sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O QUEIJO

Aproveito o ensejo para falar de reminiscências e rituais.

Estava eu numa pousada de beira de estrada, durante o café da manhã. Sabe esses estabelecimentos pretensiosos, como se fora uma aguardente 51 dentro de uma garrafa de autêntica salinas?

Era um casarão do tempo do imperador, de batentes de madeira lavrada a machado, paredes de adobe e pé-direito tão alto que dificultava a limpeza das teias de aranhas no teto de tábuas largas e grossas e resistentes aos cupins.

O telhado, de telhas de barro feitas nas coxas; o piso, também de madeira, com tábuas parecidas com as do forro, soava chocho sobre o vazio do porão onde, quem sabe, tivesse havido uma senzala.

Tudo reformado com tinta mui moderna e nenhum saber histórico. O dono da pensão, um autêntico empreendedor, alugara o imóvel junto aos herdeiros, por uma pechincha...

Começou com o café. O cozinheiro, que também servia e cobrava, chamou nossa atenção para a feitura do café, aquele simples pretinho. Os quatro hóspedes, de diferentes procedências, reunidos, se interessaram. Que ali tudo era feito na hora e imediatamente servido, dentro da peculiaridade do alimento, claro, como o queijo, que era de véspera.

Que apreciássemos o aroma do café enquanto era passado. Que atentássemos para o toque da canela envolvida numa flor de cravo.

Em seguida, exultante, trouxe-nos, num bule de ágata, o café batizado e o serviu em minúsculas xícaras de barro cosido, feitas ali mesmo no quintal.

Ao lado de cada xicrinha cheia derramando de café impuro e não tão preto, um copinho tão pequeno quanto de vidro ordinário com água de mina.

Que o sorvêssemos devagar, para sentir o sabor do grão de altitude...

Quando o café já estava acabando, começamos a “ouvir” o cheiro do pão de queijo atingindo o ponto, no forno elétrico. Enfim, veio o pão de queijo, um pãozinho minúsculo em cada prato, o prato era grande, mas o pãozinho parecia esses vendidos no metrô em saquinhos como se fora pipoca.

Mais uma vez o cozinheiro-dono ao nosso redor, pedindo-nos atenção para o traço particular do autêntico polvilho do amido da mandioca mineira.

Enfim, chegou a hora do queijo. De véspera, fresquíssimo, da fôrma para a mesa, sem passar pela geladeira. Melhor que da Canastra, que ali era Mantiqueira...

O queijo inteiro vinha dentro de uma queijeira de plástico transparente, mas seu tamanho e cor apenas se adivinhava, eis que estava coberto com um pano branco de algodão.

O cozinheiro depositou a queijeira no centro da mesa, destampou-a, descobriu o queijo, que tinha aspecto comum, extraiu meticulosamente uma fina fatia para cada prato que repousava na frente de cada hóspede, e retirou-se, levando consigo os 90% restantes da especiaria.

Num balcão ao longe, mas à nossa vista, enxugou cuidadosamente o queijo com o sedento pano de algodão, enquanto vigiava nossa degustação.

Em seguida, voltou com o queijo e repetiu o ritual, distribuindo-nos mais 10% da peça de meio quilo e retirando-se para a cerimônia de enxugamento.

Daí a pouco retorna ele com o queijo, para a terceira rodada. Eu, já atônito com tanto ritual e tão pouca substância, fui atropelado pelo hóspede do lado oposto da mesa, que, gentilmente, ritualisticamente, pediu ao homem para participar daquela celebração.

Em seguida, apossou-se graciosamente da faquinha e do garfinho de aço inoxidável e caiu sobre a integralidade do queijo, dividindo-o em quatro e definitivas partes iguais e derramando-as uma em cada prato, antes de qualquer reação e qualquer marmelada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

A GORJA

A GORJA

Lá na minha terra a gente dá gorja, aqui na cidade grande damos uma gorja menor, uma gorjeta.

É que aqui em São Paulo as leis do capitalismo funcionam, enquanto lá no interior funcionam também, mas de forma capenga.

E quanto mais enfronhados nas regras da grana líquida, mais miseráveis somos. Por isso, nós, aqui de São Paulo, que, em geral, temos mais grana líquida do que o povo do interior, damos gorja pequena.

Entenderam?

Grosso modo, podemos dizer que quanto mais ricos, mais miseráveis. Miseráveis nos dois sentidos: no de pobreza e no de sovinice.

Sim, porque pingar os caraminguás na hora da gorja é para pobre. Pobre e ridico. Ridico!? Sim, ridico, sujeito muquirana-miserávi-avarento. Muxiba.

