quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

FUMAÇA NA PAULISTA E EM KIEV

 JOGATINA E FUMAÇA NO BRASIL E EM KIEV. Hoje nós aqui das imediações da Avenida Paulista também tivemos grossa coluna de fumaça saindo do topo de prédio.

 Aqui também teve fogo. Na guerra, a primeira vítima é a ... Humanidade.

 Mas num tô inventando não, um dos prédios mais altos da Paulista, aquela torre delgada de vidro escuro, ao lado da FIESP, começou a queimar na hora mais quente do dia.

 O incêndio irrompeu na cobertura, na casa de ar condicionado, isso ajudou a evacuação do prédio. O fogo foi controlado rapidamente.

 Quer saber o que tá acontecendo na Ucrânia? Esquece. Na guerra, a primeira vítima é a ... Humanidade.

 Mas, sinceramente, acho menos pior sermos dominados por três impérios do que só por um.

 E a indústria bélica dá empregos... dos mais bem remunerados!

 Cumé qui pode os caras quebrarem a cabeça, gastar um escarcéu de dinheiro, fabricar uma arma monumental e deixá-la enferrujando na garagem?

 Imagina deixar aqueles aviões no chão, carregados de mísseis, sem explodir nenhum? Ora, o homem compra ou cria seus brinquedos para usá-los. Deve ser um tormento para os engenheiros e projetistas bélicos verem suas crias reluzentes e quietas no estacionamento.

 E os testes em alvos fictícios são absolutamente insuficientes. Falo com conhecimento de causa, como projetista e fabricante de estilingue. Era muito mais emocionante jogar pedra nos fugidios passarinhos do que num alvo artificial e inanimado qualquer. E que emoção, quando a avezinha era atingida...

 HOJE TAMBÉM A CÂMARA DOS DEPUTADOS VOTOU A LIBERAÇÃO DA JOGATINA.

 Junto com a bancada evangélica, os deputados do PT votaram contra. A bancada evangélica tudo bem, é moralista, a gente conhece as peças, mas e a bancada do PT? Ora, a bancada do PT também é, grosso modo, moralista.

 De um lado, um moralismo hipócrita: são contra a jogatina aqui, mas vão gastar o dízimo em Las Vegas. Do outro, um moralismo ingênuo ou desinformado ou oportunista.

 Para ser coerente, quem é favorável à liberação da jogatina também deve ser favorável à liberação das drogas. Uma e outra promovem o crime organizado e a lavagem de dinheiro quando ilegais, além de não permitir qualquer controle ou arrecadação da parte do poder público.

 Então, temos dois paradoxos:

 Os deputados do centrão, que votam SIM à liberação da jogatina, votam NÃO à liberação das drogas: incoerência à direita.

 Os deputados do PT, que votam NÃO à jogatina, votam SIM às drogas.

 Já sei! É que Fumar é de esquerda e Jogar é de Direita.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Quando foi que percebemos?

 Quando foi que a gente percebeu que o quê os bandeirantes fizeram não foi nada edificante?

Passei lá na estátua do Borba Gato. A prefeitura, sabiamente, instalou uma placa informativa, em que consta que muitas pessoas não aceitam aquela homenagem, porque se consideram violentadas pelo que ela representa. Isto foi depois que tentaram destruir a estátua, há alguns meses.

A massa vai fermentando, de repente a gente percebe. Quando foi que percebemos que os bandeirantes não eram heróis, mas vilões?

Quando foi que a gente percebeu que a expressão “preto de alma branca” é infame?

Em finais do século XIX, com o surgimento de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, nos demos conta do ridículo que era a conversa de Adão e Eva.

(se bem que a conversa de Céu, Inferno e Purgatório já vinha sendo manjada desde Dante Alighieri).

Tava pensando: Ladrão e Proprietário pertencem ao mesmo campo semântico. Só tem sentido a existência do Ladrão se houver Proprietário. Em sendo tudo comunitário, não haveria ladrão.

