JOGATINA E FUMAÇA NO BRASIL E EM KIEV. Hoje nós aqui das imediações da Avenida Paulista também tivemos grossa coluna de fumaça saindo do topo de prédio.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022
FUMAÇA NA PAULISTA E EM KIEV
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Quando foi que percebemos?
Quando foi que a gente percebeu que o quê os bandeirantes fizeram não foi nada edificante?
Passei lá na estátua do Borba Gato. A prefeitura,
sabiamente, instalou uma placa informativa, em que consta que muitas pessoas
não aceitam aquela homenagem, porque se consideram violentadas pelo que ela
representa. Isto foi depois que tentaram destruir a estátua, há alguns meses.
A massa vai fermentando, de repente a gente percebe. Quando
foi que percebemos que os bandeirantes não eram heróis, mas vilões?
Quando foi que a gente percebeu que a expressão “preto de
alma branca” é infame?
Em finais do século XIX, com o surgimento de A Origem das
Espécies, de Charles Darwin, nos demos conta do ridículo que era a conversa de
Adão e Eva.
(se bem que a conversa de Céu, Inferno e Purgatório já
vinha sendo manjada desde Dante Alighieri).
Tava pensando: Ladrão e Proprietário pertencem ao mesmo
campo semântico. Só tem sentido a existência do Ladrão se houver Proprietário.
Em sendo tudo comunitário, não haveria ladrão.
Claro que Escravidão e Racismo têm tudo a ver.
Claro que Escravidão e Pobreza têm tudo a ver.
Claro que Patriarcalismo e Machismo têm tudo a ver.
Se não houvesse a chancela social de que o homem é o bam
bam bam, os homens que não são bans bans bans não precisariam ser violentos
para afirmar o inexistente.
Quando foi que a gente se deu conta de que o homem não é o
bam bam bam?
Que existe feminicídio?
Quando foi que o caldo engrossou, o copo transbordou e a
gente acordou?
Aliás, acho que a ridicularização do machismo coincide com
a liberação dos viados. É! Os e as homossexuais não podiam sair do armário há
apenas 10 anos!
Faz pouco tempo que nos demos conta do ridículo que era a
redução sexual ao papai-mamãe.
Mas numa coisa ainda estamos dormindo: a questão da
pobreza, da desigualdade.
Quando vamos associar a violência social à equação: 1 tem
muito, alguns tem o suficiente e a maioria não tem nada?
domingo, 20 de fevereiro de 2022
Triste, Louca ou Má
“UM HOMEM NÃO TE DEFINE/ SUA CASA NÃO TE DEFINE/ SUA CARNE NÃO TE DEFINE/ (VOCÊ É SEU PRÓPRIO LAR)”
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
Bolsonaristas se retiram
NOTÍCIA BOA! Os disciplinados e persistentes 3ozo4aris1as acampados
no Ibirapuera bateram em retirada. Sim, levantaram acampamento. Estavam há mais
de 3 anos com suas barracas e faixas lá no bosque de eucaliptos que fica atrás
da Assembleia Legislativa. Acho que cansaram.
É incrível a capacidade que o poder tem de motivar as
pessoas. Mais ainda, a perspectiva de poder. Acho que tomaram conta do pedaço
assim que o 3ozo foi eleito. E já foram logo querendo tirar o Dória do poder.
Queriam o impeachment do Dória.
Sim, a bronca deles não era com o PT ou o Lula, era com o
Dória. Por isso, acho que eram teleguiados da polícia militar. É que os
policiais militares têm uma questão sindical com o governador. É com o
governador que eles negociam questões internas, incluída uma discreta pauta sindical.
Eu dizia que as pessoas ficam todas diligentes, cheias de
iniciativas, ante a perspectiva de poder. Os cabos eleitorais, quero dizer. O
poder significa bons negócios e empregos. Inversamente, ficam apáticos, quando
seu candidato parece que vai perder. Antecipam a busca da sobrevivência em
outra freguesia.
Ali no acampamento dos eucaliptos dos fundos da Assembleia
Legislativa deve ter baixado o desânimo, diante da perspectiva de derrota de
seu candidato. Isto no nível federal; no estadual, não tem mais sentido
combater o Dória, quarto ou quinto lugar nas pesquisas e desmoralizado dentro de
seu próprio partido.
Eles não nomeavam PT e Lula. Os 3ozo4aris1as encontraram
uma fórmula mais simples e eficaz de combater esses dois: eram contra o
comunismo e diziam que “nossa bandeira jamais será vermelha”. Soluções
simplórias para simplórios. Claro, eram contra a “vachina” e queriam “endireitar”
o país.
