Esse assalto vai render... rs rs rs
Aos desinformados: fui assaltado neste 24 de janeiro.
Tem gente estranhando minha quase felicidade por ter sido
assaltado. Meu quase amor pelos assaltantes.
Pudera! Saiu barato demais!
Não sofri nenhum arranhão, nem físico, nem moral. Sim, em
muitos casos de crimes na via pública, os ferimentos morais doem mais do que os
físicos.
Por exemplo, se eles tivessem olhado feio pra mim, com
ódio. Se eles tivessem me xingado. Se tivessem me obrigado a deitar no chão,
pisado em minha barriga. Se eu tivesse corrido e eles me alcançado. Se tivessem
enfiado a mão em meu bolso. Se ao menos tivessem encostado a ponta da faca em
minha pele.
Eu, se fosse o assaltante, a primeira coisa que fazia era
encostar a peixeira na barriga do cabra. Mas não! Mantiveram o utensílio
escrupulosamente a 30 cm do meu perímetro vital.
Se eles tivessem me chamado de coroa...
Por exemplo, se eles tivessem levado meu celular. Aí eu não
ia gostar, pelo valor e pelo trabalho que ia me dar a operação de cancelar a
linha, escolher outro aparelho, comprar outra capinha...
Por exemplo, se eles tivessem levado a carteira com os
documentos e cartões junto com o dinheiro. Aí eu ia ficar brabo. Tava pensando
que se eles tivessem feito como eu faria, se fosse o assaltante, que era jogar
a carteira dentro do Tamanduateí – que o assalto foi bem em cima do rio —, aí
eu não só ficaria muito puto como, provavelmente, jogaria os dois atrás. O ódio
fortalece.
Mas o notável evento, após 47 anos de impunidade, custou
apenas 150 reais. Não tem uma vez que eu vá ao supermercado pra comprar uma
coisinha que tá faltando que gasto menos de 150 reais.
Sabe o que me surpreendeu nesse assalto? Não houve ódio.
Sempre pensei que era condição prévia os assaltantes odiarem
os assaltados. Pensava que todo assaltante se colocasse na condição de
despossuído ante o assaltado. Despossuído, injustiçado, daí o ódio.
Mas não. Os assaltantes deixaram minha carteira com todos
meus documentos e cartões intacta, levando apenas o dinheiro. Ora, o que é isso
senão empatia?
Eu pensava que os assaltantes em geral eram irrecuperáveis,
por causa desse ódio. Porque seria um ódio genérico, dirigido ao desconhecido
cidadão de posses. Um ódio de classe.
Eu pensava que o assalto era uma modalidade da luta de classes.
Mas não. Os caras me assaltaram, mas não me odiaram. Aquilo
foi um puro ato de sobrevivência dentro da alienação em que vivem.
Aquela legião de humanos do centro da cidade que vive e
pensa como rato, ainda não está perdida.
Mas aí que tá o problema. Eu pensava que só os maus,
raríssimos, poderiam assaltar. Não acreditava que todos aqueles miseráveis são
assaltantes de ocasião.
Se é assim, não devo mais frequentar a região, mas não
cogito abandoná-la. E continuo não admitindo a truculência policial nem o porte
de arma.