Claro que Escravidão e Racismo têm tudo a ver.

Claro que Escravidão e Pobreza têm tudo a ver.

Claro que Patriarcalismo e Machismo têm tudo a ver.

Se não houvesse a chancela social de que o homem é o bam bam bam, os homens que não são bans bans bans não precisariam ser violentos para afirmar o inexistente. 

Quando foi que a gente se deu conta de que o homem não é o bam bam bam?

Que existe feminicídio?

Quando foi que o caldo engrossou, o copo transbordou e a gente acordou?

Aliás, acho que a ridicularização do machismo coincide com a liberação dos viados. É! Os e as homossexuais não podiam sair do armário há apenas 10 anos!

Faz pouco tempo que nos demos conta do ridículo que era a redução sexual ao papai-mamãe.

Mas numa coisa ainda estamos dormindo: a questão da pobreza, da desigualdade.

Quando vamos associar a violência social à equação: 1 tem muito, alguns tem o suficiente e a maioria não tem nada?

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Triste, Louca ou Má

 “UM HOMEM NÃO TE DEFINE/    SUA CASA NÃO TE DEFINE/   SUA CARNE NÃO TE DEFINE/  (VOCÊ É SEU PRÓPRIO LAR)”

 Triste, Louca ou Má. Juliana Strassacapa, do Francisco, el Hombre, é branca, mas se fosse preta, teria alma branca. Patriarcalismo, racismo, o Borba Gato, e um terceiro tema ao final.

 Atualmente dá cadeia dizer que um preto bom tem alma branca. Mas claro! Onde já se viu!? Todo mundo vê e sente a violência da expressão, só mesmo um sem-noção e racista pra pensar um absurdo desse.

 Ora, gente, até outro dia todo mundo usava essa expressão, inclusive os pretos. Era considerada uma maneira criativa e inocente de dizer que um preto era muito bom, só isso!

 Mas quando isso mudou? Como? Por quê?

 Acho que foi um processo parecido com aquele do rei nu. O rei desfilava nu, todo mundo via, mas não acreditava. Até que alguém descontaminado afirmou (olha aí a força da palavra!): “o rei está pelado!” Pronto! Todo mundo entendeu que a expressão queria dizer que os pretos são inferiores aos brancos por natureza e essa afirmação é inaceitável.  

 No tempo da minha avó uma mulher que dissesse “Um homem não me define, Minha casa não me define”, era internada. No hospício ou no convento. Pelo pai E pela mãe! Agora a Juliana canta isso e muito mais aos quatro ventos e todo mundo concorda, além de achar bonito.

 (quer dizer, tem uns 25% que não concorda não, a julgar pelos resultados das pesquisas eleitorais).

 Quando, como, por que mudou? se ontem mesmo a mulher era inferior ao homem, todo mundo concordava, até minha avó, mais ainda do que meu avô.

 Mais uma vez, acho que alguém gritou no meio da multidão que o rei estava nu e todo mundo viu. É realmente uma idiotice descomunal achar que o gênero feminino é inferior ao masculino.

 Tudo é uma questão de abrir o olho coletivo.   

 Hoje visitei a estátua do Borba Gato, na Av. Sto.Amaro, aquela que tentaram destruir há alguns meses. A prefeitura, sabiamente, colocou uma placa lá, explicando tudo, informando ao turista que há pessoas que não aceitam aquela estátua, porque se consideram oprimidas pelo que ela representa.

 Enfim, vai ficando cada vez mais claro que os bandeirantes não merecem homenagem alguma e o que eles faziam não deve orgulhar ninguém.

 De repente, um estalo que acorda, uma gota que transborda...

 Os pobres. Os miseráveis de hoje veem sua condição como os pretos e as mulheres viam as suas no tempo da minha avó.

 Quando e como se dará o estalo para essa desigualdade ser considerada criminosa?  