No começo, havia cerca de 5 barracas e muitas faixas. Quem
passava de carro no trecho final da Abílio Soares, para entrar na Pedro Álvares
Cabral, via, à esquerda, um escarcéu de faixas amarradas nos eucaliptos, além
das vistosas barracas.
Acho que alguns tremiam de medo e outros tremiam de
entusiasmo, diante daquele impressionante visual. Mas quem passava a pé ou de
bicicleta, como eu, via que era tudo encenação. Tomando conta daquela parafernália,
víamos um ou dois paus-mandados.
Nos últimos tempos sobrou apenas a barraca maior. Havia até
um carro estacionado ao lado dela, debaixo de um toldo à guisa de garagem. Mas
assim que seu ocupante resolveu seu problema de moradia, deu no pé. Sim, acho
que ele juntou ali dois problemas: o seu, pessoal, de moradia e o ideológico.
Mas o povo é maldoso e não perdoa. Fui ao google maps para
ver o nome das ruas adjacentes e olha o que tascaram lá: “Acampamento do gado”.
Simples assim, como se fosse apenas mais uma das centenas de inocentes atrações
turísticas da cidade.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
Ainda bem que sou meio surdo
AINDA BEM QUE SOU MEIO SURDO, senão vocês teriam de me
aturar muito mais. É que não entendo o que ouço de orelhada, no espaço público.
Ouço, mas não entendo. Sabe quando o cidadão fala ao celular dentro do vagão?
Aquela conversa bem particular, quase íntima?
Se eu entendesse o que estão falando... tenho certeza de que
aquelas conversas são um manancial inspirador para um cronista como eu.
Mas não entendo nada, ou quase nada. O que se salva deve-se
ao meu poder de dedução e à minha razoável capacidade de ler entrelinhas,
subtextos e contextos.
Também faço muito extrapolações e interpolações entre duas
ou três palavras que entendo. Algumas palavras são mais fáceis de entender,
como pateta, bicicleta, caneta e capeta, palavras com som aberto, sem
anasalações, hiatos ou ditongos.
Mas o diabo é que as pessoas que lavam roupa suja em
público e por celular nunca falam pateta nem bicicleta, que agora é bike;
capeta também não falam, porque dá azar e caneta não falam porque não usam.
Quem não tem cão caça com gato. Fico examinando o
indivíduo, seus trejeitos, seu modo de vestir, seu sotaque, sua idade, a altura
da voz.
A mulher entrou no vagão já falando. É sempre assim, sabe
essas pessoas que entram e saem do elevador falando ao celular e nem notam sua
existência? Ela tinha um visual meio desleixado e andrógino, cabelo bem
curtinho, uns 40 anos de idade. Ah, e tinha fones de ouvido.
E não é que ela tenha recebido a ligação, fortuita e
inesperada, e estava falando por obrigação, contra a vontade, no local
impróprio não. Durante a viagem, ela fez várias ligações, consegui contar três,
num intervalo de 15 minutos.
Tenho certeza de que, da mesma forma que entrou, ela saiu
falando, suponho, porque desci antes dela.
Creio que parte dessas pessoas — são poucas, a maioria é
discreta — não têm capacidade de refletir em silêncio, pensar consigo mesmas,
ruminar pensamentos, meditar. Outra parte é fuxiqueira pura e simples. São
poucas, mas bem distribuídas na população. Sempre me deparo com essas conversas
em ônibus, metrô, consultórios médicos e filas em geral.
E o detalhe do fone de ouvido não é coincidência. Além de
facilitar a audição do celular, evitam de ouvirem a conversa alheia. Sim,
deduzo que essas pessoas detestam ouvir a conversa alheia.
Lamento duplamente. Pelo evento constrangedor que é ver
todo mundo ouvindo a fofoca alheia e por não entender a dita cuja.
Não que eu seja bisbilhoteiro, longe de mim, é que tenho
interesse literário. Por exemplo, tenho certeza de que ouvi um palavrão, quando
a moça abaixou a voz. Era uma palavra daquelas fáceis de entender.
Não, não tenho certeza, apenas deduzo, a julgar pela
ruborização que vi em seu rosto, quando ela o levantou e me viu atento (rubor? E
essas pessoas lá ficam constrangidas por causa das próprias palavras?).
