sábado, 30 de dezembro de 2017

SEXAGENÁRIOS.

Estava comprando abobrinhas no Extra quando o locutor me chamou pra comprar ismartifonis. Notei na hora que o tal aportuguesou “smartphone” e que ele nunca chamaria quem estava comprando ismartifonis pra comprar abobrinhas. Que era um pobre coitado fazendo bico ganhando uns trocados com a voz que Deus lhe deu e que devia ser muito mais lucrativo vender o objeto do desejo criado do que vender o arroz com feijão nosso de cada dia. Que a vontade deste nunca passava da medida e a daquele era sempre desmedida. E que sua entonação manjada me desagradava, mas eu era minoria, entre surdos e cegos.
Entrei na Caixa pra pagar uma conta de luz e o guarda me cercava na porta, não me deixando entrar na agência propriamente dita. Quer dizer, isso foi o que eu logo deduzi, dado os meus quarenta anos de janela. O pobre só estava plantado na frente da porta giratória, sem saber que assustava a freguesia ignota. Não, a mim ele não assustava mas, intimamente não deixei de pensar que, com guarda ou sem guarda, eu nem queria entrar mesmo, preferia pagar minha conta pra uma máquina a pagar pra uma pessoa que ia me oferecer seguro título de capitalização plano de previdência cartão e o diabo e sorrir, se eu comprasse, e fechar a cara, se eu negasse, como se eu fosse culpado do seu salário e da sua saliva.
Ia pela Paulista quando, lá na frente, vi um bando de jovens dinâmicos. Pronto!, mais uma barreira de coleta de grana para salvar o clima do planeta ou salvar as crianças do planeta. Então já fui me preparando para a abordagem, porque ela é realmente insistente do tipo assim poxa, você não vê como sou justa e urgente e humanitária, como você tem coragem de negar?, seu sovina. Mas os jovens sorridentes e serelepes me ignoraram e isso muito me preocupou. Será que meu velho ceticismo finalmente vazou e está estampado em minha cara? Ou será que minha cara de pastor luterano os afugentou? e ambas as alternativas me são desanimadoras, com tantos sibilinos na via pública.

Sexagenário é o que sou. E atônito. O problema dos velhos é ver segundas e outras intenções em toda obra. Inquietarem-se com sintomas e sintagmas. Uns dizem que isso é sabedoria. Eu desconfio que é saturação. Do bombardeio de símbolos, signos e sinais. De sonhos que não sonhamos mais. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

IR E VIR

QUE POSSAMOS IR E VIR SEM MUITO ESFORÇO.
Passeávamos, eu e Bici III, pelo centrão, São Luís com Consolação, da República em direção à João Mendes. Há uma ciclovia pintada na calçada, que passa em frente a entrada da biblioteca circulante da Mário de Andrade. Quer dizer, um dia pintaram uma faixa vermelha ali, mas só minha memória vê. O prefeito não vai ser besta de reavivar e conservar uma das marcas do adversário. Uma minha concorrente pedestre esperava para atravessar. Dois milhões de motores deixaram a cidade, mas restaram seis milhões. Isto quer dizer que ainda precisamos esperar o farol fechar para os carros para atravessar a rua. Quando a senhora viu que eu também queria atravessar, me alertou que o farol estava apagado. E sabemos que farol apagado significa verde eterno para os motores. Porque farol apagado significa regras em pane, ausentes. E quando as regras deixam de funcionar, os direitos são todos apropriados pelos mais fortes. Então eu fui embicando a Bici e metendo a mão espalmada na cara dos motoristas dos motores e já fui entrando e a cambada de motores foi parando e a senhora foi junto comigo e atravessamos, sob sons nada amistosos de cilindros e bielas a rosnar. Sãos e salvos na calçada oposta, ela se mostrava visivelmente agradecida a mim e me agradeceu em palavras e, inclusive, me desejou boa tarde e boas festas e feliz ano novo. Só então me dei conta do meu ato de extraordinária ousadia. Porque na cidade grande capitalista competitiva de oito milhões de motores e respectiva tonelada e outras tantas casas espalhadas ou amontoadas umas sobre as outras e arranha-céus e subsolos e asfalto e faróis e fios e almas suficientes para ocupar tudo isso, a simples necessidade de atravessar a rua carece de atrevimento.  

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

CAUSO DE AMOR DO TEMPO DA ZAGAIA.

