quarta-feira, 6 de setembro de 2017

DE COMO MORRER FEITO UMA GALINHA.


Conto de 7 partes.

A hora em que todos os gatos são pardos ajudava o policial, que caminhava despreocupado pela calçada da sua rua, já no quarteirão de casa. Calça jeans, tênis, camiseta com frase em inglês no peito e um símbolo que todo mundo conhece o significado, menos eu, brinco na orelha, tatuagem no antebraço, pequena mochila nas costas. Fundão da Zona Leste. Policial, mas nem seu vizinho de tantos anos sabia. Policial, mas pardo. Pardo, porque pobre e porque filho de pai branco e mãe negra e avô índio. Pardo, porque é uma tonalidade fácil de passar despercebida. E ali, chegando em casa após o serviço, tudo que ele queria era passar despercebido. Na flor da idade, trinta anos, ainda se divertia com esse detalhe da própria cor dentro de sua integral desgraça. Ria, mas caminhava tenso, à espera da emboscada. A despreocupação aparente era apenas mais um componente do disfarce.
Mas essa condição natural do nosso personagem era a sua salvação e a sua perdição, dentro do seu propósito de se misturar e se igualar à vizinhança. Salvação, porque ali naquele fim de mundo precário e descuidado, havia muitos brancos compartilhando a miséria, mas a maioria era parda. E perdição porque, se fosse descoberto, seu castigo seria dobrado. Pardo, ali naquele mundo precário e descuidado e sem fim no tempo e no espaço, era o principal sinal visível de pertencimento ao povo pobre; e branco era o seu oposto. Por isso, os brancos que ali viviam, sofriam duplamente, por serem pobres e por serem brancos. Entretanto, se um branco fosse descoberto policial, recebia um castigo relativamente brando da comunidade, mas se um pardo fosse descoberto policial, era severamente castigado por dupla traição.
Enfim, o nosso personagem era um morenão boa figura, nascido ali mesmo no bairro, recém-casado, cuja mulher já andava barriguda e mal humorada com aquelas fardas presas na cordinha esticada sobre a cama, e o quarto sempre no escuro e fechado à chave. Dessa forma, só restava a ela a cozinha, dos exíguos dois cômodos sem quintal no final do corredor da viela, e as doenças respiratórias decorrentes de dormir naquele quarto que nunca recebia a esterilizante luz do sol e nenhuma ventilação. O que seria do bebê, naquele quarto úmido e escuro e entupido de varais? E tudo por quê? Porque ninguém podia sequer desconfiar que havia dependurada no varal daquele quarto-cozinha-sem-quintal-no-final-do-corredor-da-viela uma farda da polícia militar. Sendo que a mulher mulata-parda-sarada-bonita era muito dada a vizinhas e a visitas e contravisitas e não tinha outro jeito senão trancar o quarto.
O que você acha, minha tendência é acabar com isso logo. O povo do lugar é pobre e tonto, mas não é besta, e vê que a polícia militar só serve para matar e prender pobre e pardo. Deduzem então que um irmão polícia ou é traíra ou é otário e um ou outro não merece consideração. Casa e vida de pobre têm muros tênues, frágeis, difíceis de defender. Pelo bem e pelo mal a vida acaba compartilhada com a comunidade. Quanto tempo você dá a esse policial? Se o pobre comum já não é besta, imagina o comitê dirigente da comunidade. Já disse que o policial vai pela calçada, caprichado no disfarce, aparentemente despreocupado, já está quase chegando na entrada da viela, onde, diabos, justamente a lâmpada da prefeitura está queimada — pior, estourada —, um carrão se aproxima no sentido contrário, caralho, já deveria ter acendido os faróis… Se tivesse chegado dez minutos mais cedo, quando a molecada ainda estava toda na rua... No bairro de casas baixas e poucas luzes, a noite chega como se desse um bote, as mães recolhem a prole antes, quem pode não fica de bobeira.

