“O GRANDE
IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ”, era o que estava escrito no imborná do cidadão que
desceu no mesmo ponto que eu no meio da Corifeu, coração do Butantã.
Imborná era uma simples bolsa de pano, para se
levar a tiracolo, feita em casa, muito usada pelas crianças na escola, para
levar os cadernos.
O imborná do
moço da Corifeu era preto e as letras brancas, coisa feita em série. São
vendidos em algum bazar alternativo da Vila Madalena ou Pinheiros ou Butantã,
redutos de certa classe média supostamente ilustrada.
Imbornás com
aquela inscrição, quero dizer, que isso é coisa de gente que lê.
Eu desci na frente, o moço veio atrás, para o
mesmo lado que eu. Deixei-o passar e fui acompanhando.
Eu ia caminhando e pensando: o imborná tem
razão.
Cogitei de
entabular conversa com seu portador, conversar sobre o autor do livro, trocar
impressões. Afinal, o livro me
impressionou quando li e continuou me impressionando quando o reli.
Me lembro
que fiquei mal – triste, desesperançado — nas duas vezes.
De fato, eu
ia dizer ao rapaz que o Orwell pegou pesado contra o Stalin, que o colocou no
mesmo saco do Hitler, que seu socialismo democrático — o que dizia professar —
era para, literalmente, inglês ver.
Que o livro,
escrito em 1948, era uma peça de propaganda contra a União Soviética, quase
como um chute inicial de um jogo que viria a se chamar Guerra Fria.
Porque
aquela de que comunista comia criancinha só funcionava com a massa ignorante e atrasada.
O livro do Orwell já era uma peça mais sofisticada...
Havia um governante único, um partido único,
partido e governante infalíveis, feito Deus. Tudo bem que os acertos eram fabricados
a posteriori, os erros eram apagados, e aí o Orwell se referia à famosa foto em
que o Trotsky foi apagado, etc.
Enfim, seria
um bom papo, porque o cara do imborná certamente havia lido o 1984 umas duas
vezes, como eu, e saberia, inclusive, trazer o tema para os dias atuais.
Porém tive um estalo. Pensei: se ele estiver olhando
o smartphone, nada feito, nada de conversa.
Porque,
levar o smartphone no bolso, como eu fazia, tudo bem, não tem nada de mais o
tio Sam saber de onde você veio, onde você está e para onde você vai.
Mas caminhar
e entregar ao tio Sam o quê e com quem você conversa, quais produtos você namora,
quais artigos lê, que tipo de vídeo assiste, as bobagens que escreve, as
postagens que propaga, as amenidades que curte, aí não dá.
Dito e
confirmado: o homem caminhava e brincava com o tijolinho, e falava sozinho na
via pública, com uns discretos fios enfiados nas orelhas. Passei por ele e não
resisti. Andando mais rápido e já me afastando, saudei-o: lembra quão limitada e chata era a Teletela!?