Cheguei em casa, meu cônjuge me deu um esporro verbal porque não fui ao supermercado comprar as coisas elementares que estavam faltando em casa já há dois dias. Verbal, porque meu cônjuge é do sexo feminino. Ouvi quieto e calado, não por submissão, mas por sangue frio. A expressão “sangue frio” só tem sentido num sujeito de sangue quente… Fundamental em meu autocontrole foi minha consciência do meu valor nas lides do lar. Se eu não soubesse nem fritar um ovo, talvez tivesse retrucado grosso. Mas diante da veemência dela, perguntei-lhe — não, só pensei, que minha ousadia tem limite — que se ela estava tão descontente assim com meu desempenho doméstico nas artes de cozinha e mesa, por que ela não me devolvia à minha mãe? Então foi aí que lembrei do causo de amor do tempo da zagaia.
Primeiro, causo é a mesma coisa que conto, em caipirês. E zagaia é uma arma branca de madeira com uma ponta afiada, usada para alvejar ou aparar a caça ou o agressor. A zagaia, além de antiga, era muito ineficiente, por isso ficou velha. Talvez venha daí o costume que muita gente tem de confundir antigo com velho e de achar que todo velho é ineficiente. Mas a expressão tempo da zagaia, em caipirês, quer dizer, apenas, tempo em que viveram nossos bisavós, mais ou menos.
É que, no tempo da zagaia, os homens eram machistas e as mulheres… também. Normal, porque, afinal, as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. E, assim sendo, o homem podia devolver a mulher ao pai dela, e pedir a anulação do casamento, caso constatasse que ela não estava apta a satisfazer as necessidades dele e do lar. Nos tempos atuais, os homens continuam machistas, mas algumas mulheres deixaram de ser. E essas poucas já são suficientes para me pôr em apuros e suscitar em mim pensamentos tão extravagantes quanto aquele lá do primeiro parágrafo.
Aconteceu assim: João foi devolver a Maria ao pai dela, após uns dois meses de casados. Parêntese para informar que naquele tempo o homem considerava a mulher tão inapta para as coisas mundanas, que uma mulher não podia permanecer sem um tutor masculino em nenhum momento de sua vida. Quando pequena, era tutelada por seu pai. Uma vez casada, o pai passava a tutela ao marido. Na velhice, se viúva, era tutelada pelo próprio filho mais velho. Daí porque essa cerimônia de devolução da filha ao pai era, não só importante, como necessária, e feita pessoalmente.
João chegou pro sogro e comunicou-lhe que estava devolvendo sua filha, apontando para a moça, ao lado.
O sogro se assustou por três motivos. Primeiro, porque, apesar de ser uma cerimônia prevista, era rara. Poucos homens devolviam as mulheres assim. Segundo, porque, além de saudável, tinha certeza que sua filha era pura, crescera sob severa vigilância, física e moral… E, terceiro, já passava de dois meses! Essas devoluções, raras, costumavam acontecer com uma semana de casamento, no máximo. Mas, como todo bom caipira, começou pelas bordas, ou pelas metáforas. Perguntou ao João se sua filha não sabia lavar, passar, cozinhar, bordar, tricotar, crochetar, costurar. João ficou assim meio enrolado, sem dizer nem sim nem não, ao que o sogro aproveitou para enfatizar que sua filha era excelente cozinheira e engomadeira, ensinada pela própria mãe e que, além de realizar impecáveis trabalhos de bordado, tricô e crochê, não somente costurava, como havia tirado diploma de corte e costura. Diante do silêncio e do titubeio do João, o pai da moça continuou, perguntando se era algo de natureza moral… acrescentando imediatamente que sua filha fora educada dentro dos severos preceitos de uma família de respeito, mas que, se fosse, seria estranho, pois já se passara dois meses…
Não, não tinha a ver com lavar, passar, cozinhar, costurar, bordar, nem era nada de natureza moral, ao contrário:
Sabe o que é, seu Antônio (era esse o nome do sogro). É algo mais prático. Sua filha não sabe amar.

(Embora fiel aos fatos, o causo é fictício, inclusive os acontecimentos do primeiro parágrafo — até porque sou impecável dono-de-casa).

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PUBLICAR UM LIVRO.

