha bem no meio da faixa toda. E se aproximava e nada de desviar para sua direita, para facilitar minha passagem no sentido contrário.  Eu pensei que era ciclista nova de rodagem, pouca prática,  já ia dando o desconto, quando ela tascou: “Contra-mão, bebê!”. E eu devolvi, na lata: “Mão dupla, vovó!” Mas antes, me passou pela cabeça um extenso pensamento.  Na hora, me lembrei das putas lá da avenida Liberdade, perto da João Mendes. Dia desses, sol alto, ia passando quando uma me convidou assim: “Vamos, bebê!”. Me lembrei que, na ocasião, eu não digerira bem aquele “bebê”, mas havia dado o desconto: havia pensado que ela queria dizer “baby”. Em inglês.  Baby em inglês não era tão mau.  Só que agora eu entendia: certas mulheres estavam chamando os homens de bebê, em bom português,  em situações em que caberia bem  um “otário” ou “mané”.

     A moça pedalava, mas o espírito ainda era o de motorista troglodita, querendo me jogar pra fora da faixa. E treplicou na bucha: “Vovó é a vovozinha!”. Ao que eu retruquei, igualmente rápido, não sem antes achar graça: “Vovozinha é a nona!”. Aí a moça perdeu um pouco o rebolado e me acusou de grosso, sem graça. Então eu, didaticamente, expliquei-lhe que sou de família italiana e chamava minhas vovozinhas de nonas. Ela então reclamou que eu a havia chamado de vovó. Eu então reclamei que ela havia me chamado de bebê. Ela então explicou que bebê é normal, quase carinhoso(nessa hora lembrei novamente das putas livres). Eu então expliquei-lhe que chamar um espécime da minha estirpe de bebê era ironia no  mau sentido. Ela então me questionou: “E me chamar de vovó, o que é?” E eu: “Ironia no bom sentido.”.


     Ela continuou calada.  Sabe você, meu confrade, a façanha que é conseguir calar uma mulher na via pública? Então eu continuei a desenvolver o meu raciocínio, com calma: você me chamou de bebê, querendo dizer, “não está vendo não, seu velho gagá!”. Eu te chamei de vovó, querendo dizer garota.  Mas vejo agora que você deve ter uns 33 anos, embora de longe pareça uma garota.  Aliás, sabia que o Raí, irmão do Sócrates, tinha 33 anos quando foi avô?,  arrematei, enquanto a moça em minha frente se transformava a olhos vistos numa doce criatura bem-humorada. É que ela tinha uns 45. Feliz, ela enfiou a bicicleta entre as pernas e saiu pedalando. E nem ligou quando gritei para ela ter cuidado com a mão dupla. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Animais e placas no Caminho da Fé

Animais e placas

     A garbosa cadela branca da pousada em Campos do Jordão é uma exceção. Seu dono a usa para divertir os visitantes, pedindo para que ela os cumprimente. Ela fica de pé sobre as patas traseiras e os recém chegados acham muita graça. É uma cachorra, mas tem nome e sobrenome. E nome composto...

     Mas os animais são usados, de verdade, para afastar estranhos das propriedades, conforme observei em minhas caminhadas pela Mantiqueira.  Numa fazenda após Paraisópolis há um touro bravo, segundo nos informa a placa na porteira. Touro bravo é o máximo. Cães anti-sociais há vários, pois a placa “cuidado, cão anti-social” é fabricada em série e vendida em supermercados. Cães bravos há muitos. Quero dizer: há placas. Placas representando touros e cães. Me pareceu que muitas dessas placas estão blefando ou mentindo. Porém, de uma forma ou de outra, elas funcionam: ninguém folga diante de uma placa ameaçadora.

     Eu pensava que a linguagem dessas placas deveria ser direta e clara para produzir o efeito desejado, mas essa placa da moda – a do cão anti-social – me vem demonstrar o contrário. Nesse tipo de comunicação cabe a ironia e o subentendido e até entrelinhas. Os passantes se apavoram diante da mais leve alusão a animais violentos. Evidentemente, o animal mais usado é o cão, por causa da sua popularidade como atacante, do seu baixo custo, e da sua canina fidelidade ao proprietário. Ao contrário do gato, o cão é um animal maniqueísta. Seu ódio ao estranho é diretamente proporcional ao seu amor pelo dono. Daí porque é um excelente protetor da propriedade do dono. Já o gato... nunca houve nem haverá uma placa do tipo “cuidado, gato bravo”.

