Comecei a me preocupar comigo na terceira
vez que chamei o cachorro de feio na frente do dono num prazo de duas semanas.
Sim, era um dono, um homem, e acho que foi isso que me despertou. Os dois
primeiros haviam sido donas, mulheres.
Esse terceiro, o do homem, eu fui com mais cuidado. Perguntei primeiro
qual era a raça. Era um Lulu da Pomerânia. Isso é raça?, perguntei. Ele disse
é. Aí eu tasquei aquilo que já estava se transformando num bordão: “Mas é feio,
hem !?”. Notei também que eu estava prevenido para o perigo. A calçada era
ampla e desimpedida e eu estava de tênis e calção, pronto pra correr. Porque homem dono de cachorro é sempre mais
sensível, mais rude...
Me lembro de quando isso começou. A dona
ia segurando a cordinha da coleira do cachorrinho em uma mão e várias sacolas
plásticas amassadas na outra. Eu caminhava mais rápido que eles; quando
emparelhei, olhei para o focinho do bicho e tasquei: “mas é feio, hem !?”. A
dona me olhou firme mas não falou nada. Então perguntei: “Qual a marca dele?”.
Aí ela se ofendeu. Disse que não era ele, era ela, que não era feita de
plástico, não era coisa... Mais um pouco e ela diria que cachorro era gente, a julgar pela voz doce com que me disse que
aquela era uma Bulmstife, e seu nome era Carmem Dulce.
Já vai pra dois meses que estou com essa doença.
Não resisto, é mais forte que a minha vã cautela. Vejo o cachorro puxado pelo
dono lá longe e me digo: “Fica quieto!”. Vou chegando perto e brigando comigo
mesmo. Aí, quando olho a cara do bichinho, que é feio de fato, não resisto: “Mas é feio, hem !?” O pior é que não
escolho dono. Dia desses um
halterofilista ia puxando um Komondor. Já perceberam que me tornei expert em
nome de raça de cachorro, certo? Já fui falando: “Sabia que os russos apuraram essa raça assim
feia de propósito? Mas é feio, hem !?” O halterofilista concordou e já ia
puxando conversa, se eu não apressasse o passo.
Aqui nas ruas do meu bairro, todos os
cachorros presos a cordinhas e puxados por gente são feios. Só que descobri que
minha obsessão é coisa metafísica, passível de eventual terapia. Um Labrador, um Pastor Alemão, até um Dálmata,
ficam feios, quando presos a uma cordinha. Tudo bem que a maioria é feio mesmo, tem muito
Poodle, Cocker, Buldogue, Pug, Terrier, Maltês, horrorosos com ou sem dono e
cordinha, mas não sinto nem falo nada quando encontro qualquer um desses
desacompanhado. Acho que o móvel da minha compulsão é o conjunto cachorro-corda-dono-sacola
plástica.
O pior é que tem muita gente puxando
cachorro aqui pelas ruas que frequento. Gente de todas as idades e de todos os
tamanhos. Qualquer hora me dou mal. Isso de aprender os nomes das raças dos
cachorros foi um paliativo que desenvolvi, enquanto não saio dessa enrascada esquizofrênica(E
serve também para treinar o Inglês).Chego, anuncio a raça do bichinho, a dona
ou dono se derretem, eu tasco o meu “Mas é feio, hem !?” e continuo apressado a
caminhada, sem esperar o troco. Preciso
me curar antes de começar a encontrar pela segunda vez cachorrinhos feios e
donos prevenidos.
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