terça-feira, 29 de agosto de 2017

MOÇA GRANDONA E BONITONA.

    Eu e meu irmão sentados lado a lado na sala de espera quando saiu do elevador uma moça apressada e, toda esbaforida se dirigiu a nós, assim naturalmente, perguntando se havia passado por ali, em sentido contrário, uma moça grandona e bonitona. Da mesma forma e sem titubear, respondemos que sim, porque, de fato, uma moça grandona e bonitona havia passado e pegado o elevador há pouco. Então a moça que perguntava — que não era grandona, mas poderia ser bonita se quisesse, eis que toda mulher pode ser bonita — fez um ar de lamento, chegara atrasada…
     Porque, de fato, a outra era realmente bonita. E, sendo grande, era então bonitona. Mas era uma boniteza evidente, tanto que uma outra mulher estranha se dirige a dois homens estranhos e, querendo identificar de modo rápido e claro quem procurava, não tem dúvida em lembrar tal característica, que sabia notada por todos. Eu no lugar dela teria feito pequena adaptação. Porque a mulher estava com pressa, e não era só naquela hora não, era na vida inteira; sabe essas mulheres que vestem um jeans, camiseta, tênis, faz um rabo de cavalo nos cabelos, mantém o corpo puro como Deus lhe deu sem nenhum adereço, nenhum toque exótico, que tem de dar conta de dois empregos e da escola e do carro e da casa e dos filhos do marido do gato do papagaio, das plantas, das compras, das contas…? Tanto que acabara de chegar atrasada em mais um de seus compromissos, acabara de perder a bonitona por dois minutos, essas pessoas que querem colocar 36 onde só cabem 24h. Essas pessoas precisam racionalizar os mínimos detalhes, para ganhar...tempo! Então eu, no lugar dela, teria economizado uma palavra. Ao invés de dizer Grandona e Bonitona, teria dito Gostosona. Porque é evidente que este último substitui aqueles outros dois, com vantagens de síntese.
     Mas, pensando bem, acho que aquelas Grandona e Bonitona da parte da pragmática continha uma inconsciente intenção de desprestigiar a oponente (sim, uma era a antítese da outra). Porque chamar de Bonitona apenas aquele monumento que havíamos documentado coisa de dois minutos atrás era pouco. A moça não só era bonita como linda, dessas lindezas pasteurizadas que convencem não só na parte visível como na invisível. Claro, se ela cuidava tão bem das partes explícitas, em bocas e pestanas e brincos e colares e pulseiras e peles e pelos, era lícito imaginar as minúcias e adereços nos recônditos implícitos, as sedas e cintas e silicones e cheiros.

     De tal maneira que, eu e meu irmão, não tivemos nenhuma dúvida e nenhum embargo em informar e garantir e responder prontamente à mulher apressada que, sim, passara por ali, coisa de dois minutos atrás, uma moça grandona e bonitona, qualquer um notaria.  

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