     Contudo, o uso do touro, nas fazendas, pode ser adotado com excelentes resultados. Sua bovina indiferença é compensada com seu tamanho e seu temperamento irregular. Um único ataque de touro deixa estragos razoáveis e é guardado na memória coletiva por anos.

     Eu, particularmente, sou favorável à diversificação de animais e linguagem nas placas com finalidade de afugentar estranhos. Acho que, nas fazendas, o uso do elefante seria eficaz. Sua improvável existência real é largamente compensada com seu tamanho e seu potencial de estrago. Defendo também que usemos o galo, porque os galos são muito populares como bons de briga. O pequeno tamanho do animal poderia ser compensado com a escolha adequada do adjetivo: feroz ao invés de bravo. E acredito que a introdução do advérbio “terrivelmente” resolveria definitivamente essa questão: “cuidado: galo terrivelmente feroz”.

     Entretanto, é preciso tato nessa diversificação. é uma indelicadeza com o animal a placa que vi numa casa em Borda da Mata: “cuidado com o vira-lata”. Os gansos também poderiam ser usados: “cuidado, gansos escandalosos”. Porque os passantes, especialmente os mais atrevidos, têm tanto medo de ataques quanto de escândalos. Aliás, o cachorro tem também essa vantagem. É violento e escandaloso. Porém, a diferença entre um vira-lata e um ganso é nenhuma...

     Já a expressão “mal-humorado” não deve jamais ser usada para qualificar o animal. Nenhum forasteiro tem medo de quem quer que seja mal-humorado. Um ser assim só faz mal ao próprio dono.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Rótulo de cerveja / polenta

TEM COISA MAIS MENTIROSA DO QUE RÓTULO DE CERVEJA?

     Tem, claro. Rótulo de vinho, de azeite, de panetone... Os rótulos de quase todos os produtos alimentícios industrializados mentem. Claro que mentem com a ajuda de publicitários, químicos de alimentos, advogados e... alguns burocratas dos órgãos controladores. Mas acontece que acabei de tomar uma cerveja em lata de 350 ml e...estava lendo o rótulo. Os rótulos mentem, quase todos, mas alguns mentem de forma mais caprichada, ou provocadora. E eu caio fácil nas provocações dos rótulos de alimentos. Certa feita, escrevi sobre o rótulo da colomba pascal. Era quase uma peça literária. Não o que escrevi, mas o rótulo. Mencionava familiares da época da Revolução Francesa, se não me falha a memória.

     Vamos à cerveja. Quase sempre há um brasão nos rótulos. Esse não foge à regra. Tem um brasão e uma data, do século XIX. Mas em 1877, na Alemanha – que não era Alemanha – ainda havia brasões e famílias que exibiam brasões? Pouco importa se a data e o brasão fazem alusão a duas distintas épocas históricas: a revolução industrial e respectivas famílias burguesas, por um lado, e o período feudal, por outro. Claro, a cerveja é puro malte. E é premium – sabe-se lá a que se refere esse premium. Costumo comprar essa cerveja porque sua gradação alcoólica é de 4,8% - a mais alta que encontro na prateleira. Acho que essa gradação deveria ser de, no mínimo, 10%, mas, enfim, não sou contumaz bebedor de cerveja, levo a menos pior. E não tenho a menor noção do que sejam cereais não-maltados, que o rótulo garante não haver na sua cerveja. Enfim, utilizam água pura e puro malte de cevada. Pura e puro são adjetivos infalíveis nos rótulos de alimentos. Água pura? H2O? Existe, na prática? A pureza é algo que não existe na prática. Mas faz um estrago danado na mente pura dos consumidores...puros.  