Muxiba!? Sim, lá em minha terra, muxiba também significa mão-de-vaca, sujeito com espinho no borso.

Quer dizer que quanto mais rico, mais pobre?

Sim, pobre de espírito, pobre de sossego.

Claro que em igualdade de condições subjetivas, digamos, porque também tem muito pobre-miserável-proletário de verdade por aí com um desassossego e uma pobreza de espírito de constranger. Vide esse povo que segue certos “bispos” e certos fascistas e paga pau pra polícia e se arma de reles armas para se sentirem seguros.

Mas o que eu queria escrever sobre a gorja vai ficar para outra oportunidade, ia deixar esta crônica muito grande. É que tava pensando: é a gorja que move o mundo, ops, as pessoas.

(porque o mundo-natureza não depende dos humanos para se mover, que fique bem claro)

Sem gorja ninguém se move.

(sabe esse povo voluntário-não-remunerado? Tudo gente com segundas intenções, com as exceções de praxe).

Sendo que a gorja assume diversas denominações e nuances. Vai desde a caixinha e o molha-mão e o suborno até o lucro, passando pelos salários, em meio a comissões e gratificações e participações de toda espécie e monta, umas legais, outras não. É pano pra manga!

E outra coisa, pra finalizar. O capitalismo tende a racionalizar a gorja, com seu desenvolvimento.

No caso dos restaurantes e hotéis, legalizaram as gorjetas.

Intermediários de ativos em geral legalizaram as corretagens.

E nos USA, intermediários de influências políticas, sociais, econômicas, culturais, acadêmicas... já são legalizados, no que chamam lobby.

Sabe essas comissões que se cobram aqui, nos negócios e transações e vendas e licitações, privados e estatais, em geral por baixo da mesa? Também lá nos USA ou no Japão ainda tem muito disso. Mas os lobbies (institutos legais que regulamentam essas boquinhas) avançam.

O fato é que, sem essas gordas gorjas, nenhum negócio prospera. Aqui ou na China.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Timeline

 

Eu já sabia como era, mas nunca tinha entrado em minha timeline do google, cujo aviso recebo pelo e-mail. Até que hoje entrei. Que susto!

Os caras sabem da minha vida em detalhes. Sabem dos meus deslocamentos todos, início, meio e fim. Se fui a pé ou de carro.

Eles só se embananam com minha bicicleta, coitados, tão sabidos eles e ainda não descobriram que ando de bicicleta, que a maioria dos meus deslocamentos dentro da megalópole são com bicicleta.

Nessas viagens de bicicleta, eles pensam que fui, ora a pé, ora de carro. Se bem que minha vida descrita pelo google tá muito pobre.

Lá não diz que vou à feira, que vou ao parque, que vou ao supermercado, que vou à zona cerealista, à livraria... Lá não diz que vou ao futebol e, claro que eles ainda não conseguem ver as chuteiras em meus pés!

O google, coitado, pensa que nesses dias estou sentado no sofá vendo TV. Ops, vendo smartphone. O google pensa que em São Paulo só vou à casa da minha mãe e à casa do meu filho. Coitado, sabe de nada...

Mas fiquei puto assim mesmo e fui lá no meu smartphone pra desligar o sistema de localização. Só que aí não recebo a previsão do tempo. E eu não acredito mais no céu que vejo, na umidade que sinto no ar, nos cheiros, nas nuvens que passam entre os prédios. No histórico das estações que tenho dentro de mim acumulado.

Pra mim, só chove se o google me informar. Se o google disser que daqui a uma semana tem 51% de probabilidade de chuva, desmarco tudo. E sei que nisso o google nunca erra.

Tem dias que o google diz que há 90% de probabilidade de que vai chover. Aí chega o dia e não chove: ora, e os 10% restantes!?

Querida amiga, o google nunca erra, mas esse jogo das probabilidades eu ainda não assimilei não. Então liguei a localização de novo. Dane-se! A vaca já foi para o brejo mesmo!

Minha vida já é um livro aberto lá pra eles, o quê que adianta esconder de agora em diante?

Aí pensei: melhor deixar escancarada minha localização, assim eles desconfiam menos. Assim eles acreditam em todos esses dias que passo dentro de casa feito um inútil. Ops, que meu smartphone passa dentro de casa.

E eu continuo recebendo a previsão do tempo, que sem ela não consigo mais viver. E vou marcando e desmarcando meus compromissos ao sabor das probabilidades do google.