Sim, a personagem, o entorno, a palavra subentendida, só
faltou eu ouvir inteiro. Ah, seu eu
ouvisse inteiro, tenho certeza de que sairia dali com material para uma crônica.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022
AS PRAGAS DOS EGITO, EUA e RÚSSIA
Quem disse que a História não se repete? Houve um tempo em que o Egito dos faraós foi a nação mais poderosa da Terra. Sendo assim, os pobres do entorno queriam a grana e o estilo de vida egípcio. A patuleia que vivia ali onde é hoje a Palestina, o Líbano, a Síria, a Turquia baixou em peso no Egito, para trabalhar e ganhar a vida. Era empregada nos trabalhos mais insalubres, pesados e degradantes, mas, ao final da semana, recebiam em dólares egípcios e esqueciam todas as dores.
Após muitas décadas de sofrimento, surgiu entre os
explorados um líder poderoso chamado Moisés. Só que o Moisés não era um líder
comum e carismático falador-atrevido. Aliás, o Moisés nem sabia falar em
público (...“Eu não sei falar com facilidade;” – Êxodo, cap.6, versículo 30).
Moisés nada mais era do que um teleguiado. Moisés era representante de uma
potência estrangeira-alienígena fabricante de armas.
Esse cara estrangeiro fabricava armas muito poderosas e
queria testá-las na vida real, sobre a cabeça de viventes comuns. Porque a vida
é assim. Quando alguém cria ou inventa ou aperfeiçoa uma máquina qualquer, esse
alguém quer ver sua máquina funcionando.
Aí esse inventor poderoso, mas solitário e misantropo,
tomou coragem e apareceu para o Moisés com a seguinte conversa: vocês querem se
libertar desses sacanas imperialistas, não querem? Moisés respondeu que sim. Aí
o mafioso e arredio fabricante de armas continuou: então vai lá e o ameaça;
qualquer coisa eu garanto.
E de fato foi isso que aconteceu, conhecido como as 7
pragas do Egito, que na verdade foram 10. O faraó não cedeu na negociação, Moisés
transformou a água em sangue; o faraó continuou impassível, Moisés infestou de
rãs todo o país... enfim, teve infestação de mosquitos, de moscas, de
gafanhotos, teve epidemia de peste, de úlceras, o misantropo era tão criativo
que inventou uma arma que fazia o dia virar noite e outra que fazia chover, mas
não qualquer chuva: chuva de pedras.
Bem, essas eram as armas que se podia fazer naquele tempo,
eis que ainda não haviam inventado nem o torno nem a prensa nem o alicate nem a
eletrônica, se bem que esse cara já dominava a tecnologia de comunicação à
distância.
E vejam como a História se repete. Alguém inventa e fabrica
as armas e sai à procura de países ou povos alhures que estejam em conflito.
Escolhe um dos lados e fornece o arsenal e ensina-os a usar. E pra garantir que
a parte escolhida como vítima não ceda às ameaças da parte armada com as novas
armas e negocie, evitando a guerra, esse inventor-fabricante endurece o coração
do faraó.
O cara instruiu Moisés: vai lá e ameaça; e prepara-te para
realmente usar a arma, porque ele não vai ceder; eu, com meu sistema de
manipulação de narrativas e indução de opiniões, endurecerei o coração do faraó
(Êxodo, cap. 7, versículo 3).
Enfim, a história de fazer guerra teleguiada.
Mas claro que quem projeta um avião de 100 milhões de
dólares — imagina a perfeição que deve ser uma máquina de 100 milhões de
dólares! — quer ver seu brinquedo em ação.
(esse é o preço dos nossos gripen suecos, R$24 bilhões por
36 aviões)
Imagina a merreca que são nossos gripen suecos perto lá dos
caças e bombardeiros estadunidenses e russos!
Bom, agora deixo a você, leitore, com sua fértil imaginação
e poder de dedução, identificar nessa querela entre Rússia e Ucrânia, quem é
Deus, quem é Moisés e quem é o Faraó.
sábado, 12 de fevereiro de 2022
1 RICO PARA 900 POBRES
Vira e mexe tasco em minhas arengas essa conversa de 1 rico para 900 pobres. Meus treze leitores devem se lembrar. Ontem mesmo, na crônica em que não fico nem volto, escrevi que se 1 tira demais, 900 tiram de menos, afirmando que é uma lei da Física. Creio que enfiei essa minha descoberta até nas crônicas profanas que escrevi sobre a Bíblia.
