Eu e meu irmão sentados lado a lado na sala de espera quando saiu do
elevador uma moça apressada e, toda esbaforida se dirigiu a nós,
assim naturalmente, perguntando se havia passado por ali, em sentido
contrário, uma moça grandona e bonitona. Da mesma forma e sem
titubear, respondemos que sim, porque, de fato, uma moça grandona e
bonitona havia passado e pegado o elevador há pouco. Então a moça
que perguntava — que não era grandona, mas poderia ser bonita se
quisesse, eis que toda mulher pode ser bonita — fez um ar de
lamento, chegara atrasada…
Porque, de fato, a outra era realmente bonita. E, sendo grande, era
então bonitona. Mas era uma boniteza evidente, tanto que uma outra
mulher estranha se dirige a dois homens estranhos e, querendo
identificar de modo rápido e claro quem procurava, não tem dúvida
em lembrar tal característica, que sabia notada por todos. Eu no
lugar dela teria feito pequena adaptação. Porque a mulher estava
com pressa, e não era só naquela hora não, era na vida inteira;
sabe essas mulheres que vestem um jeans, camiseta, tênis, faz um
rabo de cavalo nos cabelos, mantém o corpo puro como Deus lhe deu
sem nenhum adereço, nenhum toque exótico, que tem de dar conta de
dois empregos e da escola e do carro e da casa e dos filhos do marido
do gato do papagaio, das plantas, das compras, das contas…? Tanto
que acabara de chegar atrasada em mais um de seus compromissos,
acabara de perder a bonitona por dois minutos, essas pessoas que
querem colocar 36 onde só cabem 24h. Essas pessoas precisam
racionalizar os mínimos detalhes, para ganhar...tempo! Então eu, no
lugar dela, teria economizado uma palavra. Ao invés de dizer
Grandona e Bonitona, teria dito Gostosona. Porque é evidente que
este último substitui aqueles outros dois, com vantagens de síntese.
Mas, pensando bem, acho que aquelas Grandona e Bonitona da parte da
pragmática continha uma inconsciente intenção de desprestigiar a
oponente (sim, uma era a antítese da outra). Porque chamar de
Bonitona apenas aquele monumento que havíamos documentado coisa de
dois minutos atrás era pouco. A moça não só era bonita como
linda, dessas lindezas pasteurizadas que convencem não só na parte
visível como na invisível. Claro, se ela cuidava tão bem das
partes explícitas, em bocas e pestanas e brincos e colares e
pulseiras e peles e pelos, era lícito imaginar as minúcias e
adereços nos recônditos implícitos, as sedas e cintas e silicones
e cheiros.
De tal maneira que, eu e meu irmão, não tivemos nenhuma dúvida e
nenhum embargo em informar e garantir e responder prontamente à
mulher apressada que, sim, passara por ali, coisa de dois minutos
atrás, uma moça grandona e bonitona, qualquer um notaria.