domingo, 17 de julho de 2016

Por que existe pobre?

     Vi no jornal e li na TV: o cara é casado, tem 2 filhos pequenos, ganha 1300 reais por mês, mora num quarto-cozinha-banheiro por 450 reais, e está acampado na frente da prefeitura em luta por um quarto-cozinha-banheiro próprio. Sobram 850 reais pra comer, beber, comprar biscoitos... 
Mas, e a mulher, não trabalha?
 
     Trabalhar trabalha – e muito, cuida dos filhos pequenos, faz a marmita do marido, percorre os supermercados e feiras em busca de ofertas...

     Mas mulher hoje em dia precisa trabalhar! 

     Isso é verdade — e ganhar igual aos homens para trabalho igual, acrescento eu — só que a mulher teve um filho há 6 meses e, de repente, pode ficar grávida novamente... o dono da loja acha melhor contratar uma mocinha solteira... Além de que, é preciso encontrar creche pra deixar as crianças, ir levar, buscar, mandar roupas, fraldas — nem sempre cabíveis dentro dos 850 reais acima sobrantes...


     Mas, afinal, esse cara trabalha ou acampa?


     Trabalha e acampa! Há lá um revezamento, parece que a mulher fica no lugar dele, com as crianças, na hora que ele está trabalhando, ou talvez fique lá, durante algumas horas, somente a barraca fechada... O cara não está lá sozinho, trata-se de um movimento, de um conjunto, de um coletivo...


     Ah, sim, coletivo! Sei... vagabundos! baderneiros! Ele ganha mal? Por que ele não pede a conta e vai procurar um emprego melhor? Por que ele não abre um negócio próprio? Por que ele não faz um bico. Por que ele não arranja uma promoção, fala com o chefe? Por que ele não se vira? 


     SE VIRA? Olha ele aí se virando...!


     Esse cara não tem pai, não tem família pra ajudar, ao invés de ficar aí feito mendigo, dormindo ao relento, fazendo bagunça?


     Família ele até que tem... a mãe viúva e doente, mora com a irmã, que cuida dela... e se alguém ajuda alguém aí nessa relação é o cara dos 850 reais sobrantes, que tem de ajudar a irmã a comprar coisas para a mãe, porque lá na casa da irmã também não sobram mais que 850 reais...


     Mas, afinal, por que existe pobre?

sábado, 16 de julho de 2016

AS BARRACAS E OS PROTESTOS

AS BARRACAS AUTOPORTANTES E A CIDADANIA PAULISTANA

     Nunca pensei que BARRACA pudesse desempenhar papel tão destacado na cidadania desta megacidade. Na Paulista, barracas pedem intervenção militar, a volta da ditadura de direita - liderada por militares de direita. No viaduto do chá, barracas pedem que quem passou no concurso para ser guarda civil seja admitido pela prefeitura. Isso num giro rápido que fiz nesta semana. Se andasse mais, se xeretasse mais, barracas encontraria que pedem mais moradia. E gente dentro de barraca há por todo lado – gente que antes não tinha teto e agora tem: o teto da barraca.

     Mas isso só foi possível com a Revolução das Barracas. Quer dizer, revolução na fabricação de barracas: com a invenção das barracas autoportantes. São esses igluzinhos que vemos por aí. Ficam armadas sem qualquer fixação ao solo. Então, é possível armá-las sobre o cimentado, a calçada, o asfalto. Quando comecei a acampar, 40 anos atrás, só havia barraca do tipo canadense e do tipo bangalô: ferragens enormes e pesadas e as lonas só ficavam esticadas se fixadas ao chão. Agora inventaram varetas flexíveis e levíssimas, que se embainham na lona – que agora não é mais lona e sim sintéticos leves e resistentes – e, quando curvadas, “inflam” tal tecido, ou seja, armam a barraca, sem qualquer fixação.


     Pois bem: tô pensando em organizar um movimento, um protesto qualquer, cuja causa ainda vou pensar. Será um protesto enorme, terá grande repercussão. Isso porque comprarei 50 (cincoenta ou cinquenta) barracas – poucos protestos têm essa quantidade de barracas. Não será preciso muito dinheiro, acho que uns 2 mil reais dá, são baratíssimas. Contratarei 2 desempregados desqualificados, pagando uma merreca de diária, para ficarem do lado de fora, montando guarda, disfarçados de colhedores de assinaturas de um abaixo-assinado condizente com a minha causa. Ainda estou pensando em como recuperarei o dinheiro investido. Mas o essencial já tenho: a consciência de que é possível pôr as barracas na rua. Quer dizer, fazer um protesto popular sem povo.

domingo, 10 de julho de 2016

JIRIMIA

O SORRISO DO JIRIMIA

     Bem, está claro que, para o pedinte Jirimia, era ponto de honra não chamar o dono da casa, bater palma, campainha nem pensar. Enfim, não se anunciar de qualquer forma. Ele se considerava tão insignificante que sequer admitia comandar, com seu chamado, a alteração da rotina da casa.

     Por isso, quando o dono – a dona, na maioria das vezes, pois o dono quase sempre estava fora – o atendia, encontrava-o com um leve sorriso nos lábios – sim, o Jirimia sorria! Um sorriso incompleto e mal conservado, cheio de dobras nos cantos da boca – tantas dobras e tão incompleto que parecia verde, tirado à força do fundo do fígado -, mas um sorriso. Que devia ser por causa do atendimento, pela vitória de ser notado, de ser contado, de comprovar mais uma vez a própria existência.

     Dependendo do que dissesse o atendedor, chegava a rir. Uma risada truncada, aos solavancos, misturada aos resmungos. Uma risada contida, não reconhecida pelos pessimistas. Mas eu digo que ele ria, porque seus olhos brilhavam. Um brilho intenso, que ainda hoje não sei se era de felicidade ou de febre. Olhos perdidos nos infinitos laterais ou nos próprios pés, mas brilhantes, ardentes, todo ouvidos aos reclamos ou sugestões dos atendentes – só pela consideração do humano oposto, porque tinha a certeza de que não modificaria seu procedimento.


     Jirimia preferia o atendimento feminino. Os homens lhe eram mais trabalhosos – ridículos -, com suas tiradas inoportunas ou absurdas sugestões. Alguns chegavam ao ponto de esgotar a paciência do Jirimia – sim, o Jirimia tinha impaciência! -, embora a manifestasse muito discretamente, apoiando-se numa única perna, alternadamente, sem, contudo, mover os pés de onde os havia plantado quando chegara.


     Às mulheres, o Jirimia apenas sorria, esse sim um sorriso nervoso de pressa. Sentia nos olhos delas o incômodo que seu saco único provocava – aquele saco de algodão onde todos os grãos se misturavam. Sentia nelas a silenciosa reprovação, a mesma das suas quatro irmãs, tão desgastante... Não se identificava com as mulheres, guardava delas a distância da diferença, do perfume, do asseio, do sexo... Com os homens, ria – pequeno, mas ria -, identificando neles a própria rusticidade. Diria que chegava a ser-lhes solidário...


Enfim, o Jirimia ria. E estou convicto de que nem sempre era para não chorar. Admito até a felicidade naquele riso.