quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

ESPECULAÇÕES DE UM ASSALTADO

Esse assalto vai render... rs rs rs

Aos desinformados: fui assaltado neste 24 de janeiro.

Tem gente estranhando minha quase felicidade por ter sido assaltado. Meu quase amor pelos assaltantes.

Pudera! Saiu barato demais!

Não sofri nenhum arranhão, nem físico, nem moral. Sim, em muitos casos de crimes na via pública, os ferimentos morais doem mais do que os físicos.

Por exemplo, se eles tivessem olhado feio pra mim, com ódio. Se eles tivessem me xingado. Se tivessem me obrigado a deitar no chão, pisado em minha barriga. Se eu tivesse corrido e eles me alcançado. Se tivessem enfiado a mão em meu bolso. Se ao menos tivessem encostado a ponta da faca em minha pele.

Eu, se fosse o assaltante, a primeira coisa que fazia era encostar a peixeira na barriga do cabra. Mas não! Mantiveram o utensílio escrupulosamente a 30 cm do meu perímetro vital.

Se eles tivessem me chamado de coroa...

Por exemplo, se eles tivessem levado meu celular. Aí eu não ia gostar, pelo valor e pelo trabalho que ia me dar a operação de cancelar a linha, escolher outro aparelho, comprar outra capinha...

Por exemplo, se eles tivessem levado a carteira com os documentos e cartões junto com o dinheiro. Aí eu ia ficar brabo. Tava pensando que se eles tivessem feito como eu faria, se fosse o assaltante, que era jogar a carteira dentro do Tamanduateí – que o assalto foi bem em cima do rio —, aí eu não só ficaria muito puto como, provavelmente, jogaria os dois atrás. O ódio fortalece.

Mas o notável evento, após 47 anos de impunidade, custou apenas 150 reais. Não tem uma vez que eu vá ao supermercado pra comprar uma coisinha que tá faltando que gasto menos de 150 reais.

Sabe o que me surpreendeu nesse assalto? Não houve ódio.

Sempre pensei que era condição prévia os assaltantes odiarem os assaltados. Pensava que todo assaltante se colocasse na condição de despossuído ante o assaltado. Despossuído, injustiçado, daí o ódio.

Mas não. Os assaltantes deixaram minha carteira com todos meus documentos e cartões intacta, levando apenas o dinheiro. Ora, o que é isso senão empatia?

Eu pensava que os assaltantes em geral eram irrecuperáveis, por causa desse ódio. Porque seria um ódio genérico, dirigido ao desconhecido cidadão de posses. Um ódio de classe.

Eu pensava que o assalto era uma modalidade da luta de classes.

Mas não. Os caras me assaltaram, mas não me odiaram. Aquilo foi um puro ato de sobrevivência dentro da alienação em que vivem.

Aquela legião de humanos do centro da cidade que vive e pensa como rato, ainda não está perdida.   

Mas aí que tá o problema. Eu pensava que só os maus, raríssimos, poderiam assaltar. Não acreditava que todos aqueles miseráveis são assaltantes de ocasião.  

Se é assim, não devo mais frequentar a região, mas não cogito abandoná-la. E continuo não admitindo a truculência policial nem o porte de arma.

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

"JÁ FUI ASSALTADO"

Finalmente, fui assaltado. Após 47 anos morando e andando pelo centro da megalópole, fui assaltado. Agora já posso aderir à campanha “Já fui assaltado”, da Jovem Pan. Há uns 20 anos, a Jovem Pan distribuiu mais de um milhão de adesivos “Já fui assaltado”. As “pessoas de bem” colavam no vidro do carro.

 Na ocasião, escrevi a crônica “Nunca fui assaltado”. Mas venho por meio desta atualizar aquele meu produto. Ele (ela, a crônica) caducou. Neste 24 de janeiro de 2022, me tornei um cidadão que já foi assaltado.

Calma, conto direitinho.

Mas algum preâmbulo é necessário.

Eu facilitei. Não, eu provoquei. Pior, eu abusei.

