Fiz um doce de leite pra você, seu desgraçado, pra ver se você fica ao menos um dia dentro de casa. Você já vai escolhendo o terno sem nem acabar de comer o doce, vai lambendo a colher lá pro quarto, na maior lambança, deixando cair doce pela casa. E ainda tem a cara de pau de dizer que vai ali, que é rapidinho – dois palitos —, que volta já-já.
Você diz que sai pra trabalhar, ô hómi que trabalha, meu
deus do céu! Trabalha de manhã, de tarde, de noite... nunca vi! Diz que se não
é você, quem vai trazer o dinheiro pra dentro de casa, o din din do leite das
crianças, sendo que nós ainda nem temos crianças. Essa merreca que você traz
pra dentro de casa até eu, com meu terceiro ano primário, conseguia...
Você diz que trabalha, como se eu não trabalhasse. Vamu trocá?!
Você vira dono de casa enquanto eu vou buscar o dinheiro
pra te sustentar. Com a vantagem de que não tenho nada pra comemorar nessa ruma
de botecos da cidade. Nunca vi tanto boteco, meu deus! O que é que hómi
comemora em boteco? Futebol! Ora, é um assunto proibido às mulheres, neste ano
da graça de 1967! (mas um dia ainda vai ter até copa do mundo de mulheres!).
Tudo bem, eu poderia paquerar os surfistas que passam,
bronzeados e esculturais. Mas neste ano de 1967 a moda do surf ainda não pegou,
e as academias só vão chegar daqui uns 40 anos; só passa hómi barrigudo e
mal-cheiroso. Além do mais, eu tô bem servida de hómi, eu gosto d’ocê, safado!
Eu faço minha parte direitinho, capricho aqui em casa, pego
receita na internet pra te agradar, seu mal-agradecido! Eu te acaricio, você
gosta, eu sei, seu mal-agradecido!! Você deixa metade da merreca do seu salário
lá no bar, seu desgraçado!! E ainda canta de graça lá pra eles, idiota! Fica lá
enchendo a pança com aquelas frituras, isso é um veneno, eu não gosto de hómi
barrigudo, que não dá no couro. Fica esperto!
Aí, lá pelas tantas, você lembra de mim. Fica triste só de
pensar na cara que vou fazer quando você chegar. E já vem tramando as
desculpas. Eu só fico assuntando, batendo o pezinho, você treme. Mas quando
você me promete um sambinha só pra mim, no minimalismo da caixinha de fósforo —
óh, como adoro! —, eu me desarmo, eu me adoço, eu me derreto.
Eu sei que você é um pobre coitado como eu; eu, como
mulher, sou fodida em dobro, sei lá, talvez não, acho que a fodida que você
leva da vida aí fora é tão ou pior do que a que eu levo presa aqui em casa, no
fundo nóis sofremos iguais. Nóis sofre mais nóis goza. Vamu pra cama!? (a benção, Chico Buarque de Holanda).
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