II

O carrão com os faróis apagados vinha devagar feito um jacaré, no sentido contrário do policial disfarçado. Faltando cinco metros para se cruzarem, parou e dele desceram os dois homens pardos que estavam do lado direito do veículo, um em cada porta, e, apenas com gestos, convidaram o atônito pedestre que caminhava na calçada a entrar no carro, para um passeio. Ele não queria, já estava chegando em casa, a entrada da viela é logo aqui, a casa fica lá no fundo, mas, enfim, era o jeito, entrou no banco traseiro e logo atrás entrou o homem que dali descera há pouco. Lá dentro, do outro lado, havia um homem branco, que ali permanecera enquanto o carro estava parado, e, ao volante, esperava outro homem pardo. O carrão, com os cinco homens dentro, arrancou, agora com os faróis acessos, como se fosse uma onça.
Então, com ares de comandante, o homem branco informou ao recém-chegado que eram da Associação, que zelavam pela pureza das relações civis, militares e eclesiásticas dos moradores do bairro. Deu um tempo na falação e, diante do silêncio do novo passageiro, continuou, informando-o que sabiam, mediante profundas e minuciosas pesquisas, que a população da vila era composta de 40% de otários e 5% de sábios e o restante, de gente tonta, que, em meio ao tiroteio, não sabia pra onde correr, mas corria sempre pensando só no próprio nariz. Bom seria se a maioria fosse de otários, porque, como são muito medrosos e nunca se expõem, não dão trabalho. Infelizmente, a maioria era de tontos, aqueles que davam mais trabalho. Era desse segmento da população que saíam alguns mais tontos querendo de fininho resolver seus problemas e, mui espertos, se deixavam recrutar pela polícia militar. E davam um trabalhão danado, porque uma vez PM, iam logo para a Rota, e se tornavam os mais ferozes e eficazes matadores de outros tantos tontos e otários.
O suposto comandante, carrancudo, fez mais uma pausa, para ver se havia contraditório e, diante do silêncio, continuou, dizendo que aquela elite de tontos — e enfatizou a expressão, que não era exata, mas era a que mais se aproximava — aquela elite de tontos não tinha salvação, falava manso e baixo, encarando o passageiro sentado no meio, dando um tempo para sustentar seu olhar. “E você pertence a essa elite”, concluiu firme e forte, acusando e condenando.
Era um julgamento sumário, legítimo em tempos de guerra. O comandante era o homem mais triste daquele comando, por isso era o mais feio, avaliou o réu. Parecia ser o mais inconformado, e tudo levava a crer que era o mais violento. Isso explicava o fato de ser o comandante. Talvez por ser branco, é dura a vida de branco pobre, carregam nas costas as consequências da dupla incompetência, sempre ouviram dizer que os brancos se dão bem na vida, daí o inconformismo e, quando entram na guerra, costumam galgar mais rapidamente a hierarquia, forma oblíqua de afirmarem a superioridade da cor, na qual sem saber acreditam, segundo ensinou-lhes o ambiente.
O carrão agora deslizava novamente como um jacaré, com os faróis apagados na noite escura de lua nova, numa ruazinha sem postes, esparsamente rasgada por fachos pálidos que escapavam de exíguas janelas. Logo adiante havia um enorme terreno vazio, que o passageiro sentado entre os dois homens no banco de trás reconheceu como cenário de uma cena em que fora protagonista, coisa de duas semanas atrás. Num lance rápido, digno da sua audácia, o passageiro do meio vislumbrou pelo canto do rabo do olho, uma nesga de cabo de pistola dando sopa no bolso da jaqueta do comandante e, ato simultâneo, que a situação valia qualquer risco, num bote certeiro e fulminante, apoderou-se da arma e, com eficácia digna dos mais experientes policiais de Hollywood, quase tudo ao mesmo tempo, num único segundo, viu-se dono de um refém e da situação, com o pescoço do comandante dentro do laço do seu braço esquerdo e a pistola empunhada pela mão direita com o cano muito bem encaixado na têmpora direita do infeliz chefe então deposto.

