domingo, 27 de dezembro de 2020

MATUTO.

 Só quando a balconista perguntou, parecendo indignada, cadê os pires? foi que notei o cliente ao meu lado, no balcão da Ferragens Campeão. Lembrei então que o havia encontrado num dos corredores do armazém, instantes atrás, levando três xícaras em cada mão, enfiadas nos dedos como se fossem dedais.

Era um senhor assim, meu contemporâneo, quero dizer, da minha idade e tão matuto quanto eu, a julgar pelo vexame que estava passando diante da balconista estupefata. É que ele pretendia levar meia dúzia de xícaras de louça para café, brancas, clássicas sem os pires, porém; e isso a balconista não admitia.

(um parêntese para questionar o seguinte: por que nunca compramos 1 ou 2 ou 3 ou 4 ou 7 ou 9 xícaras, mas sempre 6 ou 12?)

A balconista não admitia menos por causa da regra da loja do que por causa da etiqueta própria, que não admitia tomar café numa xícara sem o respectivo pires por baixo. Porque, de fato, era regra da loja vender o conjunto, ou seja, xícara e pires. Mas o homem queria só as xícaras.

Eu, do meu canto, assistindo à cena de esguelha, não sabia se ria ou se chorava, com a caipirisse insistente do meu conterrâneo; só podia ser meu conterrâneo, aquela lá, ter saído do mesmo fundo de mundo que eu, aquele cidadão que, apesar de viver há tanto tempo na cidade — pelo jeitão —, ainda não aprendera que, na hora de tomar café, o pires é tão importante quanto a xícara.

Da minha parte, aquele início de admiração pela sensibilidade de comprar xícaras numa casa de ferragens se esvaíra por completo. No lugar do homem, daria uma de desentendido, mandaria baixar também os fatídicos e imprescindíveis pires, e ainda diria, para sossegar a moça: oh, meu deus, mas claro! Os pires!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

INIMIGO.

 

INIMIGO. Ia escrever “Inimigo Mortal”, mas entendi que, se é inimigo, é mortal. Não fora mortal, seria adversário. Ou oponente. Ou desafeto, como noticiou o jornal de Jales, SP, sobre a morte do seu fundador: “o engenheiro Euphly Jalles se encontrou nas proximidades de uma loja de material de construção de Rio Preto com seu desafeto Lavínio Lucchesi, advogado…” Mas não era apenas desafeto, era inimigo porque, no entrevero, houve tiros e Jalles foi baleado. Já Roberto Azeda pensava que Vicente Carlos Batista era apenas mais um freguês, mas de tanto ser freguês tornou-se inimigo, porque, ao encontrarem-se no interior da agência do Bradesco em Guaraci, SP, onde Azeda era prefeito, Batista sacou um revólver e baleou Azeda.

A primeira notícia é de 1965 e a segunda, de 1983. Trata-se da crônica política em minha terra natal, o noroeste do Estado de São Paulo onde, há apenas 100 anos havia índios do tempo de Cabral.

Aí a gente vai às contra-notícias e descobre que ambos baleados eram agressivos loteadores de terras. Agressivos no sentido de intensos, atuantes, fanáticos pelo negócio… E fica sabendo que um era acusado por grilagens de terra e expulsão de posseiros e outro, de manipulações legais/cartoriais com titularidades de terras.

O fato é que os baleados fizeram, ambos, querendo ou não, sabendo ou não, ao menos um inimigo cada. Inimigo de verdade, daquele que, quando encontra, ou mata ou morre.

Quando é que a gente faz um inimigo? Quando a gente vai fundo no próprio interesse. Quando a gente radicaliza nosso egoísmo. Quando a gente elimina qualquer possibilidade de aplicação da empatia em relação ao outro. Quando a gente não sabe nem quer saber e tem raiva de quem sabe.

Eu, se tivesse um inimigo, nem saía de casa. E mandava blindar a porta. E ainda diria “bem-feito para você (diria a mim mesmo), que não cuidou para que jamais fizesse um inimigo”.