quinta-feira, 17 de março de 2016

A MASSA

A massa amassa. Ou amaça. Havia chamado de ralé, mas massa é melhor.  Massa é melhor que lumpen, que plebe, que escória. Porque massa independe do sujeito ser rico ou pobre, letrado ou analfabeto, branco ou preto, ocupado ou desocupado, patrão ou empregado. Para ser massa basta ser desinformado. Ou mal-informado. Ou alienado.  A massa pode estar equivocada ou não, depende do rolo compressor que a amassa. Ou do recipiente que a conforma. A massa pode ser cheirosa ou não, gostosa ou não, nutritiva ou não, saudável ou não, depende dos ingredientes que são nela inoculados.

A massa amaça. Ou amassa. E não pensa por conta própria ou como grupo.  A massa é como a boiada. Vai para onde é tocada. Mas, às vezes, estoura. Aí, sai da frente! E atrás do estouro deixa sempre um mau rastro. Em geral, o governo resultante do estouro da massa é fascista. Ou de direita. Como se sabe, governo de direita é aquele que não gosta de povo. Porque para a direita no poder, a massa vira povo. Que deve permanecer calado e desorganizado.

A massa é o povo desorganizado. Não, a massa se organiza por segmentos: o segmento dos que adoram programas policiais na TV, o segmento dos que não perdem um telepastor, e o segmento elitista da massa, que é aquele que vê a novela das oito, o jornal, e a novela das nove. Há também o segmento daqueles que detestam política.

A massa é aquela que não se filia a sindicato, a partido político, a torcida de time de futebol, a escola de samba. E nos casos raros em que se filia, nunca participa efetivamente. A massa quer um Grande Irmão como guia. A massa só faz greve se for colocada no molde da greve. A massa nunca pensa. Mas ela pensa que pensa. Isso faz parte da técnica de amassar a massa.

A massa é o resultado da junção de muitos indivíduos. Indivíduos puros, isolados, sem qualquer identidade social além da mais ampla, chamada nação. O sonho da massa é transformar a nação em uma grande família. Família com chefe definido, autoritária.


A massa nunca é bolo. Portanto, a massa é primária. A massa não admite nuances. Logo, a massa não admite diálogo. A massa aguarda um milagre que instaure o sossego e a ordem. Mas a massa pode ser capturada por um líder. Nesse caso, se o líder mandar, ela destrói tudo. 

domingo, 13 de março de 2016

Gaúcho de Bombacha na Paulista

     13.03.2016. Fui e voltei de bicicleta na Avenida Paulista hoje, entre 10 e 10h30. O palco do carnacoxinha estava sendo montado. Banheiros portáteis, carretas de som,  polícia militar reunida para instruções.

     Pois saibam – quem não é de SP – que domingo é dia de festa na Paulista. Todo domingo, graças à ciclovia e ao fechamento para carros. Artistas de todas as cores exibem-se por lá, como meio de vida. O cover do Elvis Presley, em frente ao Conjunto Nacional, montava sua parafernália.

     Um gaúcho de bombacha (e chapéu e lenço e colete e guaiaca e bota, traje típico completo, enfim) quase nem seria notado num domingo comum. Mas hoje, sua presença era emblemática. Porque o carnacoxinha (mais de 10 trios elétricos – caminhões enormes) tem como tema a saudade.

     Sabe aquele suspiro que todos nós damos, às vezes, seguido da expressão “No meu tempo que era bom!”? Pois esse é o tema do carnacoxinha de hoje na Paulista. Uma festa ao passado.

     Ao tempo em que se trabalhava com gosto, patrões e empregados todos juntos, de sol a sol, sem salário e sindicato.

     Às caravelas, às escaramuças contra os índios, às capitanias hereditárias, às entradas e bandeiras, ao tráfego negreiro, ao voto censitário, à política do café com leite, à mulher submissa, ao casamento indissolúvel, ao patriarcalismo.

     Quando havia muitos filhos, os velhos não precisavam de aposentadoria. Não havia poluição, os alimentos eram saudáveis,  todos tinham saúde, ninguém precisava de assistência médica (aliás, médico era coisa de rico).

     Quando todo mundo conhecia todo mundo e os negócios eram garantidos pelo fio do bigode e ninguém precisava saber ler e escrever, portanto.

     Quando todos os cidadãos tinham direito a uma mulher virgem. (constava no código civil até ontem) ; (a frase está correta, porque mulher não era cidadã nem cidadão – não votava e devia obediência ao pai ou marido).

sexta-feira, 11 de março de 2016

MARX & FRIEDRICH

     Pronto, resolvi o problema! É Marx & Friedrich. Quero ver agora!

     Friedrich serve para o Hegel, o Engels e até para o Nietzsche.