Quem lê tanto livro? Fui na Feira do Livro. Entrei na Saraiva. Na Cultura. Na Martins Fontes. Na Biblioteca Florestan Fernandes. Quem lê tanto livro? Na biblioteca, tudo bem, ficam lá guardados, registrados para o futuro, dando lastro aos pesquisadores, tem uma estudantada adoidada lendo tudo aquilo, lendo, copiando, anotando, citando… Mas nas feiras, nas livrarias, nas editoras? Como se pacotes de biscoito, à venda? Quem consegue digerir tanto biscoito, ou melhor, tanto livro? A grande maioria, sem a menor importância literária? Estão ali nas prateleiras, nos catálogos (físicos e eletrônicos), nas pechinchas, se colar colou. Ao comerciante, tudo bem, a lógica dele é montar um estoque rico e variado e colorido e atrair os compradores e, ao final do dia, somar o faturamento e descartar o encalhe. Mas ao autor, aquele que tem seu único livrinho perdido no meio daquela imensidão de volumes, é desesperador.
Vários motivos levam alguém a publicar um livro: enriquecimento do currículo de acadêmicos e intelectuais em geral; vaidade; registro ou perpetuação do texto; comercial(lucro); artístico; militância literária; instrumentos de pressão (política, judicial, etc.); apoio a campanhas publicitárias diversas; muitos outros… Muito pouco se salva, de tudo que é publicado. Quase tudo volta pra picotadora. Uma pequena parte nunca vai ser lida, mas vai ficar juntando poeira e criando ácaros nas estantes residenciais por décadas. Destino justo, porque quase tudo que é publicado não tem qualquer relevância.
Escrever um texto passível de publicação não é tão difícil. Há milhares de pessoas capazes de tal feito. Difícil é transformar esse texto em livro. Não, com menos de 10 mil reais você se autopublica. Contrata uma editora ou você mesmo prepara o texto em programas de computador próprio e o encaminha a uma gráfica. Escolhe a capa, o papel, o livro fica bonito. Recebe em casa os 500 exemplares contratados, bem embalados em pacotes de 20. Manda o entregador depositá-los no chão, num canto morto da sala, porque aquilo é um volume enorme, não cabe em nenhum outro lugar da casa. Se cada livro pesar 300 gramas, a coisa toda dá 150 quilos! São 25 pacotes do tamanho dessa sua impressora aí ao lado cada pacote! Aí você vai ver o que é bom pra tosse, o desespero de fazer cada um desses 500 tesouros (na sua concepção) chegar às mãos de outros tantos e condescendentes leitores. E o seu desgosto está só começando, porque, à medida que o tempo passa e o trambolho não diminui e seu cônjuge começa a cobrar uma solução para “aquilo”…
Um livro não é só aquele charmoso e cheiroso voluminho de 300 gramas. Um livro é o voluminho e sua repercussão. E, na maioria dos casos, o livro para no voluminho. Não tem repercussão alguma. Isso explica muito autor deprimido. Mas é bem feito. Quem mandou ele bancar a publicação? Por que ele não foi mais paciente, perseverante, militante, humilde? Por que ele não se submeteu aos filtros de reconhecimento, como os concursos, os programas de incentivo, as editoras de verdade? Quem mandou ele não se contentar com seus 10 leitores no feicibuque? Ou quem mandou ele se iludir com os comentários desses seus 10 leitores de feicibuque?
E quanto às editoras: há as sérias e as de araque. De araque não é bem o termo, são empresas comerciais capacitadas a preparar seu texto e mandá-lo a uma gráfica, mediante pagamento, e depois enviar os 150 Kg a sua casa. E as editoras de verdade são aquelas que recebem seu texto e ficam entusiasmadas com ele e resolvem correr o risco de publicá-lo por conta própria. Mas para despertar esse entusiasmo, não basta um texto genial. Porque se você, anônimo e pacato autor, enviar seu texto genial para uma dessas editoras, desacompanhado de qualquer indicação, ele fatalmente não será considerado. Pelo simples fato de que não será lido. Afinal, quem aguenta ler o original de um autor desconhecido? Até porque, salvo raríssimas exceções, o destino final de um ótimo livro de um autor desconhecido é a picotadora. Principalmente se os amigos e parentes do autor comprarem livros suficientes para cobrir os custos da editora e lhe darem algum lucro. Porque uma campanha de distribuição custa muito, muito mais que os 10 mil reais da edição/publicação. E é arriscada e carece de muito, muito mais entusiasmo do editor-empresário.

Mas se você teimar em bancar seu próprio livro, em querer brincar de Deus, em tentar a imortalidade, prepare-se para receber o castigo por tal ousadia. Para atenuar, ao menos não cometa a besteira de deixar os 150 quilos, produto desse desatino, adentrarem ao sossego do seu lar. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

VOZES DO ALÉM.

