quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MARXISTAS & ESPÍRITAS.

Me lembro bem da década de 1990, quando o neoliberalismo se aportou por aqui. Posso testemunhar algo talvez útil para os mais jovens. Trabalhava num banco estatal dirigido por um tucano mais realista que o tucano que o indicara. Trabalhava em meio à hierarquia carreirista ou inocente, quase todos oportunistas puxa-sacos dos poderosos de plantão. A coisa engrenou quando Collor, presidente desde 1990, declarou que os carros fabricados no Brasil eram todos carroças, e abriu o mercado e hoje nossos carros são maravilhosos… Itamar, que sucedeu o Collor, restaurou o fusquinha, para fazer um marketing-contraponto. E, em seguida, chegou a turma do FHC, para executar as diretrizes ditadas alhures e domesticar a hiperinflação à custa de recessão, desnacionalização e juros altíssimos, com congelamento salarial e repressão sindical.
E muita ladainha liberal.
Só lembrando que, em 1989, despontou o PL-Partido Liberal, cujo candidato à presidência era um tal Afif Domingos, militante da Associação Comercial. Liberal de livre-iniciativa. Esse tal Afif hoje dirige o SEBRAE, voltaremos a ele.
No governo FHC foi um tal de cortar, privatizar, desestimular, esvaziar empresas estatais. Funcionários eram convidados a se demitirem, com alguma indenização. É aí que entra o tal Afif e seu evangelho da livre-iniciativa. Esse evangelho tinha até livro: chamava-se “Quem mexeu no meu queijo”, de um escritor de best sellers estadunidense, especialista no mundo corporativo. (aliás, é dessa época a expressão mundo corporativo). Era uma parábola que objetivava convencer nossas mentes acomodadas a se acostumarem com o futuro incerto, o queijo imponderável. Sugeria que mandássemos às favas nossas carteiras profissionais, pegássemos o dinheirinho da indenização e abríssemos um negócio próprio, que demitíssemos nosso patrão.
Era um tal de “eficiente e eficaz” pra cá, um tal de “quebra de paradigmas” pra lá…
E, no miolo de campo, o baixo clero tucano com suas planilhas e seu vocabulário (que fez a carreira do Macaco Simão, ao sistematizar o tucanês) e suas sinecuras de assessoria (alguns amigos do rei oriundos das estatais ou das academias se deram bem aí) e o Afif e o SEBRAE e sua turma a nadar braçadas entre os tolos e suas pequenas boladas e seus sonhos de patronato.
Crentes convictos, abriam logo suas bodegas, para fechar depois de um ano, e sair sem nada, no desespero, caindo em qualquer ratoeira, indo atrás do queijo em Ciudad del Este, arrastando sacolas entre a 25 de março e consumidores esparsos pela cidade, entrando feito vacas loucas em pirâmides, vendendo salgadinhos, se virando em freelas, e nunca deixando de acreditar no sonho. As naturas e avons e herbalifes estão aí para corroborar tal inquebrantável fé. Porque no mundo da concorrência verdadeira, enfrentada pelos pequenos, sobrevive apenas raros eleitos e outros poucos de cotovelo duro.
É gente que não entende de linguagem figurada, gente que faz das lendas uma aventura literal. É gente pobre, inculta, rasa. Subgente, cidadãos de segunda, vivendo debaixo do tacão da liberdade zero, sob o lema “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Nós todos, a grande maioria, todos potenciais ou reais vítimas desses gurus explícitos ou dissimulados.
Porque, minha gente, a Matemática! A Física! (vamos dar um tempo à História, é complicado demais…). Essa conversa de livre-iniciativa é para os tolos. Não existe espaço para todos, no mundo dos negócios, segundo essa visão do Afif, do Sebrae, do Partido Liberal, que queria selecionar seus candidatos através de concursos. Não, não eram nem são inocentes, esses do fracassado PL. São exímios manipuladores das nossas mentes tolas. Inspiraram os tucanos que, mais numerosos e pragmáticos, erigiram uma língua própria e uma macroeconomia de fachada.
Os tucanos erigiram uma língua e um muro e, de lá de cima, passaram a descrever e operar uma próspera Economia virtual… Nas planilhas e relatórios e atas e colunas de jornais e TV, o mundo brasileiro nunca fora tão pleno, exceto a Previdência, que ia quebrar no semestre seguinte (e olha que o salário mínimo valia 1/3 — um terço — do que vale hoje). Passamos os 8 anos (de 1994 a 2002) sob esse terrorismo. Se você estava desempregado e sem renda, a culpa era sua, que não ousava, não inovava, não empreendia, não saía pelo labirinto a procurar a nova localização do queijo (já perceberam que essa lenga-lenga voltou, sob o neogoverno?).
Porque, pessoas, insisto: não há saída fora dos grandes aglomerados estruturantes da economia, sejam privados, sejam estatais, sejam coletivos. Essa coisa de cada um por si e o mercado para todos é colóquio flácido para acalentar bovinos e enriquecer gurus (esses vendedores de receitas e palestras e livros de autoajuda, além daqueles outros mais prosaicos, que cuidam das nossas dúvidas existenciais).
O individualismo — a liberdade individual —, não vai além do direito de espernear. Ainda assim, de forma muito limitada, de maneira muito localizada, no tempo e no espaço.
A menos que nos libertemos das necessidades do corpo. A menos que não mais tenhamos que ir atrás do queijo todo dia, de nos preocupar com moradia, transporte, alimentação, saneamento, aposentadoria… É aí que entram os marxistas e os espíritas:
Quando as estruturas forem tão poderosas e tão organizadas e tão fartas e tão produtivas e tão automatizadas, a igualdade será inevitável e ninguém mais precisará correr atrás do queijo-mercadoria farto e variado e todos poderão ficar o dia inteiro escrevendo tolices no feicibuque.
Ou então, que se salvem os mais espertos enquanto puderem, porque a nosotros a felicidade é certa: quando nossa alma se livrar desse nosso corpo corrupto e exigente.




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