Sim, é uma descoberta minha, não aprendi isso com nenhum
economista ou sociólogo, tampouco ouvi de algum desses gurus que inventam
chistes vistosos para impressionar macacos de auditório.
Mas, apesar da lavra solitária, sem laboratórios e
assistentes e orientadores e bibliotecas, é uma relação — 1:900, 1 rico para
900 pobres — científica, estatística e cabalística. E matemática. E expressa
uma lei da Física, como já dito.
Conto como cheguei a ela.
Eu viajava de bicicleta pelo oeste do Estado de São Paulo,
em paralelo com o Rio Paraná, na direção norte-sul. Não me lembro se foi em
Nova Independência, onde pernoitei, ou se foi em Suzanápolis, onde pretendi
pernoitar mas não encontrei pousada, que um cidadão local que me guiava, ao
passar em frente a uma casa um pouco mais vistosa do que as demais, me informou
que ali morava ou morara um dos homens mais ricos do Brasil, segundo relação
anual de conhecida revista nacional.
Surpreso, perguntei se além dele, havia outros ricos na
cidade. Ele me respondeu que havia mais uns três. O resto era tudo arraia
miúda. Mas foi o que bastou para eu incluir a pergunta em minhas futuras
passagens pelas cerca de 25 cidadezinhas restantes no meu roteiro.
Eu entrava na cidadezinha, todas na faixa de 5 mil
habitantes, com exceção de Presidente Prudente e Sorocaba e mais umas duas,
escolhia um cidadão e sapecava-lhe a pergunta: “quantos ricos há aqui nesta
cidade?”. O sujeito ou a sujeita ficava inicialmente sem jeito, mas depois
gostava da brincadeira, pensava um pouco e afirmava: uns 3 ou 4. (porque nesse
universo, todo mundo sabe da vida de todo mundo).
O fato é que em nenhuma das cidadezinhas, meus informantes
se lembraram de mais de 6 ricos. Creio que nessa em que me informaram que havia
6 ricos, a população era de 5 mil habitantes, uma das maiores dessa faixa. A
maioria, na faixa de 2 a 4 mil habitantes, possuía “uns 3 ou 4” ricos, segundo
a lembrança de meus informantes.
Ao final da viagem, em casa, a bordo do meu reconfortante
PC — que sou antigo —, fui ao gugol e rapidamente levantei as respectivas
populações e alguns dados sociológicos. Em todas elas era assim: 3000
habitantes para 3 ou 4 ricos, 2500 para 2 ou 3, 4000 para 4 ou 5. Em duas ou
três, deu um resultado fora da curva: 5 mil habitantes com apenas 2 ricos
lembrados pelo informante. Fui ver e eram cidadezinhas de minifúndios, com uma
classe média numerosa. Ao contrário, numa das cidades, de 2 mil habitantes,
foi-me informada a existência de 4 ricos. Também fora da curva, fui ver e os 4
ricos eram os donos das 4 fazendas que sozinhas abarcavam praticamente 100% do
território do município. Não havia classe média, eram 4 ricos para 2 mil
pobres, a seco, sem qualquer amortecimento. Sim, amortecimento é uma boa
palavra, quando associada à Classe Média.
Fiz as contas, aparei as arestas, lixei, poli, pintei: 1:900;
um rico, novecentos pobres. E os pobres são menos pobres, quando os ricos são
menos ricos.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
NUM FICO NEM VÓRTU
A PROPÓSITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL E DE UM CERTO ESTADO DE ALMA
Numa caminhonete, dois empregados da firma foram
entregar uma carga de bombons na cidade vizinha, 12 km distante por estradinha
de terra. Era na boca da noite, quando passaram em frente ao cemitério, uns 2
Km longe da cidade, já tava escuro.
Três minutos depois, canavial de ambos os lados
e o cemitério na retaguarda, o carro parou, não havia meio de fazê-lo
funcionar.
Então o motorista falou pro ajudante: “você
fica aqui vigiando a carga enquanto eu vou na cidade buscar o mecânico”. O
ajudante, muito medroso, respondeu: “num fico”. O motorista então inverteu a
proposta: “você vai, eu fico”. Aí o ajudante: “num fico nem vô”.
Saudade do tempo em que eu era assinante de jornal. Todo
dia, fresquinho em minha porta, o calhamaço de notícias bem comportadas. Pra
variar e não ser enganado, via também o Jornal Nacional, à noite. E durante o
dia, ouvia uma rádio que pegava no país inteiro. Eu era feliz até o dia em que
descobri que o jornal, a TV e a rádio eram do mesmo dono.