III

Dono da situação, foi logo despejando seu jargão acumulado em dois anos de farda. Tratando todos os elementos de bandidos, gritou para o safado ao volante que acendesse os faróis e andasse rápido, pra sair daquele buraco logo, e os outros dois que colocassem as mãos bem visíveis sobre a parte superior do banco da frente; o que estava no banco da frente, que alçasse as mãos para trás, juntando-as com as mãos do que estava ao seu lado no banco traseiro, que tivessem muito cuidado, que ao menor deslize mataria todo mundo...
O ex-comandante, então refém, grunhiu algo, enquanto o motorista continuava em sua pasmaceira, deixando o policial mais irritado e com o laço do braço esquerdo mais arrochado, para desespero do ex-comandante, que, quase sem voz, ordenou ao motorista que cedesse às ordens do seu agressor.
E seu agressor queria ir pra avenida o mais rápido possível, na esperança de encontrar uma viatura da PM, coisa difícil naquele fim de mundo durante o dia, imagina naquela hora escura. Mas indo sempre em direção ao centro, uma hora as viaturas apareceriam aos bandos. Só que o paspalho do motorista, apesar de acender os faróis e aumentar a velocidade, não saía do labirinto de ruelas. Assim, mais irritado, o policial pressionava com mais força o cano da arma na têmpora do ex-comandante. Este, com voz sofrida, pediu mais uma vez ao motorista que seguisse as ordens do policial.
E o policial animava-se com o desespero do seu refém, sob a pressão do cano da arma, entendendo que era, afinal, um branco fraco e, à constatação, emendou que, se não fossem logo para a avenida, daria início à sessão de furos, começando por aquela cabeça cheia de merda encostada em seu próprio peito.
Nesse momento, o carrão corria numa ruazinha sem poste, ao lado de um terreno vazio que não dava pra ver, mas os cinco sabiam que ali era um campo de futebol de domingo. Diante do entusiasmo do policial e dos grunhidos do refém, o motorista freou bruscamente o automóvel e apagou os faróis e ficou como quem espera alguém ordenar algo.
Quem falou foi seu colega do lado, dirigindo-se agressivamente ao policial, dizendo para ele abaixar a crista, porque ele não teria tempo de fazer o segundo furo, cairiam em cima dele antes do segundo tiro, que perderiam um soldado mas não perderiam a guerra, que todo dia morria gente deles nas mãos da polícia, que um a mais um a menos não faria diferença, no que foi ferozmente interrompido pelo refém, muito puto por já ter sido descartado, chamando seu comparsa de filho da puta e prometendo vingança se saísse vivo.
Um pouco surpreso, o policial esbravejou que tentassem tal besteira, que poderia morrer, mas seguramente levaria um ou dois, além do comandante ali no ponto da bala. Percebeu, então, que sua fala foi convincente, porque ninguém mais ousou qualquer bravata, preferiam não apostar na escolha da sorte nem no resultado final da guerra.
Diante dessa situação, o ex-comandante começou uma ladainha de lamentos, quase um choro, pedindo pelo amor de Deus por sua vida, uma atitude sem cabimento — coisa constrangedora —, e o resultado foi o descontrole visível dos outros três, no sentido de se renderem, de se entregarem, num estado emocional de submissão que não passou desapercebido ao policial. A noite era escura, o lugar era ermo, a situação era propícia, o policial pensou na nova condecoração e possível promoção salarial e resolveu matá-los os quatro ali mesmo.