Tudo bem que tem gente forte que reza pra mim. Meu santo é forte, meu zóio é forte, minha fé é forte. Mas tudo tem um limite. Vai vendo.

Com minha mochila cargueira nas costas, me dirigi à zona cerealista, como faço com certa frequência. São 6 Km, sendo metade carregado(17 Kg), é um bom treinamento para outras travessias.

Moro do lado oposto à zona do mercadão, devo atravessar o centro velho integralmente, passando pela região do Parque D.Pedro. Posso ir pela muvuca propriamente dita do parque ou ir pelo viaduto da Rangel Pestana.

Fui pelo viaduto.

Mas, ao invés de ir pela ciclovia que tem ali, que é bem visível e passa muita gente a pé ou de bicicleta, fui pela passarela de pedestres, aquela faixa lateral e rebaixada, separada da pista por um muro. E como se não bastasse o abuso, fui pela faixa do lado oposto. Tanto que os dois assaltantes tiveram que atravessar na frente dos carros para me abordarem.

Fui pelo viaduto para fugir da miséria misturada com sujeira que há na muvuca do parque. Bem feito pra mim!

Logo que entrei na passarela, pensei que aquilo era um desperdício. Para quê construir uma passagem de pedestre num viaduto? Nenhum pedestre de bom senso vai querer atravessar um viaduto de mais de 500 metros de extensão, se há alternativa própria. Na Itália, as autoestradas não têm acostamentos. Nenhum ciclista se aventura lá, até porque é proibido (entretanto, há boas estradas mais calmas para os mesmos destinos). Aquele desperdício só podia ser obra da Maluf.

Quando vi os dois homens pulando o muro em minha direção, já saquei logo, não minha arma, mas meu desconfiômetro. Eram dois homens pequenos e magros, mas não eram pivetes. O comandante da operação, que estava com a faca, tinha uns 40 anos e seu auxiliar uns 30. Era uma peixeira vagabunda com lâmina de 15 cm e cabo de madeira branca não tratada, a faca mais barata da feira, muito comum nas cozinhas de pobre.

“Dá o celular!”, “Dá o celular!”, “Dá o celular!”.

É isso, gente. A moeda corrente agora se chama celular. Notei na hora o advento da nova moeda. Eu estava calmo, meus batimentos cardíacos não se alteraram na hora nem depois, apesar da peixeira a 30 cm da minha barriga.

Eu disse: eu não tenho celular, mas tenho dinheiro na carteira. E já enfiei a mão no bolso para tirar a carteira, coisa que não devia ter feito, penso agora.

Mas o moço da faca era gente boa, eu acho que aquele senhor quase raquítico não teria coragem de enfiá-la em mim, caso eu reagisse. Pediu que eu abaixasse, para não ser visto pelos carros que passavam. Dei a carteira para o comandante, que a repassou ao cabo, que se distanciou uns 4 metros, colocou-a no chão, ao mesmo tempo que o superior comandava o subordinado: só tire o dinheiro, deixe os documentos.

Não falei que o homem da faca era gente boa!? Tenho certeza que aquele cidadão tem medo do fogo do Inferno. Que comparece regularmente a uma dessas lojas neopentecostais comuns no pedaço e até contribui com o dízimo.

“Só leve o dinheiro, deixe os documentos”. O cara tem empatia, essa virtude tão necessária e tão rara entre as “pessoas de bem”.

Nunca considerei tão bem empregados os 150 reais de moeda sonante que acabava de gastar.

Mas, encerrada a treta, me assaltou, aí sim, um medo de ser assaltado novamente na outra metade do viaduto que eu ainda tinha de vencer. Porque temo pela sorte de alguém sem celular e sem dinheiro naquelas vias públicas.

Enfim, fiz as compras e, imediatamente, entrei na primeira agência da Caixa para reabastecer minha carteira. Tá lôco, sô! Minha arma é minha grana.

E agora, perco ou não perco a fé? A exemplo da Jovem Pan, também eu abandono aquele território?

 

domingo, 23 de janeiro de 2022

DOMINGO NAVENIDA

Havia 3 bolas soltas navenida e outras tantas ainda presas dentro do saco. O malabarista fazia malabares usando os transeuntes.

