Ressuscita
o craque que habita em mim.
Campinho
improvisado, gramado do Ibirapuera. Os velhos jogavam. Sete pra cada
lado, vermelhos contra azuis. Solitários, torcida zero. Cheguei,
parei, assisti. Torcida um. Gostaram, perguntaram se eu queria jogar.
Eu queria. Tinha corrido 10 Km, mas nem parecia, diante da bola. Quer
dizer, da vontade de jogar bola. Há mais de 30 anos que eu não
chutava uma bola. Chutar, chutara, mas jogo mesmo, azuis contra
vermelhos, há mais de 30 anos. Porém, antes, o dono da bola e das
traves de cano e das fitas que delimitavam o gramado se acautelava
quanto ao meu nível de categoria. Eu era bom de bola? Porque, se
fosse, não jogava… Logo veio um outro dizendo que eu me parecia
com o doutor Sócrates. Aproveitei a deixa para informar ao dono da
bola que aquela era uma boa comparação… Meio ressabiado, ele me
deixou entrar. Na terceira bola que me foi endereçada, a danada
bateu em mim e saçaricou pra lá e pra cá como se tivesse vida
própria e escapuliu feito um preá. Um dos meus parceiros aproveitou
para me informar que eu estava aprovado, eles me deixavam jogar…
Mas
dentro de mim habita um craque. Tudo questão de desenvolvimento…
Tenho a maior admiração por quem consegue matar uma bola no peito.
Nunca consegui. Também nunca treinei, nunca insisti. Diferente do
estilingue. Com o estilingue, onde eu batia o olho, punha a pedra. Tá
certo que, na maioria das vezes, o passarinho saía daquele lugar uma
fração de segundos antes, mas se cochilasse, morria. Mas eu dormia
com o estilingue no bolso, vejam bem. Com a bola… Bem, nem bola eu
tinha.
Comecei
jogando no gol, indício de perna de pau, segundo os experientes. Que
nada, Pelé também começou jogando no gol. Eu tinha visão
estratégica e boa noção espacial do gramado. Se tivesse insistido,
teria me tornado um goleador. Não como o doutor Sócrates, que além
de ter visão (não só do gramado, mas do jogo e da safadeza), era
craque, desses que amansam a bola, mas como um Dario, talvez com um
pouco mais de noção. Para os desinformados, Dario foi o
centroavante imposto ao João Saldanha pelo Médici, na seleção
tricampeã do mundo, no México, em 1970.
Enfim,
a bola sobrou pra mim, limpa e quieta, dentro da grande área… Não
tem coisa mais feliz no mundo que uma bola mansa só nossa dentro da
grande área, de frente pro gol. Com uma frieza realmente digna do
doutor Sócrates, só rolei a pelota para o canto esquerdo do
goleiro, que aceitou. Antes de chutar, refleti que, se chutasse
forte, a bola iria longe, atravessaria a avenida, coisa trabalhosa de
se buscar. Foi nessa hora que decidi chutar com a esquerda. Sendo
que, pra chutar, sou destro. Impressionado e demonstrando muita
contradição, aquele mesmo parceiro que me comunicara que eu estava
aprovado, naquele lance anterior e desastrado, me falou baixinho que
eu tinha que maneirar, senão não me deixavam jogar…
Mas,
ao final do tempo regulamentar, eu fui aprovado sim. Tanto que me
convidaram para o sábado seguinte. Se não me divertir jogando bola,
me divirto vendo quão fácil aqueles velhos caem. E a dificuldade
que é se levantarem. Com uma coisa já estou conformado: para a copa da
Rússia não dá mais tempo.
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