IV

Dentro do carro não era conveniente, porque os três estavam muito separados e meio protegidos pelos bancos, um deles poderia requerer mais de um disparo e então sobraria quem sabe algum para si próprio, que aquilo não era cinema. A operação de saída dos cinco do carro também era arriscada começou a lamentar não ter requerido suas armas logo que fez o refém, com medo de que um deles, ao tocá-las, fizesse alguma besteira , mas, enfim, aqueles três babacas estavam totalmente submissos, talvez nem mais se lembrassem de que estavam armadosse é que estavam. Finalmente, comandou a saída muito cuidadosa do grupo, todos pelo mesmo lado, numa leva só e, mais fácil do que avaliara, se viu do lado de fora, com os quatro dominados, ordenando aos três que ficassem bem juntos, de frente para ele, enquanto mantinha o refém em seu laço inflexível. Ao fundo, o breu riscado por vagalumes cobria o campo de futebol, e ali perto, talvez num rego de esgoto, coaxavam uma boataria de sapos. Os casebres esparsos já estavam dormindo e, àquela hora, nem os gatos se aventuravam ao rés do chão, a testemunhar qualquer delito ali pras bandas do campinho. Aquilo sairia na TV, renderia grossa condecoração...
Dono da situação, o policial ajeitou os três numa posição conveniente ao pelotão de fuzilamento que, no caso, era constituído apenas dele próprio, sendo que, antes da execução convencional propriamente dita, esse já mínimo pelotão deveria executar, por fora e primeiro e muito rapidamente o refém cuja têmpora já ancorava a arma executiva, para não alongar a agonia nem suscitar qualquer ousadia dos condenados e também para economizar manobra e tempo.
Os condenados, alinhados, aguardavam a execução. E aguardavam como? Eu garanto-lhes que aguardavam tranquilos, se é que se pode usar esse termo nessa situação. Tranquilos, no sentido superficial que a noite escura permitia visualizar, ajudada apenas pelos laivos pálidos que saíam da iluminação interna do carrão, pelas duas portas abertas que davam para aquele lado. Mais preciso seria dizer que aguardavam a execução de maneira normal, ou seja, com a cabeça erguida.
O sujeito, diante do pelotão de fuzilamento, depara-se com um dilema: obedece à natureza do ser físico e superficial e exigente de vida e fraco-vulnerável e grita ou chora ou desmorona e morre abjetamente, como uma galinha, ou recolhe todas suas forças morais e intelectuais e culturais e racionais e consegue congregar ainda e eficazmente forças mentais e lógicas para erigir um herói e criar um bordão e brandi-lo contra o fogo de maneira audível e bem articulada, com a cabeça erguida, e morre, da mesma forma, mas dignamente, como um sujeito. É por isso que quase todos morrem ou deveriam morrer assim, com a cabeça erguida: para golpear o inimigo ainda uma última vez e, ainda, porque, podendo escolher, ninguém morre como uma galinha. Nenhum fuzilamento é testemunhado por fotógrafos ou cinegrafistas ou, ao menos, tais testemunhos não são divulgados, e esse fato em si já é um atestado de culpa dos executores — independente de suas razões —, culpa muito agravada pelo olhar firme e a postura humana de quem tomba, ou, ao contrário, quase anulada, se o executado estrebucha e esperneia e baba.
Entretanto, apesar do escuro, os três condenados não pareciam dar-se conta da hora que se aproximava, era o que me parecia. O executor, dentro da cena, talvez vislumbrasse os rostos sofridos e, quem sabe, conformados ou, atavicamente acostumados. O executor, acostumado, assenhoreava-se cada vez mais do branco sob seu garrote e dos três pardos, prontos para morrer, na sua frente e sob seu engenho e, assim, cada vez mais, confiava e cuidava do desfecho a ele favorável.
Isso, até o primeiro tiro, aquele que deveria ser sem anúncio e fulminante e muito barulhento, e que só gerou um clik, tal qual o som do grilo que compunham a orquestra da fauna do banhado, que escorria quase aos pés do grupo, sob o capim-gordura.