Genial!

Ele chutava a bola de leve na direção de alguém que ia passando, em geral de alguém que já havia passado. De repente, o cidadão via uma bola passando devagarinho em sua frente.

Uma bola de futebol, parecida com essas que nossos craques chutam.

A minoria reagia positivamente, chutando-a de volta. A maioria não reagia.

Eu acho que um cidadão que não toca numa bola passando lenta a 30 centímetros de seus pés é doente.

Mas, no caso lá davenida, alguns não interagiam por timidez, outros por não se recuperarem a tempo da surpresa e a maioria, por cosmopolitismo.

Sim, cosmopolitismo.

Explico.

Aquelavenida é excessivamente cosmopolita. Não é só no visual que isso acontece, mas, principalmente, no mental, no cultural. É muito mundo por metro quadrado.

Não me refiro à variedade comercial, que é banal. Me refiro aos transeuntes.

Aliás, esse é o mal destes tempos pós-tudo: os mundos paralelos.

Começa em casa. Cada membro da casa tem um ambiente físico próprio e exclusivo. Quando se trata de ouvir música, cada um ouve sua música com fones de ouvido. Cada um pede sua própria comida! O pai não sabe em quê a mãe trabalha e vice-versa. Os filhos não sabem como os pais ganham dinheiro. Aliás, as finanças entre os parceiros são separadas!

Continua na cidade. Em prédios de apartamentos, pouca gente sabe sequer o nome de quem ocupa as unidades do mesmo andar. Ninguém mais pede emprestada uma xícara de açúcar ao vizinho, um alicate, uma chave de fenda. Ninguém escuta mais as conversas do quintal do lado, pelo fato de que ninguém mais conversa em casa. Claro, ninguém sabe nem a profissão do vizinho, muito menos quais são seus gostos e idiossincrasias.

Mas, o pior: ninguém sabe nem quer saber!

Ora, esse é um sintoma de cosmopolitismo exacerbado. Sabe aquele seu vizinho que nem olha para sua cara no elevador? Aliás, ele nem entra no elevador com você, espera o próximo. Então, a doença dele é cosmopolitopatia.

E você, que ficou feliz porque o vizinho deixou você descer sozinha, também está doente.

Evidentemente, isso é insustentável. Lembra aquela história de que nenhum homem é uma ilha? Então, aquilo é sério!

Mas reconheço que não dá pra não ser cosmopolita nesse domingo n’avenida da megalópole. Os curandeiros da saúde mental agradecem.

Por enquanto.

Falar nisso, o velho das bolas estava em frente ao xópi cidade de São Paulo (sim, o malabarista era um velho). A torre é modernosa, nova, tem o perfil curvado, deve ter dado um trabalhão para construir aquilo.

Grande merda, não restará pedra sobre pedra!

Óh, não! No mundo cosmopolita pós-tudo, a destruição se dá pelo abandono.

Então refaço: grande merda, será tomada pelo mato e pelos vermes!

 

domingo, 16 de janeiro de 2022

O PENALTY, A VIDA E A BARREIRA

Meu avô paterno, que era italiano misturado com caipira, dizia pênis para penalty. Sim, para a penalidade máxima, ele era juiz de futebol. O beck derrubava o center forward na área e ele gritava, para toda a torcida ouvir: pênis!! Ninguém achava graça nem desgraça, porque ninguém sabia o que era pênis. Aliás, todo mundo sabia: pênis era penalty em caipirês. Center forward é invenção minha, mas beck é de verdade. Naquele tempo não havia zagueiro, havia beck (se o beck fosse grande, era becão). O gol era defendido pelo goalkeeper, mas só no rádio. Entre nós, já era goleiro. E o nono devia achar melhor a forma inglesa de rigore, que era o penalty em sua língua.