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Bolsonaristas se retiram

 

NOTÍCIA BOA! Os disciplinados e persistentes 3ozo4aris1as acampados no Ibirapuera bateram em retirada. Sim, levantaram acampamento. Estavam há mais de 3 anos com suas barracas e faixas lá no bosque de eucaliptos que fica atrás da Assembleia Legislativa. Acho que cansaram.

É incrível a capacidade que o poder tem de motivar as pessoas. Mais ainda, a perspectiva de poder. Acho que tomaram conta do pedaço assim que o 3ozo foi eleito. E já foram logo querendo tirar o Dória do poder. Queriam o impeachment do Dória.

Sim, a bronca deles não era com o PT ou o Lula, era com o Dória. Por isso, acho que eram teleguiados da polícia militar. É que os policiais militares têm uma questão sindical com o governador. É com o governador que eles negociam questões internas, incluída uma discreta pauta sindical.

Eu dizia que as pessoas ficam todas diligentes, cheias de iniciativas, ante a perspectiva de poder. Os cabos eleitorais, quero dizer. O poder significa bons negócios e empregos. Inversamente, ficam apáticos, quando seu candidato parece que vai perder. Antecipam a busca da sobrevivência em outra freguesia.

Ali no acampamento dos eucaliptos dos fundos da Assembleia Legislativa deve ter baixado o desânimo, diante da perspectiva de derrota de seu candidato. Isto no nível federal; no estadual, não tem mais sentido combater o Dória, quarto ou quinto lugar nas pesquisas e desmoralizado dentro de seu próprio partido.

Eles não nomeavam PT e Lula. Os 3ozo4aris1as encontraram uma fórmula mais simples e eficaz de combater esses dois: eram contra o comunismo e diziam que “nossa bandeira jamais será vermelha”. Soluções simplórias para simplórios. Claro, eram contra a “vachina” e queriam “endireitar” o país.

No começo, havia cerca de 5 barracas e muitas faixas. Quem passava de carro no trecho final da Abílio Soares, para entrar na Pedro Álvares Cabral, via, à esquerda, um escarcéu de faixas amarradas nos eucaliptos, além das vistosas barracas.

Acho que alguns tremiam de medo e outros tremiam de entusiasmo, diante daquele impressionante visual. Mas quem passava a pé ou de bicicleta, como eu, via que era tudo encenação. Tomando conta daquela parafernália, víamos um ou dois paus-mandados.

Nos últimos tempos sobrou apenas a barraca maior. Havia até um carro estacionado ao lado dela, debaixo de um toldo à guisa de garagem. Mas assim que seu ocupante resolveu seu problema de moradia, deu no pé. Sim, acho que ele juntou ali dois problemas: o seu, pessoal, de moradia e o ideológico.

Mas o povo é maldoso e não perdoa. Fui ao google maps para ver o nome das ruas adjacentes e olha o que tascaram lá: “Acampamento do gado”. Simples assim, como se fosse apenas mais uma das centenas de inocentes atrações turísticas da cidade.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Ainda bem que sou meio surdo

 

AINDA BEM QUE SOU MEIO SURDO, senão vocês teriam de me aturar muito mais. É que não entendo o que ouço de orelhada, no espaço público. Ouço, mas não entendo. Sabe quando o cidadão fala ao celular dentro do vagão? Aquela conversa bem particular, quase íntima?

Se eu entendesse o que estão falando... tenho certeza de que aquelas conversas são um manancial inspirador para um cronista como eu.

Mas não entendo nada, ou quase nada. O que se salva deve-se ao meu poder de dedução e à minha razoável capacidade de ler entrelinhas, subtextos e contextos.

Também faço muito extrapolações e interpolações entre duas ou três palavras que entendo. Algumas palavras são mais fáceis de entender, como pateta, bicicleta, caneta e capeta, palavras com som aberto, sem anasalações, hiatos ou ditongos.

