Vi no jornal e li na TV: o cara é casado, tem 2 filhos pequenos, ganha 1300 reais por mês, mora num quarto-cozinha-banheiro por 450 reais, e está acampado na frente da prefeitura em luta por um quarto-cozinha-banheiro próprio. Sobram 850 reais pra comer, beber, comprar biscoitos...
Mas, e a mulher, não trabalha?
Trabalhar trabalha – e muito, cuida dos filhos pequenos, faz a marmita do marido, percorre os supermercados e feiras em busca de ofertas...
Mas mulher hoje em dia precisa trabalhar!
Isso é verdade — e ganhar igual aos homens para trabalho igual, acrescento eu — só que a mulher teve um filho há 6 meses e, de repente, pode ficar grávida novamente... o dono da loja acha melhor contratar uma mocinha solteira... Além de que, é preciso encontrar creche pra deixar as crianças, ir levar, buscar, mandar roupas, fraldas — nem sempre cabíveis dentro dos 850 reais acima sobrantes...
Mas, afinal, esse cara trabalha ou acampa?
Trabalha e acampa! Há lá um revezamento, parece que a mulher fica no lugar dele, com as crianças, na hora que ele está trabalhando, ou talvez fique lá, durante algumas horas, somente a barraca fechada... O cara não está lá sozinho, trata-se de um movimento, de um conjunto, de um coletivo...
Ah, sim, coletivo! Sei... vagabundos! baderneiros! Ele ganha mal? Por que ele não pede a conta e vai procurar um emprego melhor? Por que ele não abre um negócio próprio? Por que ele não faz um bico. Por que ele não arranja uma promoção, fala com o chefe? Por que ele não se vira?
SE VIRA? Olha ele aí se virando...!
Esse cara não tem pai, não tem família pra ajudar, ao invés de ficar aí feito mendigo, dormindo ao relento, fazendo bagunça?
Família ele até que tem... a mãe viúva e doente, mora com a irmã, que cuida dela... e se alguém ajuda alguém aí nessa relação é o cara dos 850 reais sobrantes, que tem de ajudar a irmã a comprar coisas para a mãe, porque lá na casa da irmã também não sobram mais que 850 reais...
Mas, afinal, por que existe pobre?
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