Fica claro, então, que no futebol brasileiro não existe penalty; existe penalidade máxima. Creio que não há na vida uma situação em que os participantes mais sentem a relatividade das coisas do que na hora do penalty. Para o goleiro, aqueles 7,32 de largura pelos 2,44 metros de altura são mais amplos do que o perfil de um transatlântico. Para o chutador, aquele retângulo em sua frente, formado pelos três paus, parece uma minúscula arapuca retangular apoiada no planeta, no máximo um golzinho de futebol de salão.

Mas, ao contrário do que possa parecer, na hora do penalty a vantagem é toda de quem defende. Enquanto o goleiro não tem obrigação de defender, o chutador tem obrigação de marcar, daí porque aquela frase famosa, feita não sei por quem: o penalty é tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube. Para o goleiro, tudo que vier além do normal é lucro; para o atacante, é prejuízo.

Mas, e na vida? Se no jogo, quem defende só tem a ganhar, e quem ataca só tem a perder, na vida me parece o contrário, daí porque cunharam a expressão: fulano está na defensiva. Subentende-se que quem está na defensiva está batendo em retirada, sem razão. Há outra expressão, a propósito: a melhor defesa é o ataque. Quem ataca tem a seu favor, no mínimo, o reconhecimento da coragem, além de reafirmar a própria razão. E quem ataca escolhe a hora, o terreno e a natureza da contenda.

Mas é evidente que a cobrança do penalty, na vida, equivale à execução da pena capital. O goleiro é o condenado e o chutador é o carrasco. Também nessa analogia estrita, quem defende está em desvantagem: não ganha nunca!

Já sobre a barreira, aquele deprimente muro humano de contenção, agravado agora por mais um jogador deitado atrás, escrevo outra hora. Por enquanto, adianto-lhes que ela não consta nas regras do jogo. É coisa praticada nas brechas da lei, de gente que não gosta de gols, que quer manter o jogo no zero a zero.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

INJURIADO

 Poxa, cara! Por que essa cara feia agora!? Se eu fosse um desses melífluos que têm por aí, se eu lhe paparicasse, lhe levasse café na cama, lhe chamasse de querida, lhe presenteasse no ano novo, vá lá. Mas eu nunca lhe fiz nada disso, nunca lhe emprestei dinheiro, nunca lhe fiz nenhum favor, nunca lhe chamei de meu amor, nunca fui besta de alimentar esse seu gênio horrível, piorado com esse caminhão de complexos que você carrega. Eu realmente não entendo porque você agora reclama, fecha a cara, fica de mal. Eu até aceito que, às vezes, exagero. Poderia muito bem ao menos lembrar do nosso aniversário de casamento, paparicar a sua mãe, mandar entregar um buquê de flores de vez em quando. Mas é que sempre fui assim, sonso, sem graça e radical e faz tantos anos. Desde sempre, eu já era assim, eu sempre fui assim, sem açúcar e sem afeto. Fracasso o seu, de ter achado gosto em mim. Você não foi perspicaz, mas já lá se vão anos, por isso não entendo agora esse mau humor, essa reprovação. Lembra aquela vez, em casa de seus pais, ainda solteiros, quando chutei seu gato? Você, tão sagaz para tudo, até achou graça. Você devia ter sacado ali, naquela hora, que eu era caso perdido. Mas você até se sentou no meu colo, em seguida. Lembra que eu nunca sabia o nome daquele gato, que você fazia um beicinho lindo quando eu chamava seu gato de gato? Então, eu sou aquele, eu continuo aquele. Não entendo, cara, esse azedume de agora, só porque pendurei a toalha de mão no lugar do pano de prato. Porque se eu tivesse sido um sujeito atencioso, carinhoso, cumpridor dos mínimos detalhes da construtiva relação, preocupado em te agradar sempre e incondicionalmente, tivesse dito alguma vez que que você é linda, ao invés de dizer, como eu digo e você detesta da boca pra fora, que você é gostosa, aí sim eu entenderia esse gelo d’agora por causa desse meu chinelo no meio do corredor às 11 h da noite do dia dos namorados. Eu nunca alimentei esse seu gênio ruim, nunca fiz essa besteira, nunca fui tão imprudente. Se eu tivesse sido um boçal, você poderia me desprezar. Você não acha meio anacrônico agora esse seu rigor, meio fora de hora esse seu capricho? Eu nunca lhe dei motivos para me injuriar assim. Mas cara, saiba que, apesar de tudo, essa sua birra me dilacera o fígado. A benção, Chico Buarque de Holanda.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

 Esse negócio de presunção de inocência é coisa séria. Certa feita, ia eu por uma estrada vicinal dessas que sempre há entre uma pequena cidade e outra desse meião do Estado de São Paulo.