Um belo dia, me descobri me informando por uma parafernália
de blogs, sites, canais, páginas, tudo virtual e instantâneo, na rua, na chuva
ou na fazenda, numa telinha deveras portátil. Jornais do mundo inteiro na palma
da mão.
Não demorou para eu descobrir a tristeza que é se informar
com notícias ditadas pelo senso comum. Descobri o paradoxo da desinformação.
Agora tô assim: num quero vortá nem ficá.
SENSO COMUM
Todos dizemos que o Sol nasce, o Sol se põe. Apreciamos o
pôr do Sol. Então é o Sol que se movimenta em torno do nosso planeta? Pelo que
nossos olhos veem, sim. E não é que até esse ultrapassado senso comum tentaram
restaurar, usando a ideia de Terra plana? É manipulação pura e deliberada da
reconhecida inocência popular.
MONETIZAÇÃO
Antes eram 7 famílias que nos informavam. Aí chegaram Internet
smartphone rede virtual aplicativos Netflix Youtube Toc Toc... Tava indo bem
até quase perder a graça, então inventaram um negócio chamado monetização. Aí
fudeu.
Eu e você podemos ganhar dinheiro, tanto mais quanto mais
populares formos. A coisa é movida a visualizações, likes, curtidas,
comentários, compartilhamentos, etc. O sucesso nunca foi tão mensurável e tão
diretamente ligado à grana. O sucesso nunca foi tão instrumentável...
Quer fazer sucesso na rede? Use o senso comum com ousadia e
agressividade e, se possível, uma pitada de originalidade.
Mas então não está bom assim, com oportunidades para todos?
Não! Está horrível. Dar a palavra ao senso comum é jogar merda no ventilador.
Vá você lá no Youtube dar uma de ponderado, equilibrado, informado, cuidadoso, cheio
de senso crítico, para ver o que acontece. Nem te ligam!
O pobre começa a ganhar uns trocados com seu canal pessoal,
atuando nas horas vagas, brincando, como amador. “Sem querer” vira Youtuber. Aí
o infeliz começa a correr atrás do próprio rabo, escravo do conta-gotas da
monetização. E descobre, na prática, que quanto mais informal, mais sucesso.
Então se profissionaliza, como amador esculachado.
Fala sozinho o dia inteiro, fica famoso sem sair de casa,
perde a noção do ridículo e finalmente descobre que berimbau não é gaita. Não
tem escapatória, quando alguns ganham muito, muitos ganham pouco. É a lei da física, se
1 tira demais, 900 tiram de menos, não será o mágico mundo virtual que vai
mudar isso.
Dizem que a chegada de um furacão é precedida por uma
calmaria absoluta. De minha parte, ante o presente inaceitável, tampouco o
passado, apenas oscilo entre perplexo e atônito. Diante do cemitério, nem fico,
nem vou. Mas uma coisa é certa,
parodiando Belchior: em 18 eu morri, mas este ano eu não morro.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
POSE NA PAULISTA
Tanto lugar pra cagar na Paulista e onde é que o povo escolhe!? No canteiro central. Na ciclovia! A ciclovia virou cagadô coletivo. Não gente!, onde se lê cagar, leia-se posar. É! Deve haver algum motivo técnico, não sou fotógrafo. Pela ciclovia em si é que não é, muito menos pelas bicicletas.
Isso acontece na avenida inteira, mas nas imediações do Museu
de Arte de São Paulo é tanto que o fedor exala alhures... O sujeito coletivo
escolheu aquele pedaço de ciclovia que fica entre o MASP e o TRIANON como
cagadô. Quer dizer, como ponto preferencial para posar.
É sempre assim, onde animais costumam se juntar e permanecer,
logo escolhem um ponto para... posar. Vejam as galinhas, posam sempre no mesmo
ponto do terreiro. Os porcos, os gatos. Os cachorros..., não, os cachorros
tiram fotos quando e onde seus donos deixarem.
Mas, que tipo de fotos se tira lá no canteiro central da Paulista?
São fotos da própria pessoa. Ela quer registrar sua imagem tendo como fundo a
integralidade da avenida, os dois lados. Então, fica pra lá e pra cá na
ciclovia, em busca do melhor ângulo.
Circunstancialmente, naquela faixa vermelha vêm e vão
bicicletas. Mas claro que a tal faixa foi construída para, em primeiro lugar, servir
de palco ao cidadão que deseja cagar a própria imagem, com os dois lados da
Paulista ao fundo.
