quinta-feira, 24 de agosto de 2017

VOCÊ RONCA?

VOCÊ RONCA.
Permita-me uma historinha sobre o ronco. Chama-se João, comprou um cruzeiro pra Bahia, uma semana no mar, navio de dez andares, piscinas e boates e lojas e restaurantes e cassinos pra todo lado e mais uma ruma de coisas pra se gastar dinheiro. É assim, cobram barato pelo passeio em si e, uma vez lá dentro, o cara não tem pra onde fugir. Gostam quando vão o pai e a mãe e os filhos… É mais fácil impressionar os filhos, estão em férias, os pais não querem estragar o ótimo clima em família, vá lá, jogue, dance, compre! Casal de namorados, lua de mel então é tudo que o dono do navio adora.
Mas João ia sozinho. A mulher não gostava dessas frescuras de café da manhã com 42 opções, camareiro, garção, toalha limpa todo dia, cicerone pra todo lado, narizes felizes pra todo lado. Preferia andar de bicicleta e deixar o João à vontade no transatlântico. Só que o João era só um pouco besta, resistia bravamente às tentações e, só, era mais fácil escapar das arapucas. Mas quase que ele cai na armadilha da agência de viagem…
É que no contrato havia uma cláusula que dizia que, se o companheiro de camarote (o pacote era daqueles de camarote compartilhado, dois em cada) ficasse incomodado com seu ronco — caso você roncasse — você deveria pagar uma taxa extra e transferir-se para um camarote individual.
E João roncava. Mas, inocente, ou esperto demais, achava que isso não era problema, porque todo mundo ronca, até sua mulher roncava; ela, que nos primeiros tempos de vida em comum se incomodava tanto com seu ronco, se aquietou quando foi devidamente filmada e gravada por ele fazendo aquilo que todo animal que inspira e expira pela boca faz em algumas posições ou situações de relaxamento.
(Aliás, corre por aí um mito de que só os homens roncam…Ou de que só os velhos roncam... Besteira. Eu, você, ela, a gente, todos roncamos. Pode variar a frequência e a altura, mas o que incomoda é o ronco em si: “argh!, estou dormindo com alguém que ronca!”. Quando todos ficarem sabendo disso, acaba o preconceito. E a agência de viagem tira aquela cláusula sacana do contrato).
Já na primeira noite, João constatou que compartilhava o espaço com um preconceituoso irredutível (não, tira esse irredutível, é pleonasmo). Foi acordado aos cutucões, sendo informado que estava roncando. Tudo bem, dormiu de novo e foi acordado de novo, agora já de maneira mais bruta, sendo informado de forma quase estridente que seu parceiro não conseguia dormir com alguém roncando na cama ao lado.

João nunca havia escrito uma crônica sobre o ronco, muito menos filosofado sobre o tal, mas, como já foi dito, não era novato no assunto, nem tão besta. E tinha boa memória e raciocínio burocrático, daí que lembrou a tempo da tal cláusula, aquela que tratava do ronco. Rapidinho percebeu que seria fatalmente enquadrado nela na manhã seguinte e que teria de morrer com mais alguns mil reais. Então dormiu de novo. Só que não. Esperou fingindo o outro dormir e… roncar! Para adotar a mesma tática que adotara com a esposa. 

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