VOCÊ
RONCA.
Permita-me
uma historinha sobre o ronco. Chama-se João, comprou um cruzeiro pra
Bahia, uma semana no mar, navio de dez andares, piscinas e boates e
lojas e restaurantes e cassinos pra todo lado e mais uma ruma de
coisas pra se gastar dinheiro. É assim, cobram barato pelo passeio
em si e, uma vez lá dentro, o cara não tem pra onde fugir. Gostam
quando vão o pai e a mãe e os filhos… É mais fácil impressionar
os filhos, estão em férias, os pais não querem estragar o ótimo
clima em família, vá lá, jogue, dance, compre! Casal de namorados, lua de mel então é tudo que o dono do navio adora.
Mas
João ia sozinho. A mulher não gostava dessas frescuras de café da
manhã com 42 opções, camareiro, garção, toalha limpa todo dia,
cicerone pra todo lado, narizes felizes pra todo lado. Preferia andar
de bicicleta e deixar o João à vontade no transatlântico. Só que
o João era só um pouco besta, resistia bravamente às tentações
e, só, era mais fácil escapar das arapucas. Mas quase que ele cai
na armadilha da agência de viagem…
É
que no contrato havia uma cláusula que dizia que, se o companheiro
de camarote (o pacote era daqueles de camarote compartilhado, dois em
cada) ficasse incomodado com seu ronco — caso você roncasse —
você deveria pagar uma taxa extra e transferir-se para um camarote
individual.
E
João roncava. Mas, inocente, ou esperto demais, achava que isso não
era problema, porque todo mundo ronca, até sua mulher roncava; ela,
que nos primeiros tempos de vida em comum se incomodava tanto com seu
ronco, se aquietou quando foi devidamente filmada e gravada por ele
fazendo aquilo que todo animal que inspira e expira pela boca faz em
algumas posições ou situações de relaxamento.
(Aliás,
corre por aí um mito de que só os homens roncam…Ou de que só os
velhos roncam... Besteira. Eu, você, ela, a gente, todos roncamos. Pode variar
a frequência e a altura, mas o que incomoda é o ronco em si: “argh!, estou
dormindo com alguém que ronca!”. Quando todos ficarem sabendo
disso, acaba o preconceito. E a agência de viagem tira aquela
cláusula sacana do contrato).
Já
na primeira noite, João constatou que compartilhava o espaço com um
preconceituoso irredutível (não, tira esse irredutível, é
pleonasmo). Foi acordado aos cutucões, sendo informado que estava
roncando. Tudo bem, dormiu de novo e foi acordado de novo, agora já
de maneira mais bruta, sendo informado de forma quase estridente que
seu parceiro não conseguia dormir com alguém roncando na cama ao
lado.
João
nunca havia escrito uma crônica sobre o ronco, muito menos
filosofado sobre o tal, mas, como já foi dito, não era novato no
assunto, nem tão besta. E tinha boa memória e raciocínio burocrático, daí que
lembrou a tempo da tal cláusula, aquela que tratava do ronco.
Rapidinho percebeu que seria fatalmente enquadrado nela na manhã
seguinte e que teria de morrer com mais alguns mil reais. Então
dormiu de novo. Só que não. Esperou fingindo o outro dormir e…
roncar! Para adotar a mesma tática que adotara com a esposa.
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