quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O ESTRANGEIRO.

O estrangeiro é um perigo, porque desconhece os segredos e tabus locais. Chega, ignora, passa por cima, mete os pés pelas mãos… Subverte os mais sagrados escaninhos esculpidos lentamente pela alma coletiva do lugar. Em sua inocência, tal qual uma criança, ignorante das nuances todas, bota a mão no vespeiro e, para decepção dos aturdidos visitados, revela que as abelhas emigraram há muito e que só sobraram as aranhas. A pior viagem é deixar um estrangeiro solto em nossa própria terra. Ele acaba, de temeridade em temeridade, abrindo as janelas dos fatos e locais sagrados. Aqueles mistérios, que eram o sal da terra, que nos ajudavam a tocar nossa vidinha medíocre, de repente se iluminam, deixam de existir. Não é que se acabam tragicamente: deixam de existir sem falar tchau. A gente ali, sem graça, e o estrangeiro com aquela cara de tacho, que é a cara daqueles que realizam um grande feito sem saber e perceber. De uma hora para outra, desvendam-se os banais e os boçais. As bruxas e os feiticeiros perdem o encanto e o sustento. Aquela estória mal contada de pai pra filho perde a graça e o povo se vê nu no meio da praça, enquanto não forja outra com que disfarçar a mesmice.
Admita um estrangeiro em sua casa. Deixe-o à vontade. Em poucos dias ele arruína tudo: põe o açucareiro no lugar do azeite, o azeite no lugar da farinha, a farinha no lugar do sabão. Você terá de abrir todas as gavetas para encontrar as colheres de chá. Todos os armários para encontrar seu cálice de conhaque. Você encontra panelas em prateleiras inadmissíveis. Se ele for mais além e entrar no seu quarto, você nunca mais vai encontrar aquela toalhinha estampada com flores amarelas e já desbotadas, que fazia questão de usar toda primeira semana do mês… Mexer no seu computador, nem pensar: primeiro, porque é um dos espaços mais sensíveis às idiossincrasias pessoais e, segundo, porque vai que ele descobre aquele seu conto guardado a sete chaves...Você passará por experiências terríveis, como, por exemplo, encontrar um CD do Edu Lobo no mesmo setor do dos Racionais. Quanto aos seus livros, não deixe o estrangeiro se aproximar deles ou, então, faça-o constrangido nessa hora. Porque, à vontade, cheio de liberdades, fará inocentes comentários que demolirão suas crenças e seu cabedal cultural acumulados ao logo de toda a vida, além de subverter toda a ordem dos volumes. Há, ainda, o risco dele lhe pedir emprestado aquela edição especial do Grande Sertão, que você nunca mais verá… E você ainda se pode dar por feliz se o estrangeiro não se puser a fazer sacanagem em seu quintal, como dar milho ao cachorro e ração de gato às galinhas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário