Veja só o nome do sujeito: Malatiel. É um cara doente de chato. É daqueles que, antes de viajar, leva o carro na oficina para revisar os freios, pneus, sistema elétrico, tudo conforme recomenda os guias de viagens dos jornais. Quando ele compra uma máquina de fazer pão ou uma batedeira ou um aparelho de som ou qualquer outra bugiganga dessas em voga nas casas bahia, fica até tarde da noite lendo o manual e o segue direitinho até a data do descarte do eletrodoméstico. É daqueles que acredita na conversa do mecânico da lava-roupas, de que “essa sua brastemp velha é que é boa, essas novas de hoje-em-dia não valem nada”.
Ainda bem que esse Malatiel é funcionário público, porque do contrário, já estaria no olho-da-rua há muito, pois está sempre em “operação-padrão”. Você sabe, aquele tipo de operação-tartaruga que grupos de trabalhadores costumam desencadear para pressionar o patrão em alguma negociação sindical: resolvem cumprir à risca as normas da empresa. Pois é de domínio público que nenhuma organização funciona se seus empregados cumprirem rigorosamente suas próprias normas. Pois esse Malatiel, sem saber, vive em eterna operação-padrão, para desespero dos seus colegas.
Esse Malatiel é casado. A mulher dele deve ser muito diferente dele, senão já teriam se separado. Eu acho que a mulher dele só o suporta porque ele alimenta o ego dela com suas preocupações simplórias. Imagine que ele não hesita em ligar para aqueles telefones divulgados pelas grandes empresas em seus veículos – os chamados telefones dedo-duro – quando assiste a qualquer manobra ousada de um desses veículos. E liga várias vezes para elogiar também, quando constata a circunspecção do motorista, liga para elogiar o sapato engraxado, a roupa bem passada, o cabelo bem aparado do motorista. Liga do próprio celular – após estacionar o carro, é claro...
E é caprichoso, o Malatiel. Pede para ver todos os comprovantes de recolhimento de contribuições às instituições de caridade, prometidas naquelas plaquinhas em certas fachadas, caso seus muros e paredes sejam poupados pelos pichadores. Justifica dizendo que cuida dos interesses das instituições e da credibilidade das comunicações públicas.
Outra coisa que o Malatiel não deixa passar é um alarme disparado de veículo. Aqueles do tipo “este veículo está sendo roubado; ligue para 0800 ......” Ele liga sempre, avisando a seguradora. Às vezes, liga antes, quando percebe algum suspeito rondando algum carro; aproveita e liga para todos os telefones que costumam ser divulgados nesses alarmes disparados, pois tem todos arquivados numa pasta especial em seu celular. É claro que ele concordou com a instalação de uma potente sirene na portaria do seu edifício, para ser acionada em caso de assalto e é claro que ele acha o máximo aqueles refletores que disparam na cara de quem está passando na calçada em frente ao prédio.
Nem é preciso dizer que o Malatiel nunca pisa na grama, nem trafega pelo acostamento, nem mistura ovo com manga, nem mata beija-flor. Jamais ultrapassa a velocidade permitida, respeita todas as placas de trânsito e fica puto quando encontra uma não condizente com a realidade. É assíduo frequentador das colunas de leitores dos jornais e dos serviços de ouvidoria. Obedece rigorosamente a todas as leis, incluindo as carcomidas. Adere com entusiasmo a todas as propostas de quem está no poder.
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