sábado, 19 de janeiro de 2019

OUTRA CRÔNICA de CACHORRO.


Declarei, na crônica anterior, que não tenho pena de cachorro abandonado. Fazer o quê, se tenho essa tendência de dar murro em ponta de faca? Posso, não sou candidato a nada, não estou vendendo nada. (Ops! Tô vendendo um livro em formato eBook, mas esse tá vendendo mais que mamão na xepa, apesar do autor pouco esforçado e antipático).
O cachorro abandonado pode morrer, mas acho melhor morrer do que ter um dono pra viver lambendo as botas. E quando o cachorro sobrevive, é como se ganhasse na loteria, naquela vida à larga, em meio aos outros (e outras!) da espécie.
Não tem jeito, ninguém me tira da cabeça que estar sob o jugo de um humano não é vida pra cachorro. Se o dono-humano for de apartamento, então, pior. A primeira coisa que ele faz é capar o espécime. O humano pode deixar o animal com as bolas ou os ovários, mas essa alternativa é pior: não deixa o bicho brincar com os e as semelhantes.
Mas se você chegou até aqui e ainda não me odeia, vou em frente. É desumano jogar pedra ou chutar cachorro?
Antes de continuar, quero ressalvar e registrar aqui que os argentinos e os chilenos são muito mais humanos com os cachorros do que nós. Ao menos foi o que presenciei in loco, em viagens. A amostra é ínfima, mas suficiente para me convencer.
Quanto a chutar cachorro, se esse humano é des alguma coisa, seria descanino. Para ser desumano, ele teria de chutar outro humano (ou seja: tratar outro humano como se ele fosse animal de outra espécie).
Porque uma atitude com a qual não me conformo é esse antropocentrismo em relação aos desumanos. Ops! Aqui temos novidade. Perceberam que chamo todos os outros animais de desumanos? Desumano, aquele que não é humano.
E não me conformo com esse costume que parece já ser dominante, de avaliar as necessidades dos desumanos como se eles fosses humanos. Creio que “antropocentrismo” não atende ao que estou querendo dizer; nem etnocentrismo. Egocentrismo, talvez.
Acho que o termo ainda não existe. Vou chamá-lo, provisoriamente, de Síndrome do Sebastião. Essa coisa de chamar cachorro de meu bem, dar a ele um nome de gente, fazer uma caminha pra ele, cobri-lo com cobertor, vesti-lo! Fazer festa de aniversário pro cachorro! Quem garante que cachorro gosta de ser acariciado por patas de bicho de outra espécie? 
E, para terminar, quero garantir a você, dono de cachorro, que seu cãozinho não entende nenhuma daquelas suas adocicadas frases com mais de uma palavra.
Quanto aos gatos e aos donos e donas de gatos, tenho a dizer que esta é uma crônica de cachorros.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

CRÔNICA de CACHORRO


O cachorro vinha pelo Caminho da Fé de cabeça baixa, mas trotando rápido e reto, muito determinado. Parecia doido. Além dos pés, tocava o chão com as duas mãos, como se fora dois cajados. Poucos animais andam com as mãos abanando. Alguns inventam um pedaço de pau para segurar. Mas há quem invente dois. Se um cajado já atrapalha e pesa, imagina dois!
Trote é corrida? Sim, trote é corrida, porque por frações de segundo o irracional peregrino flutuava no ar, sem nenhuma parte do corpo a tocar o chão. E essa condição é que diferencia a corrida da caminhada. Entretanto, era uma corrida cadenciada, de quem não está se esforçando muito e pretende ir longe.
O caminho fazia uma curva, eu e minha nova parceira peregrina havíamos sentado num murinho simpático para descansar e comer o resto de pão de queijo que havia sobrado da véspera. Era rua de terra, nas cercanias de Campos do Jordão, próximo ao Vale do Baú, que tem esse nome porque uma das suas encostas tem como cumeeira a Pedra do Baú, monumento natural que domina vasta região do sul de Minas e partes da Mantiqueira paulista.
O cachorro apontou na curva e, pela sua determinação, diagnostiquei que poderia estar louco: de fé ou de raiva. Isso não é difícil entre penitentes e ultramaratonistas.
Mas o cachorro não estava uma coisa nem outra. Tanto que logo quebrou sua concentração para se juntar a nós, nos cheirar e pedir compartilhamento com a nossa comida. E ora cheirava um, ora cheirava outra; e pedia e implorava.
Acontece que toda essa comida consistia num único pão de queijo, que fora, momentos antes, escrupulosamente dividido em duas partes iguais. Sendo que esse pão de queijo era legítimo mineiro, de uma padaria de Luminosa, distrito de Brazópolis, cuja receita havíamos discutido e nos inteirado com o próprio padeiro, que vinha a ser também o caixa e o balconista.

Sendo que eram 10 horas e a fome já havia vencido o café da manhã, consumido às cinco, 20 quilômetros atrás.
Eu me considero um sujeito sensível. Menos perante olhares mortiços de cães abandonados. (Não tenho pena de cães abandonados, pelo motivo que vai ao final). De tal maneira que abocanhei logo minha metade, livrando rápido minha consciência e jogando todo o peso sobre a da minha parceira, que acabou sucumbindo e subdividindo sua metade com o pedinte.
O cão recebeu a comida da mulher, mas veio agradecer ao homem, que o cão é o melhor amigo do homem, e não da mulher.
Agora eu estava livre até para conversar com ele. Chegou, resvalou em minhas pernas, era um vira-latas sem-vergonha da mais genuína procedência. Estava limpo e bem cuidado, seu pelo transparecia o brilho da saúde. Havia uma coleira, na coleira havia uma chapinha metálica, na chapinha havia os números de dois telefones.
Claro que não liguei para telefone nenhum, que não avisei dono de cachorro nenhum. Só não arranquei a chapinha para pinchá-la no mato porque fiquei com medo da reação da minha parceira. Mas expliquei a ele, numa conversa de homem para cachorro, que a vida de cachorro-sem-dono é muito, muito melhor; que ele, abelhudo como era, não teria dificuldades para ser feliz; que deveria se mandar, ir para bem longe, de preferência sair da área do prefixo DDD 012: nenhum humano iria gastar um interurbano para avisar. E, se avisasse, seu humano dono não iria gastar uma viagem para resgatá-lo.
Ele concordou. Sim, tudo bem, ir para bem longe. Mas não junto com a gente, para Aparecida!