O
estrangeiro é um perigo, porque desconhece os segredos e tabus
locais. Chega, ignora, passa por cima, mete os pés pelas mãos…
Subverte os mais sagrados escaninhos esculpidos lentamente pela alma
coletiva do lugar. Em sua inocência, tal qual uma criança,
ignorante das nuances todas, bota a mão no vespeiro e, para decepção
dos aturdidos visitados, revela que as abelhas emigraram há muito e
que só sobraram as aranhas. A pior viagem é deixar um estrangeiro
solto em nossa própria terra. Ele acaba, de temeridade em
temeridade, abrindo as janelas dos fatos e locais sagrados. Aqueles
mistérios, que eram o sal da terra, que nos ajudavam a tocar nossa
vidinha medíocre, de repente se iluminam, deixam de existir. Não é
que se acabam tragicamente: deixam de existir sem falar tchau. A
gente ali, sem graça, e o estrangeiro com aquela cara de tacho, que
é a cara daqueles que realizam um grande feito sem saber e perceber.
De uma hora para outra, desvendam-se os banais e os boçais. As
bruxas e os feiticeiros perdem o encanto e o sustento. Aquela estória
mal contada de pai pra filho perde a graça e o povo se vê nu no
meio da praça, enquanto não forja outra com que disfarçar a
mesmice.
Admita
um estrangeiro em sua casa. Deixe-o à vontade. Em poucos dias ele
arruína tudo: põe o açucareiro no lugar do azeite, o azeite no
lugar da farinha, a farinha no lugar do sabão. Você terá de abrir
todas as gavetas para encontrar as colheres de chá. Todos os
armários para encontrar seu cálice de conhaque. Você encontra
panelas em prateleiras inadmissíveis. Se ele for mais além e entrar
no seu quarto, você nunca mais vai encontrar aquela toalhinha
estampada com flores amarelas e já desbotadas, que fazia questão de
usar toda primeira semana do mês… Mexer no seu computador, nem
pensar: primeiro, porque é um dos espaços mais sensíveis às
idiossincrasias pessoais e, segundo, porque vai que ele descobre
aquele seu conto guardado a sete chaves...Você passará por
experiências terríveis, como, por exemplo, encontrar um CD do Edu
Lobo no mesmo setor do dos Racionais. Quanto aos seus livros, não
deixe o estrangeiro se aproximar deles ou, então, faça-o
constrangido nessa hora. Porque, à vontade, cheio de liberdades,
fará inocentes comentários que demolirão suas crenças e seu
cabedal cultural acumulados ao logo de toda a vida, além de
subverter toda a ordem dos volumes. Há, ainda, o risco dele lhe
pedir emprestado aquela edição especial do Grande Sertão, que você
nunca mais verá… E você ainda se pode dar por feliz se o
estrangeiro não se puser a fazer sacanagem em seu quintal, como dar
milho ao cachorro e ração de gato às galinhas.
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