Animais e placas
A garbosa cadela branca da pousada em Campos do Jordão é uma exceção. Seu dono a usa para divertir os visitantes, pedindo para que ela os cumprimente. Ela fica de pé sobre as patas traseiras e os recém chegados acham muita graça. É uma cachorra, mas tem nome e sobrenome. E nome composto...
Mas os animais são usados, de verdade, para afastar estranhos das propriedades, conforme observei em minhas caminhadas pela Mantiqueira. Numa fazenda após Paraisópolis há um touro bravo, segundo nos informa a placa na porteira. Touro bravo é o máximo. Cães anti-sociais há vários, pois a placa “cuidado, cão anti-social” é fabricada em série e vendida em supermercados. Cães bravos há muitos. Quero dizer: há placas. Placas representando touros e cães. Me pareceu que muitas dessas placas estão blefando ou mentindo. Porém, de uma forma ou de outra, elas funcionam: ninguém folga diante de uma placa ameaçadora.
Eu pensava que a linguagem dessas placas deveria ser direta e clara para produzir o efeito desejado, mas essa placa da moda – a do cão anti-social – me vem demonstrar o contrário. Nesse tipo de comunicação cabe a ironia e o subentendido e até entrelinhas. Os passantes se apavoram diante da mais leve alusão a animais violentos. Evidentemente, o animal mais usado é o cão, por causa da sua popularidade como atacante, do seu baixo custo, e da sua canina fidelidade ao proprietário. Ao contrário do gato, o cão é um animal maniqueísta. Seu ódio ao estranho é diretamente proporcional ao seu amor pelo dono. Daí porque é um excelente protetor da propriedade do dono. Já o gato... nunca houve nem haverá uma placa do tipo “cuidado, gato bravo”.
Contudo, o uso do touro, nas fazendas, pode ser adotado com excelentes resultados. Sua bovina indiferença é compensada com seu tamanho e seu temperamento irregular. Um único ataque de touro deixa estragos razoáveis e é guardado na memória coletiva por anos.
Eu, particularmente, sou favorável à diversificação de animais e linguagem nas placas com finalidade de afugentar estranhos. Acho que, nas fazendas, o uso do elefante seria eficaz. Sua improvável existência real é largamente compensada com seu tamanho e seu potencial de estrago. Defendo também que usemos o galo, porque os galos são muito populares como bons de briga. O pequeno tamanho do animal poderia ser compensado com a escolha adequada do adjetivo: feroz ao invés de bravo. E acredito que a introdução do advérbio “terrivelmente” resolveria definitivamente essa questão: “cuidado: galo terrivelmente feroz”.
Entretanto, é preciso tato nessa diversificação. é uma indelicadeza com o animal a placa que vi numa casa em Borda da Mata: “cuidado com o vira-lata”. Os gansos também poderiam ser usados: “cuidado, gansos escandalosos”. Porque os passantes, especialmente os mais atrevidos, têm tanto medo de ataques quanto de escândalos. Aliás, o cachorro tem também essa vantagem. É violento e escandaloso. Porém, a diferença entre um vira-lata e um ganso é nenhuma...
Já a expressão “mal-humorado” não deve jamais ser usada para qualificar o animal. Nenhum forasteiro tem medo de quem quer que seja mal-humorado. Um ser assim só faz mal ao próprio dono.
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