sábado, 20 de fevereiro de 2016

MAS É FEIO, HEM !?

     Comecei a me preocupar comigo na terceira vez que chamei o cachorro de feio na frente do dono num prazo de duas semanas. Sim, era um dono, um homem, e acho que foi isso que me despertou. Os dois primeiros haviam sido donas, mulheres.  Esse terceiro, o do homem, eu fui com mais cuidado. Perguntei primeiro qual era a raça. Era um Lulu da Pomerânia. Isso é raça?, perguntei. Ele disse é. Aí eu tasquei aquilo que já estava se transformando num bordão: “Mas é feio, hem !?”. Notei também que eu estava prevenido para o perigo. A calçada era ampla e desimpedida e eu estava de tênis e calção, pronto pra correr.  Porque homem dono de cachorro é sempre mais sensível, mais rude...

     Me lembro de quando isso começou. A dona ia segurando a cordinha da coleira do cachorrinho em uma mão e várias sacolas plásticas amassadas na outra. Eu caminhava mais rápido que eles; quando emparelhei, olhei para o focinho do bicho e tasquei: “mas é feio, hem !?”. A dona me olhou firme mas não falou nada. Então perguntei: “Qual a marca dele?”. Aí ela se ofendeu. Disse que não era ele, era ela, que não era feita de plástico, não era coisa... Mais um pouco e ela diria que cachorro era gente,  a julgar pela voz doce com que me disse que aquela era uma Bulmstife, e seu nome era Carmem Dulce.

     Já vai pra dois meses que estou com essa doença. Não resisto, é mais forte que a minha vã cautela. Vejo o cachorro puxado pelo dono lá longe e me digo: “Fica quieto!”. Vou chegando perto e brigando comigo mesmo. Aí, quando olho a cara do bichinho, que é feio de fato, não resisto:  “Mas é feio, hem !?” O pior é que não escolho  dono. Dia desses um halterofilista ia puxando um Komondor. Já perceberam que me tornei expert em nome de raça de cachorro, certo? Já fui falando:  “Sabia que os russos apuraram essa raça assim feia de propósito? Mas é feio, hem !?” O halterofilista concordou e já ia puxando conversa, se eu não apressasse o passo.

     Aqui nas ruas do meu bairro, todos os cachorros presos a cordinhas e puxados por gente são feios. Só que descobri que minha obsessão é coisa metafísica,  passível de eventual terapia.  Um Labrador, um Pastor Alemão, até um Dálmata, ficam feios, quando presos a uma cordinha.  Tudo bem que a maioria é feio mesmo, tem muito Poodle, Cocker, Buldogue, Pug, Terrier, Maltês, horrorosos com ou sem dono e cordinha, mas não sinto nem falo nada quando encontro qualquer um desses desacompanhado. Acho que o móvel da minha compulsão é o conjunto cachorro-corda-dono-sacola plástica. 


     O pior é que tem muita gente puxando cachorro aqui pelas ruas que frequento. Gente de todas as idades e de todos os tamanhos. Qualquer hora me dou mal. Isso de aprender os nomes das raças dos cachorros foi um paliativo que desenvolvi, enquanto não saio dessa enrascada esquizofrênica(E serve também para treinar o Inglês).Chego, anuncio a raça do bichinho, a dona ou dono se derretem, eu tasco o meu “Mas é feio, hem !?” e continuo apressado a caminhada, sem esperar o troco.  Preciso me curar antes de começar a encontrar pela segunda vez cachorrinhos feios e donos prevenidos.  

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