Mas o diabo é que as pessoas que lavam roupa suja em público e por celular nunca falam pateta nem bicicleta, que agora é bike; capeta também não falam, porque dá azar e caneta não falam porque não usam.

Quem não tem cão caça com gato. Fico examinando o indivíduo, seus trejeitos, seu modo de vestir, seu sotaque, sua idade, a altura da voz.

A mulher entrou no vagão já falando. É sempre assim, sabe essas pessoas que entram e saem do elevador falando ao celular e nem notam sua existência? Ela tinha um visual meio desleixado e andrógino, cabelo bem curtinho, uns 40 anos de idade. Ah, e tinha fones de ouvido.

E não é que ela tenha recebido a ligação, fortuita e inesperada, e estava falando por obrigação, contra a vontade, no local impróprio não. Durante a viagem, ela fez várias ligações, consegui contar três, num intervalo de 15 minutos.

Tenho certeza de que, da mesma forma que entrou, ela saiu falando, suponho, porque desci antes dela.

Creio que parte dessas pessoas — são poucas, a maioria é discreta — não têm capacidade de refletir em silêncio, pensar consigo mesmas, ruminar pensamentos, meditar. Outra parte é fuxiqueira pura e simples. São poucas, mas bem distribuídas na população. Sempre me deparo com essas conversas em ônibus, metrô, consultórios médicos e filas em geral.

E o detalhe do fone de ouvido não é coincidência. Além de facilitar a audição do celular, evitam de ouvirem a conversa alheia. Sim, deduzo que essas pessoas detestam ouvir a conversa alheia.

Lamento duplamente. Pelo evento constrangedor que é ver todo mundo ouvindo a fofoca alheia e por não entender a dita cuja.

Não que eu seja bisbilhoteiro, longe de mim, é que tenho interesse literário. Por exemplo, tenho certeza de que ouvi um palavrão, quando a moça abaixou a voz. Era uma palavra daquelas fáceis de entender.

Não, não tenho certeza, apenas deduzo, a julgar pela ruborização que vi em seu rosto, quando ela o levantou e me viu atento (rubor? E essas pessoas lá ficam constrangidas por causa das próprias palavras?).

Sim, a personagem, o entorno, a palavra subentendida, só faltou eu ouvir inteiro.  Ah, seu eu ouvisse inteiro, tenho certeza de que sairia dali com material para uma crônica.  

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

AS PRAGAS DOS EGITO, EUA e RÚSSIA

Quem disse que a História não se repete? Houve um tempo em que o Egito dos faraós foi a nação mais poderosa da Terra. Sendo assim, os pobres do entorno queriam a grana e o estilo de vida egípcio. A patuleia que vivia ali onde é hoje a Palestina, o Líbano, a Síria, a Turquia baixou em peso no Egito, para trabalhar e ganhar a vida. Era empregada nos trabalhos mais insalubres, pesados e degradantes, mas, ao final da semana, recebiam em dólares egípcios e esqueciam todas as dores.

Após muitas décadas de sofrimento, surgiu entre os explorados um líder poderoso chamado Moisés. Só que o Moisés não era um líder comum e carismático falador-atrevido. Aliás, o Moisés nem sabia falar em público (...“Eu não sei falar com facilidade;” – Êxodo, cap.6, versículo 30). Moisés nada mais era do que um teleguiado. Moisés era representante de uma potência estrangeira-alienígena fabricante de armas.

Esse cara estrangeiro fabricava armas muito poderosas e queria testá-las na vida real, sobre a cabeça de viventes comuns. Porque a vida é assim. Quando alguém cria ou inventa ou aperfeiçoa uma máquina qualquer, esse alguém quer ver sua máquina funcionando.

Aí esse inventor poderoso, mas solitário e misantropo, tomou coragem e apareceu para o Moisés com a seguinte conversa: vocês querem se libertar desses sacanas imperialistas, não querem? Moisés respondeu que sim. Aí o mafioso e arredio fabricante de armas continuou: então vai lá e o ameaça; qualquer coisa eu garanto.