     Já que toquei no assunto, estou pensando em fabricar polenta. Claro, vou criar o rótulo antes. Que me importa que a polenta não tenha glamour.  Arranjo um sócio-investidor, desses que não entendem nada do negócio (só do retorno financeiro que ele possa dar), inundo a TV com comerciais de “alto nível”, contrato uma atriz cult, digo que é um remédio. Porque os rótulos criativos só funcionam bem com os produtos glamourosos, escrevo lá que minhas nonas antepassadas fabricavam polenta desde o Império Romano, suscito na imaginação do freguês um tacho de cobre, uma colher de pau, que me importa que a Europa ainda não conhecesse o milho, se apertado, declaro que tal império é o de Humberto Primo, que imperou sobre o norte da África – ou foi Mussolini? – dane-se, desde que não tirem meu rótulo de circulação, minhas incoerências serão notadas por dois ou três. Os milhões continuarão consumindo minhas alusões históricas e familiares e meus adjetivos e a memória falsa da minha bisavó.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O véio de Ouro Fino

     Ainda estava escuro quando saí de Ouro Fino, em direção a Inconfidentes, com destino a Tocos do Moji, pela vicinal do Caminho da Fé. Fui o primeiro a tomar café na pousada Don Paolo, o pão de queijo ainda estava quente; e inaugurei, tal qual aniversariante, os bolos de fubá e de aipim. Mas já clareava quando entrei na zona rural, aquela penumbra em que todos os gatos são pardos.  Só que não era gato, era homem! Um véio barbudo que se materializou em minha frente, como se tivesse pingado do céu. “Aonde você pensa que vai com esse cajado, moleque besta?”, atacou-me o velho. Se o sujeito me chamou de moleque, imaginem a idade dele. Era um velho ancestral, desses de 200 anos que a gente encontra por aí, nas ocasiões adversas. Antes, é bom que se diga que não uso cajado ou bastão ou qualquer outro amuleto nas mãos. Tenho-as livres para o que der e vier... e, na falta de melhor proveito, balanço-as para ajudar na aeróbica da caminhada, ao contrário do Drummond, que andava com as mãos vazias e paradas. Mas, às vezes, em horas de maior carência, não resisto a um graveto ou a um arbusto ou a um fino galho seco caído na beira da estrada. Cato-o e vou burilando-o; deixo-o do tamanho adequado, tiro os excessos, eventuais galhos, casca, etc. e caminho algum tempo imitando um peregrino convencional, porque a única função do cajado é remeter seu usuário à idade média ou envelhecê-lo. A utilidade do cajado é psicológica e a função prática imediata é midiática, no sentido de transformar o caminhante num humilde ser de Deus e propagador da santa. Enfim, eu sou bípede; uma terceira pata artificial não vai segurar o que as duas patas naturais não segurarem. Não uso cajado.  Mas o velho me pegou nessa hora de exceção, quando empunhava o cajado a rigor. A minha barba estava crescida e usava um chapéu de palha, desses usados pelos trabalhadores da roça. Também usava calça comprida e camiseta de manga longa, de tal maneira que, naquela semiescuridão,  com aquele cajado caprichado, eu era realmente um poderoso guerreiro da santa. Enfim, o fato é que a minha figura impressionou o velho. Acho que ele viu em mim um futuro concorrente...Esta deve ser a explicação dele ter me chamado de moleque, apesar de ter apenas uns 30 anos a mais. Só que eu fiz do limão uma limonada. Entortei a lança do velho. Retruquei jovial: “Bom-dia, véio misterioso das Geraes! Aceita um pão de queijo?” Eu tinha pegado uns quatro lá na pousada e guardado em minha pochete, ainda estavam mornos. Os olhos claros do velho, que ardiam em chamas, esfriaram e adoçaram, como se tivessem recebido uma avalanche de açúcar em neve. O fato é que ele inverteu o sentido da sua caminhada e passamos a caminhar juntos, enquanto ele não parava de falar:

