Me
lembro bem da década de 1990, quando o neoliberalismo se aportou por
aqui. Posso testemunhar algo talvez útil para os mais jovens.
Trabalhava num banco estatal dirigido por um tucano mais realista que
o tucano que o indicara. Trabalhava em meio à hierarquia carreirista
ou inocente, quase todos oportunistas puxa-sacos dos poderosos de
plantão. A coisa engrenou quando Collor, presidente desde 1990,
declarou que os carros fabricados no Brasil eram todos carroças, e
abriu o mercado e hoje nossos carros são maravilhosos… Itamar, que
sucedeu o Collor, restaurou o fusquinha, para fazer um
marketing-contraponto. E, em seguida, chegou a turma do FHC, para
executar as diretrizes ditadas alhures e domesticar a hiperinflação
à custa de recessão, desnacionalização e juros altíssimos, com
congelamento salarial e repressão sindical.
E
muita ladainha liberal.
Só
lembrando que, em 1989, despontou o PL-Partido Liberal, cujo
candidato à presidência era um tal Afif Domingos, militante da
Associação Comercial. Liberal de livre-iniciativa. Esse tal Afif
hoje dirige o SEBRAE, voltaremos a ele.
No
governo FHC foi um tal de cortar, privatizar, desestimular, esvaziar
empresas estatais. Funcionários eram convidados a se demitirem, com
alguma indenização. É aí que entra o tal Afif e seu evangelho da
livre-iniciativa. Esse evangelho tinha até livro: chamava-se “Quem
mexeu no meu queijo”, de um escritor de best sellers estadunidense,
especialista no mundo corporativo. (aliás, é dessa época a
expressão mundo corporativo). Era uma parábola que objetivava
convencer nossas mentes acomodadas a se acostumarem com o futuro
incerto, o queijo imponderável. Sugeria que mandássemos às favas
nossas carteiras profissionais, pegássemos o dinheirinho da
indenização e abríssemos um negócio próprio, que demitíssemos
nosso patrão.
Era
um tal de “eficiente e eficaz” pra cá, um tal de “quebra de
paradigmas” pra lá…
E,
no miolo de campo, o baixo clero tucano com suas planilhas e seu
vocabulário (que fez a carreira do Macaco Simão, ao sistematizar o
tucanês) e suas sinecuras de assessoria (alguns amigos do rei
oriundos das estatais ou das academias se deram bem aí) e o Afif e o
SEBRAE e sua turma a nadar braçadas entre os tolos e suas pequenas
boladas e seus sonhos de patronato.
Crentes
convictos, abriam logo suas bodegas, para fechar depois de um ano, e
sair sem nada, no desespero, caindo em qualquer ratoeira, indo atrás
do queijo em Ciudad del Este, arrastando sacolas entre a 25 de março
e consumidores esparsos pela cidade, entrando feito vacas loucas em
pirâmides, vendendo salgadinhos, se virando em freelas, e nunca
deixando de acreditar no sonho. As naturas e avons e herbalifes estão
aí para corroborar tal inquebrantável fé. Porque no mundo da
concorrência verdadeira, enfrentada pelos pequenos, sobrevive apenas
raros eleitos e outros poucos de cotovelo duro.
É
gente que não entende de linguagem figurada, gente que faz das
lendas uma aventura literal. É gente pobre, inculta, rasa.
Subgente, cidadãos de segunda, vivendo debaixo do tacão da
liberdade zero, sob o lema “manda quem pode, obedece quem tem
juízo”. Nós todos, a grande maioria, todos potenciais ou reais
vítimas desses gurus explícitos ou dissimulados.
Porque,
minha gente, a Matemática! A Física! (vamos dar um tempo à
História, é complicado demais…). Essa conversa de
livre-iniciativa é para os tolos. Não existe espaço para todos, no
mundo dos negócios, segundo essa visão do Afif, do Sebrae, do
Partido Liberal, que queria selecionar seus candidatos através de
concursos. Não, não eram nem são inocentes, esses do fracassado
PL. São exímios manipuladores das nossas mentes tolas. Inspiraram
os tucanos que, mais numerosos e pragmáticos, erigiram uma língua
própria e uma macroeconomia de fachada.
Os
tucanos erigiram uma língua e um muro e, de lá de cima, passaram a
descrever e operar uma próspera Economia virtual… Nas planilhas e
relatórios e atas e colunas de jornais e TV, o mundo brasileiro
nunca fora tão pleno, exceto a Previdência, que ia quebrar no
semestre seguinte (e olha que o salário mínimo valia 1/3 — um
terço — do que vale hoje). Passamos os 8 anos (de 1994 a 2002) sob
esse terrorismo. Se você estava desempregado e sem renda, a culpa
era sua, que não ousava, não inovava, não empreendia, não saía
pelo labirinto a procurar a nova localização do queijo (já
perceberam que essa lenga-lenga voltou, sob o neogoverno?).
Porque,
pessoas, insisto: não há saída fora dos grandes aglomerados
estruturantes da economia, sejam privados, sejam estatais, sejam
coletivos. Essa coisa de cada um por si e o mercado para todos é
colóquio flácido para acalentar bovinos e enriquecer gurus (esses
vendedores de receitas e palestras e livros de autoajuda, além
daqueles outros mais prosaicos, que cuidam das nossas dúvidas
existenciais).
O
individualismo — a liberdade individual —, não vai além do
direito de espernear. Ainda assim, de forma muito limitada, de
maneira muito localizada, no tempo e no espaço.
A
menos que nos libertemos das necessidades do corpo. A menos que não
mais tenhamos que ir atrás do queijo todo dia, de nos preocupar com
moradia, transporte, alimentação, saneamento, aposentadoria… É
aí que entram os marxistas e os espíritas:
Quando
as estruturas forem tão poderosas e tão organizadas e tão fartas e
tão produtivas e tão automatizadas, a igualdade será inevitável e
ninguém mais precisará correr atrás do queijo-mercadoria farto e
variado e todos poderão ficar o dia inteiro escrevendo tolices no
feicibuque.
Ou
então, que se salvem os mais espertos enquanto puderem, porque a
nosotros a felicidade é certa: quando nossa alma se livrar desse
nosso corpo corrupto e exigente.
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