E de fato foi isso que aconteceu, conhecido como as 7 pragas do Egito, que na verdade foram 10. O faraó não cedeu na negociação, Moisés transformou a água em sangue; o faraó continuou impassível, Moisés infestou de rãs todo o país... enfim, teve infestação de mosquitos, de moscas, de gafanhotos, teve epidemia de peste, de úlceras, o misantropo era tão criativo que inventou uma arma que fazia o dia virar noite e outra que fazia chover, mas não qualquer chuva: chuva de pedras.

Bem, essas eram as armas que se podia fazer naquele tempo, eis que ainda não haviam inventado nem o torno nem a prensa nem o alicate nem a eletrônica, se bem que esse cara já dominava a tecnologia de comunicação à distância.

E vejam como a História se repete. Alguém inventa e fabrica as armas e sai à procura de países ou povos alhures que estejam em conflito. Escolhe um dos lados e fornece o arsenal e ensina-os a usar. E pra garantir que a parte escolhida como vítima não ceda às ameaças da parte armada com as novas armas e negocie, evitando a guerra, esse inventor-fabricante endurece o coração do faraó.

O cara instruiu Moisés: vai lá e ameaça; e prepara-te para realmente usar a arma, porque ele não vai ceder; eu, com meu sistema de manipulação de narrativas e indução de opiniões, endurecerei o coração do faraó (Êxodo, cap. 7, versículo 3).

Enfim, a história de fazer guerra teleguiada.

Mas claro que quem projeta um avião de 100 milhões de dólares — imagina a perfeição que deve ser uma máquina de 100 milhões de dólares! — quer ver seu brinquedo em ação.

(esse é o preço dos nossos gripen suecos, R$24 bilhões por 36 aviões)

Imagina a merreca que são nossos gripen suecos perto lá dos caças e bombardeiros estadunidenses e russos!

Bom, agora deixo a você, leitore, com sua fértil imaginação e poder de dedução, identificar nessa querela entre Rússia e Ucrânia, quem é Deus, quem é Moisés e quem é o Faraó.

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

1 RICO PARA 900 POBRES

Vira e mexe tasco em minhas arengas essa conversa de 1 rico para 900 pobres. Meus treze leitores devem se lembrar. Ontem mesmo, na crônica em que não fico nem volto, escrevi que se 1 tira demais, 900 tiram de menos, afirmando que é uma lei da Física. Creio que enfiei essa minha descoberta até nas crônicas profanas que escrevi sobre a Bíblia.

Sim, é uma descoberta minha, não aprendi isso com nenhum economista ou sociólogo, tampouco ouvi de algum desses gurus que inventam chistes vistosos para impressionar macacos de auditório.

Mas, apesar da lavra solitária, sem laboratórios e assistentes e orientadores e bibliotecas, é uma relação — 1:900, 1 rico para 900 pobres — científica, estatística e cabalística. E matemática. E expressa uma lei da Física, como já dito.

Conto como cheguei a ela.

Eu viajava de bicicleta pelo oeste do Estado de São Paulo, em paralelo com o Rio Paraná, na direção norte-sul. Não me lembro se foi em Nova Independência, onde pernoitei, ou se foi em Suzanápolis, onde pretendi pernoitar mas não encontrei pousada, que um cidadão local que me guiava, ao passar em frente a uma casa um pouco mais vistosa do que as demais, me informou que ali morava ou morara um dos homens mais ricos do Brasil, segundo relação anual de conhecida revista nacional.

Surpreso, perguntei se além dele, havia outros ricos na cidade. Ele me respondeu que havia mais uns três. O resto era tudo arraia miúda. Mas foi o que bastou para eu incluir a pergunta em minhas futuras passagens pelas cerca de 25 cidadezinhas restantes no meu roteiro.