Acontece que não são selfies. São fotos posadas. Ali o
cabra ou a cabra não deixa por menos: leva um fotógrafo. Às vezes, o fotógrafo
leva um assistente. Nesse caso, quase sempre leva também um tripé. Um tripé não
caga, mas atrapalha mais do que um humano.
Tem gente que leva iluminador e outros badulaques de
fotografia que não sei o nome. Tem humana que leva apetrechos de maquiagem e os
usa em plena ciclovia. Já vi um caso em que a humana levou um espelho de corpo
inteiro, a moldura apoiada no chão, sabe como é?
A maioria posa para um simples parceiro, alguém que está
junto, registro de smartphone. Costumo prestar atenção nas poses desses simples
mortais. Não há ninguém dirigindo, a sujeita ou o sujeito exprime ali o que vai
pela cabeça de milhões, tenho interesses antropológicos.
Noto que o modo de posar evoluiu muito em nossa cultura. Vai
muito além de flexionar uma das pernas, com a ponta do pezinho apoiada no chão.
Sentar com as pernas cruzadas não cabe ali, mas antevejo o dia em que alguém
vai levar uma cadeira para tal mister.
E as caras e bocas (e dentes!) que já presenciei! E línguas!
Só a pontinha da língua. Tem uma moda agora de ficar com o corpo de frente e o
rosto de perfil. Qualquer dia alguém destronca o pescoço na ciclovia da
Paulista!
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
COM AÇÚCAR, COM AFETO
Fiz um doce de leite pra você, seu desgraçado, pra ver se você fica ao menos um dia dentro de casa. Você já vai escolhendo o terno sem nem acabar de comer o doce, vai lambendo a colher lá pro quarto, na maior lambança, deixando cair doce pela casa. E ainda tem a cara de pau de dizer que vai ali, que é rapidinho – dois palitos —, que volta já-já.
Você diz que sai pra trabalhar, ô hómi que trabalha, meu
deus do céu! Trabalha de manhã, de tarde, de noite... nunca vi! Diz que se não
é você, quem vai trazer o dinheiro pra dentro de casa, o din din do leite das
crianças, sendo que nós ainda nem temos crianças. Essa merreca que você traz
pra dentro de casa até eu, com meu terceiro ano primário, conseguia...
Você diz que trabalha, como se eu não trabalhasse. Vamu trocá?!
Você vira dono de casa enquanto eu vou buscar o dinheiro
pra te sustentar. Com a vantagem de que não tenho nada pra comemorar nessa ruma
de botecos da cidade. Nunca vi tanto boteco, meu deus! O que é que hómi
comemora em boteco? Futebol! Ora, é um assunto proibido às mulheres, neste ano
da graça de 1967! (mas um dia ainda vai ter até copa do mundo de mulheres!).
Tudo bem, eu poderia paquerar os surfistas que passam,
bronzeados e esculturais. Mas neste ano de 1967 a moda do surf ainda não pegou,
e as academias só vão chegar daqui uns 40 anos; só passa hómi barrigudo e
mal-cheiroso. Além do mais, eu tô bem servida de hómi, eu gosto d’ocê, safado!
Eu faço minha parte direitinho, capricho aqui em casa, pego
receita na internet pra te agradar, seu mal-agradecido! Eu te acaricio, você
gosta, eu sei, seu mal-agradecido!! Você deixa metade da merreca do seu salário
lá no bar, seu desgraçado!! E ainda canta de graça lá pra eles, idiota! Fica lá
enchendo a pança com aquelas frituras, isso é um veneno, eu não gosto de hómi
barrigudo, que não dá no couro. Fica esperto!
Aí, lá pelas tantas, você lembra de mim. Fica triste só de
pensar na cara que vou fazer quando você chegar. E já vem tramando as
desculpas. Eu só fico assuntando, batendo o pezinho, você treme. Mas quando
você me promete um sambinha só pra mim, no minimalismo da caixinha de fósforo —
óh, como adoro! —, eu me desarmo, eu me adoço, eu me derreto.
Eu sei que você é um pobre coitado como eu; eu, como
mulher, sou fodida em dobro, sei lá, talvez não, acho que a fodida que você
leva da vida aí fora é tão ou pior do que a que eu levo presa aqui em casa, no
fundo nóis sofremos iguais. Nóis sofre mais nóis goza. Vamu pra cama!? (a benção, Chico Buarque de Holanda).