Era ali pelos anos 1970 e a voz do Aeroporto de Congonhas chegou a ficar famosa. O povo ia lá, nos feriados, pra ver os aviões no chão, um tempo em que viajar de avião era impensável. A voz de mulher soava no saguão, como se do além, uma deusa a tornar nossos dias menos inglórios, suave, lembrando um amarelo azulado que ia se arroxeando, ficando sensual e o povão ali, bem-comportado, misturado aos bacanas que tinham o direito de ir e vir de norte a sul e alhures. Quem sabe a mulher locutora fosse uma simples assalariada, mas, soava naquele ambiente com a elegância da elite endinheirada. E o povão, pacato, a consumir a tarde de domingo e a treinar para entrar no mundo do consumo que as gentes superiores já estavam experimentando. O povão embasbacado com a voz feminina do saguão do Aeroporto de Congonhas.
Porque esse povão enfrentava, com regularidade, a voz da rodoviária da Duque de Caxias, ali em frente a Estação Júlio Prestes. Era uma voz masculina, apressada, rude e confusa. Era uma voz que lembrava um marrom mal rabiscado, de alguém que estava falando sem vontade, com raiva, sempre no mesmo tom, como se fosse uma metralha. Naquele labirinto de lojas rasteiras e escadas estreitas e sujas e mal iluminadas e teto multicolorido, quem não estava apressado, se punha a correr. Todos ficavam atônitos, a voz espalhava insegurança. Locução de palavras mal articuladas e um equipamento de som de qualidade sofrível, essencialmente, a voz traduzia e transmitia todo o desprezo dos citadinos para com os que chegavam. Se não ficou famosa, ficou conhecida, a voz da rodoviária de São Paulo dos anos 1970. Pela deselegância.
Esse povão ouvia rádio. A TV ainda era artigo de luxo. Mas a voz do rádio, apesar de cair do céu, não vinha do além. A voz do rádio tinha nome e personalidade. Era diferente dessas vozes que ribombavam num amplo ambiente público a transmitir mensagens impessoais. O locutor de rádio, sem corpo, estabelecia familiaridade com o ouvinte. Nas pequenas cidades, de onde afluía o povão pra São Paulo, não havia necessidade de voz ambiente para orientar os pequenos espaços públicos. Na megalópole, conhecemos a voz dos ricos e a voz dos pobres: a moça de congonhas e o homem da rodoviária. O dono da bola e da narrativa estabeleceu que rico era fino e pobre era bronco. E vamos enroscados nessa tramoia até hoje…

Tudo isso pra falar da voz masculina da linha amarela do metrô de São Paulo, aquela que faz os avisos no idioma inglês. Pego aquela linha de vez em quando. Creio que, se tivesse de ouvir aquela voz todo dia, acabaria tendo um piripaque. De raiva. Porque ela é melosa demais, ondulada demais. Não é possível que aquele jeito de falar seja representativo do modo de falar dos estadunidenses ou dos ingleses. Pelo pouco que ouço nos filmes, aquilo é uma caricatura. Então, viajando hoje na tal linha e ouvindo aquela voz, elaborei a seguinte teoria da conspiração: a pessoa que escolheu aquela voz – um funcionário ou funcionária da linha amarela — odeia a civilização anglo-saxã, a começar pela língua inglesa. Aquela voz de homem dando os avisos em inglês é um verdadeiro boicote ao idioma do império.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

UMA CIDADE FANTASMA NO MEIO DA ESTRADA.