Eu entrava na cidadezinha, todas na faixa de 5 mil habitantes, com exceção de Presidente Prudente e Sorocaba e mais umas duas, escolhia um cidadão e sapecava-lhe a pergunta: “quantos ricos há aqui nesta cidade?”. O sujeito ou a sujeita ficava inicialmente sem jeito, mas depois gostava da brincadeira, pensava um pouco e afirmava: uns 3 ou 4. (porque nesse universo, todo mundo sabe da vida de todo mundo).

O fato é que em nenhuma das cidadezinhas, meus informantes se lembraram de mais de 6 ricos. Creio que nessa em que me informaram que havia 6 ricos, a população era de 5 mil habitantes, uma das maiores dessa faixa. A maioria, na faixa de 2 a 4 mil habitantes, possuía “uns 3 ou 4” ricos, segundo a lembrança de meus informantes.

Ao final da viagem, em casa, a bordo do meu reconfortante PC — que sou antigo —, fui ao gugol e rapidamente levantei as respectivas populações e alguns dados sociológicos. Em todas elas era assim: 3000 habitantes para 3 ou 4 ricos, 2500 para 2 ou 3, 4000 para 4 ou 5. Em duas ou três, deu um resultado fora da curva: 5 mil habitantes com apenas 2 ricos lembrados pelo informante. Fui ver e eram cidadezinhas de minifúndios, com uma classe média numerosa. Ao contrário, numa das cidades, de 2 mil habitantes, foi-me informada a existência de 4 ricos. Também fora da curva, fui ver e os 4 ricos eram os donos das 4 fazendas que sozinhas abarcavam praticamente 100% do território do município. Não havia classe média, eram 4 ricos para 2 mil pobres, a seco, sem qualquer amortecimento. Sim, amortecimento é uma boa palavra, quando associada à Classe Média.  

Fiz as contas, aparei as arestas, lixei, poli, pintei: 1:900; um rico, novecentos pobres. E os pobres são menos pobres, quando os ricos são menos ricos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

NUM FICO NEM VÓRTU

 A PROPÓSITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL E DE UM CERTO ESTADO DE ALMA

Numa caminhonete, dois empregados da firma foram entregar uma carga de bombons na cidade vizinha, 12 km distante por estradinha de terra. Era na boca da noite, quando passaram em frente ao cemitério, uns 2 Km longe da cidade, já tava escuro.

Três minutos depois, canavial de ambos os lados e o cemitério na retaguarda, o carro parou, não havia meio de fazê-lo funcionar.

Então o motorista falou pro ajudante: “você fica aqui vigiando a carga enquanto eu vou na cidade buscar o mecânico”. O ajudante, muito medroso, respondeu: “num fico”. O motorista então inverteu a proposta: “você vai, eu fico”. Aí o ajudante: “num fico nem vô”.

Saudade do tempo em que eu era assinante de jornal. Todo dia, fresquinho em minha porta, o calhamaço de notícias bem comportadas. Pra variar e não ser enganado, via também o Jornal Nacional, à noite. E durante o dia, ouvia uma rádio que pegava no país inteiro. Eu era feliz até o dia em que descobri que o jornal, a TV e a rádio eram do mesmo dono.

Um belo dia, me descobri me informando por uma parafernália de blogs, sites, canais, páginas, tudo virtual e instantâneo, na rua, na chuva ou na fazenda, numa telinha deveras portátil. Jornais do mundo inteiro na palma da mão.

Não demorou para eu descobrir a tristeza que é se informar com notícias ditadas pelo senso comum. Descobri o paradoxo da desinformação.

Agora tô assim: num quero vortá nem ficá.

SENSO COMUM

Todos dizemos que o Sol nasce, o Sol se põe. Apreciamos o pôr do Sol. Então é o Sol que se movimenta em torno do nosso planeta? Pelo que nossos olhos veem, sim. E não é que até esse ultrapassado senso comum tentaram restaurar, usando a ideia de Terra plana? É manipulação pura e deliberada da reconhecida inocência popular.