V

O policial era tão hábil e havia mentalizado tão bem os movimentos da execução, que só se deu conta da trapaça após o quarto clik chocho. Com a arma fria e silenciosa na mão, o policial piscou e, quando abriu o olho, viu o desmoronamento do seu pedestal de glória e promoção e vida. Com a arma ainda em posição de ataque, o policial assistia à evolução dos quatro oponentes, que assumiam novas posições, em silêncio, como num balé surdo e bem ensaiado.
No mesmo átimo tão decisivo foram produzidos quatro pífios cliks, como se fossem marcadores dos próximos passos dos bailarinos que, tal como componentes de uma coreografia desumana, desenharam um quadrado em volta do policial estupefato, marcando seus vértices como estátuas de braços cruzados. Nenhum grito de escárnio, nem mesmo um suspiro de alívio, sequer um sorriso de vitória, os quatro permaneciam impassíveis feito pedras, cada um guardando o seu ângulo e fixando seus respectivos olhares severos na figura patética ao centro, ainda com a arma apontada para o espaço vazio ocupado no átimo anterior por um dos pardos reposicionados.
Ato contínuo, o policial caiu de joelhos no chão, pedindo clemência. Caiu de joelhos, pediu clemência e, em seguida, intimamente, arrependeu-se de tamanha humilhação. Morria como uma galinha. Se tivesse pensado, teria permanecido de pé, com o olhar duro. Mas tudo fora rápido demais para seu sistema intelectual.
O sistema lógico-racional de um sujeito requer instantes prévios de encenação. Quando, em dada circunstância, inexistem esses instantes, o coração assume as rédeas da ação. E o coração é sangue e músculos. O coração é um mero órgão físico do nosso corpo físico e age por conta própria, segundo os interesses da matéria e, quase sempre, à revelia do indivíduo-titular. Quando tem o consentimento do próprio dono, suas decisões quase sempre o levam a grandes enrascadas, porque o coração é simplório.
Enfim, estava diante de um pelotão de fuzilamento — agora sim, um verdadeiro pelotão —, pensou o policial, ainda ajoelhado e babando, mas agora era tarde, morreria como uma galinha. E já que não tinha mais escolha e ultrapassara o mais baixo nível da condição humana, com seus joelhos dobrados e sua baba, continuou babando e chorando e invocando a mulher barriguda e pedindo perdão.
O comandante, reassumindo suas funções, determinou que o homem se levantasse e, com voz calma, dirigiu-se a ele, dizendo-lhe que a partida chegava ao seu final, que durante o jogo as partes puderam expor seus lances, demonstrar seus estilos, usar seus recursos, despir suas máscaras e, escancaradas as intenções e esgotadas as alternativas, chegava a hora do movimento final e, numa entonação mais forte, articulou bem claro: “xeque-mate!”.
O policial nunca havia jogado xadrez na vida, nem conhecera ninguém que jogasse, nem nunca se interessara por aquele jogo, até porque nunca tivera a oportunidade de tal escolha, ela nunca lhe fora apresentada, nunca tinha ouvido aquela palavra composta antes, mas entendeu perfeitamente a metáfora do comandante.
Mas, afinal, era ou não era xeque-mate? Porque o comandante não se mexeu e continuou falando, colocando-se mais claramente em frente ao homem vencido e dizendo-lhe que ele estava pedindo perdão, mas que eles não podiam perdoar-lhe, que não possuíam tal poder. Em seguida, calmo, mas decidido, indicou aos três companheiros: “Vamos terminar o passeio”.
O próprio policial já usara essa frase, em contexto semelhante, porém antagônico. Por isso, um arrepio de terror subiu-lhe a espinha. Era objeto das odiosas metáforas daquele homem de fala mansa e voz sibilina.
Ainda como se fosse uma dança, cada um dos três pardos ocupou seu posto, com o policial no centro do banco traseiro, e o carrão voou em sentido contrário, aterrizando na ruela familiar. Atônito, o policial viu o carrão parar em frente à entrada da viela da sua casa e, entendendo o que aquilo queria dizer, sentiu seu coração disparar: não bastava ele, queriam também sua mulher e a barriga dela.

