INIMIGO. Ia escrever “Inimigo Mortal”, mas entendi que, se é inimigo, é mortal. Não fora mortal, seria adversário. Ou oponente. Ou desafeto, como noticiou o jornal de Jales, SP, sobre a morte do seu fundador: “o engenheiro Euphly Jalles se encontrou nas proximidades de uma loja de material de construção de Rio Preto com seu desafeto Lavínio Lucchesi, advogado…” Mas não era apenas desafeto, era inimigo porque, no entrevero, houve tiros e Jalles foi baleado. Já Roberto Azeda pensava que Vicente Carlos Batista era apenas mais um freguês, mas de tanto ser freguês tornou-se inimigo, porque, ao encontrarem-se no interior da agência do Bradesco em Guaraci, SP, onde Azeda era prefeito, Batista sacou um revólver e baleou Azeda.
A primeira notícia é de 1965 e a segunda, de 1983. Trata-se da crônica política em minha terra natal, o noroeste do Estado de São Paulo onde, há apenas 100 anos havia índios do tempo de Cabral.
Aí a gente vai às contra-notícias e descobre que ambos baleados eram agressivos loteadores de terras. Agressivos no sentido de intensos, atuantes, fanáticos pelo negócio… E fica sabendo que um era acusado por grilagens de terra e expulsão de posseiros e outro, de manipulações legais/cartoriais com titularidades de terras.
O fato é que os baleados fizeram, ambos, querendo ou não, sabendo ou não, ao menos um inimigo cada. Inimigo de verdade, daquele que, quando encontra, ou mata ou morre.
Quando é que a gente faz um inimigo? Quando a gente vai fundo no próprio interesse. Quando a gente radicaliza nosso egoísmo. Quando a gente elimina qualquer possibilidade de aplicação da empatia em relação ao outro. Quando a gente não sabe nem quer saber e tem raiva de quem sabe.
Eu, se tivesse um inimigo, nem saía de casa. E mandava blindar a porta. E ainda diria “bem-feito para você (diria a mim mesmo), que não cuidou para que jamais fizesse um inimigo”.
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