MONETIZAÇÃO

Antes eram 7 famílias que nos informavam. Aí chegaram Internet smartphone rede virtual aplicativos Netflix Youtube Toc Toc... Tava indo bem até quase perder a graça, então inventaram um negócio chamado monetização. Aí fudeu.  

Eu e você podemos ganhar dinheiro, tanto mais quanto mais populares formos. A coisa é movida a visualizações, likes, curtidas, comentários, compartilhamentos, etc. O sucesso nunca foi tão mensurável e tão diretamente ligado à grana. O sucesso nunca foi tão instrumentável...

Quer fazer sucesso na rede? Use o senso comum com ousadia e agressividade e, se possível, uma pitada de originalidade.

Mas então não está bom assim, com oportunidades para todos? Não! Está horrível. Dar a palavra ao senso comum é jogar merda no ventilador. Vá você lá no Youtube dar uma de ponderado, equilibrado, informado, cuidadoso, cheio de senso crítico, para ver o que acontece. Nem te ligam!

O pobre começa a ganhar uns trocados com seu canal pessoal, atuando nas horas vagas, brincando, como amador. “Sem querer” vira Youtuber. Aí o infeliz começa a correr atrás do próprio rabo, escravo do conta-gotas da monetização. E descobre, na prática, que quanto mais informal, mais sucesso. Então se profissionaliza, como amador esculachado.  

Fala sozinho o dia inteiro, fica famoso sem sair de casa, perde a noção do ridículo e finalmente descobre que berimbau não é gaita. Não tem escapatória, quando alguns ganham muito, muitos ganham pouco. É a lei da física, se 1 tira demais, 900 tiram de menos, não será o mágico mundo virtual que vai mudar isso.  

Dizem que a chegada de um furacão é precedida por uma calmaria absoluta. De minha parte, ante o presente inaceitável, tampouco o passado, apenas oscilo entre perplexo e atônito. Diante do cemitério, nem fico, nem vou.  Mas uma coisa é certa, parodiando Belchior: em 18 eu morri, mas este ano eu não morro.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

POSE NA PAULISTA

Tanto lugar pra cagar na Paulista e onde é que o povo escolhe!? No canteiro central. Na ciclovia! A ciclovia virou cagadô coletivo. Não gente!, onde se lê cagar, leia-se posar. É! Deve haver algum motivo técnico, não sou fotógrafo. Pela ciclovia em si é que não é, muito menos pelas bicicletas.

Isso acontece na avenida inteira, mas nas imediações do Museu de Arte de São Paulo é tanto que o fedor exala alhures... O sujeito coletivo escolheu aquele pedaço de ciclovia que fica entre o MASP e o TRIANON como cagadô. Quer dizer, como ponto preferencial para posar.

É sempre assim, onde animais costumam se juntar e permanecer, logo escolhem um ponto para... posar. Vejam as galinhas, posam sempre no mesmo ponto do terreiro. Os porcos, os gatos. Os cachorros..., não, os cachorros tiram fotos quando e onde seus donos deixarem.  

Mas, que tipo de fotos se tira lá no canteiro central da Paulista? São fotos da própria pessoa. Ela quer registrar sua imagem tendo como fundo a integralidade da avenida, os dois lados. Então, fica pra lá e pra cá na ciclovia, em busca do melhor ângulo.

Circunstancialmente, naquela faixa vermelha vêm e vão bicicletas. Mas claro que a tal faixa foi construída para, em primeiro lugar, servir de palco ao cidadão que deseja cagar a própria imagem, com os dois lados da Paulista ao fundo.

Acontece que não são selfies. São fotos posadas. Ali o cabra ou a cabra não deixa por menos: leva um fotógrafo. Às vezes, o fotógrafo leva um assistente. Nesse caso, quase sempre leva também um tripé. Um tripé não caga, mas atrapalha mais do que um humano.