A pé, sozinho, com minha mochila cargueira nas costas. Era uma travessia de 20 quilômetros, coisa de 4 horas de tranquila caminhada. Era um trecho deserto como poucos dos que passei em minhas andanças, três ou quatro enormes fazendas de gado com suas pastagens a perder de vista dominavam toda a extensão.

De vez em quando algumas cabeças de gado pastavam ao longe, na paisagem rasteira salpicada por raros capões de mato. Nenhum homem, nenhum outro bicho, nenhuma casa, nenhuma cerca, um único mata-burros nas duas horas já caminhadas como testemunho do poderoso engenho humano.

Ah, sim, me lembro que foi por essa altura do caminho que ouvi um ronco vindo do céu. Olhei pra cima e só vi uma reta sendo traçada por algo invisível em fuga. Foi quando surgiu na curva à minha retaguarda a caminhonetona (uma caminhonetona é um caminhão pequeno, mas grande...).

Devagar ela já vinha, obrigada pela precariedade do caminho, mas foi desacelerando ainda mais à medida que se aproximava e, de fato, parou ao meu lado.

A única coisa que dava para avaliar era que parecia estar o homem ao volante sozinho, eis que havia um banco atrás, protegido por um vidro escuro, onde poderia ou não haver outros passageiros. Do homem, não dava para saber se era baixo ou alto, gordo ou magro, sequer a idade dava para presumir, por causa dos óculos, do chapéu e da ausência de barba.

Sim, dava para ver que era branco, pelo vidro a meio pau. E que usava camisa xadrez.

A primeira coisa que fiz foi tirar meus óculos escuros e encarar os óculos escuros do fazendeiro, eis que tive essa certeza quando ele abriu a boca para me perguntar se eu estava perdido, após me desejar bom dia.

Conheço bem esse erre de “perdido” e esse “bom dia” caipira e o meu interlocutor era um deles. Que eu também era branco ele já havia percebido, apesar da barba de dois meses, mas diante dos meus olhos azuis ele acabou de baixar o vidro e a guarda e ficou à vontade.

Ora, meus amigos pretos e ingênuos, não adianta fazer como o avestruz e enfiar a cara no buraco para fugir do predador. Da parte dos brancos há um enorme preconceito contra os pretos, assim como há preconceito de rico contra pobre.

Nenhum país subsiste impunemente a 300 anos de escravidão e 500 de desigualdade. Quanto mais provinciano, mais preconceituoso.

Quando lhe informei que não estava perdido não, que estava indo para Nipoã, ele me ofereceu carona. Mas minha recusa o fez descer do carro e se irmanar a mim no mundo dos homens de pés no chão. Era um sujeito alto e rechonchudo de uns 50 anos de idade.

Mais que intrigado, estava indignado com minha atitude. Onde já se viu um “homem de bem” sozinho, a pé, num mundão desse!? O senhor não tem medo?

Em sua alarmada pergunta estava implícito que havia dois tipos de ameaças: de bichos selvagens e de bandidos.

Respondi-lhe que os bichos que mais me ameaçavam eram os cachorros, todos domésticos.  

Os bichos selvagens nem existiam mais, devido aquela devastação ambiental que se descortinava diante de nós. Alguns remanescentes fugiam apavorados, vendo em mim, ereto e com duas patas pequenas e balançando, o próprio capeta da destruição.

Quanto aos bandidos, que entendi como pessoas más, bem, todas elas eram boas, até prova em contrário. Quem me protegia, minha arma eficaz, eram meus olhos, que olhavam para as pessoas sem prometer nem esperar maldade.