“Mininu, já fui carrero, pião domadô i tamém jagunço. Já dismontei onça, jaguatirica sem par. Viado matero pulava dispoiz caía. Tamém já fui rezadô. Rezava terço, era chamado na redondeza di dez légua. Num rezava missa purquê Deus num dexava. Isso foi dispoiz di matá uns doze. De repente, virei o ‘spinhaçu. Num teve coroné qui desse jeito. As famia atingida qui mais mi siguia. Invirti as vingança, fundei a paz. Mais inhantes, adotei bestas i burros. Jumento nunca amuntei. Nunca quis graça cum jumento. Égua i cavalo tamém fiz, mas pôco. Minha preferença era burro brabo. Ô besta, tanto faz. Dexava nus trinques, na midida pra quarqué fia di fazendero amuntá. Nus entremeio, fui carrero, adestrei boi. Tamém fui mestri carpina, pra mór di us carru i apetrecho. Fazia us carru compreto i a arriata toda. Canga, canzil i tamém as necessidade di côro. As corda i as cabeçada. Só num fazia as fucinheira di ferro, qui ia nus nariz dus bixo. Num gostava daquela judiação, mas era o jeito. Minhas junta di boi só trabaiava nu grito. Num usava pau nem ferrão. Mininu ajudante qui num bestasse, qui devorvia prus pai. Batesse em mim mas num batesse nus boi. Era mestre em madêra e côro: mais pur conta das necessidade das minhas profissão. Tamém fabricava umas violinha di cabaça i crina i umas pinga, coisa não ferventada... I pescava, sô! Ô nossinhora! Mas nadica di rede ô cipó.   Cumigo era na lealdade, eu i us pêxe. Qué dizê: eu i minhas varinha i meus anzor i minhas isca. Qui pêxe é bixo ladino. Traíra nunca pesquei, purquê num gostava i tamém purquê num gosto di pesca di lagoa, gosto di barranco seco.  Prefiro um mandi-chorão. Tive muié i fio. Duas muié i quatru fio cum cada uma. Qué dizê: uma dispoiz da otra, qui morreu. Dispoiz a minha úrtima muié tamém morreu, dispoiz foi morrenu us fio, num sobrô nenhum, só eu nu mundo. Dus meus irmão eu já tinha pirdido  notícia inhantis di casá, tio i otros parenti nunca cunheci, di modus qui só sobrô essa minha carcaça nu mundo... eu i Deus. Dispoiz di matá doze, inhantis eu virei benzedô,  dispoiz foi qui virei rezadô nus conformi da religião. Si bestá, inda hoje disfio umas reza braba boa, tenho receita pra toda obra... Sendo tamém qui trabaiava cum erva i raiz i arguns pertence di bixo, mercadoria morta. Di coisa fabricada di cidade, só tive revórve i cartuxera. Tá veno aquela tapéra lá longe nu buracu  inhantes da curva du ribêru? É lá qui ninguém chega. É lá qui mi desanuncio. Tem dono pra mór di quê? Tem dono, mas axa mió num mexê cumigo. Tamém num faço motivo. In minha boca num entra musquito i sô respeitadô. Tô venu qui ocê anda feito um penachu.  Só pode sê, pra mi acumpanhá. Vô cheganu. Num arrepara num cunvidá, mas sô sistemáticu. Visita mi tira o disassussegu. Só, vivo menos disinfiliz. Brigadu pelas broa. U sinhô é bixaredo di bão pra andá. É mémo um redomão xadreiz. Quarqué hora nóis cruza otra veiz. Si Deus quizé e a vige Maria ajudá. ”


     De repente, me dei conta de que eu caminhava absorto e calado e só a voz do velho destilava sua história. E que em nenhum momento fui inquirido a revelar qualquer informação sobre a minha pessoa. Aquilo não fora um diálogo; mais parecera uma transversal a confrontar duas paralelas de distintos tempos, diferentes eras.  E realmente nada me lembra ver o velho se afastando em direção a sua tapera. Andei uns 10 metros e parei. Havia uma biquinha que escorria do barranco. Lavei o rosto. A essa altura, o dia já ia claro, apurei a vista, não vi tapera nenhuma em todo o vale lá embaixo e nenhum sinal do velho na invernada limpa que escorria morro abaixo e subia morro acima, do outro lado. Antes havia encontrado um menino com cara de velho petrificado na entrada da cidade. Que havia visto concretamente, lá fincado para quem quisesse e quem não quisesse. Agora esse velho que caía  do céu, comia meus pães de queijo, depois evaporava. Olhei minha mão direita e ela segurava um cajado. Que arremessei longe, senão não cumpria as oito léguas do dia.