Tem gente que leva iluminador e outros badulaques de fotografia que não sei o nome. Tem humana que leva apetrechos de maquiagem e os usa em plena ciclovia. Já vi um caso em que a humana levou um espelho de corpo inteiro, a moldura apoiada no chão, sabe como é?

A maioria posa para um simples parceiro, alguém que está junto, registro de smartphone. Costumo prestar atenção nas poses desses simples mortais. Não há ninguém dirigindo, a sujeita ou o sujeito exprime ali o que vai pela cabeça de milhões, tenho interesses antropológicos.

Noto que o modo de posar evoluiu muito em nossa cultura. Vai muito além de flexionar uma das pernas, com a ponta do pezinho apoiada no chão. Sentar com as pernas cruzadas não cabe ali, mas antevejo o dia em que alguém vai levar uma cadeira para tal mister.

E as caras e bocas (e dentes!) que já presenciei! E línguas! Só a pontinha da língua. Tem uma moda agora de ficar com o corpo de frente e o rosto de perfil. Qualquer dia alguém destronca o pescoço na ciclovia da Paulista!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

COM AÇÚCAR, COM AFETO

Fiz um doce de leite pra você, seu desgraçado, pra ver se você fica ao menos um dia dentro de casa. Você já vai escolhendo o terno sem nem acabar de comer o doce, vai lambendo a colher lá pro quarto, na maior lambança, deixando cair doce pela casa. E ainda tem a cara de pau de dizer que vai ali, que é rapidinho – dois palitos —, que volta já-já.

Você diz que sai pra trabalhar, ô hómi que trabalha, meu deus do céu! Trabalha de manhã, de tarde, de noite... nunca vi! Diz que se não é você, quem vai trazer o dinheiro pra dentro de casa, o din din do leite das crianças, sendo que nós ainda nem temos crianças. Essa merreca que você traz pra dentro de casa até eu, com meu terceiro ano primário, conseguia...

Você diz que trabalha, como se eu não trabalhasse. Vamu trocá?!

Você vira dono de casa enquanto eu vou buscar o dinheiro pra te sustentar. Com a vantagem de que não tenho nada pra comemorar nessa ruma de botecos da cidade. Nunca vi tanto boteco, meu deus! O que é que hómi comemora em boteco? Futebol! Ora, é um assunto proibido às mulheres, neste ano da graça de 1967! (mas um dia ainda vai ter até copa do mundo de mulheres!).

Tudo bem, eu poderia paquerar os surfistas que passam, bronzeados e esculturais. Mas neste ano de 1967 a moda do surf ainda não pegou, e as academias só vão chegar daqui uns 40 anos; só passa hómi barrigudo e mal-cheiroso. Além do mais, eu tô bem servida de hómi, eu gosto d’ocê, safado!

Eu faço minha parte direitinho, capricho aqui em casa, pego receita na internet pra te agradar, seu mal-agradecido! Eu te acaricio, você gosta, eu sei, seu mal-agradecido!! Você deixa metade da merreca do seu salário lá no bar, seu desgraçado!! E ainda canta de graça lá pra eles, idiota! Fica lá enchendo a pança com aquelas frituras, isso é um veneno, eu não gosto de hómi barrigudo, que não dá no couro. Fica esperto!

Aí, lá pelas tantas, você lembra de mim. Fica triste só de pensar na cara que vou fazer quando você chegar. E já vem tramando as desculpas. Eu só fico assuntando, batendo o pezinho, você treme. Mas quando você me promete um sambinha só pra mim, no minimalismo da caixinha de fósforo — óh, como adoro! —, eu me desarmo, eu me adoço, eu me derreto.

Eu sei que você é um pobre coitado como eu; eu, como mulher, sou fodida em dobro, sei lá, talvez não, acho que a fodida que você leva da vida aí fora é tão ou pior do que a que eu levo presa aqui em casa, no fundo nóis sofremos iguais. Nóis sofre mais nóis goza. Vamu pra cama!? (a benção, Chico Buarque de Holanda).