Como você reagiria se fosse andando por uma estradinha de terra e encontrasse uma cidade inesperada? E, como se não bastasse a surpresa de encontrar uma cidade onde só prevíamos cana e pasto, essa cidade estivesse deslocada no tempo e no espaço? E se, ao invés de uma cidade, encontrasse duas, uma perto da outra?
Pois foi o que aconteceu comigo. Só que eu não ia andando. Ia pedalando.
Eu havia dormido em Artemis, uma cidadinha envolvida pelas curvas do Rio Piracicaba, que nem município é ainda, é distrito de Piracicaba. Precisava chegar em Brotas. Mas não queria passar por Águas de São Pedro e São Pedro, muita muvuca e eu já havia passado lá a pé, em 2004. Esse trecho tem uma serra interessante a transpor. Então resolvi ir por Charqueada. Para isso eu poderia ir pelo confortável acostamento da SP-304 até a periferia de Piracicaba e depois pegar a SP-308 e chegar até Charqueada, no pé da serra.
Mas não. Preferi traçar uma linha reta entre os dois pontos, e enfrentar a malha de estradas vicinais e essa é uma das principais características da minha viagem. Ir sempre pela hipotenusa quando vejo no mapa que há interligação entre as estradinhas. Ir pelo atalho. Sendo que a palavra “malha”, aí em cima, é bem apropriada, porque são muitos nós que temos que destrinchar. Com nós quero dizer cruzamentos, bifurcações, derivadas, tangentes… e nenhuma placa informativa. Não raro temos de escolher entre três alternativas. E muitas e muitas vezes a alternativa menos óbvia é a correta.
Ia eu pela estradinha quando vi, lá na frente, uns caminhões parados ao lado duma montanha escura, esquisita e fora de hora. Cheguei a uns 100 metros de distância e ainda assim tive de perguntar a um dos caminhoneiros o que era aquele monte artificial. Era pedra. Pedra britada, dessas de fazer pavimento em estrada e concreto para construção. É que eu não estava esperando uma jazida de granito daquela magnitude ali, em meio a amenas colinas de canaviais. Vi algumas casas lá na frente e segui naquela direção. Fui chegando, era uma cidadinha não detectada em minhas pesquisas no google maps. Havia uma igreja grande, uma padaria que não servia pão com manteiga nem café com leite e vários pontos de ônibus, onde muitos idosos e idosas esperavam, chiachierando. Havia um enorme garrafão de vinho feito com garrafas pet, fazendo a propaganda da festa do vinho. Se chamava Santana. Ou Sant’Ana ou Santa Ana. E as velhas e velhos se pareciam todos com meus pais e tios e avós.
Andei mais um pouco, havia asfalto nas ruas, aquilo era uma cidade. Uma cidade não prevista, inesperada. Aqueles velhos de características familiares, comecei a achar estranho. As casas deram uma trégua, andei mais uns dois quilômetros e elas voltaram. Outra igreja. Grande, quase suntuosa, vendo de fora. Ladeiras, ruas íngremes, tortuosas. Tudo muito bem arrumado no espaço público, fachadas bem conservadas e um toque de lugar antigo nas construções. Algumas lojinhas bem transadas, dessas de vender besteira cara pra turista endinheirado, comuns nos pequenos burgos aos pés dos...Alpes italianos! Essa outra cidadinha se chamava Santa Olímpia. Sim, era isso! Aquilo parecia um pedaço da Itália, tive a impressão. Mas meu estranhamento parou por aí, não conversei com ninguém, estava com pressa de chegar em Charqueada e comer, já que a padaria do lugar não servia pra nada.

Tudo bem, segui viagem, levando comigo aquele estranhamento daquelas duas cidadinhas agarradas às poucas pirambeiras da região majoritariamente ondulada. Muitos dias depois, tive a ideia de pesquisar “Santana, Piracicaba” e “Santa Olímpia, Piracicaba”. E descobri que se trata de uma colônia de italianos que se juntaram e compraram uma fazenda ali ainda no século XIX. E é incrível como conseguiram reproduzir e manter as características da terra natal. Nem é preciso dizer que se trata de um ponto turístico de Piracicaba e não tem importância nenhuma que eu ignorasse tal fato histórico e tal localidade. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CAMINHONAR, COMER, CAMINHONAR.

