domingo, 17 de setembro de 2017

VOLTEI A JOGAR FUTEBOL.

Ressuscita o craque que habita em mim.
Campinho improvisado, gramado do Ibirapuera. Os velhos jogavam. Sete pra cada lado, vermelhos contra azuis. Solitários, torcida zero. Cheguei, parei, assisti. Torcida um. Gostaram, perguntaram se eu queria jogar. Eu queria. Tinha corrido 10 Km, mas nem parecia, diante da bola. Quer dizer, da vontade de jogar bola. Há mais de 30 anos que eu não chutava uma bola. Chutar, chutara, mas jogo mesmo, azuis contra vermelhos, há mais de 30 anos. Porém, antes, o dono da bola e das traves de cano e das fitas que delimitavam o gramado se acautelava quanto ao meu nível de categoria. Eu era bom de bola? Porque, se fosse, não jogava… Logo veio um outro dizendo que eu me parecia com o doutor Sócrates. Aproveitei a deixa para informar ao dono da bola que aquela era uma boa comparação… Meio ressabiado, ele me deixou entrar. Na terceira bola que me foi endereçada, a danada bateu em mim e saçaricou pra lá e pra cá como se tivesse vida própria e escapuliu feito um preá. Um dos meus parceiros aproveitou para me informar que eu estava aprovado, eles me deixavam jogar…
Mas dentro de mim habita um craque. Tudo questão de desenvolvimento… Tenho a maior admiração por quem consegue matar uma bola no peito. Nunca consegui. Também nunca treinei, nunca insisti. Diferente do estilingue. Com o estilingue, onde eu batia o olho, punha a pedra. Tá certo que, na maioria das vezes, o passarinho saía daquele lugar uma fração de segundos antes, mas se cochilasse, morria. Mas eu dormia com o estilingue no bolso, vejam bem. Com a bola… Bem, nem bola eu tinha.
Comecei jogando no gol, indício de perna de pau, segundo os experientes. Que nada, Pelé também começou jogando no gol. Eu tinha visão estratégica e boa noção espacial do gramado. Se tivesse insistido, teria me tornado um goleador. Não como o doutor Sócrates, que além de ter visão (não só do gramado, mas do jogo e da safadeza), era craque, desses que amansam a bola, mas como um Dario, talvez com um pouco mais de noção. Para os desinformados, Dario foi o centroavante imposto ao João Saldanha pelo Médici, na seleção tricampeã do mundo, no México, em 1970.
Enfim, a bola sobrou pra mim, limpa e quieta, dentro da grande área… Não tem coisa mais feliz no mundo que uma bola mansa só nossa dentro da grande área, de frente pro gol. Com uma frieza realmente digna do doutor Sócrates, só rolei a pelota para o canto esquerdo do goleiro, que aceitou. Antes de chutar, refleti que, se chutasse forte, a bola iria longe, atravessaria a avenida, coisa trabalhosa de se buscar. Foi nessa hora que decidi chutar com a esquerda. Sendo que, pra chutar, sou destro. Impressionado e demonstrando muita contradição, aquele mesmo parceiro que me comunicara que eu estava aprovado, naquele lance anterior e desastrado, me falou baixinho que eu tinha que maneirar, senão não me deixavam jogar…
Mas, ao final do tempo regulamentar, eu fui aprovado sim. Tanto que me convidaram para o sábado seguinte. Se não me divertir jogando bola, me divirto vendo quão fácil aqueles velhos caem. E a dificuldade que é se levantarem. Com uma coisa já estou conformado: para a copa da Rússia não dá mais tempo.


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