VI

Àquela hora da madrugada, até os cachorros já haviam se recolhido. Somente os gatos ainda rondavam ressabiados as alturas dos telhados, cruzando os vazios com seus olhos vidrados, cujo brilho a fraca iluminação pública não conseguia apagar. Nas sombras, esses últimos vigias se transformavam em vagalumes, planando em duplas, com seus corpos pardos-invisíveis e seus olhos fosforescentes.
De repente, o cheiro de suor, que já abafava o interior do veículo, recebeu uma nuance amoníaca, provocadora de lágrimas involuntárias, por cauda do forte odor. Alguém mijava nas calças. Alguém que via a cena mais tétrica que jamais ousara imaginar: a sua execução na frente da mulher e da barriga dela, depois a execução da mulher e da descendência.
A imaginação é fruto da experiência e da necessidade. O policial ia além, para aumentar o próprio desespero, e imaginava que a execução seria com arma branca, para não acordar a vizinhança. Não havia dúvidas, a contenção dos seus algozes indicava o desejo e a necessidade de discrição. Morreria com o pescoço cortado, como uma galinha nas mãos de uma matrona neopentecostal. Por isso, acreditou sinceramente que o mundo havia virado de ponta cabeça quando, após ver o pardo do seu lado direito abrir a porta do carrão e descer, ouviu a voz do comandante, pedindo que ele descesse e fosse em paz.
Dadas as circunstâncias, era uma grande vantagem morrer com um balaço nas costas, pertinho de casa...
Só que não. Era para ele ir em paz, de verdade.
Eu, aqui, do alto da minha narrativa, também não sei qual é a desses quatro. Eles podiam acabar com esse policial tranquilamente, sem que com isso perdessem qualquer minuto de sono, sem qualquer protesto da consciência, as razões foram expostas. Os quatro foram “executados” pelo outro — todos leram —, tinham o direito, segundo a lei da ação e reação. Talvez estejam pensando lá na frente, nalgum lance mais complexo, que leve em conta vários outros elementos da conjuntura. Porque eu, sinceramente, desconfio de toda condescendência.
E como veremos, o policial estava comigo, e devo confessar que sinto o incômodo de tal constatação. Vendo-se livre, tratou de correr para casa, pegar a mulher e algumas coisas que cabiam em duas mochilas, e dar no pé. Não ficou mais de dez minutos dentro de casa, escapuliu pelos fundos, mais sorrateiro que o mais leve dos gatos pardos que infestavam os telhados na grave hora da fuga. Sua atitude era mais eloquente que qualquer frase bem feita: não acreditava no perdão daqueles bandidos.
Escorregões, pisadas de bola, faltas, crimes: uma vez no mundo, não tinha mais jeito. Podia-se obter uma desclassificação, uma pena de morte podia virar prisão perpétua, uma coisa escrita podia se acabar apenas em bronca, uma anotação podia ser apagada, mas a acusação indelével da memória ia além de qualquer arbítrio. Sendo a memória do próprio indultado a mais implacável. Por isso o culpado não suporta o perdão. Por isso, o culpado não acredita no perdão. Por isso, ele vira fantasma, e foge da própria sombra.
Só que não pensou nada disso o olheiro que, no outro dia, enviado pela Associação para averiguar como ia a situação no barraco do policial, constatou a fuga. Fuga imediata e apressada, pois roupas, móveis e utensílios continuavam intactos. O olheiro só não queimou tudo ali naquela mesma hora porque o fogo se alastraria pela vila toda, onde moravam muitos correligionários e, principalmente, porque, após avisar pelo celular, recebeu ordens expressas de alguém da Associação para que não tocasse em nada.