Havia umas 50 mesas, quase todas ocupadas. Boa parte delas com apenas uma pessoa e outras tantas com duas. Nenhuma mulher. Na hora não pude deixar de dizer a mim mesmo que estava lascado. Pudera! Tinha invadido o território sagrado dos caminhoneiros. Isso, caminhonar, a ação do caminhoneiro.
Ser caminhoneiro foi a minha primeira frustração profissional. Eu tinha uns 5 anos e achava o máximo manobrar aqueles monstros. Ao mesmo tempo que desejava muito, sabia que era impossível, porque eu não suportava o barulho do escapamento do fenemê e do mercedão de cara chata, recém-lançados. Isso era início dos anos 1960. Não que eu tivesse bronca, eu tinha era medo daquele barulhão.
O caso é que era hora do almoço e eu escolhi aquele lugar pra comer. Eu, um sujeito tão refinado, em meio àqueles homens brutos. Brutos, no bom sentido. Refinado, no mau sentido. Certamente, eu era o menos pançudo deles. E o mais sujo e o mais suado e o mais fedido do salão. E a minha barba não era de 3 dias, era de 3 anos e pouco cultivo. E, afinal, eu não estava de bermuda nem de chinelo de dedo nem com a camisa aberta no peito. De resto, a fome e a vontade de comer eram as mesmas.
Mas eu não caí de gaiato lá não. Antes de parar, de entrar, eu sabia o clima e o microclima que ia encontrar. Porque era uma churrascaria e, como se não bastasse, se chamava O Gaúcho. Como se gaúcho e churrascaria não fossem sinônimos, na beira da estrada. A placa dizia que a gente podia comer à vontade no fogão a lenha por 12 reais. Todo cidadão minimamente viajado sabe que fogão a lenha é a senha para frituras e feijão gordo e banha de porco, porque a lenha e o respectivo fogão só servem para enfeitar. Tudo é feito lá no fundo, em fogões a gás. E em termos de alimentação, caminhoneiro gosta de carne, sabor e sustança. E preço baixo. E nenhum limite na quantidade.
E havia outro detalhe fundamental para espantar os turistas e atrair os caminhoneiros: o acesso de 150 metros não era pavimentado. O turista convencional não gosta de colocar seu carrão pra rodar nem 10 metros fora do asfalto. E caminhoneiro não gosta de turista. E vice-versa. Vai ver se caminhoneiro para nesses graaaals e frangos torrados da vida. Prefere passar fome, mas não para. Ciclista sujo para, porque não tem vergonha na cara.

O fato é que, antes de estacionar a Bici ao lado de uma jamanta de 34 pneus, eu vi bem as outras tantas jamantas estacionadas, de modo que, ao empurrar a porta vai e vem e adentrar ao salão, eu já estava com os coldres desabotoados. Mas encontrei paz e acolhimento. E este ciclista almoçou bem e sossegado em Presidente Venceslau, bêra da Raposo Tavares, essa terra que gosta de homenagear os presidentes da república velha: Prudente, Bernardes, Venceslau, Epitácio. Porque, se tem alguém que caminhoneiro respeita é ciclista. No meu caso, isso é fato. Acho que eles entendem que, como eles, a alma que vai sobre uma bicicleta é de uma pessoa destemida. Que, da mesma forma que é preciso vigor e valentia para conduzir um bólido com 20 toneladas por mais de 500 quilômetros, igualmente, é preciso coração e coragem para viajar sobre 15 quilos de alumínio, ferro e borracha e nenhum para-choque. (Crônicas de Guardanapo).

sábado, 2 de dezembro de 2017

QUATRO NUMA MESA DE BAR.

(Crônicas de Guardanapo).
Era um barzinho simpático, onde entrei pra comer qualquer coisa e não dormir com fome, já que arroz com feijão não havia, à noite, em Nova Independência, SP. Acho que nem nas casas, nos lares, havia arroz com feijão naquela noite de sábado. Noto que muitas pessoas têm preconceito contra arroz com feijão. Uns consideram comida de pobre, outros consideram comida pobre. Tanto é verdade que “arroz com feijão” virou sinônimo de coisa banal. Coisa banal deveria ser pão com salsicha. Salgadinho em pacote com cocacoca. Pizza por telefone. Pacote de bolacha. Balde de pipoca.
Na mesa em minha frente sentaram quatro jovens. Pouco mais que adolescentes. Logo percebi que eram de pouca conversa. Duas palavras daqui, uma resposta monossilábica de lá, um sorriso amarelo da esquerda, um olhar compreensivo da direita. Até que um deles acendeu o smartphone. Presenciei todo o processo, desde a falta de assunto inicial até o primeiro celular aceso. Restaram três, mas não demorou para o segundo também acender seu aparelho. Restaram dois. Continuaram tentando, duas palavras daqui, outra de lá, e olhares de soslaio em direção às telas retangulares e brilhantes dos outros dois. E, enfim, esses dois remanescentes acenderam suas próprias telas retangulares quase ao mesmo tempo, tão logo perceberam a pobreza do assunto ao vivo.

E eu em frente, não sabia se ria ou se chorava. E comiam e bebiam e chupavam e navegavam. E, de vez em quando, grunhiam, um para o outro. E eu comia, e assuntava. Deixara meu celular no quarto alugado. Num lance mental ousado, me incorporei a um dos quatro. Acabei de comer e beber e chupar, limpei os beiços, apaguei o retângulo, olhei na direção dos rostos dos outros três sem receber nada em troca, me levantei e saí em silêncio, sem ser notado e sem fazer falta.