     Que mimporta que Marx & Friedrich nunca apareceram juntas? Calma, Marx & Friedrich – os três – eram homens machos, não estou insinuando nada. Quando escrevo “juntas”, no feminino, me refiro às palavras.

     Porque as palavras são traiçoeiras. Ainda mais quando escritas. Por isso tem gente que não escreve nada. Não querem correr risco, são precavidos. Têm consciência de serem analfabetos funcionais. São incultos, mas não são bobos.

     Só que, coisa de uns 10 anos, apareceu a diaba da rede social. Orkut, Facebook, Twitter... Então foi a esculhambação. Foi como se tivessem acendido a luz do mundo. Do nosso mundo, composto dos nossos parentes, amigos e colegas. Foi-nos confirmado aquilo que a gente já sabia, mas não tinha provas.

     Porque, meus caros analfabetos que me leem (tenho alguns leitores analfabetos funcionais, alguém disse outro dia que 75% dos brasileiros são assim), vocês não têm noção do que os que sabem ler e escrever conseguem ver num texto. Nas linhas e nas entrelinhas.

     Esse fenômeno (todo mundo pode escrever e publicar sem nenhum controle) tem tumultuado a vida pública.  Umberto Eco, escritor italiano recentemente falecido, disse que é isso que dá franquear a palavra a milhões de imbecis (dele, recomendo o romance “Número Zero”, publicado em português, pela Record).


     Vocês já prestaram atenção nas falas do juiz Sérgio Moro? Notaram que ele enrosca em frases e conceitos? E agora esses promotores de São Paulo, com esse Marx & Hegel enfiado numa peça formal. Isso me deixa atônito, porque leio nas entrelinhas que a cultura ligeira está transbordando da internet para a elite da burocracia oficial.  

quinta-feira, 3 de março de 2016

Carlos Drummond de Andrade.

SENTIMENTO DO MUNDO

     A última coisa que o Carlos Drummond de Andrade poderia ser era andarilho. Porque ele não balançava os braços; em termos de estilo e beleza o jeito de andar do C.D.A. era inversamente proporcional aos seus poemas. Em italiano não  c’è  poema, só poesia.  Balançar os braços ao andar é belo e proveitoso. Penso na monotonia ao andar, de um terceiro olho na ponta do dedo indicador do C.D.A., sempre o mesmo cenário do chão próximo. Outro dia num filme vi o C.D.A. sentado pensativo  num banco da praia de Copacabana (ou seria Ipanema?), imobilizado em bronze. Experimentei um sentimento de desconforto; se eu fosse herdeiro, pedia pra tirar aquela estátua, parece uma alma penada, chovia, ninguém na praia, só o C.D.A., impassível, sentado no banco, como se fora uma tarde morna e seca; se eu fosse herdeiro, pedia pra tirar.

     Elomar disse, num show no Sesc Pompéia há anos, que achava que nunca fizera uma música alegre, não tinha nada alegre, só música triste. C.D.A.  em bronze na praia em tarde de chuva é coisa triste. Sussuarana, de Heckel Tavares e Luiz Peixoto,  na voz de Inezita Barroso, sob o acompanhamento de Roberto Correa, na viola, é coisa triste (para mim, viola é sempre caipira, me nego a reconhecer aquela outra viola das orquestras). Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira, tem tristeza no nome. Penso que o homem verdadeiro é triste, que a alegria é uma brisa indecisa,  e que a felicidade é apenas o tema de uma canção comercial.

     A solidão e os descampados e as montanhas e os grandes rios são  tristes. As estradas secundárias são tristes, as estradinhas de terra, as estradas vicinais são tristes. O pôr do sol tingindo de vermelho as nuvens é coisa triste (os aviões vermelhos são portadores de tristes premonições).  A imensidão do mar numa praia deserta? Não respondo! O mar não é coisa minha, conheci o mar aos dezoito anos, nunca aceitarei um mangue, nunca comerei um camarão com naturalidade, sou homem de água doce.

     Preciso urgentemente escrever um poema, preciso urgentemente fazer uma caminhada. Daqui a pouco começo a ter dor de cabeça, preciso ver o mundo do cume de uma montanha, preciso cheirar o mundo do interior de uma mata, preciso urgentemente ver uma cobra. Faz tempo que não vejo uma cascavel, faz tempo que não enfrento uma jararaca, não vale o Instituto Butantã.

     Meu deus, meu coração pulsa firme; meu deus, preciso de um conhaque. Meu deus, preciso de dois conhaques... meu deus, os meus são sãos e me acomete a solidão. Meu deus, os meus são sãos e eu estou só, cadê a coerência? Deus, não fui feito para me submeter aos teus caprichos, cadê minha razão que me não vale. Razão, oh razão?