VII

No muquifo-sede da Associação, diante da notícia da fuga do policial, os quatro componentes do comando da noite passada viraram motivo de chacota da parte do homem que atendera ao telefonema do olheiro. “Vocês não depenaram direito aquele pato”, gozou em direção ao fundo do barraco logo após desligar o telefone, onde os quatro conversavam e comiam pão com manteiga e bebiam café. E, enquanto outros ali presentes se juntavam ao gozador, expondo o pouco talento teatral dos quatro, estes contra-atacavam, dizendo que podiam não ter talento, mas ao menos fizeram a plateia se molhar de mijo. A algazarra continuava quando um dos gozadores ficou sério, bateu palmas, e anunciou que a peça ainda não havia acabado.
E avisou que não era hora de moleza, que não demorava e um batalhão de milicos baixaria lá na casa do amigo para fazer a mudança, e instigou os quatro a saírem a campo para continuar o trabalho. Quebrar tudo, ou queimar tudo, era atitude passional. Além de que aqueles móveis e eletrodomésticos enferrujados e funcionando sob gambiarras não mereciam a mínima energia de destruição, a precariedade daquela casa estava de acordo com o previsto e destruir tudo seria um favor prestado ao ex-inquilino, que teria facilmente reposta aquela miséria, com uma vaquinha dos colegas ou uma coleta rápida entre os comerciantes do bairro.
E era líquido e certo: ainda na manhã do domingo baixaria ali um caminhão, escoltado por um escarcéu de viaturas, para levar aquela mixaria embora. E isso era um desaforo, no entendimento dos associados. Ninguém estava surpreso, porém. O motorista do comando nem precisou de ordem para embicar o carrão na direção da casa de outro associado, especialista em gambiarras eletrônicas adaptadas a artefatos duros e prosaicos, para que este enriquecesse o mobiliário do fugitivo com uma lembrancinha sucinta e discreta.
Instalaram o petardo atrás da serpentina, dentro da carcaça preta do compressor da geladeira, de tal maneira que nem um especialista descobria. Artefato acionado à distância, coisa banal para o novo associado que os acompanhava. Ainda bem cedo, no domingo, de fato lá estava o aparato bélico relampejando a manhã sonolenta do povo trabalhador que ainda dormia, a escoltar o caminhão-baú que teimava em entrar na viela de ré, fazendo estragos nas construções adjacentes. O estardalhaço dos raios desferidos pelas lâmpadas de sinalização das viaturas já era suficiente para estragar a domingueira manhã dos moradores, única da semana em que podiam dormir um pouco mais, ver a primeira claridade do dia ainda deitados. Entretanto, tais raios eram apenas coadjuvantes no turbilhão de sirenes e roncos de motores e guinchadas de pneus e gritos de homens e apitos e buzinas e palmadas na funilaria das viaturas, que compunham a coreografia da incursão resgatadora.
Resgatada a ninharia, rumaram para o quartel, em cortejo luminoso e barulhento, com o caminhão-baú em posição intermediária. Já era hora do almoço, deixaram o caminhão no meio do pátio e as viaturas devidamente estacionadas e desmobilizaram a tropa. No outro dia cedo destinariam os badulaques do colega.
No outro dia cedo — segunda feira —, logo depois da formação da tropa e das manobras e solenidades protocolares que se desenrolam no pátio... No outro dia cedo, a explosão se deu em meio a tais solenidades aglomerativas. Mas não deve ter estropiado ninguém. Os muros do quartel são altos e indevassáveis, inacessíveis aos olhos da vizinhança civil, que esqueceu rápido o estrondo da forte explosão, após as explicações boca a boca que recebeu diretamente de representantes da tropa, discreta e imediatamente destacados para tal, porque, afinal, acidentes acontecem, e um simples teste de granada mal calibrada provoca um barulhão danado...
Os três homens pardos e o branco do carrão, ao passarem ali na avenida em frente ao quartel, até hoje ainda discutem a opção por um cavalo e alguns peões, deixando a Torre intacta, a guarnecer o Rei. (FIM).


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